Retrato de Luís Lavoura

Se a União Europeia quisesse dar um passo útil no caminho de se tornar como a União Indiana, talvez o mais simples fosse o seguinte: adotar o inglês como sua língua oficial única.

Repare-se na Índia: os seus povos falam cerca de uma ou duas dezenas de línguas distintas. No entanto, em toda a Índia o inglês, que não é nenhuma das línguas faladas pelos povos da Índia, é a língua oficial. Todos os indianos aprendem inglês desde a escola primária. As leis da União Indiana estão escritas em inglês e as discussões entre os governantes são feitas em inglês.

A partir do momento em que o inglês fosse (a única) língua oficial da União Europeia, os cidadãos passariam a ser livres de exercer qualquer profissão em qualquer parte da União falando em inglês. Seriam abolidas as restrições legais que obrigam a que uma pessoa saiba falar alemão para exercer a medicina na Alemanha ou saiba falar italiano para atender um telefone em Itália. As línguas nacionais passariam a ser faladas apenas entre os cidadãos nacionais. As pessoas passariam assim a ter verdadeira liberdade de trabalhar em toda a União.

Talvez este fosse o passo mais simples para tornar a União Europeia mais unida. Não seria necessário alterar qualquer forma de governo. Bastaria que a língua oficial passasse a ser única.

Retrato de Luís Lavoura

Anda muita gente muito entretida com o escândalo político do momento, que são os entendimentos que o ministro Centeno terá feito com o gestor Domingues a propósito da sua contratação para gerir a Caixa Geral de Depósitos (CGD).

Completamente perdida de vista anda a política real que o governo seguiu para a CGD. Aparentemente, sobre essa a oposição nada tem a dizer. A oposição nada tem a dizer sobre a CGD permanecer um banco público ou ser privatizada, sobre ela ser gerida como um banco privado ou receber orientações do seu acionista Estado, sobre a política de remuneração dos seus gestores, etc. Sobre todas essas coisas, aparentemente, a oposição nada tem a dizer.

A única coisa que parece interessar à oposição, na CGD, são os entendimentos secretos relacionados com a contratação do seu gestor.

Com uma oposição deste calibre, é evidente que não se pode fazer política a sério em Portugal.

Retrato de Luís Lavoura

No The Economist desta semana há um artigo muito interessante no qual se diz que, embora os indianos gostem de comparar o seu país federal, a União Indiana (UI), aos Estados Unidos da América (EUA), na verdade esse país está em diversos sentidos, na sua integração política e económica, mais ou menos a meio caminho entre os EUA e a União Europeia (UE). Ou seja, a UI é um país federal mais unido do que a UE, mas menos unido do que os EUA.

Este artigo deveria merecer bastante atenção dos europeístas, pois estes defendem, a meu ver erroneamente, que a UE se deveria tornar mais parecida com os EUA, quando na verdade ela o que pode é almejar vir a ser, apenas, mais parecida com a UI. É a UI que deve servir de modelo para a UE em matéria de integração política e económica; ao nível dos EUA a Europa nunca poderá chegar.

Retrato de Luís Lavoura

A histeria mediática em torno do início da presidência de Donald Trump é tal que, a avaliar por alguns noticiários, parece que Portugal é parte dos EUA. Como se os assuntos internos desse país nos dissessem muito respeito. Por exemplo, hoje discute-se muito nos media a escolha que Trump fez para um novo juiz no Supremo Tribunal dos EUA. E eu pergunto: em que é que isso nos diz respeito? O que temos nós, portugueses, a ver com a Constituição dos EUA e com a forma como ela é, ou deixa de ser, aplicada no curioso sistema americano de common law?

Os media portugueses fariam bem em deixar de se alimentar de notícias made in USA e passarem a tratar prioritariamente do nosso país.

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Está muita gente muito chocada porque um gestor da "boutique de pão" Padaria Portuguesa afirmou que pretende trabalhadores mal pagos e com empregos instáveis, que sejam fáceis de despedir.

Temos que compreender que a Padaria Portuguesa é uma empresa do setor de serviços, na qual o dinheiro que entra e sai de caixa no dia-a-dia tem grande importância, os aumentos de produtividade são quase impossíveis e a perspetiva empresarial é essencialmente de curto prazo. Tais empresas não têm interesse em investir nos seus trabalhadores, na sua formação a longo prazo (o longo prazo não existe para um boutique de pão). Uma empresa industrial minimamente especializada (digamos, no setor da metalomecânica ou dos moldes) é totalmente diferente - trata-se de empresas com perspetivas de longo prazo, para quem trabalhadores especializados e motivados são importantes.

Portanto, o gestor da Padaria Portuguesa falou corretamente dos interesses da sua empresa. Esperemos é que cada vez haja em Portugal menos empresas desse tipo.

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Os painéis fotovoltaicos têm o grande inconveniente de que ensombram o solo, tornando-o estéril. Nada cresce sem a luz do sol e, portanto, a captação da energia solar é incompatível com a agricultura. É por isso com gosto que leio que a EDP vai experimentar, embora apenas numa escala minúscula, na sua barragem do Alto Rabagão, cobrir uma parte da albufeira com painéis solares. Isso é bom porque toda aquela superfície de água é espaço desaproveitado, inútil, estéril, pelo que me parece um sítio ideal para colocar painéis solares. Espero que a EDP tenha muito sucesso e que, no futuro, a albufeira do Alqueva não sirva somente, nem sequer principalmente, para nela andarem barcos cheios de turistas a navegar, e sirva sim para que painéis solares sobre boa parte dela produzam energia.

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Concordo com boa parte das coisas que Donald Trump disse no seu discurso inaugural. Mas concordo sobretudo, veementemente, quando ele diz que os EUA não irão pretender forçar nenhum outro país a seguir este ou aquele modelo político, mas que irão antes dar aos outros países o exemplo do modelo político dos EUA. Eu acho muitíssimo bem, e espero que ele possa fazer isso mesmo: em vez de invadir e brutalizar países estrangeiros, dar-lhes antes um bom exemplo que eles se possam sentir tentados a seguir.

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Anda muita gente, inclusivé na direita, muito angustiada porque em 2016 o peso do investimento público no PIB português foi o mais baixo de sempre.

Eu diria que em 2016 o investimento público não foi baixo; o que ele foi, é demasiadamente elevado nos anos anteriores. Portugal fez demasiado investimento público durante muitos anos. Demasiado, e extremamente mal feito, como se vê pelas auto-estradas sem tráfego que há pelo país fora. (Ainda há uns dias percorri toda a auto-estrada do Oeste, desde Lisboa até à saída de Pombal. Até Torres Vedras ainda há tráfego aceitável. A partir daí e até às Caldas, não há tráfego que justifique uma auto-estrada. A partir das Caldas para norte, não há tráfego que justifique nem uma estrada nacional.)

O problema em Portugal não é a falta de investimento público, é a falta de investimento privado.

E não me venham com a história da falta de investimento público nas carruagens do metropolitano de Lisboa. Se querem investir em novas e melhores carruagens, ponham os utilizadores do metropolitano a pagar mais pelos bilhetes. Não deve ser o Orçamento Geral do Estado a suportar o investimento em carruagens, quando os utilizadores do metropolitano pagam pouquíssimo por ele.

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Segundo o Washigton Examiner, Donald Trump afirmou num comício: "We will destroy ISIS. At the same time, we will pursue a new foreign policy that finally learns from the mistakes of the past. We will stop looking to topple regimes and overthrow governments, folks."

Falou muitíssimo bem. Oxalá siga de facto uma tal política.

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A administração da Caixa Geral de Depósitos fez bem em demitir-se. Pois que, quem aceita um emprego em que, como paga, o forçam a desvendar, a todo o público português, os seus rendimentos e as suas posses? Isso, que é geralmente considerado, em Portugal, uma parte importante da "vida privada": os rendimentos e posses de um cidadão. Pois bem, em Portugal parece achar-se exigível a um cidadão que aceita um emprego como gestor de uma empresa pública, que desnude a sua "vida privada" à frente de todos.

Pois os gestores da CGD fizeram muito bem e recusaram-se a exibir a toda a população as suas posses. Ninguém tem nada a ver com isso, acham eles e acham muito bem. Ou bem que vivemos num regime à norueguesa, onde todos os rendimentos de todos estão à vista na internet, ou bem que vivemos num regime onde toda a vida económica de uma pessoa é "privada". Para todos.