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Retrato de Luís Lavoura

Quando eu tinha dezasseis anos fui obrigado a ler, na cadeira de Língua Portuguesa, o romance de Eça de Queiroz Os Maias. Trata-se de um romance para adultos e eu nessa altura não era um adulto, pelo que tive dificuldade em perceber muito do que nele está. Uma das coisas que mais confusão me fez é que, nesse romance, há homens que fazem amor com as esposas dos seus bons amigos e, nos intervalos dessa atividade, continuam a cumprimentar com grande amizade e a tratar com o máximo decoro esses seus amigos, enquanto nas traseiras lhes andam a papar as esposas. Para a minha sensibilidade de adolescente aquilo apareceu como repugnante. Ainda hoje continua a aparecer.

A prática moderna de muitas pessoas que discutem nas caixas de comentários dos blogues é análoga. Depois de iniciarem o comentário com um muito cordial "caro X", prosseguem o comentário insultando e rebaixando o seu opositor X da forma mais soez e desconsiderada possível. Aliás, é quase possível afirmar com segurança que, sempre que um comentário se inicia com um "caro X", esse comentário se destina apenas a insultar X.

A cultura portuguesa é uma cultura muito hipócrita, como constatei na leitura d'Os Maias e continuo a constatar na leitura quotidiana de caixas de comentários.

Em 2007, um grupo restrito de países (mais ricos) iniciaram um processo de elaboração de tratados para criar um novo padrão global para os direitos de propriedade intelectual, que foi designado por ACTA - Anti-Counterfeiting Trade Agreement. Poder-se-ia subentender Acordo de Comercio Anti-Contrafação, no seguimento da legislação já existente nos USA sobre patentes e propriedade intelectual que tratam a pirataria digital como contrafação.

Ora, uma breve consulta ao termo, p.ex. no site dictionary.reference.com, Contrafação é: “made in imitation so as to be passed off fraudulently or deceptively as genuine; not genuine; forged: counterfeit dollar bills”, ou seja, uma imitação fraudulenta ou a iludir a genuína; e ainda, a moeda falsa. Logo, não é o caso! É, na minha opinião, uma estratégia de marketing político brilhante, referente a uma Reprodução, uma “imitação fiel, cópia”; “repetição”. Ahh! E o acordo não cobre a fraude de moeda!

Mas qual surpresa, se seguirmos o rasto ao dinheiro verificamos que tal acordo foi redigido por um comité composto por grandes empresas da indústria do entretenimento e farmacêuticas, que têm visto os seus lucros ameaçados com o surgimento de novos modelos de negócio e da cultura de partilha. Claro que à parte ficam os verdadeiros produtores desses conteúdos – artistas, músicos, engenheiros de software, cientistas.

O ACTA tem forte semelhanças com o PIPA e o SOPA, uma vez que força os ISP’s (Internet Server Providers) – Fornecedores de Acesso à Internet - a realizar o trabalho sujo de censurar conteúdos, na medida que, grosso modo, ficam legalmente responsáveis pelos seus clientes, e uma vez que vão passar a controlar e monitorizar cada bit de informação sua. Sim, o ACTA dá-lhes esse poder!

O mais grave ainda, são os “artigos 5 º e 6 º do tratado pois remetem para a criação de um comité, que pode realizar alterações após o acordo, ficando apenas sujeito à aprovação das partes”, e a “revisão pública ou a revisão judicial não será necessária para criar alterações, bastando para tal que os representantes da indústria procederem às alterações” (fonte: adaptado da wikipédia).

Do lado da contrafação propriamente dita, isto é, na verdadeira aceção da palavra, um país pobre que resolva produzir o genérico para conter um surto mas, ao fazê-lo, viola um direito de patente, terá a vida mais dificultada pela empresa detentora que recusou a venda da cura a um preço razoável.

Contudo, e embora vários países tenham assinado o acordo secretamente, inclusive Portugal, ainda não é vinculante, pois ainda terá de ser ratificado pelo Parlamento Europeu em junho próximo. Assim, ainda temos tempo para combater um conjunto de problemas que a todos diz respeito – nomeadamente a liberdade de informação -, mas que foi negociado longe do escrutínio público e judicial. A informação vigente neste acordo é muito extensa e para compreender com maior profundidade o problema, deixo um link com 5 razões que me parecem razoáveis para rejeitar este acordo – ver http://www.ibtimes.com/articles/286925/20120124/acta-sopa-reasons-scarier-threat-internet-freedom.htm. Boa leitura.

Retrato de Luís Lavoura

Estão muitas pessoas muito escandalizadas com a proposta feita pelo governo alemão, explicitamente pelo chefe do Partido Democrata Livre (FDP) dele participante, Philipp Roesler, de que o orçamento grego seja colocado sob a tutela de um comissário europeu especialmente designado para esse efeito.

A mim essa proposta não me choca demasiadamente. Se a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu emprestam uma elevada quantia à Grécia, quantia sem a qual o país não poderia sobreviver (na sua forma presente), parece-me natural que essas entidades exijam ter um poder concreto sobre a forma como essa quantia vai ser gasta pela Grécia. Se essas entidades não têm confiança em que o governo grego gastará a quantia adequadamente, então é normal que exijam a retirada de alguns poderes orçamentais a esse governo.

(A título de comparação, imagine-se o que deverá o governo português fazer se, no futuro, se constatar que o Governo Regional da Madeira continua a gastar dinheiro de forma irresponsável e o faz em desobediência aos compromissos que recentemente assumiu. Obviamente, em tal caso o governo português terá o direito, de facto a obrigação, de retirar do Governo Regional da Madeira os seus poderes de gastar dinheiro como lhe apraza.)

O que já não me parece, de forma nenhuma, aceitável, é uma outra condição que, aparentemente, o governo alemão pretende impôr: que todo o dinheiro angariado pelo governo grego sob a forma de impostos sirva, antes do mais, para pagar as dívidas do Estado grego. Isso seria, para mim, impôr ao povo grego uma brutal escravatura da dívida, em que o pagamento da dívida teria primazia sobre quaisquer outras necessidades ou políticas da Grécia. Uma coisa é exigir que a Grécia procure pagar as suas dívidas, outra, muito distinta, é impôr que o pagamento das dívidas tenha primazia imediata sobre qualquer outra necessidade da Grécia.

Retrato de Luís Lavoura

Muita gente anda entusiasmada por o primeiro-ministro italiano, Mario Monti, ter dito que a austeridade não basta e que é preciso crescimento económico para que as crises de dívida possam ser resolvidas na Europa.

O problema, porém, é que não é nada óbvio como é que se poderá gerar esse crescimento económico.

A receita liberal para o crescimento, assente em privatizações, abertura dos mercados, etc, pode gerar crescimento mas dificilmente o fará a curto prazo ou de imediato. Não é por um mercado ser liberalizado que, de um dia para o outro, aparecem nele muitas empresas pujantes. Não é por uma empresa ser privatizada que, de um dia para o outro, ela começa a fazer mais negócio e a empregar mais pessoas.

A receita keynesiana para o crescimento gera um crescimento falso, não genuíno, assente em obras públicas desnecessárias e insustentáveis, que custam balúrdios a manter em funcionamento. A título de exemplo temos a Via do Infante, na qual o tráfego diminuiu para metade desde que passaram a ser pagas portagens - sinal seguro de que não há, pura e simplesmente, dinheiro na economia para manter aquela autoestrada. Ou temos aquela marina na Madeira na qual nenhum iate aporta - sinal evidente de que a obra pública é, pura e simplesmente, desnecessária.

A Europa é um continente velho e revelho, com uma população em envelhecimento acelerado, que estaria em contração se não fosse a imigração. E a Europa não quer deixar de o ser - quaisquer propostas para abrir a Europa a mais imigração esbarram numa forte resistência popular. Uma população em regressão dificilmente gera a imensa procura que leva a que projetos de investimento possam ter altas perspetivas de lucro e, portanto, ir em frente.

Além disso, os custos da energia (e de muitas matérias primas) estão em alta constante. Sem energia barata é difícil gerar as altas taxas de lucro dos investimentos que permitem o crescimento.

Mario Monti tem razão, o crescimento é indispensável. O problema é que ninguém sabe bem como alcançá-lo na Europa.

Retrato de Luís Lavoura

O Estado português vendeu os 21% da participação que detinha na EDP a uma empresa estatal chinesa.

Agora prepara-se, aparentemente, para vender 25% da REN a uma empresa estatal chinesa, e mais 15% da REN a uma empresa estatal árabe (do emirato de Omão).

Tenho a vaga impressão de que, quando a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu ordenaram as privatizações ao Estado português, não era exatamente isto que tinham em vista. Deveriam estar a pensar, creio eu, na venda destas participações a empresas privadas europeias e não a empresas estatais asiáticas.

De qualquer forma, é interessante notar que Portugal já é um país com menos empresas estatais do que muitos países avançados da Europa. Por exemplo, em França a empresa produtora de eletricidade é estatal, e na Alemanha a principal empresa de telecomunicações também o é. Em Portugal ambos esses setores estão integralmente privatizados. Podemo-nos perguntar por que é que a Alemanha e a França são países mais avançados e progressivos do que Portugal quando têm mais empresas estatais. Podemos também perguntar por que é que a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu dão ordens ao Estado português mas não as dão aos Estados alemão nem francês.

Entretanto, quando a TAP vier a ser privatizada, não me admirarei se a melhor oferta não vier do Brasil nem da Alemanha mas sim da Arábia. Vai ser giro de ver.

A psicologia ensina-nos que não é tanto o que se diz mas como se diz, mas nem vou entrar por aí, até porque se encontra sujeito a diversas interpretações.

É do conhecimento público o que aufere o Presidente da República. O que não é são as despesas privadas, e Cavaco Silva fez o uso errado da palavra no exercício do instrumento de poder ao revelar tal informação perante a situação que o país atravessa, ou seja, quando proferiu que o que ganha não chega para as despesas.

A petição manifesta a indignação de cidadãos que não se vêem representados pela voz do seu provedor. Mas a mesma vai mais longe, pois resulta também do "medíocre desempenho do Sr. Presidente da República face à sua diminuta intervenção nos assuntos fundamentais e fracturantes da Sociedade Portuguesa". Pessoalmente subscrevo a petição, não pelo acto isolado (pois o país precisa, neste momento, de se focar no essencial e no que é importante), mas em protesto pela fraca qualidade da prestação e que não corresponde ao que se espera do mais alto dignitário do Estado português.

Retrato de Luís Lavoura

Uma ideia genial é como Luís Menezes Leitão descreve, muito apropriadamente, o novo tiro no pé que a União Europeia decidiu dar em si mesma - ou que alguns Estados da União Europeia decidiram dar naqueles que já estão bem massacrados.
Cada vez mais penso que a atual União Europeia é um sítio pouquíssimo recomendável, do qual Portugal faria bem em sair o quanto antes.

Retrato de Luís Lavoura

Este é talvez o post da semana passada que melhor resume o que penso:

"a declaração da Standard & Poor's de que a resposta dos líderes europeus "não está à altura dos riscos" constitui a verdade nua e crua e deveria ser motivo para que os líderes europeus encarassem a sério este problema. Mas o mais provável é que a resposta não esteja à altura dos riscos precisamente porque a Europa não tem neste momento líderes à altura para enfrentar a maior crise de sempre na construção europeia. E não tem também instituições à altura para substituir os actuais líderes por outros que estejam à altura.

Em Portugal o Governo também não tem estado infelizmente à altura da crise. Desbaratou todo o seu capital político em nomeações controversas enquanto as reformas marcam passo. Ao mesmo tempo o Ministro das Finanças conseguiu o prodígio de já estar a falhar a meta do défice de 2012 em 0,9% do PIB apenas duas semanas depois de o ano ter começado. Isto simplesmente porque se esqueceu de contabilizar os efeitos em 2012 da transferência dos fundos de pensões efectuada para salvar o défice de 2011."

(Negritos meus.)

Retrato de Luís Lavoura

Depois de uma campanha publicitária em que recomendava às pessoas que não se reconciliassem, a Associação Portuguesa para o Apoio à Vítima (APAV) vai agora um passo mais longe e, em nova campanha publicitária, recomenda às pessoas que cortem relações.

Faz sentido. De acordo com a APAV, qualquer pequeno erro deve ser o erro final - a pessoa ofendida deve cortar relações e nunca mais se reconciliar com a outra.

Se o mundo fosse vivido de acordo com as recomendações da APAV, seria um inferno de intolerância.

Retrato de Luís Lavoura

Parece que estão a surgir na concertação social, vindas quer da parte das associações patronais, quer dos sindicatos, algumas excelentes propostas para melhorar a lei laboral.
Uma das propostas é a que pretende que as empresas possam decidir encerrar nalguns dias que em geral constituiriam "pontes" em troca de retirar um número correspondente de dias de férias aos trabalhadores. Trata-se de uma proposta positiva pois permitirá (1) às empresas poupar os custos de abertura (segurança, energia, água e limpeza) nalguns dias, mantendo a empresa fechada, (2) aos trabalhadores, permitindo-lhes gozar fins-de-semana prolongados, (3) ao setor turístico interno, permitindo-lhe programar alguns fins-de-semana de maior afluência.
Outra proposta é permitir que as empresas negoceiem com os trabalhadores uma redução temporária do horário de trabalho com a correspondente redução no salário. Seria uma solução excelente, inclusivé para certos trabalhadores que, por motivos familiares ou de pré-reforma, desejem trabalhar menos horas durante algum tempo. Poderia também acabar por constituir uma forma de dividir o mesmo trabalho por mais trabalhadores (mas com salários reduzidos), reduzindo o desemprego e as desigualdades sociais.
É saudável ver estas propostas úteis a surgir diretamente das associações civis, e ver estas dispostas a negociar diretamente umas com as outras, sem necessidade do governo de permeio.