O blogue de Ismael Paulino

O ressabiamento da direita portuguesa é de tal forma que parece aplaudir o anúncio pela Rússia da instalação de mísseis em Kaliningrado, omitindo que se trata de um simples e bem pensado desafio ao escolher precisamente o dia após as eleições norte-americanas para o fazer. O "anti-Obamismo" pode ser, afinal, um reverso igualmente infantil e perigoso do anti-americanismo. Eu, pelo menos, continuo a olhar a Rússia como um potencial perigo geoestratégico - e espero, naturalmente, que a nova administração americana saiba não ceder a pressões.

A vitória eleitoral de Obama é explicada por uma grandiosa e bem orquestrada campanha de marketing, que reuniu, num só momento, o apoio total e descarado dos media, o voto rácico que é bom a favor de um negro e se for de esquerda, e mau se for contra um negro ou de direita, e uma campanha baseada em poucos factos concretos, promessas vagas e um vazio ideológico, que vai ruir como um castelo de cartas, bem como a crise que vai cessar imediatamente após esta vitória eleitoral.
Sendo parcialmente verdade, esta visão - a da direita portuguesa - era perfeitamente expectável. Porque não havia Obama de ser uma grande jogada de marketing, depois de Bush ter sido eleito como "o gajo com quem vamos beber uma cerveja?" Porque não haveria Obama de ter o apoio dos media, depois de duas administrações republicanas que se pautaram pela distorção, pela omissão e pela mentira? Porque não haveriam as pessoas de esperar essa coisa tão vaga e espúria como "esperança", depois de 7 anos sob uma capa de terror e de medo que gradualmente se vai desvanecendo, à medida que a Al-Qaeda se vai revelando menos ameaçadora que a União Soviética, ainda por cima durante o impacto da crise financeira? Esperança e redenção foi afinal o que prometeu Jesus Cristo, e consta que teve bastante êxito.
Quanto à crise, talvez tenha sido exagerada pelos media norte-americanos para prejudicar a campanha republicana. Esperemos que sim, pois há quem preveja, por exemplo, o colapso do sistema bancário português e a saída de Portugal do euro.

Que existam pessoas acusadas de crimes em partidos políticos ou quaisquer outras associações, sendo de lamentar, não deve surpreender demasiado. Todas os grupos têm as suas "ovelhas negras."
Contudo, não deixa de ser curioso que, e de acordo com esta notícia , um militante do Partido Nacional Renovador, para mais nascido num país estrangeiro, se dedicasse à imigração ilegal, em completo desacordo com as orientações do seu partido...

Várias forças políticas atacaram o espectáculo que a Renault trouxe ao centro de Lisboa no último fim-de-semana. Porque "dá um sinal errado", porque "causa ruído", pela "poluição atmosférica", porque se trata de "vender" o espaço público a qualquer preço, porque causa transtorno devido ao corte do trânsito, em suma, porque não gostam do espectáculo e se permitem criar algum buzz mediático.
Quando determinados acontecimentos políticos não se enquadram num sistema político-ideológico, a análise política aparece totalmente deslocada e fora de contexto, querendo complicar o que é simples. Isto é mais frequente em questões autárquicas, que se enquadram menos dessa forma.
O Roadshow da Renault obrigou ao corte de trânsito na Avenida da Liberdade durante dois dias, diminuindo a poluição sonora e atmosférica à custa da passagem de alguns carros cujo ruído, somando as parcelas dos segundos gastos para cima e para baixo, não deve ter ultrapassado 10 minutos. Pessoas a passear despreocupadamente, fizeram lembrar o Dia sem Carros. A Renault, que entende ser esta iniciativa do seu interesse e por isso já a levou a vários países, pagou todas as taxas exigidas, o que incluiu um reasfaltamento da zona. O público certamente criou algum lucro aos comerciantes locais. Fica a pergunta: porquê complicar o que é simples?

"A Força Aérea Portuguesa é a única Força Aérea no mundo que tem uma santa padroeira atribuída por despacho Papal – a Nossa Senhora do Ar. Contudo, essa característica única, não deixa o Ramo aeronáutico das Forças Armadas Portuguesas insensível às celebrações daquela que é internacionalmente considerada como a Santa Padroeira da Aviação Universal – a Nossa Senhora do Loreto."

retirado do portal da Força Aérea Portuguesa

O que sucedeu nos Estados Unidos significa que o "liberalismo", o "capitalismo" e a "economia de mercado" falharam. É claro que sim. Quando duas empresas abocanham o mercado sem concorrência (a criação da segunda empresa foi apenas para a transformação de um monopólio em duopólio) e contam com o pleno apoio do Estado para o fazer, isso significa que os "checks and balances" associados à regulação da economia, nomeadamente o funcionamento de regras de concorrência e o não estabelecimento de privilégios estatais dos quais as empresas tendem, inevitavelmente, a abusar, não funcionaram correctamente. É verdade: até nos Estados Unidos, o suposto "paraíso neo-liberal", existem distorções estatais ao mercado.

Num comentário ao mesmo post, diz João Miranda que "um modelo negócio que não consegue cobrar bilhetes é um negócio de negócio com problemas. Veja-se as centenas de start ups da internet que faliram." Dependendo do uso da expressão "cobrar bilhetes", a verdade é que o modelo de negócio mais frequente na internet é precisamente o contrário; não cobrar bilhetes e apostar no uso em massa pelos utilizadores. Se houver muitas pessoas a utilizar gratuitamente, haverá maneira de ganhar dinheiro com isso (geralmente através de publicidade.) Para a Red Bull, e como bem disse o Luís Menezes, o retorno do evento é óbvio.

Diz Luís Rocha, no Blasfémias, que este fim de semana haverá circo no Porto, referindo-se à Red Bull Air Race.
Por todo o mundo, cidades e países competem para atrair determinado tipo de eventos. Aqui bem perto de nós, a cidade de Valencia dispõe da vela e da fórmula 1 (não sei exactamente em que datas ou em que moldes; sei que Valencia as teve, e é isso que conta em termos de notoriedade) e tal faz parte de uma estratégia para colocar a cidade no mapa das atracções turísticas associadas ao glamour e ao Mediterrâneo, competindo internamente com o papel internacional de Madrid e Barcelona e internacionalmente com o Monaco. Tal poderá trazer benefícios à economia local e é, portanto, apoiado pelos poderes locais.
Já para não falar nos Emirados Árabes Unidos, cujo emirado mais conhecido (o Dubai) o é precisamente graças a uma intenso investimento em glamour, expresso em construções exorbitantes e, também, numa poderosa campanha de marketing viral (quem não recebeu já dezenas de mails com aquele campo de golfe no topo de um edifício?). Também lá têm os aviõezinhos.
Num momento em que o único ícone que empresta visibilidade internacional (e estamos a falar de marketing, de imagem, de "circo" propriamente dito, porque por mais "vazio" que seja o marketing, é sempre necessário) à cidade do FC Porto está sob ataque regular do sr. Platini (as últimas declarações vêm impedir que se deixe de falar no caso), a Red Bull Air Race é a melhor resposta para dar visibilidade mundial à cidade. Ou deveria dizer às cidades: as excelentes imagens circenses com toda a beleza da Ribeira, das caves e da Ponte, transmitidas para milhões de telespectadores em todo o mundo, fazem mais pela notoriedade internacional do Porto e de Gaia do que qualquer campanha fotográfica de promoção, ou do género Allgarve. Se o investimento é público - parece-me um excelente investimento.
Mas por cá, já o dr. Salazar dizia que não gostamos muito de circo.

Assinalou-se há pouco o vigésimo aniversário da morte de Carlos Paião num acidente automóvel.
Enquanto as pessoas – mais que “os políticos” - clamam por mais polícias, mais prisões preventivas, detenções indiscriminadas e por que não a pena de morte, as grandes ondas de crimes, que causam muito mais mortos, feridos e destruição na sociedade, não têm a sua atenção. Falo da violência doméstica e da guerra civil nas estradas.
Mais uma vez, é a leitura do Correio da Manhã a falar por mim. Desde a generalização das motorizadas e dos automóveis que são às dezenas de milhar os cidadãos afectados por esta guerra. Criminosos que se destroem a si próprios e, muitas vezes, levam pessoas inocentes consigo. As estatísticas dizem que a situação tende, finalmente, a melhorar nos últimos anos, mas continua a haver mortes inúteis. Porque não exigir medidas enérgicas? Carta por pontos, cassação de carta à primeira infracção muito grave a condutores com menos de cinco anos de experiência, proibição de voltar a tirar a carta a causadores de acidentes, prisão para quem causar mortes na estrada? Porque razão ninguém se volta contra estes criminosos? Será por sermos uma sociedade de cultura católica? Há tempos, o Dr. Arroja, honestamente preocupado com a estabilidade e o bem-estar da sociedade, argumentava que “speeding on the highway” e afins eram pequenos pecadilhos que faziam parte de uma cultura de liberdade individual, e que regras de trânsito apertadas são “importações da cultura protestante”. Se o dr. Arroja o diz, ele que até defende o direito à propriedade privada e à capacidade de as pessoas se protegerem a si próprias das agressões da sociedade, como poderíamos esperar que os outros defendessem regras que impedissem este tipo de criminosos de se atirarem para cima de qualquer cidadão indefeso?
Quando os criminosos da violência doméstica e privada – a violência mais pérfida, pois provêm daqueles que têm mais responsabilidade de protecção e apoio – e da estrada tiverem a mesma atenção que os do carjacking, estaremos no caminho de nos tornamos uma sociedade com maior respeito pela vida e pela propriedade privada – uma sociedade mais livre.

Quando alguns indivíduos assaltam um banco ou uma ourivesaria estão a roubar por motivos económicos, racionais e facilmente identificáveis. Evidentemente, devem ser subtraídos à sociedade e punidos, pois tais comportamentos não são admissíveis.
Quando uma população vê que uma infra-estrutura falha repetidamente, causa vítimas mortais e danos psicológicos terríveis a essa população que vai continuar a utilizá-la, ninguém consegue perceber quais os motivos que explicam isso. Se me levarem o carro, é péssimo, mas eu posso compreender; mas se a linha férrea que eu utilizo tiver acidentes continuamente, como posso eu compreender isso? Incúria? Sabotagem? Sabotagem por parte do Estado, através da incúria? Mas porquê? Essa incompreensão dos motivos torna a aceitação da adversidade muito mais difícil.
O que está a acontecer em Trás-Os-Montes é absolutamente criminoso, e assume a forma de “onda” – porque os acidentes sucedem-se e não parecem ter fim à vista. Há pessoas a morrer. Querem fechar a Linha para construir a barragem? Fechem-na. Se não, são urgentes obras de reparação. Esta situação é que não é sustentável – especialmente num país onde as pontes caem, onde a sociedade já devia ter medo e estar alertada para este tipo de fenómenos terceiro-mundistas não acontecerem.
Entretanto, discute-se o investimento num comboio de Alta Velocidade.