Retrato de David Cruz

As histórias de entrevistas de emprego em que se pergunta a uma mulher se tem filhos e/ou se está a pensar engravidar são frequentes. Inclusive, não é incomum que as promoções sejam ponderadas em função de uma participação pouco activa na vida familiar.

No entanto, a questão é verdadeiramente inconveniente? Revela uma atitude discriminatória, no mercado de trabalho, sobre o sexo feminino? Porque não é perguntado aos homens se têm ou pretendem ter filhos? Não será legítimo que as entidades empregadoras conheçam a disponibilidade profissional dos potenciais trabalhadores a curto prazo, num ambiente em que as empresas se encontram constantemente ameaçadas pelo risco de falência? A competitividade entre instituições não obriga que estas procurem preencher os seus quadros com os trabalhadores que possam oferecer os maiores contributos?

Caras senhoras, na verdade, o problema não está no entrevistador/empregador, mas nas vossas casas, nomeadamente nos vossos maridos/namorados. Nas sociedades ocidentais, as maiores desigualdades de género, dentro da família, encontram-se nos países do Sul da Europa (Portugal, Itália, Grécia e Espanha). Apesar da crescente participação feminina no mercado de trabalho, as mulheres continuam a assegurar a esmagadora maioria das tarefas domésticas e de cuidados aos filhos. De resto, os dados do Instituto Nacional de Estatística são conclusivos: as mulheres residentes em território português representam 58% dos beneficiários da licença parental inicial, 83% da licença parental alargada e asseguram 91% das faltas para assistência a filhos. Este fenómeno de sobrecarga de trabalho (laboral e doméstico) é designado na investigação demográfica e social como o “Segundo Turno” (“Second Shift") ou “Dupla Carga” (“Double Burden”). De resto, uma das principais explicações para o declínio da natalidade/fecundidade em Portugal deve-se ao facto das mulheres não pretenderem querer ter (mais) filhos, pois isso implicaria mais trabalho.

Como tal, coloque-se no lugar do empregador. Quem escolheria? Uma mulher, embora mais qualificada, desgastada física e psicologicamente ou um homem com os sonos em dia?

Está muito silencioso por aqui! Porque não deixar uma resposta?

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