Retrato de Luís Lavoura

Volta e meia nos EUA há um indivíduo que decide fazer uma chacina, baleando indiscriminadamente uma série de pessoas antes de ser ele próprio abatido pela polícia, ou então de se suicidar. O caso não é classificado como terrorismo mas sim como o resultado de uma forma de desequilíbrio mental, conjugado com a fácil disponibilidade de armas de fogo nos EUA. Como não é terrorismo, o ato tresloucado merece atenção moderada e rapidamente desaparece da atenção pública.

Há dois dias um caso similar aconteceu em Londres. Em vez de se usar uma arma de fogo utilizou-se um carro, que demonstrou ser um instrumento de morte bastante menos eficaz. O caso foi classificado como terrorismo, o que lhe deu uma repercussão muito maior. Mas, no fundo, não passou do mesmo tipo de ato que regularmente ocorre nos EUA: um desequilibrado mental que decide fazer uma mortandade antes de ser ele mesmo morto.

É naturalmente lamentável que ocorram estas coisas. Mas não me parece que classificá-las como "terrorismo" ajude em nada a eliminá-las. Só aumenta a repercussão delas, e contribui para dar ao Estado o poder para nos submeter a cada vez mais medidas securitárias.

Retrato de Luís Lavoura

Espero que, agora que Mark Rutte ganhou as eleições na Holanda e já não precisa de se afirmar perante o povo como adequadamente xenófobo, deixe de atiçar um conflito estúpido e potencialmente muito prejudicial com a Turquia.

Não gostei da vitória de Rutte: para mim, é um indivíduo que, ou não tem ideias, ou as abandona na primeira oportunidade. Um "liberal" que se põe a arremedar as atitudes xenófobas que sabe serem populares entre grande parte da população, não é um liberal.

Retrato de Luís Lavoura

Um deputado disse no Parlamento Europeu que as mulheres devem (merecem) ganhar um salário inferior ao dos homens porque são mais fracas, mais pequenas e menos inteligentes do que estes. Parecem-me ideias que podem e eventualmente devem ser debatidas. Ou então, se as pessoas não as quiserem debater, podem não o fazer. Agora, o que não se deve certamente fazer é punir o deputado por ter dito isso. E foi precisamente este disparate - punir o deputado com uma multa de cerca de dez mil euros - que o presidente do Parlamento Europeu resolveu - e não sei que autoridade tem ele para isso - fazer.

É espantoso e, para mim, chocante que num Parlamento os deputados não sejam livres de exprimir as ideias que têm, por muito que elas possam ser consideradas repugnantes pelos restantes deputados. É isto a liberdade? Em particular, é esta a liberdade dos deputados?

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Não entendo por que razão diversos países europeus se estão a expôr, desnecessariamente, a (no meu entender) justas acusações de falta de democraticidade, por parte da Turquia, ao impedir a entrada no seu território de políticos turcos que querem participar em comícios.

Naturalmente que esses países europeus têm todo o direito de fazer isto - a Turquia não faz parte do Espaço Schengen e portanto os cidadãos turcos podem ser impedidos de entrar num qualquer país europeu.

Mas, não havia necessidade. Desde sempre que políticos de diversos países (inclusivé Portugal) realizam em países europeus comícios destinados aos seus emigrantes. Há em diversos países europeus associações políticas de cidadãos turcos, que promovem os seus interesses e têm a liberdade de promover comícios. Por que raio se há de impedir políticos turcos de participar nesses comícios?

A Europa está a fazer má figura desnecessariamente.

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Parece que os computadores da Autoridade Tributária têm uma curiosa falha informática que os impede de ler adequadamente as declarações bancárias relativas a transferências para off-shores. A origem e natureza dessa falha informática permanecem misteriosas.

Há que saber que as falhas informáticas podem ser introduzidas maliciosamente nos computadores. Podem ser falhas sabiamente programadas por quem tem interesse em que elas existam, e que depois são introduzidas nos computadores por meios ínvios. Conviria explorar esta possibilidade.

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O governador do Banco de Portugal alega que a lei não lhe conferia poderes para exonerar a direção do Banco Espírito Santo.

Se isso é verdade, então isso quer dizer que a supervisão bancária é inútil. Se isso é verdade, então o governador do Banco de Portugal bem se pode demitir, pois está num cargo de impotência, não está lá a fazer nada. Se a lei não confere os necessários poderes à supervisão bancária, então é preciso mudar a lei e, enquanto isso não fôr feito, mais vale não haver supervisor.

O governador do Banco de Portugal acaba de reconhecer que o seu cargo não serve para nada, ou que serve para muito pouco.

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Na Holanda existe um partido chamado Partido da Liberdade (que presumivelmente será o mais votado nas eleições de daqui a duas semanas), o qual partido propõe a proibição de um livro (o Corão) e a eliminação de templos de uma religião (as mesquitas). Para um Partido da Liberdade, não está nada mal!

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Se a União Europeia quisesse dar um passo útil no caminho de se tornar como a União Indiana, talvez o mais simples fosse o seguinte: adotar o inglês como sua língua oficial única.

Repare-se na Índia: os seus povos falam cerca de uma ou duas dezenas de línguas distintas. No entanto, em toda a Índia o inglês, que não é nenhuma das línguas faladas pelos povos da Índia, é a língua oficial. Todos os indianos aprendem inglês desde a escola primária. As leis da União Indiana estão escritas em inglês e as discussões entre os governantes são feitas em inglês.

A partir do momento em que o inglês fosse (a única) língua oficial da União Europeia, os cidadãos passariam a ser livres de exercer qualquer profissão em qualquer parte da União falando em inglês. Seriam abolidas as restrições legais que obrigam a que uma pessoa saiba falar alemão para exercer a medicina na Alemanha ou saiba falar italiano para atender um telefone em Itália. As línguas nacionais passariam a ser faladas apenas entre os cidadãos nacionais. As pessoas passariam assim a ter verdadeira liberdade de trabalhar em toda a União.

Talvez este fosse o passo mais simples para tornar a União Europeia mais unida. Não seria necessário alterar qualquer forma de governo. Bastaria que a língua oficial passasse a ser única.

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Anda muita gente muito entretida com o escândalo político do momento, que são os entendimentos que o ministro Centeno terá feito com o gestor Domingues a propósito da sua contratação para gerir a Caixa Geral de Depósitos (CGD).

Completamente perdida de vista anda a política real que o governo seguiu para a CGD. Aparentemente, sobre essa a oposição nada tem a dizer. A oposição nada tem a dizer sobre a CGD permanecer um banco público ou ser privatizada, sobre ela ser gerida como um banco privado ou receber orientações do seu acionista Estado, sobre a política de remuneração dos seus gestores, etc. Sobre todas essas coisas, aparentemente, a oposição nada tem a dizer.

A única coisa que parece interessar à oposição, na CGD, são os entendimentos secretos relacionados com a contratação do seu gestor.

Com uma oposição deste calibre, é evidente que não se pode fazer política a sério em Portugal.

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No The Economist desta semana há um artigo muito interessante no qual se diz que, embora os indianos gostem de comparar o seu país federal, a União Indiana (UI), aos Estados Unidos da América (EUA), na verdade esse país está em diversos sentidos, na sua integração política e económica, mais ou menos a meio caminho entre os EUA e a União Europeia (UE). Ou seja, a UI é um país federal mais unido do que a UE, mas menos unido do que os EUA.

Este artigo deveria merecer bastante atenção dos europeístas, pois estes defendem, a meu ver erroneamente, que a UE se deveria tornar mais parecida com os EUA, quando na verdade ela o que pode é almejar vir a ser, apenas, mais parecida com a UI. É a UI que deve servir de modelo para a UE em matéria de integração política e económica; ao nível dos EUA a Europa nunca poderá chegar.