É altura de começarmos a reflectir sobre a crise que aconteceu (e perdura) e mais profundamente para a sociedade como um todo. Principalmente porque, com as opções que os governos ocidentais estão a tomar, existe um enorme risco de uma crise muito maior estar para breve.
Muito se falou do que levou ao colapso de 2008. E pouca coisa foi feita para prevenir uma repetição. No entanto não vou abordar esse assunto neste primeiro artigo sobre a crise. Começarei pelo que eu acho foi o principal factor que nos conduziu a 2008: a erosão da classe média.
Desde quando é que começou e a partir de quando é que deixámos de nos importar com esta erosão? Depois de muito reflectir chego sempre ao mesmo episódio: o fim do comunismo sovietico e a lição que apreendemos e a que não aprendemos.
O fim do comunismo sovietico foi um marco histórico da humanidade. Milhões de pessoas poderam sentir o doce sabor da liberdade e tratou-se de uma das maiores libertações que há registo. O ganho de liberdade talvez só tenha paralelo com a revolução francesa. No entanto esse episódio teve um efeito perverso na sociedade ocidental. Durante anos fomos propagandeados pela divisão entre USA e URSS. A Europa, a recuperar de feridas internas profundas, olhava mais para si do que tentava ser uma alternativa para o mundo.
Nesta dictonomia era muito fácil escolher de que lado ficar, tal era o horror da alternativa. Assim crescemos quase sem questionar as falhas do sistema que estariamos a escolher. Este processo mental que apreendemos acompanhou muita gente até aos dias de hoje.
No entanto, e enquanto existia esta divisão, existia a necessidade que o sistema de economia de mercado funcionasse para todos os sectores da sociedade. Para ser convincente teria de ser bom para todos e não apenas para alguns.
Com o fim do comunismo deixou de existir essa necessidade. Como alguém disse era o "fim da história". A partir desse momento já não precisavamos de nos preocupar a não ser em viver. Qualquer discussão ideologica era vista como antiquada e como um produto do passado. Depois do fim do comunismo já não era preciso isso. Como se tinha demonstrado com esse fim a unica preocupação deveria ser com manter a economia de mercado que o resto seria o paraiso na terra. E assim lentamente a area economica foi invadindo a area politica, até que já não existia mais nada que não questões económicas na discussão politica. E milhões de milhões foram gastos para sustentar a ideia de que "it is all about the money" e que o resto não interessa.
Pior do que isso é que não aprendemos uma grande lição com o fim do comunismo: é que um regime que condense o poder nas mãos de poucos raramente produz bons resultados para a sociedade num todo.
Ora a falta de concorrência ideológica, a crescente irrelevância dos valores em detrimento dos instrumentos e a pouca atenção dada às questões de igualdade de distribuição de rendimentos (normalmente associado a uma preocupação comunista) fez com que lentamente criassemos uma sociedade mais desigual. Esta desigualdade ainda estava mais negligenciada porquanto que as poucas divisões ideológicas que ainda permaneciam tendiam a proteger os interesses dos pobres ou os interesses dos ricos. Sem ninguém para lutar por estas pessoas acabou-se por permitir que fossem os que sofreram na pele as alterações que existiram neste mundo, suportando ao mesmo tempo o custo de um estado moderno e o custo de uma economia moderna.














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