Numa altura em que se fala de um possível resgate a Portugal, de um possível contágio espanhol, Passos Coelho vem colocar uns paninhos quentes ao abordar a questão da "reposição dos salários". Ora, quem não olha para os números ou pensa que o país vai ter taxas de crescimento como não teve na última década ousa sonhar que tal é verdade. Eu cá suspeito que a receita vai continuar a mesma, pelo menos enquanto as exportações continuarem em alta e os juros a descer. Mais austeridade e pouca justiça contributiva (“a equidade tributária trata da justa distribuição da carga tributária entre os membros da população e considera o sacrifício, por parte dos indivíduos, em termos de bens privados que os mesmos deixam de consumir”[i]).
Atualmente, a questão da equidade tributária tem novo folego. Com o país a atravessar uma recessão económica, “o relatório de Bruxelas revela que Portugal ‘é o único país com uma distribuição claramente regressiva’, ou seja, em que os pobres estão a pagar mais do que os ricos quando se aplica a austeridade”[ii].
Ultrapassada a curva de Laffer[iii], será o esgotamento do modelo existente num país que deixou de crescer? Faz sentido Portugal manter o atual modelo ou adotar outro, como o modelo flat tax, conseguindo obter receitas por via das vantagens que o modelo proporciona?
Em simultâneo, países como “a Lituânia, a Estónia, a República Checa, a Eslováquia, a Rússia e a Hungria são exemplos da aplicação deste sistema e assistiram a um aumento das receitas do Estado, a par com aumento do ritmo do crescimento do PIB e do emprego, bem como uma redução drástica na fraude e evasão fiscal”[iv].
Este modelo apresenta inúmeras vantagens.
· Simplificação e pode facilitar a uniformização fiscal europeia
· Poupança nos custos
· Ganhos de eficiência
· Justiça tributária
· Comodidade para o contribuinte
· Permite o combate aos esquemas fiscais e de fuga aos impostos
· Desencoraja gastos supérfluos do Estado e os sucessivos relacionados com eleições de governos
No entanto, e contra as evidências supramencionadas, alguns críticos deste modelo apontam como críticas: não permitir a progressividade fiscal, nem a redistribuição justa dos rendimentos, que não é de todo verdade, não fosse a flat tax um “caso especial de taxa proporcional”[v]. Trata-se de um modelo progressivo que não fere o seguinte artigo da Constituição da República Portuguesa.
Artigo 104.º - Impostos
1. O imposto sobre o rendimento pessoal visa a diminuição das desigualdades e será único e progressivo, tendo em conta as necessidades e os rendimentos do agregado familiar.
2. A tributação das empresas incide fundamentalmente sobre o seu rendimento real.
3. A tributação do património deve contribuir para a igualdade entre os cidadãos.
4. A tributação do consumo visa adaptar a estrutura do consumo à evolução das necessidades do desenvolvimento económico e da justiça social, devendo onerar os consumos de luxo.
“Desde os anos 70 que vários estudos apontam para que um esquema linear de imposto seja a forma ótima de alcançar certos objetivos de eficiência e de equidade. Acabando com as taxas marginais muito altas, incentiva-se o trabalho e desincentivam-se a evasão e a fuga fiscais. Muitas preocupações com a equidade podem ser mais eficazmente alcançáveis por outras vias. Não deve ser tabu, por exemplo, refletir, no âmbito da UE, sobre a reposição de uma taxa de IVA superior para bens de luxo e de ‘estatuto’”.[vi]
Não é aqui o meu objetivo advogar este modelo, uma vez que sou um leigo na matéria e até porque nos países desenvolvidos é adotado o actual modelo. Contudo, gostaria de relançar o debate com a seguinte interrogação.
Dada a atual conjuntura e consequente fuga e agravamento fiscal, faz sentido Portugal adotar a flat tax e evoluir para o atual modelo apenas quando os impostos forem bem aplicados e o país fiscalmente competitivo?
Suspeito que alterar toda a máquina fiscal nesta fase do campeonato não é possível, mas o meu receio é que já nem isto seja suficiente, caso o atual Governo resolva mexer no IMI ou à semelhança do que foi feito na Grécia com a taxa calculada de acordo com a área da residência, tal medida possa provocar uma convulsão social.
[i] Política Tributária, LEODEGAR JOST, AGE Editora, 2003














uma não-solução
João Cardiga on Quarta, 09/05/2012 - 21:35Este modelo de taxa flat é uma não solução e é baseado em muitos mitos. Se olharmos para as estruturas de receitas fiscais, a grande maioria dos impostos recebidos são de taxa unica (um caso extremo de taxa plana). É o caso do IVA, IRC, Impostos sobre os combustiveis, Imposto sobre o Tabaco, etc. Mesmo dentro do IRS (e como o Luís indicou) já existe uma taxa única (julgo que não é flat no sentido que queres dar no teu artigo pois não é progressiva - esses rendimentos ficam excluidos de englobamento; mas estou a falar de memória). Pelo que claramente a ineficiência fiscal não deriva de termos uma taxa progressiva.
Mais a taxa progressiva em sim, e como temos, é tão simples como uma taxa flat. Um simples quadro é suficiente para cada pessoa saber quanto paga e quanto pagará se aumentar o seu rendimento. O que torna o IRS tão complicado são as inumeras isenções, deduções e afins, algo que é independente do tipo de taxa que estamos a aplicar.
E como a matemática é uma ciência exacta, a aplicação da mesma terá sempre duas consequências:
- Não aumenta as taxas efectivas das camadas mais pobres, diminui das mais ricas e representa uma diminuição de receitas fiscais em sede de IRS;
- Aumenta as taxas efectivas das camadas mais pobres, diminui das mais ricas e não representa uma diminuição de receitas fiscais em sede de IRS.
Eu julgo que no contexto actual a segunda opção é imoral e injusta, pelo que acredito que a maioria defende por causa da primeira opção. Ora se a intenção é diminuir a tributação dos mais ricos em sede de IRS, julgo que mais do que falar de uma mudança de taxa progressiva para uma taxa plana temos de falar de uma reforma do sistema fiscal, que permita não diminuir as receitas fiscais, enquanto se resolve este problema de sobre taxação da classe média e média alta que trabalha por contra de outrem (porque são estes apenas os que serão afectados).
P.S. E como disseste ambos os modelos têm taxas progressivas. Mas enquanto o modelo flat é um esboço rude de um sistema justo e eficiente, o modelo actual (na sua essencia) é um modelo mais apurado...
boa
Luís Lavoura on Quinta, 10/05/2012 - 09:08Excelente comentário. Gostei especialmente da frase:
"O que torna o IRS tão complicado são as inumeras isenções, deduções e afins, algo que é independente do tipo de taxa que estamos a aplicar."
Estou a ver que a estadia por entre povos longínquos te faz bem.
Obrigado!
João Cardiga on Quinta, 10/05/2012 - 14:47Epá muito obrigado! Também acho que sim... vamos ver como eu retorno desta minha aventura :)
Um abraço
já aplicada
Luís Lavoura on Quarta, 02/05/2012 - 09:10Vale a pena referir que a taxa plana de impostos já hoje é aplicada nalguns setores, nomeadamente no caso dos rendimentos de capitais (juros de depósitos a prazo, etc), em que se aplica uma taxa plana de imposto de 25%, independente dos outros rendimentos.
Fala-se também agora na possibilidade de seguir o mesmo método para os rendimentos provenientes de casas arrendadas, os quais deixariam de ser englobados com o IRS e passariam a sofrer uma taxa de imposto sempre igual (e talvez inferior a 25%). O objetivo seria diminuir a taxa de imposto efetiva, estimulando dessa forma a colocação de casas no mercado de arrendamento (legal).
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