Passados 20 anos sobre o célebre incêndio do Chiado, há uma verdade trágica que tem sido relativamente ocultada nos exercícios de memória feitos pela comunicação social.
À custa de uma tragédia humana (2 mortos, vários feridos, vários pequenos e grandes negócios destruídos e cerca de 2000 desempregados), material (toda a zona do Chiado destruída e fechada durante vários anos que pareciam uma eternidade, tal como ainda a conheci), e mental (todo o ambiente social e simbólico próprio que foi destruído), à custa de tudo isto, o Chiado encontrou uma forma de se modernizar, de se renovar até ao ponto de se tornar hoje a zona habitacional mais cara do país e de preencher correctamente o imaginário daquilo que deve ser uma metrópole europeia, antiga e moderna, tradicional e cosmopolita. (é assim que eu a vejo, nas deslocações ocasionais que efectuo a Lisboa.)

No fundo, tal como aconteceu em 1755, mas em menor escala.

O Chiado renovou-se não apenas pela acção da tragédia, como a vegetação que nasce mais forte e viçosa depois de um incêndio, mas também porque as regras que impedem a renovação da Baixa deixaram se aplicar e passou a funcionar a lei do mercado. E essa também é uma verdade trágica.

Retrato de Luís Lavoura

Só foi pena...

Luís Lavoura on Quarta, 27/08/2008 - 08:12

... ter tido que ser o fogo a fazer um serviço, que deveria ter sido antes programado e efetuado pelo Homem.

Excelente post. Assino por baixo. Tal como subscrevo o comentário anterior de Limbo1978.

Luís Lavoura

Quem falou em tragédia?

Limbo1978 on Terça, 26/08/2008 - 21:34

Alternativa seria a permanência de lojas decrépitas que só sobrevivem à custa de rendas baixas, cuja única razão de existência é a ausência de regras de mercado. Trágico, sim, seria termos uma extensão da Baixa na zona do Chiado igualmente disfuncional.

Como disse, o incêndio permitiu a renovação de uma área outrora a caminho do colapso. Chiado é hoje uma zona nobre da cidade no coração de Lisboa, mas se pensarmos bem, não foi o incêndio que salvou o Chiado, mas sim os mecanismos de mercado, assim sendo, como podemos considerar o domínio da lei do mercado a causa de uma tragédia?

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