Ao longo dos últimos anos, o economista Richard Koo, um norteamericano filho de mãe japonesa e que trabalha no Japão, onde é diretor da casa de investimentos Nomura, tem elaborado a teoria de uma forma de depressão económica a que chamou "depressão de folha de balanço". Segundo ele, uma tal depressão, de que a depressão de 1990-2005 no Japão e a Grande Depressão de 1929-1933 nos EUA seriam exemplos, ocorre após o rebentamento de uma grande bolha nos preços de alguns ativos financeiros, rebentamento esse que deixa as empresas fortemente endividadas e portanto totalmente indisponíveis para contrair novos empréstimos. Essa indisponibilidade leva a uma contração na massa monetária - deflação - devido a as dívidas antecipadamente pagas aos bancos não encontrarem escoamento sob a forma de novos empréstimos. Segundo Koo, para contrariar uma tal depressão económica, extremamente grave mas felizmente muito rara (só ocorre no seguimento de uma bolha financeira), é indispensável a atuação do Estado, o qual deve realizar investimentos públicos, pedindo emprestado o dinheiro dos bancos com o objetivo de evitar a contração da massa monetária e portanto da economia.
No entanto, Koo tem o cuidado de também afirmar que, em tempos normais, quando não estamos em presença de uma destas recessões, o Estado deve ter a atitude exatamente contrária, evitando o investimento público com o fim de não extrair fundos do mercado de capitais e de não distorcer a economia em favor de setores errados.
Num aditamento ao seu mais recente livro, já editado em português, Koo afirma que a atual recessão económica é precisamente uma recessão de folha de balanço, causada pelo rebentamento da bolha do preço das casas nos EUA, e contra a qual os Estados tiveram, têm e terão que intervir mediante investimentos públicos, para evitar a deflação.
Isto seria correto também para Portugal. A tragédia de Portugal, no entanto, é que em Portugal o investimento público foi, ao longo dos últimos decénios, utilizado como uma droga. A economia portuguesa foi continuamente dopada com essa perigosa droga, que a tornou totalmente dependente e a distorceu no sentido de um empolamento do setor da construção civil, com a edificação de empresas de construção civil sobredimensionadas e fortemente coligadas (numa relação de corrupção) com o Esado e com os pirncipais partidos, e com a angariação de um excesso de mão-de-obra para esse setor. Como consequência desta contínua dopagem com investimentos públicos, a economia portuguesa já quase não responde a novas doses da droga, e queda-se inanimada, já quase inerte e sem vida, necessitando porém do contínuas novas doses dessa droga fatal para não morrer de todo. Também como consequência desta contínua dopagem, as finanças públicas estão exangues, já não podendo, neste momento em que a aplicação da droga seria de facto necessária, realizá-la - porque os mercados financeiros já não aceitam emprestar mais dinheiro ao Estado português.
Este é o resultado de vinte anos de dopagem contínua da economia portuguesa com a droga do investimento público em betão (do qual a estação do metropolitan de Lisboa nas Olaias é talvez o exemplo mais acabado - um enorme saláo subterrâneo, de descomunal largura e descomunal altura, sustentado por enormes colunas mas povoado por pouquíssima gente e de utilidade virtualmente nula). Agora, neste momento em que esse investimento seria de facto necessário, o Estado não pode recorrer a ele e a economia portuguesa arrisca-se a sofrer uma contração brutal devido à recessão de folha de balanço - as famílias e as empresas estão fortissimamente endividadas e pouco recetivas à ideia de tomarem novos empréstimos, pelo que a procura se contrai dramaticamente - e à súbita retirada da droga de que está dependente. Como Koo demonstra, quando no meio de uma recessão de folha de balanço o Estado tenta equilibrar as suas finanças o resultado pode ser contraproducente e o défice pode de facto disparar, pois a contração da economia leva a uma queda nos impostos cobrados superior à contração nos investimentos do Estado. Esta tragédia está a decorrer na Irlanda e em países fora da Zona Euro, como a Letónia, a Hungria, a Roménia e a Ucrânia, nos quais, por mais que o Estado se esforce por controlar as despesas, as receitas do Estado caem ainda mais depressa. Portugal arrisca-se a cair agora também nesta armadilha fatal, por ao longo dos últimos vinte anos se ter deixado prender no perigoso vício do investimento público - mediante a ação de ambos os principais partidos, ambos fortemente corrompidos pelo setor da construção civil, e com a complacência de todos os ministros das finanças, incluindo daqueles que, agora fora do Estado, vão hoje dar bons conselhos ao ex-primeiro-ministro betonador Cavaco Silva.














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