Retrato de Luís Lavoura

O Conselho de Segurança das Nações Unidas aprovou, a pedido, basicamente, do Reino Unido, da França e dos EUA, a imposição de uma zona de exclusão aérea no espaço aéreo da Líbia (o que quer dizer que apenas aviões de apoio humanitário - mas não aviões comerciais civis - serão autorizados a utilizá-lo). É significativo que todos os quatro BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), que estão no Conselho de Segurança, e também a Alemanha, tenham recusado aprovar tal imposição. Temos aqui uma importante dissensão entre os quatro BRIC, em peso, e o "Ocidente", com o significativo acrescento de que a Alemanha alinha pelos BRIC em vez de alinhar pelo "Ocidente". A seu tempo veremos o que isto significará.

 

A zona de exclusão aérea, se fôr aplicada na prática, poderá ter uma de duas consequências, qualquer delas nefasta:

 

(1) O coronel Gadhafi, sem o apoio da força aérea, é incapaz de ganhar a guerra, a qual se prolonga então no tempo, durante meses ou anos, com a Líbia partida em dois e metade da sua valiosa produção de petróleo perdida. Dezenas de milhares de líbios morrem e padecem numa guerra civil prolongada.

 

(2) O coronel Gadhafi, apesar de não contar com o apoio da força aérea, vence a guerra e conquista a Cirenaica. A zona de exclusão aérea, porém, mantem-se, como forma de vingança do "Ocidente", mais ou menos como aconteceu no Iraque, durante mais uma década. A Líbia fica cortada de contacto aéreo com o mundo exterior. O povo líbio sofre, durante uma década ou mais, a miséria da exclusão de contactos internacionais, para além da miséria do seu ditador.

 

Em qualquer dos dois casos acima mencionados, o petróleo líbio deixa de ser vendido ao "Ocidente" e, provavelmente, a sua produção e comercialização fica seriamente limitada durante uma década ou mais. O preço do petróleo sobe concomitantemente, o que é péssimo para a Europa e para o Japão mas não é assim tão mau para os EUA e para o Reino Unido que, por um lado produzem parte do petróleo de que necessitam, por outro têm uma economia largamente assente na reciclagem financeira das fortunas acumuladas pelos magnatas (estatais e privados) do petróleo.

Há mais cenários Luís: 1. Os

Anónimo (não verificado) on Terça, 22/03/2011 - 03:27

Há mais cenários Luís:

1. Os rebeldes, com ou sem ajuda subterrêanea do ocidente, conquistam o poder convocando eleições e medio prazo;

2. As forças alinhadas ao Gadhafi desertam-no e procuram uma solução de compromisso que leve à constituição de um governo de unidade nacional e a convocação de eleições a medio prazo.

Este cenário seria o melhor e não é impossível que seja o que aconteça.

Miguel Araújo

Retrato de Luís Lavoura

acrescento

Luís Lavoura on Sábado, 19/03/2011 - 16:50

Já depois de ter escrito este post ouvi, ontem à noite, o presidente Obama a transmitir uma instrução a Gadhafi para que ele páre imediatamente a guerra. Dessa instrução deduzi que, afinal, o presidente Obama não se contentará com impôr uma zona de exclusão aérea - ele quer mesmo a paz na Líbia a todo o custo. Pelo que, a acrescentar às possibilidades neste post, vejo mais duas:

 

(3) O "Ocidente" convence, de alguma forma, os líbios a pararem de se guerrear entre si. Doravante existirão então dois Estados - a Tripolitânia, nas mãos de Gadhafi, e a Cirenaica, nas mãos dos "rebeldes" - em vez de apenas um. Será talvez a primeira vez na história internacional em que uma intervenção externa força a divisão de um Estado contra a vontade do seu povo. Fica também por saber qual dos dois Estados disporá de mais petróleo, e qual a viabilidade económica independente de cada um deles.

 

(4) O "Ocidente" invade a Líbia para impôr a paz. Tratar-se-á, mais uma vez, de uma originalidade em matéria de Direito Internacional. Será também, para efeitos práticos, uma conquista manu militari de fontes petrolíferas. Não sei bem como reagirão os BRIC a essa possibilidade, que certamente não será do seu agrado.

 

Enfim, o mundo está cada vez mais perigoso. Uma simples guerra civil passa a poder ser tratada como se fôra um problema internacional. Passa a ser legítima a intervenção armada internacional numa guerra civil.

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