Retrato de Luís Lavoura

Recebi ontem a minha conta de IMI (Imposto Municipal sobre Imóveis) a pagar. Verifiquei com espanto que os prédios urbanos pagam esta ano mais 3,75% de IMI do que no ano passado. Isto num ano em que a inflação oficial foi nula ou negativa, em que as rendas não foram autorizadas a subir, e em que o mercado imobiliário se encontra largamente paralisado e com preços estagnados.

Eu gostava de saber onde é que o poder político foi descobrir que houve uma valorização dos imóveis em 3,75% este ano.

É claro que isto é um aumento de impostos (não muito) encapotado, o que é legítimo. As Câmaras Municipais estão tão endividadas e com tanto deficit quanto o Estado central, pelo que desejam aumentar as suas receitas sacando mais aos munícipes. Mas, sugiro eu, haveria formas bem mais justas de efetuar um aumento do IMI, nomeadamente:

(1) Eliminando progressivamente as isenções de IMI, nomeadamente as isenções que beneficiam casas compradas recentemente. Não há qualquer razão social para que o Estado favoreça quem compra casa própria e lhe ofereça uma isenção de IMI por muitos (dez, creio eu) anos. Há também um conjunto de outras isenções ao IMI que não têm qualquer justificação social. No fundo, trata-se sempre de isenções fiscais que favorecem essencialmente a classe alta. O meu entendimento é que os impostos devem ser tendencialmente planos, o que implica a não existência de deduções nem de isenções fiscais.

(2) Tornando mais rápido o processo de reavaliação fiscal de imóveis mais velhos. Atualmente esses imóveis só são reavaliados quando mudam de proprietário. Penso que essa regra poderia ser alterada, obrigando à progressiva reavaliação fiscal dos imóveis mesmo quando o proprietário não se altera. Isso conduziria a um aumento do IMI sobre imóveis que hoje continuam a ser injustamente beneficiados por manterem um valor fiscal muito inferior ao valor real.

Retrato de Luís Lavoura

No seguimento da apresentação do PEC, diversos comentadores têm afirmado que a restrição nele prevista a algumas deduções fiscais constitui um ataque à classe média.

Isto é uma frase populista. Acontece que "classe média" é um conceito muito mal definido, em particular porque quase toda a gente gosta de dizer que pertence à classe média. Fica muito mal uma pessoa dizer que pertence à classe baixa mas também é pouco elegante dizer-se que se pertence à classe alta, pelo que toda a gente que se quer bem acaba por dizer que pertence à classe média. A classe média acaba pois por abarcar uma imensidão de gente, e é facilitista qualquer um argumentar que o Estado está a atacar uma coisa tão grande e informe como seja a classe média.

Recentemente houve na blogosfera uma discussão sobre "classe média" entre Fernanda Câncio (FC) e Luís Aguiar-Conraria (LAC). FC afirmou que quase todas as pessoas da classe média hoje em dia têm ao seu serviço uma mulher-a-dias. LAC contrapôs que os rendimentos da classe média em Portugal são de tal forma baixos que não dão para contratar uma mulher-a-dias.

O cerne da argumentação de LAC é que, fazendo a média dos rendimentos em Portugal, a classe média em Portugal é constituída por pessoas que ganham qualquer coisa como 750 euros por mês. As pessoas que ganham 1500 euros por mês não são portanto da classe média - são da classe alta. As pessoas de quem FC falava, que têm uma mulher-a-dias para as ajudar nos afazeres caseiros, não são de facto classe média - são classe alta.

O corte nos benefícios fiscais que o governo agora pretende implementar constitui, suspeito eu, precisamente um ataque à classe alta - não à classe média. Porque em Portugal a classe média não tem dinheiro para pôr os filhos numa escola privada e dificilmente tem dinheiro para efetuar despesas em saúde que ultrapassem as compras de alguns fármacos.

Seria bom que os comentadores aceitassem que, quando falam em classe média, estão de facto, tal como FC, a referir-se sobretudo a pessoas da classe alta.

Retrato de artur baptista

Aanlisando o PEC e prospectivando as suas linhas mestras, tentando ir um pouco mais longe do que a mera análise financeira, fica claro para mim que está implicito uma mudança de Modelo.

No principio foi o ataque aos chamados "gestores". E quem são eles? Como eu tenho como profissão o de Gestor Contratado posso bem falar com conhecimento de causa. São então profissionais com uma sólida base de habilitações literárias, normalmente com uma licenciatura complementada com mestrados e pós-graduações (pagas normalmente com dinheiro proprio ou da familia) e com vontade de vencer. Essa vontade obrigou a muitas horas de trabalho, e acima de tudo a ter de tomar decisões que implicavam risco, já que se trabalha para os detentores de capital que não admitem erros. Portanto o erro capital desses gestores foi o de aceitarem tomar decisões, expondo-se e expondo a sua familia a um nivel de risco elevado (se por exemplo são também nomeados Gerentes, deixam de ter direito a subsidio de desemprego). Outro erro capital é de serem ambiciosos e empreendedores. Chegados aqui e com salários que tem de remunerar todos estes riscos e nivel de responsabildiade, são aqueles que são chamados a ter o maior esforço financeiro de tal forma que se chega a um corte directo de 45% do seu rendimento anual (se somarmos os 11% de Segurança Social, torna-se um valor de 56% para o Estado de forma directa!).

Ao mesmo tempo permite-se que a função publica obtenha direitos só porque existe baseados nas famosas "carreiras", mesmo que tenham nivel de Bom nas suas avaliações e mesmo no caso de não serem necessários em determinadas áreas. São os chamados "direitos adquiridos".

Numa palavra, para mim fica mais uma vez claro - o Modelo de Portugal é o de manter os direitos da Administração Publica a todo o custo, mesmo esvasiando a iniciativa privada, o empreendorismo e a ambição.

Flarei depois do Lucro - outra palavra que vai influenciar o Modelo.

Retrato de Luís Lavoura

Recorrentemente os políticos e comentadores do Porto queixam-se de que o Estado desinveste na sua região e investe prioritariamente em Lisboa. Ainda agora voltamos a ouvir essa lengalenga, pelas vozes de Rui Rio e de Rui Moreira, queixando-se de que o Estado vai deixar de construir um TGV Lisboa-Porto e um TGV Porto-Vigo.

Eu recentemente fui duas vezes de automóvel à região do Porto. Qual não é o meu espanto ao deparar com a auto-estrada A1 quase totalmente vazia de automóveis na terra de Santa Maria. Só então me lembrei de que há atualmente, quase encostada a essa autoestrada A1, uma outra autoestrada paralela mas onde não se paga portagem. Nós cá em Lisboa não temos luxos desses, duas autoestradas a correr em paralelo. Continuando em direção a Norte, deparo com um maravilhoso trecho de uns dez quilómetros em qua a A1 tem quatro faixas em cada sentido, com um tráfego porém diminuto. Uma maravilha, uma autoestrada larguíssima mas com pouquíssimo tráfego. Nós cá em Lisboa não temos disso, até Vila Franca (20 quilómetros) há apenas três faixas e quase sempre com muito tráfego.

Fiquei convencido de que os queixumes portuenses não têm razão de ser. A região do Porto está muito melhor servida de autoestradas do que a de Lisboa.

Retrato de Luís Lavoura

Pelo que se vai conhecendo sobre o futuro PEC - plano governamental para o equilíbrio das finanças públicas -, parece-me que este só muito improvavelmente irá cumprir o objetivo que se propõe.

O plano apoia-se em quatro vertentes:

(1) acreditar que o PIB crescerá, o que permitirá arrecadar mais impostos:

(2) um ligeiro aumento de impostos, por via da eliminação de algumas deduções fiscais;

(3) a eliminação (por enquanto, apenas adiamento) de alguns investimentos públicos, em particular as linhas de TGV Lisboa-Porto e Porto-Vigo;

(4) a privatização de algumas empresas públicas, como a REN, a TAP e os CTT.

Quanto ao ponto (1), parece-me que isso é "contar com o ovo no cu da galinha". Portugal tem desde há muitos anos um fraco potencial de crescimento, em particular devido à estagnação demográfica. Tenho sérias dúvidas de que o crescimento ao longo dos próximos três anos possa ser de molde a aumentar significativamente a cobrança de impostos.

Quanto ao ponto (2), parece-me em princípio positivo, na medida qme que muitas das atuais deduções fiscais distorcem abusivamente o sistema fiscal e são de facto injustas.

Quanto ao ponto (3), é evidentemente positivo, embora muito insuficiente.

Quanto ao ponto (4), não altera de forma prolongada o balanço entre despesas e receitas do Estado, apenas permite colmatar temporariamente a falta de outras fontes de receita. É também questionável que, nos tempos que correm, o Estado consiga vender (por bom preço) algumas das empresas e participações que detem.

Eu diria que, se o governo apenas tem isto para nos propôr, então é um plano fraquíssimo, findo a aplicação do qual o Estado português estará tão mal de finanças como atualmente.

Retrato de artur baptista

Pelas primeiras noticias sobre as grandes medidas estratégicas para Portugal nos proximos 3 anos o que já se percebe é que mais uma vez se aposta tudo numa lógica de curto-prazo, em que o que se pede é a quem trabalha por conta de outrem pague o enorme voracidade do Estado.

Sinceramente penso que desta forma vamos continuar a nossa caminhada para o empobrecimento geral da Sociedade portuguesa, entrando a fundo no circulo vicioso da necessidade constante do Governo de "ajudar" e não de dinamizar.

Gostava de ver uma efectiva redução dos custos do Estado através de mudanças estruturais, de redução da dimensão e voltar a entregar os designios à propria Sociedade.

Qual é o efeito em termos de eficácia económica privatizar partes de algumas empresas publicas, ficando o Estado a controlar os seus designios? Provávelmente para que entidades bancárias do tipo BES ficarem com mais poder?

Se as entidades bancárias que tem aversão ao risco tiverem no Estado o lugar mais seguro para aplicar o seu dinheiro, acham que vão emprestar a pequenas PME (opting out)?

A palavra que mais li até agora é - limitar. Mas com um defice (após todas as contabilidades criativas, tipo PPP) de 90 % do PIB chega?

 

A ver com atenção os proximos capitulos.

Retrato de Luís Lavoura

O papa Bento 16 virá em breve em visita a Portugal. Eu não sou religioso mas acho muito bem que ele venha e que os católicos (não o país em geral!) lhe proporcionem a melhor receção possível.

Sou um liberal e acho que os gostos e opções das pessoas, incluindo os gostos e as opções religiosas, devem preferencialmente, se não mesmo exclusivamente, ser pagos pelas próprias pessoas. Nesta linha de pensamento, acho revoltante que algumas câmaras municipais se estejam a preparar para gastar o seu escasso dinheiro - e a generalidade das câmaras municipais está já hoje brutalmente endividada! - em apoios à visita papal.

Eu digo: quando o bispo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus, vem a Portugal, quem paga a receção são os fieis dessa igreja, e eu acho muito bem e nada tenho contra. E também acho muito bem que os católicos paguem a receção ao papa, a edificação dos altares onde ele irá rezar missa, a segurança dos ajuntamentos de população e tutti quanti. Mas não acho bem que o Estado contribua. As opções religiosas da população devem ser livres, o que implica que devam ser financiadas pela própria população. O Estado não deve gastar o seu dinheiro para meter uma religião - qualquer que ela seja - pela goela dos portugueses abaixo.

Retrato de artur baptista

Para um País que tem poucos recursos base, o Investimento Directo Estrangeiro faz parte do necessário desenvolvimento e que qualquer Governo deve dar a maior atenção.

Tal como todos os mercados, o "mercado" do IDE é também ele marcado pela Concorrencia. Neste particular, entre os diversos paises terá de existir um esforça para que cada um apresente as Vantagens Competitivas que sejam suficientemente grandes para que as empresas escolham "comprar" determinada região para investir.

O que se assiste neste momento, e eu falo do meu caso pessoal que trabalho numa multinacional mas que posso sugerir que podera ser uma tendencia, é a uma desistencia das empresas estrangeiras em investir em Portugal.

Retrato de João Cardiga

Embora o nome tenha caído um pouco em desuso em Portugal, as discussões à volta das leis laborais giram à volta de um conceito: a flexissegurança.

O debate foi introduzido em Portugal a meio da decada passada, no entanto tem sido bipolarizado, o que faz com que o mesmo não avance.
Um bom exemplo desta bipolarização, ocorre aqui na blogosfera entre "O Insurgente" e o "Arrastão". Para os primeiros apenas conta a flexibilidade, enquanto para os segundos apenas conta a segurança.

Começando pelos primeiros: Nesta visão, os trabalhadores abandonam a sua componente humana e passam a ser meros instrumentos de produção. Dito de outra forma, são uma "máquina" complexa de produção, e como todas as máquinas, quando não funcionam bem, ou se deitam fora, ou se fazem ajustes para funcionarem melhores. Pior que isso, são "máquinas" descartáveis. É preciso a "máquina" funcionar à meia-noite? Então chama-se a "máquina" e ela tem de ir trabalhar. Ela não quer? Troca-se por outra que trabalhe nessas condições. E como estamos a falar de "máquinas", vale tudo: enganar, mentir, fugir à lei, etc... para se obter o resultado pretendido. E se alguém lhes aponta este facto, assobiam para o lado e dizem que a culpa é do bicho-papão chamado "Estado".

Já os segundos: Nesta visão, apenas os trabalhadores têm direito à condição de humanos. Todos os outros são exploradores, verdadeiros monstros. E como os trabalhadores são os unicos cidadãos, para continuarem a existir têm de continuar a ter trabalho. Tudo gira à volta desta condição. Pouco interessa que a empresa não consiga vender, como todos sabem, todas as empresas têm uma arvore das patacas escondida no escritório do director, pelo que há sempre dinheiro para os trabalhadores. Ou seja, a realidade é para estes um ente imutável. Uma empresa que existe terá de existir sempre, mesmo que esteja a produzir candeeiros a petroleo. Obviamente que a assumpção de risco não é para eles, pois isso é coisa de porco capitalista. Assim não interessa se o trabalhador rouba, insulta, não trabalha, etc... desde que que tenha um sitio para ir. E se alguém lhes aponta este facto, assobiam para o lado e dizem que a culpa é do bicho-papão chamado "Patronato".

Obviamente ambas as visões são profundamente erradas, e caso fossem implementadas acarratariam sérios problemas para a nossa sociedade. A questão é que, enquanto o discurso girar à volta deste discurso bi-polar, nenhuma verdadeira opção irá emergir.

Felizmente já trabalho tempo suficiente para saber que estas caricaturas que eles defendem, de um modo geral, não correspondem à nossa realidade.

Retrato de João Cardiga

Como já é tradição, ontem à noite deu-se uma guerra de números relativamente à aderência à greve. A disparidade variava entre 14% e 80%.

Ora como sou um pacifista gostava de deixar aqui uma sugestão para acabar com esta guerra:

- O Estado passa a assumir como oficial a taxa avançada pelo Sindicato, em contrapartida em vez de descontar o dia de greve aos trabalhadores, é o sindicato que tem de pagar ao Estado esse valor.

Por exemplo, pegando nesta greve, os números oficiais passaria a ser os 80%, que aplicados ao universo do Estado de cerca de 800.000 funcionários publicos daria cerca de 640.000. Ora este valor multiplicado pelo valor dia, daria cerca de 26 milhões de euros que o Sindicato entregaria ao Estado no final deste mês.

Que acham?