[Também no Construir Sociedade]

Portugal precisa de dinheiro do exterior para pagamentos e para investimento. Tanto assim que pedimos emprestado à troika. Por outro lado os bancos têm dificuldade em obter financiamento  para emprestarem às empresas.

Esse dinheiro do exterior poderá vir directamente na forma de investimento estrangeiro.
 
As chamadas reformas estruturais pretendem ter esse objectivo, ou seja criar atractividade para o investimento. Contudo esse efeito pensa-se que não será imediato.
 
Quais serão então as condições para atrair esse investimento no curto prazo? Será que existem?
 
No imediato lembro-me do abaixamento do IRC, ou outras condições fiscais para as empresas, mas não sei se fazem sentido. 
 
Uma coisa é certa, sem investimento no tecido produtivo não conseguiremos criar emprego e sair da crise.
Liberalizar o funcionamento da economia, através da máxima facilitação dos despedimentos, pressupõe um aumento de investimento, dado a diminuição muito significativa dos riscos para os empregadores, e criando assim novos postos de trabalho. Supostamente isso originará um equilíbrio em que se atingirá pleno emprego (ou desemprego residual).
 
Esse estado permitirá ao trabalhador ter poder, já que não será fácil arranjar um outro para o substituir.

O trabalhador fornece um serviço, que é o seu trabalho, e o empregador funciona como um cliente. O trabalhador terá facilidade de mudar e arranjar outro emprego, caso lhe seja mais conveniente.

É este equilíbrio que se deseja ao liberalizar a economia.

Contudo, afirma-se normalmente que o poder do capital é superior ao do trabalho. Mas numa sociedade como a actual, com mão de obra cada vez mais especializada e informada, e havendo melhor acesso ao capital através do crédito, talvez que se obtenha um melhor equilíbrio de poderes.

Resta confirmar se estes pressupostos de raciocínio estão corretos, seja através de estudos teóricos ou análise de casos reais, para então sustentar que o liberalismo económico é um sistema mais favorável aos trabalhadores do que a rigidez no mercado laboral.

Retrato de Luís Lavoura

Há dias, ouvi mais uma vez pessoas a queixarem-se da emigração que sai de Portugal. Mas desta vez quem se queixava eram pessoas com uma capacidade intelectual superior à média, que deveriam saber pensar melhor.

A emigração é positiva para todas as partes nela intervenientes. É (em geral - há exceções) positiva para o emigrante, que enriquece ou, pelo menos, evita empobrecer. É positiva para o país que recebe o emigrante, que supre as suas necessidades de mão-de-obra e faz o seu PIB crescer. E é positiva também para o país de onde o emigrante parte. Esta última asserção é que é geralmente mal compreendida.

O emigrante que parte fá-lo porque as suas qualificações se manifestam desnecessárias no país de onde parte. Se essas qualificações são - aqui e agora - desnecessárias, então, mesmo que essas qualificações sejam elevadas, não há inconveniente em que ele se vá embora. Deveríamos, de facto, refletir em porque insistimos em gastar dinheiro a fornecer educação a pessoas quando o mercado de trabalho não consegue aproveitar as qualificações profissionais assim adquiridas.

O emigrante retira pressão sobre recursos escassos no país. É menos uma boca a alimentar cá, é menos procura por produtos importados.

O emigrante, ao partir, contribui para diminuir um excedente de mão-de-obra que há no país. A prazo, isso contribui para que haja uma escassez de mão-de-obra, que estimulará o aumento da eficiência na utilização do trabalho, a mecanização, e o aumento dos salários. Raramente há progresso económico em países onde a mão-de-obra é superlativamente abundante.

Evidentemente, é mais positivo ainda para o país de origem da emigração quando os emigrantes remetem as suas poupanças no estrangeiro de volta para o país. Muitos emigrantes portugueses hoje em dia já não o fazem. Mas, mesmo não o fazendo, a sua emigração é positiva para Portugal, porque retira pressão sobre recursos escassos e tende a fazer aumentar os salários cá.

Como foi apontado por John Kenneth Galbraith já há dezenas de anos, no seu livro A sociedade da pobreza, há poucos remédios tão infalíveis para a pobreza de um país como permitir que os seus habitantes emigrem em grande número para países mais ricos. A emigração é uma solução para a pobreza que a história demonstra funcionar sempre.

Retrato de Luís Lavoura

As muitas toneladas de cera inutilmente queimadas este maio em Fátima - como num gigantesco sacrifício coletivo - farão aumentar o PIB deste ano.

Vitor Bento na tvi24, no programa com Medina Carreira, referiu que uma hipótese de se conseguir investimento estrangeiro a curto prazo seria conceder condições fiscais excepcionais a empresas que se instalassem em Portugal num prazo de um ou dois anos e para durar tipo dez anos. Poderiam ser em sectores previamente determinados ou em localização geográfica restrita.

A minha dúvida é se isso não iria contra as leis de concorrência, seja nacionais seja da UE.

Para não haver interferência com empresas nacionais, penso que teria de ser em sectores ainda não existentes em Portugal, por forma a não prejudicar empresas já instaladas. Parece-me contudo uma condição dificil de verificar. Uma zona fiscal especial penso que não acautelaria as condções de leal concorrência interna.

Por isso tenho dúvidas e não entendo a pertinência da proposta.

[Também no Contruir Sociedade]

No seguimento do post anterior, e considerando o desaparecimento das reformas como hoje as concebemos, deixaria de haver descontos para a segurança social.

Ainda sobre a questão das reformas, poderia o estado manter um seguro, mas não obrigatório.

Penso que seria assim preferível que os custos da educação e saúde e outros custos sociais, nomeadamente as pensões, fossem pagos pelo orçamento geral do estado. Seriam os impostos em geral a cobrir esses custos.

Assegurar a saúde (a saúde é uma condição praticamente imprevisível) e a educação (ferramenta para o indivíduo poder ultrapassar condicionalismos à nascença), serão funções do estado. 

[Também no Construir Sociedade]

O estado tem assumido a função de fornecer nos últimos anos da vida dos indivíduos a chamada reforma.

É calculada com base nos descontos que esse indivíduo foi efectuando ao longo da vida para uma instituição chamada segurança social. A segurança social acaba em parte por funcionar como um seguro. Quem mais descontou mais ganha.

A meu ver, o estado deixaria de ter este papel. Não se descontaria para a segurança social com o intuito de se obter direito a reforma. O estado passaria apenas a dispensar uma pensão de valor igual para todos os indivíduos quando atingida determinada idade. Seria apenas de um valor mínimo de subsistência.

A velhice é uma condição de ocorrência previsível, todos os indivíduos deveriam ter consciência disso, e, responsavelmente, acautelarem-se poupando durante toda a vida ou constituindo seguros, para esta fase. 

Isso iria promover também a poupança. Não me parece útil que se promova, como actualmente, um consumismo e imediatismo como se não houvesse amanhã, esperando que o estado se encarregue da segurança no futuro.

Esse valor das pensões mínimas na altura da reforma, não viria da segurança social mas sim do orçamento geral do estado, proveniente dos impostos em geral.

Claro que uma mudança deste tipo não seria feita de um dia para o outro. Dever-se-ia salvaguardar os direitos à reforma que as pessoas foram acumulando ao longo do tempo. A alteração seria gradual e aplicada na integra apenas a quem nunca descontou.

  

[Também no Contruir Sociedade]

Recorrentemente, a esquerda refere o facto de o BCE emprestar aos bancos a juros de 1 ou 2 por cento, quando estes depois emprestam a 10 ou 12 por cento, por vezes fora da Europa.

Este mecanismo nunca é explicado pelos partidos do governo. Deverá haver alguma razão lógica, mas assim a opinião pública nunca fica esclarecida, e desconfia destes negócios da China...
Retrato de Luís Lavoura

As recentes alocuções do primeiro-ministro (e do ministro das Finanças) sobre o desemprego recordam o valor que o silêncio deveria ter para os governantes portugueses. Ou seja, estes últimos deveriam concentrar-se no seu trabalho, que é governar, e manter tanto quanto possível as bocas fechadas em todas as ocasiões públicas - as aliás deveriam, aliás, ser evitadas.

Infelizmente, a tradição portuguesa, desde a presidência do almirante Américo Tomás, é de os governantes cortarem fitas, presidirem a cerimónias e fazerem alocuções a esmo. Os governantes são convidados para presidir, inaugurar ou estar presentes nas mais diversas cerimónias, debates e conferências, e em todas essas ocasiões debitar algumas palavras. Inevitavelmente, as palavras proferidas acabam por, ou ser inócuas e desprovidas de valor, ou então levantar celeuma inútil.

Os governantes deveriam pois ter como política geral evitar todos esses convites, fecharem-se nos seus gabinetes a trabalhar e, sempre que deles tivessem mesmo que sair, terem o cuidado de manter as bocas bem fechadas, não cedendo às tentações dos jornalistas que lhes colocam microfones à frente. O silêncio é de ouro e quem se cala não diz disparates.

Retrato de Luís Lavoura

Num programa da RTP 2 ontem à noite, um padre e um ateu "espiritual" (como ele próprio se classificou) concordaram na conveniência de introduzir no programa escolar o ensino das religiões num sentido global (isto é, não no sentido de procurar converter as crianças a uma qualquer religião específica). Segundo eles, sendo as religiões um importante produto do espírito humano, convem que as pessoas as conheçam e percebam, para que, por exemplo, possam entender o sentido da Pietà de Miguel Ângelo ou do Magnificat de Mozart.

Trata-se, sem dúvida, de um argumento poderoso e verdadeiro. Porém, não posso concordar com a tese. Há imensos produtos do espírito humano, de grande importância, beleza e profundidade, que hoje em dia já não se ensina nas escolas. Pura e simplesmente, o saber ocupa lugar e não há cabeça humana que possa abarcar tudo que o espírito humano já produziu. Perante tais limitações, é importante escolher aquilo que se vai ensinar, ou deixar de ensinar, às crianças e jovens. Não dá para ensinar tudo. E, na hora de escolher, mais vale escolher matérias consensualmente verdadeiras do que mitos, tradições e historietas que hoje em dia, no nosso mundo científico, já pouco ou nenhum sentido fazem.

 

P.S. Para além deste argumento, há um outro: que professores teriam uma visão tão abrangente e desapaixonada das religiões que estivessem disponíveis para as ensinar, de uma forma não apostólica, aos jovens? A maioria das pessoas que se interessam por religião professa uma. Não acredito que haja em Portugal suficientes pessoas que consigam ensinar, de forma mínima, os princípios que sejam apenas do judaismo, cristianismo e islamismo - para não falar do budismo e do hinduismo.