Retrato de João Mendes

Estava eu regaladamente a fazer alguma coisa agradável quando vejo na televisão que Manuela Ferreira Leite acusou o Governo de saber de um negócio envolvendo a PT e a Prisa e de o Primeiro Ministro ter mentido sobre o assunto no Parlamento. Isto sendo relevante porque, para além da suposta mentira, a Prisa controlar a TVI e haver medos relativamente à possibilidade da linha editorial da mesma ser afectada.

Para começar, o facto de ser isto, e não algo de minimamente substantivo, uma das principais notícias advindas da entrevista diz bastante sobre a política portuguesa actualmente. O facto da outra notícia ser uma espécia de falso vazio (ou seja, várias afirmações que parecem querer dizer alguma coisa, mas na verdade dizem pouco) em relação a grandes investimentos públicos diz o resto.

Em relação ao caso em concreto, várias questões se levantam. Para começar, a própria "golden share" do Estado na PT, em nome do "interesse nacional". Em segundo lugar, a presença da Caixa Geral de Depósitos na PT. Depois vem a história da suposta mentira e das acusações e do facto do Governo saber ou não saber do que se passava.

Ora bem, primeiro gostaria que alguém me explicasse para que serve a "golden share" e o que é este suposto "interesse nacional" que ela pretende proteger. Ainda ninguém me conseguiu, verdadeiramente, explicar em que é que nós beneficiamos por o Estado ter esta "golden share", e por a Caixa Geral de Depósitos também estar lá. Alguém terá de explicar a razão pela qual a PT foi privatizada sem verdadeiramente o ser, pelo suposto "interesse nacional" que ninguém parece saber bem o que seja, exceptuando que é algo a ser protegido a todo o custo.

Depois temos a suposta mentira. De facto, parece estranho que, havendo "golden share", um negócio desta natureza não tenha sido discutido com o Governo. Também me parece claro que o PSD se aproveita da presunção de inocência não se aplicar em política para fazer esta acusação, o que desde logo me põe de pé atrás. Este género de troca de acusações de baixo nível tornam-se cansativas, especialmente quando acompanhadas de mais nada. E acho curioso que ninguém se tenha lembrado ainda de dizer que se o Governo não sabia, devia saber, e se não sabe é por incompetência.

Há depois aquela simpática acusação de que o verdadeiro propósito de tudo isto era amordaçar a TVI, que é conhecida por uma linha editorial negativa em relação ao Governo. Isto diz, basicamente, que a PT é usada pelo Governo para fazer aquilo que gostaria de fazer directamente mas não pode, que é aliás o que diz Pacheco Pereira na "Quadratura do Círculo" (sim, o mesmo do "situacionismo"). Este passo, mais uma vez, aproveita o facto de não haver presunção de inocência em política. Lançam-se achas para o ar e depois não se tem de provar nada.

Pessoalmente, resolvia esta questão privatizando verdadeiramente a PT. Acabava com o "golden share" e liberalizava verdadeiramente o sector. Em relação ao caso concreto, confesso que não faço ideia. Poderá ser da minha formação como jurista, mas acredito na presunção de inocência, e acusações precisam de ser provadas com mais do que crenças da líder de um partido da Oposição. Poderá ter sido incompetência, poderá ter não havido, de facto, informação dada ao Governo. Poder-me-ão acusar de falta de cinismo, mas eu penso que enquanto não exigirmos mais dos nossos políticos, vamos continuar nestes "diz-que-disse" e não passaremos da cepa torta. Até porque há houve acusações quando a TVI foi comprada há uns anos e a TVI continua agora a atacar o governo.

O que eu quero saber do PSD e do PS é o seguinta:
- Porque é que há uma "golden share" na PT?
- O que é este "interesse nacional" e porque é que tem de ser protegido através de "golden shares" em empresas privadas?
- Concordam com a mercados das telecomunicações regulados a nível europeu e na existência de maior concorrência no sector? Porque é que a PT tem de manter um estatuto especial num contexto como este?

Este tema é importante e merece ser discutido. Em vez de pura e simplesmente atirar para o ar mais uma teoria da conspiração, e com isso entrar em mais uma troca de acusações baratas e reles, o PS e o PSD bem podiam, já agora, discutir os temas que propus. Mas isso sou eu que sou pouco cínico e demasiado idealista e gostaria de ter assuntos importantes discutidos com menos superficialidade.

Retrato de Luís Lavoura

Muito bem

Luís Lavoura on Segunda, 29/06/2009 - 08:54

Um excelente post, com o qual concordo integralmente, marca uma estreia auspiciosa de um novo membro neste blogue. Felicitações!

As acusações de Manuela Ferreira Leite, de que o governo certamente saberia do negócio, são descabidas.

Noto também que, quando a TVI foi vendida aos espanhóis da Prisa, houve da parte do PSD extrema preocupação porque a Prisa seria, alegadamente, uma empresa pró-socialista. Pelos vistos, para o PSD, é péssimo quado a TVI é vendida aos espanhóis, e é péssimo quando os espanhóis a revendem. Faça-se o que se faça com a TVI, o PSD vê nisso sinal de submissão ao governo.

Penso que toda esta situaçao seria merecedora de uma tomada de posição da parte do MLS, defendendo a eliminação das golden shares e das participações da CGD (e a privatização desta última).

Luís Lavoura

Retrato de João Mendes

Essa parece-me ser uma boa

João Mendes on Sexta, 26/06/2009 - 13:44

Essa parece-me ser uma boa solução, pelos motivos referidos. Uma empresa privada com monopólio sobre a rede teria de ser fortemente regulada, pelo que mais vale mantê-la pública (e separada da empresa de distribuição).

Outra possibilidade ter uma empresa privada a cuidar das redes, em condições parecidas com as da SIBS para o Multibanco. Não sei até que ponto seria viável, e não é necessariamente a que mais me agrada em abstracto, mas seria outra possibilidade, parece-me.

Antes de mais gostaria de

André Escórcio ... on Sexta, 26/06/2009 - 07:17

Antes de mais gostaria de dar as boas vindas ao Speakers Corner Liberal Social. Gostei bastante do texto, estas são efectivamente as questões que se colocam acerca deste caso. Concordo plenamente com a privatização real da PT, apenas tenho uma dúvida, até que ponto as outras operadoras ainda estão dependentes da estrutura da PT (cabos)?

Caso as linhas telefónicas nacionais ainda sejam detidas, exclusivamente ou perto disso, pela PT julgo que deverá existir uma separação em duas empresas, uma de distribuição e outra de estruturas. Isto aconteceria à semelhança do que aconteceu com a EDP e a REN, mas com uma pequena diferença, as estruturas (monopólio) continuaria no estado enquanto que o fornecedor dos serviços se tornaria totalmente independente do estado.

Um abraço e mais uma vez bem vindo.

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