Um conhecido meu dizia há dias que, em sua opinião, virtualmente qualquer governo seria hoje melhor do que aquele que Portugal atualmente tem.
Afirmação tão radical custou-me a aceitar quando a ouvi. Infelizmente, cada vez mais me parece ser a cruel realidade.
A decisão de avançar com os projetos de grandes obras públicas (vias rodoviárias, novo aeroporto, TGV) é completamente louca. O governo repete a mesma receita que tem sido aplicada vezes sem conta ao longo dos últimos 25 anos por sucessivos governos portugueses: estimular a economia com base na construção civil aplicada aos transportes. A economia portuguesa está, de facto, viciada nessa droga que é o investimento estatal em betão. Só que, as condições mudaram.
O governo não se apercebe de que o pico da produção mundial de petróleo já foi inexoravelmente ultrapassado. A partir de agora, o setor dos transportes, responsável por 40% da energia primária consumida, não terá possibilidades de crescer - de facto, estará condenado ao definhamento progressivo. Esta cruel realidade é especialmente verdadeira nos casos do transporte aéreo e do rodoviário, que só podem subsistir à custa do consumo de petróleo.
Sobre um tal pano de fundo, estar a investir em mais estradas e mais aeroportos é, pura e simplesmente, louco. Nunca haverá automobilistas nem vôos que possam vir a justificar economicamente essas obras. Quando elas estiverem completas, de facto, já se conduzirá menos e já se voará muito menos do que atualmente. A coisa será ainda pior ao longo dos decénios seguintes - não nos esqueçamos de que o prazo de amortização de uma autoestrada ou um aeroporto é da ordem dos vinte anos.
Desejo que haja em breve uma crise política que permita que rapidamente Portugal mude de governo. Sócrates perdeu completamente o norte. O seu governo está de pantanas, profundamente dividido - já não é possível ocultar que o ministro das finanças está contra o primeiro-ministro, e vice-versa. O facto de o PSD ter passado a superar o PS nas intenções de voto é muito positivo.
Tal como Mário Soares e Jorge Sampaio antes dele, em breve Cavaco Silva terá que tomar a decisão da sua presidência: percebendo que a Assembleia da República em funções, embora capaz de sustentar uma solução governativa, já não corresponde aos desejos do povo português, terá que a dissolver e convocar novas eleições, que abram caminho a uma nova maioria. Espero que já não faltem muitos meses para que isso aconteça.














Discordo que fosse boa ideia
Anónimo (não verificado) on Sexta, 07/05/2010 - 16:39Discordo que fosse boa ideia o governo cair. Na realidade parece-me um péssimo hábito que os governos caiam antes do mandato e tal apenas se justifica em circunstâncias excepcionais que não são, certamente, o facto de o governo propor-se implementar o programa para o qual foi eleito.
Dito isto, concordo que 2 das 3 obras referidas deveriam ser proteladas (estrade aeroporto) até se alterar a situação económica nacional ou até se concluir que não são investimentos prioritários.
Miguel Araújo
Mais, estou convencido que este governo chegará a esta conclusão mais tarde ou mais cedo. Só espero que pelo caminho não deixem cair uma grande obra que é estrutural e que tem capacidade de atrair investimento estrangeiro que é o TGV. O custo de fazer esta obra é certamente menor que o custo de não o fazer.
De certeza?
Pimentel on Sábado, 08/05/2010 - 10:19«uma grande obra que é estrutural e que tem capacidade de atrair investimento estrangeiro que é o TGV. O custo de fazer esta obra é certamente menor que o custo de não o fazer.»
Tem a certeza? É que nada, mesmo nada, para além de bitaites de muita gente, sugere isso.
Mas se calhar tem em sua posse os nenhuns estudos feitos que o sugerem.
Caro Pimentel, Sobre o
Anónimo (não verificado) on Sábado, 08/05/2010 - 21:04Caro Pimentel,
Sobre o investimento estrangeiro é sabido que vários projectos (nomeadamente na área do turismo e da construção aeronáutica) foram canalizados para Évora em virtude da expectativa de criação da linha de TGV com paragem nesta região. Outros projectos na área de Sines têm sido também referidos ainda que a sua viabilidade esteja dependente da criação de um “hub” ferroviário em torno de Évora que assegure a ligação a Sines.
De resto basta observarmos o que se passou em Lille (França) e Ashford (UK) na sequência da criação da linha do Eurostar. Estas duas cidades satélites de Paris e Londres, aproximadamente à mesma distância das respectivas capitais que Évora está de Lisboa, transformaram-se em grandes centros de distribuição de mercadorias e centros com elevado poder económico. Parece-me óbvio que esta infraestrutura tem capacidade de atrair investimento estrangeiro (e nacional), o que não sei nem ninguém sabe é quanto vale esse investimento em termos nacionais.
Outra questão que não me parece pouco importante são os custos de oportunidade da não construção da linha de TGV. Primeiro há o financiamento Europeu para esta construção que é dinheiro fresco que entra no País. Segundo – e mais importante – a não construção da linha em Portugal não afectará a construção da linha Madrid-Badajoz, o que quer dizer que teríamos uma linha de Paris a Badajoz. A partir de aí apanhe autocarro da rodoviária nacional, se faz favor, se quiser ir a Portugal. Entende o que isto quer dizer em termos do isolamento do País e de transferência de investimento para o lado de lá da fronteira?
Portugal cedeu centralidade a Madrid com a entrada na União Europeia. Nos últimos tempos alguma dessa centralidade tem sido cedida a Barcelona que possui algumas vantagens comparativas em relação a Madrid. Lisboa tem algumas vantagens relativas a Madrid e a Barcelona e poderia procurar capitalizar nessas vantagens para competir com estas duas cidades Ibéricas. Porém, se continuar com as miseráveis acessibilidades que tem, será relegada para o papel de cidade secundária.
Isto tem custos económicos incalculáveis para o País e não creio que seja difícil ver que estes superam os custos da construção da linha de TGV.
Quanto aos estudos, caro Pimental, não os há. Nem no sentido de demonstrar que o TGV é um investimento furado nem no sentido inverso. Estamos no domínio da política e da estratégia e nesta matéria sabemos que qualquer esforço de prospectiva tem limitações grandes.
Miguel Araújo
PS. Curiosamente, umas horas depois de ter escrito aqui que o governo concluiria que não deve fazer o aeroporto e as estradas, fomos informados que as obras do aeroporto foram proteladas. Faltam as estradas.
1TGV = 10.000.000.000€
Pimentel on Domingo, 09/05/2010 - 17:15"Parece-me óbvio que esta infraestrutura tem capacidade de atrair investimento estrangeiro"
Sim, sem dúvida. Se eu abrir um restaurante por 100mil€ vou atrair clientes. Mas se eles não forem suficientes para me pagar os 100mil em tempo útil... a coisa dá buraco, não é?
Pode-me falar de restaurantes que resultam bem noutros sítios. Mas é preciso fazer um estudo para se dizer "com certeza" que o meu restaurante vai ter sucesso.
Mas, como não há nem estudos a favor nem contra o meu restaurante, parte-se do princípio que vai correr bem?
Em relação ao financiamento da UE que vem para a construção, já foi dito que o mesmo pode ser aplicado noutras coisas no país.
"A partir de aí apanhe autocarro da rodoviária nacional, se faz favor, se quiser ir a Portugal."
Demorei 10segundos para encontrar um vôo Madrid-Lisboa por 30€.
"Isto tem custos económicos incalculáveis para o País e não creio que seja difícil ver que estes superam os custos da construção da linha de TGV."
Falava-se de 50 e tal milhões de € de crescimento na área do turismo. Com o TGV a custar 10mil milhões, não creio que seja assim tão fácil de ver aquilo que diz.
Também é a minha opinião.
artur baptista on Terça, 04/05/2010 - 17:10Também é a minha opinião. Este Governo tem de sair o mais rápido possivel do caminho de alguma hipotese de saida. Se é que ainda vamos a tempo...
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