RTPComeçou a máquina de propaganda do PS. Quem viu o telejornal da RTP 1 ontem (Domingo) e está minimamente ciente dos prós e contras do projecto da Ota e demais soluções aeroportuárias, não pôde deixar de se indignar com o que ali foi perpetrado. Propaganda e mentira, mentira e propaganda, uma atrás da outra. Que ingenuidade a minha pensar que coisas como a manipulação governamental da RTP estavam em vias de extinção.

O que aconteceu efectivamente?

No início do Telejornal, uma das primeiras reportagens foi sobre o anúncio esta terça-feira pelo governo do projecto da Ota. Uma apresentação do aeroporto em 3D, cuidada, bonitinha, texto irrepreensivelmente escrito, evitando convenientemente todas as "zonas pantanosas" em que a retórica pró-Ota costuma falhar frente às evidências. Aposto o que quiserem que não foi um jornalista (pelo menos isento) que o escreveu. Seguidamente, aparece o presidente da NAER a dizer apenas algumas frases pró-Ota, nada de especial. Repare-se que a NAER é uma comissão criada para fazer os estudos que justificam o "Novo AERoporto" e portanto a sua própria criação! Em vez de - como seria de esperar numa democracia civilizada e séria - estudar todas as soluções e apontar a que aparenta ser a melhor.

A reportagem seguinte é sobre os enormes problemas que o ruído dos aviões provoca. A jornalista foi aos hospitais, às escolas, às universidades, aos lares de idosos, a bairros que deviam ter uns 15-20 anos, construídos junto ao Aeroporto muito depois de este ali estar, entrevistou alunos que não se concentravam, crianças que falhavam remates à baliza e idosos que sofriam muito, e foi até ao Júlio de Matos, onde se gracejou sobre as causas da permanência de alguns utentes na instituição. Piadas à parte, ninguém contesta que o ruído seja desagradável. E há maneiras de o mitigar um pouco. Mas já lá vamos.

A reportagem seguinte era para "matar" os detractores da Ota. Começou-se pela mentira do costume, escrita bem à vista no centro do ecran: "Portela vai saturar em 10 anos".

Mentira! Esta é a mentira que lançou e sustém tudo isto. A Portela não vai saturar em 10 anos. A Portela tem imenso espaço para expandir. Há estudos feitos, um pela própria ANA, outro por um gabinete de estudos Inglês há uns anos e ambos nos mostram que a Portela pode expandir até cerca de 30 Mpax/ano. Aliás, basta algum estudo das condicionantes e de projectos semelhantes juntamente com um olho atento para perceber a quantidade de oportunidades de expansão que a Portela tem. Mais sobre isto mais abaixo.

A segunda mentira (terceira reportagem) foi dizer que nenhuma das soluções que envolvam a utilização dos outros aeroportos é possível. Apresentou-se um mapa da grande lisboa com umas "luzinhas" a piscar na Portela, em Alverca e no Montijo e explicava-se que havia umas coisas chamadas "beacons" que tinham de estar a mais de 15 km, o que inviabilizava qualquer solução que envolvesse dois aeroportos. Uma das soluções de facto não é possivel, mas não pela razão apresentada. A outra é. Nova mentira, não sei qual das duas mais descarada.

Eu explico: De facto não é possível usar o Montijo e a Portela em simultâneo por causa da orientação das pistas, cujas aproximações se intersectam de forma demasiado perigosa para permitir uma utilização plena e simultânea. O Montijo, quando muito, poderia servir para aquilo que se chama de aeroporto "Spill-off", absorvente dos excedentes em períodos de saturação sazonal, como acontece em variadíssimos outros locais do globo ou então em alternativa, mas isso também apresenta outros problemas e não seria para já. A solução Portela & Alverca, por sua vez, é perfeitamente viável, pelo menos assim o indica uma análise preliminar. Vamos aos factos:

A pista tem todas as condições para receber voos comerciais. A C.M. de Vila Franca de Xira já declarou o seu apoio à utilização da pista para fins comerciais. Há espaço para expansão quer para estacionamento das aeronaves, quer para parqueamento automóvel, quer para terminais, já lá passa a linha de caminhos de ferro (com apeadeiro e tudo!), está a 2 minutos da CREL e da A1. O principal problema, ao se analizar a exploração em simultâneo com a Portela seria o facto de Alverca ser quase "no enfiamento" da pista principal da Portela e as duas pistas terem uma diferença de orientação de menos de 10 graus. De facto, à primeira vista poderia parecer um problema.

Foi o que investigámos: depois de consultar diversas situações semelhantes pelo mundo inteiro e vários controladores de tráfego aéreo (os mesmos que encaminham todos os dias os aviões que sobrevoam este mesmo espaço aéreo), concluímos que é possível ter as duas pistas a operar em pleno e simultâneo, exceptuando combinações operacionais menores como as descolagens de aviões de longo curso na pista 03 da Portela inibirem as aterragens na pista 04 de Alverca. Resultado, as duas pistas operariam a, digamos, 90% da sua capacidade conjunta, o que será muito próximo da capacidade máxima da Ota, talvez até superior. Para tal bastará reconfigurar os padrões e procedimentos de aproximação das aeronaves, instalar o sistema de aterragem por instrumentos na pista 17-35 da Portela, que teria uma utilização maior nesta configuração.

Por forma a melhor aproveitar esta solução híbrida, faz-se o que se tem feito noutras cidades: separar os serviços. low-cost, charter e carga para Alverca e restantes para a Portela, a chamada "Base Aérea de Figo Maduro" que não é mais que dois edifícios e uma placa, passaria para o Montijo libertando aquele precioso espaço. A Portela teria espaço para construir o novo terminal e as mangas para aviões de grande envergadura (que por enquanto ainda têm de parquear na placa central e os passageiros têm de sair por escadas e autocarro). Alverca ficaria o aeroporto "low-cost", com taxas muito mais baixas, sem Alfândega (só Schengen), sem mangas nem terminais caros, sem reencaminhamento de bagagem (só voos directos), sem serviços adicionais, apenas o essencial. A Portela teria espaço para melhorar o sua oferta, servir de boa base de Hubbing para a TAP (que aliás, já se manifestou contra a Ota), continuando a beneficiar da excelente localização. O problema do ruído pode ser mitigado com 1) a introdução de multas para os aviões mais ruidosos como acontece em Londres e noutras cidades, encorajando portanto o uso de aeronaves menos ruidosas sobretudo durante a noite, e 2) com a deslocação do ponto de aterragem mais à frente na pista (que é bastante longa), o que permitiria ganhar alguma altura na aproximação e consequentemente menos ruído na cidade.

Esta solução, englobando a adaptação de Alverca, as deslocalizações e a reconfiguração do espaço aéreo, teria um custo estimado de cerca de um terço do investimento planeado para a Ota e teria uma capacidade próxima do limite da Ota, cerca de 40 Mpax/ano. Na pior das hipóteses, permite-nos comprar tempo a um preço bastante baixo. Além disso, não há nenhuma razão objectiva para abrir mão de um activo tão importante e funcional como é este aeroporto. Qualquer solução que não aproveite o tempo de vida dum investimento está a desperdiçar dinheiro.

Os argumentos aqui apresentados superficialmente foram naturalmente objecto de uma análise e reflexão cuidadas. Isto que aqui apresento é uma versão resumida em que muito pormenor se omite a bem da clareza.


O que me choca mais não é esta solução em especial passar despercebida, isso é o que mais acontece, infelizmente. O que me incomoda mais enquanto cidadão é o facto de os sucessivos governos, alimentarem uma especulação silenciosa em torno de uma questão que nunca foi discutida abertamente. Cria-se uma comissão para estudar uma solução, ou seja, escolhe-se a solução, e depois cria-se a comissão que trará os estudos que a justifiquem. E quando aparece algum estudo que contradiz a tese oficial, é prontamente abafado. Foi o que aconteceu com o relatório Inglês sobre a expansão da Portela, foi o que aconteceu com o estudo de expansão da ANA, foi o que aconteceu com o estudo preliminar de viabilidade financeira da Ota, o que acontece com dezenas de consultores que, depois de contactarem com o assunto, ousam falar de acordo com a sua consciência contrariando a tese do partido único, que neste caso são dois, mas é único. Ota

O estudo de viabilidade financeira é particularmente grave, pois o que supostamente ele dizia que não agradou à NAER e aos ministros foi a previsão das baixíssimas taxas de retorno do investimento, que a se confirmarem, afastarão o investimento privado que nem pardais. Só uma negociação de contrapartidas muito generosa manterá os preciosos milhões privados na Ota. Mas essas contrapartidas equivalem a investimento público, apenas mais dissimulado, diferido no tempo, mais incerto e muito menos transparente. Tudo o que se quer numa democracia responsável.

E que tipo de contrapartidas poderá um privado esperar que lhe ofereçam para manter os seus milhões na Ota? Concessão de monopólios nalguma actividade de exploração do Aeroporto, condições especiais na privatização da ANA, etc... tudo altamente lesivo do interesse público. Tudo isto como se estivéssemos a falar de valores pequenos, como se Portugal não tivesse um problema grave de défice orçamental público e como se o investimento público fosse a panaceia universal para todos os males económicos. Não é. Os próprios autores do PIIP (o programa de investimentos prioritários apresentado pelo governo para esta legislatura), demarcaram-se claramente dos projectos da Ota e do TGV apenas se responsabilizando pela escolha dos outros investimentos escolhidos dado que a Ota e TGV foram decisões políticas... É preciso dizer mais?

É. A especulação política alimenta a especulação imobiliária. É natural que, dadas as expectativas para aquela área, comecem a chegar interesses que mais tarde contaminarão o processo decisório. Se eu comprasse um terreno na Ota, claro que quereria que ele valorizasse. É portanto natural que a Espírito Santo Investimentos Imobiliários ou qualquer outra empresa, compre alguns terrenos naquela zona, dadas as expectativas que sobre ele têm recaído ao longo dos últimos anos. Não tem mal nenhum, e o lucro de uns não é a miséria de outros. Mas já não é aceitável - e aí é que está o problema - que os detentores desses interesses económicos legítimos possam tomar parte num processo de decisão desta envergadura, de nível nacional, que deve ter como objectivo o interesse público. Não é portanto aceitável, que o ministro ex-administrador desse grupo não declare conflito de interesse e não se afaste do respectivo processo decisório. É preciso essa associação ser trazida por outros para a praça pública para o dito senhor parecer também honesto, assumindo que já o é? Seria pedir muito a esta débil democracia?

O que me choca é que não há nem houve até agora qualquer vontade política de efectivamente procurar a melhor solução, seja ela qual for. A expressão de Miguel Sousa Tavares de "crimes em preparação" é totalmente apropriada. Assistimos ao desfilar dos argumentos incompetentes, estudos e pessoas a serem silenciados, vemos propaganda na televisão pública, estamos à beira de ver os nossos recursos económicos consumidos, e o crime efectivamente... consumado. Depois admiram-se que o Sebastianismo grasse por estas paragens.

Acerca da Ota:Parece-me ser

FMP (não verificado) on Terça, 22/11/2005 - 13:06

Acerca da Ota:

Parece-me ser entendimento comum que o projecto não tem sustentação económica nem ambiental, que os estudos que sustentam uma e outra estão distorcidos ou desactualizados. Parece ser evidente também que o governo encontrou na desinformação (ou propaganda) uma forma de contornar esta falta de bases, e que esta estratégia, mais uma vez, resulta tão bem ou melhor do que uma argumentação válida e aberta. Quer junto do eleitorado, quer junto da oposição.

A referida NAER, empresa financiada pelo erário público, tem por objecto (oficial) "Proceder ao Desenvolvimento dos trabalhos necessários à preparação e execução das decisões referentes aos processos de planeamento e lançamento da construção de um novo aeroporto no território de Portugal Continental".

Portanto, quando a empresa foi constituída por Guterres em abril de 1998, já implicava a construção de um aeroporto, fosse ele onde fosse. Ou seja, há 7 anos que esta decisão foi tomada, há 7 anos que se gastam vários milhões de euros para financiar inúmeros estudos, e há 7 anos que se sabe que a expansão da Portela não é solução. É um erro do meu ponto de vista,colar a (ir)responsabilidade desta obra apenas ao PS, quando a coligação PSD/PP durante o tempo que esteve no governo, não só não extinguiu, como nem sequer mudou o objecto desta empresa. Continuou, aliás, a financiá-la nos seus orçamentos tal como o PS. Parece-me evidente que ou concordavam com a necessidade de construir um novo aeroporto, ou foram manifestamente incompetentes ao prolongar a existência duma empresa cujo objecto era contrário às suas intenções de governo.

Depois de PS criar e PSD/PP não impedirem, só faltava o povo legitimar. Foi o que aconteceu nas últimas eleições, quando o novo aeroporto foi sufragado como parte do programa de governo apresentado pelo PS. O eleitorado até pode ter sido enganado noutros pontos mas este não é um deles.

Acho por isso curioso como uma obra que não tem o apoio de quase ninguém com conhecimentos técnicos para a avaliar, consegue chegar à fase de lançamento com uma base de aceitação cuja legitimidade se estende a uma maioria da população e à própria oposição.

Tendo cada vez mais a Ota como uma inevitabilidade, acho importante dissecar todo este processo, porque se este elefante conseguiu passar por nós, é quase certo que outras Otas virão....

Saudações
FMP

É um erro do meu ponto de

Vasco Leal Figueira on Terça, 22/11/2005 - 14:41

É um erro do meu ponto de vista,colar a (ir)responsabilidade desta obra apenas ao PS, quando a coligação PSD/PP durante o tempo que esteve no governo, não só não extinguiu, como nem sequer mudou o objecto desta empresa. Continuou, aliás, a financiá-la nos seus orçamentos tal como o PS.

Concordo. A parte do PS é a propaganda actual.

O argumento do sufrágio do programa de governo é pernicioso, porque embora todos saibamos que não é no programa que as pessoas votam, a verdade é que é com ele que o (futuro) governo se apresenta às urnas. Justifica tudo? Não, só o que dá jeito, para qualquer dos lados, em qualquer altura. Problemas da democracia.
--
Vasco Leal Figueira

Belíssima posta

Cirilo Marinho on Terça, 22/11/2005 - 00:23

Belíssima posta Vasco.
Seria interessante verificar o comportamento destes mesmos senhores (investigadores, jornalistas e políticos) quando tomam decisões de investimento com o SEU PRÒPRIO dinheiro.

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