A democracia em Portugal morreu, morreu por falta de democratas que a defendam. Num momento no tempo que eu não consigo precisar, os portugueses, mesmo aqueles que há 30 anos lutaram pela democracia, deixaram de acreditar na importância da liberdade e do pluralismo democrático.
As últimas semanas foram extremamente atribuladas no que toca a acções e propostas para eliminar o pouco pluralismo que ainda resta em Portugal. A acção mais grave, foi irónicamente disferida pelo Tribunal Constitucional, que em vez de defender a Constituição, decidiu ignorá-la, iniciando a dissolução de 8 a 10 dos actuais 14 partidos portugueses, acção essa que resultará em 90 dias na provável eliminação de todos os partidos nascidos após 1975. Uma acção inútil, pois, as pequenas forças políticas já vinham a ser asfixiadas lentamente, devido às multas cobradas anualmente, também pelo Tribunal Constitucional, superiores em muito às suas receitas.
No entanto, a eliminação dos pequenos partidos, ou limpeza, como lhe chamarão provavelmente muitos no PS e PSD, não é suficiente. PS e PSD têm vindo a público propor várias ideias que conduzirão também à eliminação dos médios partidos e de qualquer veleidade que alguém venha a ter no futuro de criar uma força política alternativa. Dentre elas, a proposta de círculos uninominais é a mais conhecida, mas não a única.
Luís Filipe Menezes sugeriu, que se dividissem os grandes círculos eleitorais em círculos mais pequenos, sabendo mas não dizendo, que o único efeito de uma tal medida, seria impedir um partido de média dimensão de eleger deputados, pois são os círculos de maior dimensão que asseguram precisamente a eleição de deputados por parte das médias e pequenas forças políticas em Portugal.
Já para os executivos camarários, PS e PSD estão a cozinhar a redução da proporcionalidade de representação de vereadores nas câmaras, diminuindo assim a possibilidade da eleição de vereadores que não sejam laranja ou côr-de-rosa. Mas, talvez mais grave que isso, preparam-se também para eliminar o staff dos vereadores da oposição, tirando-lhes assim praticamente qualquer capacidade de fiscalização que possam ter sobre quem governa. É que fazer-se oposição, pelo menos oposição digna desse nome, exige trabalho, e trabalho sem trabalhadores é uma utopia.
Portugal caminha a passos largos para uma democracia ao estilo da Venezuela e da Rússia, mas ao contrário destes dois últimos países, por aqui, parece não haver democratas com o mínimo de coragem para denunciar abertamente e em voz alta, os graves atentados à nossa democracia que foram feitos desde 2003, com a aprovação da lei dos partidos políticos e que terão uma continuação a muito breve trecho a concretizarem-se algumas das propostas que têm vindo a público. Ouvem-se aqui e acolá as queixas dos visados pelas medidas propostas, mas, existe um silêncio profundo no que toca a defender princípios tão básicos em democracia, como o direito, real, a criarem-se partidos políticos ou a importância de se manter ou até aumentar a proporcionalidade do nosso sistema eleitoral.
Perante esta situação, não há nada como recordar um poema de Martin Niemöller (conhecido oposidor do Nazismo):
Quando os Nazis vieram para os Comunistas,
permaneci em silêncio;
não era um Comunista.Quando prenderam os Sociais Democratas,
permaneci em silêncio;
não era um Social Democrata.Quando vieram para os sindicalistas,
nada disse;
não era um sindicalista.Quando vieram para os Judeus,
permaneci em silêncio;
não era um Judeu.Quando vieram buscar-me,
ninguém restava para falar.














O assédio é uma falsa
Filipe Melo Sousa on Terça, 08/01/2008 - 23:41O assédio é uma falsa questão. Desde que cada um seja livre de tomar as decisões sem ser coagido a tal, não vejo mal. Na sociedade que eu defendo, a mulher é sempre livre de recusar a proposta de ir para a cama. O patrão é sempre livre de fazer propostas. Se eles prescindir de uma empregada por motivos fúteis, ele próprio perde com isso. Se ele contratou a empregada com intuito de a seduzir, mais vale de facto despedi-la. Antes isso que continuar uma relação que ambos não querem.
A escravatura é um mau exemplo, e fácil de desmontar, pois nunca um liberal a defendeu ou deixou de denunciar. Quem defende acima de tudo os direitos negativos, como eu, daria o exemplo da escravatura como o pecado capital. E uso-o aliás como paralelo com as contribuições coercivas do estado dirigista.
Direito de Pernada
Igor Caldeira on Quarta, 09/01/2008 - 00:56Foges habilmente a uma situação que não é tão pouco óbvia quanto isso. Quantas mulheres, por falta de opção, se não tiverem nenhum dispositivo legal que salvaguarde a sua posição, não cederão ao assédio?
Isto numa sociedade como a que temos, em que existem coisas às quais presumo que te oponhas como o subsídio de desemprego, e que serve precisamente como mais uma rede para impedir que os indivíduos caiam em situações de escravatura de facto.
Numa tal situação, não estamos perante uma situação de escravatura de facto? Ou só te opões à escravatura em abstracto (legalmente) mas não no concreto (de facto)?
"O mercado [...] tem os seus
Filipe Melo Sousa on Segunda, 07/01/2008 - 15:40"O mercado [...] tem os seus desequilíbrios"
ainda bem. são bem vindos. let it be
"a escravatura também era um mercado"
Quando se defende o egoísmo racional, como eu o defendo, isso significa que não são consentidas agressões ou coacções de qualquer forma de um indivíduo sobre outro. Reter na fonte 50% do rendimento de um trabalhador dependente e ditar moralmente o modo do empreendedor agir não nos afastam desse hábito de outrora.
Socialista
Igor Caldeira on Terça, 08/01/2008 - 01:03"não são consentidas agressões ou coacções de qualquer forma de um indivíduo sobre outro"
Estás a dizer que se um patrão der a escolher a uma mulher entre ir para a cama com ele e ser despedida, ele pode ser obrigado judicialmente a manter-lhe o emprego?
"o mercado é que por
Filipe Melo Sousa on Segunda, 07/01/2008 - 14:28"o mercado é que por enquanto não seguiu esse caminho"
Essa frase fala por si. Tínhamos uma situação em que o proprietário podia decidir se o fumo era permitido nas suas instalações. Havia restaurantes onde o fumo era permitido, restaurantes (ex: mac) onde o fumo era proibido, e inúmeros restaurantes com zona de fumadores, e zonas de não-fumadores. MAS, em proporções que não agradavam ao Miguel.
É esse o pecado que não podemos seguir: defender o mercado apenas nos casos em que a oferta nos corre de feição.
Isto tem alguma coisa a ver com o tema do post?
Miguel Duarte on Segunda, 07/01/2008 - 15:11E vocês a dar-lhe. A Democracia não é uma questão mais importante que o tabaco?
"efender o mercado apenas nos casos em que a oferta nos corre de feição"
O mercado é uma ferramenta para satisfazer as necessidades de todos nós, não é um fim, e tem os seus desequilíbrios, bem como equilíbrios gerados pela legislação existente (que será sempre alguma). Para mim é tão válido alterar o equilíbrio do mercado como quebrar monopólios. Ainda mais nesta situação em que estamos efectivamente a falar de saúde pública e de liberdade individual - que para mim é mais importante que o mercado e que questões de propriedade.
Como eu sugeri no artigo dos fundamentalistas, a escravatura também era um mercado. No entanto, houve um momento que se decidiu acabar com ele.
Monopólios
Igor Caldeira on Sábado, 05/01/2008 - 20:06"A democracia está para os sistemas políticos como o mercado para os sistemas económicos."
Concordo. Pergunta minha: quem defende que as empresas privadas devem ser "livres" de usar todos os recursos para aniquilar a concorrência e para instaurar monopólios e oligopólios sem que tenham qualquer tipo de limitação legal poderá alguma vez opôr-se a que dois partidos façam o mesmo no campo político?
Naturalmente não. Daí o silêncio que o Miguel estranha e eu não.
Quando vieram buscar-me, ninguém restava para falar
Carlos Pinto on Sábado, 05/01/2008 - 19:48Caro Miguel,
A democracia está para os sistemas políticos como o mercado para os sistemas económicos. Não podia senão defende-la e ser contra esta lei.
O liberalismo como eu o concebo não é suposto defender os mais fracos, é suposto defender a liberdade. Certo é que até hoje os donos de restaurantes tinham a liberdade de abrir restaurantes onde se podia fumar e onde era proibido fumar. A partir de agora só têm uma opção. Vão-se perder pequenos negócios e arruinar famílias porque os fumadores só vão poder ir a restaurantes de maior dimensão. É curioso que chames a isso defender os mais fracos. Aliás, continuas sem responder à minha pergunta: consideras ou não que deveria ser permitido abrir restaurantes e bares apenas para fumadores (que podem obviamente optar por fumar ou não dentro do estabelecimento)? Ou seja, consideras que deva ser proibida a abertura de bares e restaurantes inteiramente para fumadores?
Não te importaste com restrições à actividade dos comerciantes porque na tua visão do mundo as consequências serão benéficas para a sociedade. Alguém pensou que restringir o acesso dos pequenos partidos a eleições também teria consequências positivas para a sociedade. O mesmo raciocínio nos dois casos: limitar a liberdade por um bem maior. Entre as duas liberdades perdidas, lamento Miguel, mas a que mais afecta o dia-a-dia dos portugueses é mesmo a lei do tabaco. Se me atrevesse a defender duas liberdades no mesmo dia, ainda me chamariam fundamentalista liberal.
Lembro-me de me teres chamado masoquista por estar a defender os direitos de um grupo ao qual não pertenço. Estranho agora que a espada cai sobre ti, que te venhas queixar de falta de apoio de pessoas às quais esta lei não afecta. Daí o poema que colocaste acabar por ser a suprema das ironias. Se mantiveres uma atitude consistente de defender liberdades alheias, tens todo o direito de exigir que outros defendam as tuas quando são ameaçadas. Se não, lamento, mas não tens qualquer autoridade para te vires queixar de falta de apoio.
Je pense que
Filipe Brás Almeida on Domingo, 13/01/2008 - 00:11O liberalismo como eu o concebo ...
Isto representa tudo o que tinha de ser dito em relação ao teu post.
Ainda o tabaco...
Miguel Duarte on Sábado, 05/01/2008 - 20:38Tens mesmo uma fixação, mas aqui vai a resposta:
"consideras ou não que deveria ser permitido abrir restaurantes e bares apenas para fumadores (que podem obviamente optar por fumar ou não dentro do estabelecimento)? Ou seja, consideras que deva ser proibida a abertura de bares e restaurantes inteiramente para fumadores?"
Claro que acho aceitável a existência de restaurantes e bares para fumadores, tal como o acho aceitável para fumadores de marijuana e a existência de salas de chuto. Aliás, pergunto-me se tu, tal como és defensor do direito de se fumar livremente em qualquer local, também és favorável a que se fume marijuana livremente em qualquer café ou que um tipo possa injectar-se num restaurante ou centro comercial (este último até em teoria afecta menos terceiros que o tabaco). ;)
Mas a lei não proibiu isso, o mercado é que por enquanto não seguiu esse caminho (eu sei, a lei tem uma rasteira nesse aspecto). Em teoria quando o problema da qualidade do ar for resolvido, vais passar a ter estabelecimentos só para fumadores.
Eu aliás acho que a lei podia ser muito simples. Se quisesses deixar entrar menores de 18 anos ou 16 anos, não se poderia fumar no espaço. Acho que bastaria isso para assegurar que havia alguma equilibro na oferta/procura para ambas as partes - que é a única coisa que eu desejo - ter escolha!
Quando vieram para os
Carlos Pinto on Sábado, 05/01/2008 - 18:11Quando vieram para os fumadores,
permaneci em silêncio,
não era fumador
Não serás um Democrata?
Miguel Duarte on Sábado, 05/01/2008 - 19:15Carlos, como já percebeste, eu considero que o agressor em termos do tabaco é precisamente o fumador. Enquanto eu me preocupo com a liberdade de uma pessoa não apanhar com o fumo indesejado de outro em cima, no dia a dia de todos nós, tu andas a teorizar sobre questões da propriedade do restaurante e dos centros comerciais como desculpa para uns andarem a mandar porcaria para cima dos outros. Ridículo.
Aliás, tu sabes perfeitamente que eu seria o primeiro a defender o direito a fumar-se tabaco, tal como defendo o direito a fumar muitas outras substâncias presentemente ilegais. Só não defendo o direito de as fumarem para cima dos outros.
Mas, mais desadequado, é o teu comentário relativamente a este post. Quando está em causa uma questão tão fundamental como a liberdade de expressão e a democracia, comentas sobre um assunto que nada tem a ver. Triste.
Ao menos aqui esperava o teu apoio - mas provavelmente também deves ser a favor da extinção dos pequenos partidos políticos e estás-te a borrifar para a democracia. Aliás, é curioso que nem no Small Brother, nem no O Insurgente me lembro de ler nada sobre este tema (talvez esteja a ser injusto, mas não me lembro). Será que só vos interessa mesmo o direito de propriedade?
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