Retrato de Luís Lavoura

Após anos em que o negou, o governador de Porto Rico (uma ilha das Caraíbas que pertence aos EUA) declarou no fim da passada semana que a ilha não tem capacidade de pagar aquilo que deve e solicitou aos seus credores uma reestruturação da dívida. Essa dívida é igual a aproximadamente 100% do PIB da ilha.

A dívida de Portugal é 130% do seu PIB mas os governantes de Portugal, e dos restantes países da União Europeia, ainda não acordaram para a realidade de que ela é impagável. A dívida da Grécia é 180% do PIB e o seu governo já acordou para essa realidade, mas todos os outros governos da Zona Euro discordam.

Parabéns ao senhor governador de Porto Rico por ter reconhecido a realidade, tal como São Paulo o fez. Mais vale tarde que nunca.

Retrato de Luís Lavoura

Como é bem sabido, não está prevista nos tratados europeus qualquer forma para um país que tenha o euro como moeda deixar de o ter.

Esse é um problema fulcral na saída da Grécia (ou, futuramente, de qualquer outro país) da Zona Euro.

Mas o Banco Central Europeu (BCE) parece querer colmatar essa omissão nos tratados. A expulsão da Grécia da Zona Euro será realizada através do corte do fornecimento de liquidez aos seus bancos.

Note-se que se trata de uma decisão não democrática, porque efetuada por um órgão - o BCE - cuja direção não é eleita pelo povo. É também uma decisão injustificada - o BCE não declara que os bancos gregos estejam insolventes, pura e simplesmente corta-lhes o fornecimento de liquidez.

Quando os bancos cipriotas ficaram insolventes, o BCE ajudou a reestruturá-los, como lhe competia. É, efetivamente, tarefa do BCE assegurar a estabilidade financeira da Zona Euro. No caso da Grécia, porém, o BCE opta por garantir a instabilidade financeira, ao decidir cortar o fornecimento de liquidez aos bancos, sem no entanto justificar essa decisão em termos de uma declaração de insolvência (ou outra qualquer).

Temos portanto um órgão não eleito a tomar decisões políticas, que no entanto não são assumidas por ninguém. É muito interessante e revelador.

Retrato de Luís Lavoura

De quem é a culpa, se a Grécia sair da Zona Euro? Quem fez tudo para atingir esse objetivo?

Há quem diga que a culpa é do Syriza. Mas não me parece. O Syriza será talvez um partido de extrema-esquerda, adversário do projeto europeu. É possível. Mas, mesmo que o seja, os dirigentes do Syriza são suficientemente inteligentes para saberem que o povo grego não deseja que a Grécia saia da Zona Euro e que, se isso acontecer, muito provavelmente castigará o Syriza nas urnas. O Syriza perderá inelutavelmente a sua maioria nas próximas eleições se a Grécia sair do euro. E os dirigentes do Syriza sem dúvida sabem isso.

Para o FMI também não há grande vantagem em que a Grécia saia da Zona Euro. O FMI sabe que perderá o dinheiro que lhe emprestou. Os dirigentes do FMI sabem que serão castigados pelos seus acionistas não-europeus por se terem imiscuído no resgate aos membros da Zona Euro.

Para o Banco Central Europeu também não há vantagens nenhumas em que a Grécia saia. Aliás, o BCE tem feito tudo o que pode para que a Grécia fique, abrindo sem cessar a torneira aos bancos gregos. O BCE sabe que, se a Grécia sair e fizer default, ele, BCE, perderá muito dinheiro e será forçado a monetizar, não apenas as suas dívidas, mas também as dívidas da Grécia que estão em poder de outros governos europeus. Ou seja, o BCE será forçado a fugir ao seu mandato de controlar a inflação e de não monetizar dívidas. O que será certamente bastante desagradável para o BCE.

Quem tem interesse em que a Grécia saia do euro são, simplesmente, os governos dos restantes países da Zona. Esses, perderão uma enorme chatice e dor-de-cabeça. Deixarão de ter que explicar aos seus eleitorados que estão a emprestar cada vez mais dinheiro a um país falido. A expulsão da Grécia da Zona Euro servirá de útil lição a esses eleitorados, para que continuem a eleger partidos de direita e não caiam jamais na tentação de votar em partidos com ideias próximas das do Syriza. Os governos europeus sabem que nem sequer deverão perder grande dinheiro com a saída da Grécia, pois o BCE deverá, a contragosto é certo, ser forçado a monetizar todas as obrigações às quais a Grécia fizer default, pelo que a dívida pública dos restantes Estados da Zona Euro nem sequer deverá aumentar.

Estão encontrados os culpados.

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A morte de uma turista portuguesa na Tunísia é, evidentemente, uma notícia muito desagradável para a família dela.

Mas, para a economia portuguesa, este ataque terrorista na Tunísia é ótimo. Os turistas vão fugir a sete pés da Tunísia e outros países magrebinos, e alguns deles optarão antes por vir apanhar sol para as praias portuguesas.

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Face à intenção do governo grego de convocar um referendo, a reação das autoridades europeias não se fez esperar: cancelaram as negociações em curso e retiraram a última proposta que tinham feito. O referendo será sobre coisa nenhuma, dado que a proposta deixou de ser válida.

Isto mostra bem o caráter eminentemente anti-democrático da atual União Europeia (UE). A UE é alérgica ao voto dos cidadãos; já tem suficiente experiência desse voto para saber que quase sempre perde. É tão alérgica, que só a menção da intenção de fazer um referendo imediatamente a faz retirar-se. A UE não aguenta referendos!

Em minha opinião, a União Europeia é atualmente como a democracia na frase de Churchill: é o pior arranjo possível para a Europa, com exceção de todos os outros. Ou seja, a única coisa boa da União Europeia é que evita guerras entre os países europeus; em tudo o resto, é um mar de defeitos.

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Em minha opinião, os controles de capitais agora impostos pelo governo grego - há quem diga que contra a sua vontade e por imposição do Banco Central Europeu - são adequados e só pecam por (muito) tardios. Face à hemorragia de capitais a que se vinha assistindo desde há meses, com as pessoas a retirarem o dinheiro dos bancos para o guardarem em notas, ou para o transferirem para bancos estrangeiros, há muito que se tornava necessário impôr estes controles, estancar a hemorragia.

A calibração da medida também me parece correta. Os cidadãos apenas podem retirar 60 euros diariamente da sua conta, o que parece pouco - mas podem livremente efetuar pagamentos por multibanco ou cheque. Desta forma, impõe-se na prática que a maior parte dos pagamentos passe a ser feita através dos bancos, o que é uma excelente forma de combate à corrupção e ao mercado negro. O que na Grécia - e não só - certamente que é muito necessário.

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A velhice parece não afetar George Soros que, com 85 anos de idade, está tão clarividente como sempre. Veja-se este notável artigo.

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Deve haver poucos países na Europa nos quais os alunos tenham tantas semanas de férias quantas em Portugal. Nunca vi nenhuma estatística sobre o assunto, mas os conhecimentos singulares que vou tendo sobre o assunto sugerem-me que em países mais civilizados os alunos têm férias muio menos longas.

As férias de verão são inacreditáveis: quase quatro meses sem aulas. Os alunos passam um terço do ano sem fazer absolutamente nada. Aquilo que conheço sugere-me que, noutros países, os alunos têm apenas um ou dois meses de férias de verão. Mesmo tendo em conta que o nosso verão é mais quente e, por isso, mais difícil de suportar na escola, não compreendo por que motivo não têm os nossos alunos apenas dois meses de férias.

Seria conveniente que as férias de verão fossem muitíssimo mais curtas, mesmo que isso fosse parcialmente compensado por mais semanas de paragem a meio dos períodos letivos.

O governo atual (cujo desempenho na área da educação e ciência é um excelente motivo para que eu queira ver a atual maioria pelas costas) resolveu piorar, em vez de melhorar, as coisas, pondo o próximo ano letivo a começar apenas a 20 de setembro. Quando deveria tentar que ele começasse a 1 de setembro. Julho e agosto são mais que suficientes para os alunos não terem aulas.

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Há muitos séculos, as guerras faziam-se apenas contra os exércitos do inimigo. As populações civis não eram agredidas, embora os seus bens fossem frequentemente pilhados aquando de conquistas.

No século 20 os Estados passaram a considerar as populações civis como alvos legítimos da guerra. Tratava-se de desmoralizar a população do território inimigo. Atualmente, são em larga medida normais os bombardeamentos de alvos civis.

Atualmente, os países ricos tornaram-se cobardes e não querem fazer a guerra militar. Preferem fazer a guerra económica. Essa guerra é feita exclusivamente contra alvos civis, através das chamadas sanções económicas.

Esta guerra económica tem porém duas particularidades: é largamente ineficaz, e penaliza tanto a população do país inimigo como a população do próprio país que faz a guerra.

 É portanto uma guerra profundamente estúpida.

Trata-se de uma guerra que elimina a liberdade. Para os liberais, a liberdade económica é uma forma fundamental de liberdade: não há liberdade plena quando não hé liberdade de fazer negócio com quem nos convem. Quando sanções nos impedem de comerciar com pessoas de outros povos, isso é uma agressão à nossa liberdade.

A União Europeia decidiu renovar por mais seis meses - e, de facto, por tempo indeterminado - as sanções económicas contra a Rússia e, especialmente, contra a Crimeia. Essas sanções são péssimas para a liberdade, tanto dos europeus como dos russos, e prejudicam economicamente uns e outros. Elas são um crime contra a liberdade.

A União Europeia segue cada vez mais um caminho anti-liberal.