Retrato de Luís Lavoura

Fomos informados há poucos dias que no próximo ano os preços da eletricidade sofrerão um acréscimo de 2% para os clientes domésticos, 15% para os clientes industriais.

A razão da grande disparidade é que, aparentemente, o governo regulamentou que os aumentos da eletricidade para clientes domésticos não podem ultrapassar o valor da inflação.

Na peça televisiva foi-nos explicado que o custo da produção da eletricidade em Portugal aumentou este ano muito mais do que a inflação, devido ao efeito conjugado da seca, que fez diminuir a produção hidroelétrica (mais barata), e do aumento do preço do petróleo. Fomos seguidamente informados que se espera que esses dois efeitos "passem" no próximo ano, isto é, que se espera que no próximo ano chova muito e que o preço do petróleo desça tanto quanto anteriormente subiu. É escusado referir que a probabilidade de tal cenário é mínima, para não dizer nula. Mas não interessa. O governo determinou que, caso a produção de eletricidade no próximo ano continue a ser muito cara, a EDP deverá arcar com os prejuízos respeitantes aos clientes domésticos, os quais serão depois pagos por estes, com juros, ao longo dos próximos N anos.

É difícil, de facto, aranjar esquema mais retorcido, idealista, e irrealista.

Quer dizer: este ano a EDP foi obrigada a vender-nos eletricidade abaixo do preço de custo. No próximo ano (a não ser que o preço do petróleo desça) vai ser obrigada a voltar a fazê-lo. E assim por diante. Num ano longínquo, sabe-se lá quando, um ano futuro muito bom, em que choverá muito e o petróleo será muito barato, nesse ano, pagaremos à EDP tudo de volta.

Isto faz algum sentido???????

Portugal, o governo de Portugal, o povo de Portugal, ainda não se convenceu de uma coisa: o petróleo vai continuar a subir de preço, inexoravelmente, interminavelmente. É impossível que seja de outra forma. Em cada ano futuro, o petróleo será, inevitavelmente, mais caro (em média) do que no anterior. Assim o dita o crescente desequilíbrio entre a oferta e a procura de petróleo.

Logo, a eletricidade terá que aumentar de preço, tanto para clientes domésticos como para industriais.

Pretender adiar esses aumentos por mais um ano, ou mais dois, anos, é uma estratégia suicidária. Está-se a convidar os clientes domésticos a que continuem a desperdiçar eletricidade, a que continuem a gastar eletricidade desconsideradamente, a que adiem o investimento necessário para a poupança de eletricidade. Está-se a subsidiar os estouvados. Está-se a fazer de cigarra, quando se devia fazer de formiga.

Retrato de Miguel Duarte

Tens toda a razão

Miguel Duarte on Segunda, 17/10/2005 - 14:51

Infelizmente, é assim que se continuam a fazer as coisas no nosso país. Além de que este tipo de decisões, em mercados que devem vir a ser concorrenciais num muito curto espaço de tempo, tornam a coisa ainda mais complicada.

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