Retrato de Luís Lavoura

A minha previsão é que o governo português não vai conseguir aquilo que almeja com a sua tentativa de equilibrar as finanças públicas neste tempo de crise. Isto acontecerá por dois motivos:

 

(1) A quebra na atividade económica causada pelo aumento de impostos e pela diminuição dos gastos do Estado vai induzir uma quebra das receitas fiscais que será ainda superior àquilo que o governo, em período normal, arrecadaria devido ao aumento de impostos. Isto acontece devido ao estado de elevado endividamento das famílias e das empresas portuguesas. Num tal estado as famílias e as empresas não querem pedir mais dinheiro emprestado e entra-se em ambiente deflacionista. Se o Estado não puxa a economia para fora desse ambiente, a contração continua sem parar. É isso que, muito possivelmente, tenderá a acontecer.

 

(2) A máquina fiscal continua totalmente vulnerável à fraude. Durante a crise (em 2008-2009) as receitas fiscais caíram muitíssimo mais do que a atividade económica, o que só pode querer dizer que a fuga ao fisco aumentou. O presente aumento de impostos apenas vai estimular as pessoas a, ainda mais, fugirem ao fisco.

 

Eu gostaria muito de estar enganado. Mas estes são os meus prognósticos, e creio que muito em breve (no prazo de um ano, dois no máximo) eles poderão ser confirmados.

 

A propósito, fala-se muito do corajoso exemplo da Irlanda que, há uns meses, ao ver que o défice das suas contas públicas estava a aumentar descontroladamente, decidiu cortar fortemente nos salários dos funcionários públicos. E qual foi o resultado desse corte? Ele está à vista: o défice do Estado irlandês está agora ainda maior. O corte nos salários públicos não melhorou as coisas - piorou-as. Por quê? Porque tentar equilbrar as finanças públicas num período em que os privados estão cheios de dívidas e em que, portanto, o ambiente é deflacionista, é suicida. Não funciona,. A tentativa de equilíbrio funciona ao contrário - quanto mais se aumenta os impostos e se diminui os gastos do Estado, maior fica o défice. É fatal. Viu-se no Japão em 1997.

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