Retrato de João Cardiga

Faz quase 20 anos que me sentei a admirar o que via na televisão. Nessa altura o mundo era diferente, totalmente diferente. Não só o mundo à minha volta como o mundo dentro de mim.

Naquele momento em que via o muro a ser derrubado o meu primeiro pensamento não foi para com os berlinenses em si, mas para parte da minha familia que residia na Alemanha. Como estão? Estarão contentes? Como estão a sentir esse momento? Nessa altura a comunicação ainda não era instantanea como agora e aquelas imagens juntava-nos, engolia distancia e eu sentia uma felicidade por algo de bom se passar num país onde residiam familiares meus.

Apenas depois me apercebi de que à minha frente se estava a fazer história. Julgo que foi este o primeiro momento da minha vida que apreendi a noção de que a história se faz com pessoas e não com heróis e vilões.

Na visão de um miudo de 10 anos, um muro é um muro e serve para separar, naquele caso pessoas. Algo que para mim não fazia nenhum sentido. Nessa altura não entendia comunismos e capitalismo, assim como outros "ismos". Eles ainda não tinham entrado no meu mundo. No meu mundo, a unica coisa que entendia é que existiam pessoas que queriam ir do sitio A para o sitio B e que outras pessoas não queriam deixar e por isso tinham construido um muro.

Assim quando vi aquele muro a cair, foi essa alegria que tive. A alegria de saber que as pessoas agora já eram livres de passar, que um muro, "O" muro, tinha finalmente sido derrubado.

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