O economista João Rodrigues escreve um artigo ao qual intitula "A tragédia de classes". Utiliza, de forma hábil, uma dialética muito própria de uma mundivisão dividida em classes fazendo notar as péssimas condições que as pessoas mais desfavorecidas têm em Portugal e a desigualdade crescentemente gritante que existe em Portugal.
Só que o verdadeiro problema não são classes, mas efectivamente a inexistência de classes e a insistência, por parte de quem demonstra revelar uma grande preocupação por problemas sérios, de moldar a realidade aos pressupostos da sua visão da sociedade.
E se a desigualdade dá o contexto emocional propicio a existencia de fracturas, toda esta retórica do João Rodrigues (identica a muitos outros, à esquerda e à direita) serve de suporte racional a criar essa clivagem.
E a tragédia nasce daí, dessa criacção do "nós" contra "eles" que vai criar sérios problemas em Portugal e agravará substancialmente os problemas que o próprio tenta resolver. É que efectivamente estamos todos no mesmo barco, embora uns no convés e outros na proa, e se o barco afundar, afundará para todos e afectará os que já hoje estão desprotegidos, que não é o caso do meu caro João Rodrigues.
Pegando em alguns pontos levantados pelo João Rodrigues ("pobreza infantil, a mobilidade entre classes, etc...) se é verdade que estamos "bem acompanhados pelos países anglo-saxónicos" também não é menos verdade que tal realidade existe num país moldado pelo socialismo pelo que a solução não passará por essa concepção (obviamente muito menos por uma concepção "libertária" e que o João Rodrigues confunde, erradamente, como sendo liberal).
Voltando ao texto de João Rodrigues ele aponta dois pontos:
1) "...desigualdades salariais baixas antes de impostos, o que pressupõe negociação colectiva centralizada e fora da empresa entre patrões e sindicatos..."
Neste caso, concordo com a importância de uma negociação colectiva forte. Só que ao contrário do que aponta, tal negociação não deverá ter o foco fora da empresa aquando a dimensão da mesma seja média ou grande. Só que essa negociação não acontecerá com os sindicatos actuais que ao se politizarem abandonaram o seu foco na melhoria de condições dos trabalhadores. Infelizmente esta é uma realidade a que o discurso de João Rodrigues é omissa e que não cruza com uma certa visão da sociedade: é que os sindicatos que são peça fundamental da resolução do problema, são, no entanto, actualmente uma das partes do problema e pela sua acção em Portugal têm perpetuado as desigualdades.
2) "Note-se desde já que a flexibilidade laboral é, no contexto português, o nome de código liberal para maior facilidade em transferir custos para os trabalhadores sob a forma de horários de trabalho baralhados e mais longos, custos reduzidos no despedimento, salários mais baixos e mais desiguais. Assim soa pior, não soa?"
Não sou ingénuo o suficiente para não reconhecer que algumas das pessoas defendem a flexibilidade com esse propósito. Só que existe efectivamente um problema de rigidez laboral em Portugal. E não é um problema de agora, mas com raizes no passado. E é um problema que afecta muito os próprios trabalhadores, que são os primeiros prejudicados com a legislação laboral actual.
Não defendo com isto o fim dos direitos dos trabalhadores, porquanto eles refletem direitos de cidadãos. No entanto toda a base, profundamente baseada na dialética marxista, dessa mesma legislação tem de ser alterada. Nos ultimos 30 anos tudo mudou. É completamente irrealista que se defende uma lei que não reflita a sociedade de hoje mas sim a sociedade de à 30 anos atrás.














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