Retrato de Luís Lavoura

Quando José Sócrates foi detido, adivinhava-se para o fim da instrução do processo um de dois males: ou haver indícios para levar um ex-primeiro-ministro a julgamento, ou os investigadores não conseguirem matéria para acusar. Longos meses decorreram, o ou-ou não chegou, mas duas coisas comprovaram-se. Por um lado, soube-se, por palavras do próprio Sócrates, que ele pedira muito dinheiro a um amigo; ora, tendo este amigo feito negócios com o Estado enquanto Sócrates era governante, era legítimo que a justiça investigasse. Por outro lado, a investigação arrastou-se e permitiu abusivas fugas de informação. Quer dizer, das duas más hipóteses iniciais, passámos para duas más confirmações: alguns métodos e a lentidão da justiça eram inadmissíveis e, pelo menos politicamente, José Sócrates tinha explicações públicas a dar.

Ao saber-se, ontem, que haverá mais seis meses de investigação, aumentou a suspeição de processo falhado.

Entretanto, o juiz Carlos Alexandre deu uma entrevista com remoques ao investigado indignos de um juiz do processo. Legitimamente, Sócrates pediu que o juiz seja afastado do processo. O que, depois deste tempo perdido, seria, de facto, o fim do processo. O que nos leva, caso o juiz seja mesmo afastado, a uma terrível ironia. Pode ser que os interesses do investigador e os do investigado confluam por uma vez: um, livra-se do que não pôde provar; e o outro, de que se prove qualquer coisa.

 

(texto de Ferreira Fernades no Diário de Notícias.)

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