O blogue de Luís Humberto Teixeira

Motivado pela entrada "Gaspar Castelo-Branco - foi decidido esquecê-lo", publicada n'O Acidental, decidi fazer uma busca na Internet por "Gaspar Castelo-Branco", tendo reparado que, entre os registos do Google, havia um que apontava para o site do Instituto da Comunicação Social.

Seguir o link directamente não deu resultado, mas vi pelo texto de amostra dado que a página catalogada pelo Google continha uma referência a "Sempre (Trimestral)".

Conhecendo a base de dados do ICS, percebi que era o nome de uma publicação que ali estava registada e pensei que o erro no link se devia ao facto de o registo já lá não estar. Porém, ainda assim, fui confirmar.

Dirigi-me à base de dados de registos do ICS e introduzi "Gaspar Castelo Branco" (sem as aspas) no campo "Palavra".
E lá estava então, 20 anos depois da sua morte, Gaspar Castelo-Branco como director da "Sempre", uma publicação trimestral propriedade do Ministério da Justiça - Estabelecimento Prisional de Lisboa...

Desconheço se a "Sempre" ainda existe, mas tenho a certeza que Gaspar Castelo-Branco já não é o seu director há, pelo menos, 20 anos, dado que foi assassinado a 15 de Fevereiro de 1986, no exercício das suas funções de Director-Geral dos Serviços Prisionais.

Infelizmente, esta curiosidade ajuda a comprovar a ideia de que este antigo funcionário do Estado está realmente esquecido, além de contribuir igualmente para avivar a minha ideia de que o serviço de manutenção dos registos de publicações periódicas do ICS podia funcionar melhor do que funciona... mas isso é matéria para outro post ou para outro e-mail de reclamação.

Vi no Clube de Jornalistas a seguinte informação:
"O Millennium-BCP é o principal accionista do semanário cujo lançamento José António Saraiva está a preparar.
O banco pôs à disposição do ex-director do «Expresso» e de um pequeno grupo de colaboradores, entre os quais José António Lima, um espaço provisório num dos seus edifícios.
O BCP tem sido, geralmente, conotado com o Opus Dei e há quem sugira que o lançamento do semanário poderá representar um salto significativo na relação da «Obra» com os media."

A notícia prossegue, referindo os planos da Opus Dei para a comunicação social brasileira. Seguindo os links indicados, chegamos a algumas pessoas e entidades empenhadas em aumentar a influência da «Obra». Entre elas está a consultora Innovation, que de imediato reconheci, pois recebi formação da mesma em 1999, num curso para descoberta de Novos Valores na área do jornalismo promovido pelo semanário Expresso, então dirigido por José António Saraiva.

A par da informação que foi avançada pelo Clube de Jornalistas, este dado poderá contribuir para fortalecer a teoria de eventuais ligações de José António Saraiva à Opus Dei.
Em princípio, essas ligações nada têm de mal. Cada qual é livre de escolher a quem se associa e de tentar difundir os valores que defende através de um meio de comunicação.

De tudo isto, só há uma coisa que me deixa com a pulga atrás da orelha: porque é que há tanto secretismo em torno de entidades como a Opus Dei?
Ou seja, porque é que só 7 anos depois é que fiquei a saber - quase por mero acaso - que estive num curso ministrado por uma consultora directamente ligada à Opus Dei? Não podiam ter aberto logo o jogo?
E porque é que ainda hoje me lembro claramente da frase "La mamá tiene siempre razón...", que foi repetida até à exaustão nessa formação dada pela Innovation a estudantes que aspiravam a ser jornalistas do Expresso?

Quem escreve os discursos tem sempre muita atenção às palavras e, por vezes, gosta de pregar pequenos sustos aos adversários, sobretudo se estes foram derrotados.

Atente-se, por exemplo, no discurso de Cavaco Silva:
"Neste exacto momento dissolve-se a maioria (centésimos de segundo asfixiantes para os socialistas, que aguardam apreensivos pelas palavras seguintes) que me elegeu (suspiros de alívio e regresso dos batimentos cardíacos). Quero ser e serei o Presidente de todos os portugueses."

Cavaco venceu à primeira, com mais 64.138 votos do que todos os seus adversários juntos. De certo modo foi à tangente, sobretudo se pensarmos que 58.868 pessoas optaram por votar em branco e 43.405 anularam o seu voto.

Quantos destes eleitores que votaram branco ou nulo estariam com vontade de votar em Manuela Magno, Luís Filipe Guerra ou Botelho Ribeiro, três dos candidatos que foram excluídos por questões burocráticas? E quantos dos apoiantes destes candidatos terão ficado em casa, a contribuir para as estatísticas da abstenção?

Nunca saberemos as respostas a estas perguntas. Todavia, se Manuela Magno e companhia tivessem sido aceites poderiamos ter agora como cenário uma segunda volta. Afinal, se Garcia Pereira obteve 23.650 votos sozinho, porque não se reuniriam 64.139 votos em torno de mais três candidatos alternativos?

A transmissão televisiva do discurso de Manuel Alegre - o segundo candidato mais votado nas Presidenciais - foi interrompido para dar voz a José Sócrates - que nem sequer era candidato.
Após forte reprimenda de Helena Roseta, a SIC fez um mea culpa e passou depois em diferido o discurso de Alegre na íntegra.
Momentos depois emitiu também a explicação oficial do primeiro-ministro, que afirmou que não sabia que Alegre estava a discursar. Só temos de acreditar, pois Sócrates não nos ia mentir em assunto tão sério, nem seria mesquinho a ponto de tentar - e conseguir - levar as televisões a "calar" Alegre.

Se já sabemos de outros tempos que o novo Presidente da República não lê jornais, depois desta explicação oficial ficamos a saber que o primeiro-ministro não vê televisão. A comunicação social que tire as devidas ilações destes comportamentos.

Reality show
Mas se muito se falou do silenciamento de Alegre, pouco se disse acerca da forma como a televisão também interrompeu o discurso de Jerónimo de Sousa, optando por transmitir imagens de Cavaco a sair de casa.
Silencioso como Cavaco andou durante a campanha, alguém esperava que ele falasse à saída de casa, quando nem sequer tinha um local estável onde pousar o discurso?
E que dizer da câmara que a SIC apontou a uma janela da casa particular do candidato vencedor? Estávamos perante a transmissão de uma eleição presidencial ou de uma final do Big Brother?

Sócrates considerou "absolutamente demagógica e fantasista" a proposta da CGTP de fazer subir o salário mínimo nacional para 500 euros até 2010.
Não conheço pormenores dessa proposta, mas acredito que tenha sido devidamente fundamentada e que merecesse, pelo menos, alguma atenção por parte do primeiro-ministro.

Porém, José Sócrates optou por descartar a proposta em três tempos, alegando que "uma tão súbita variação nos salários só traria mais desemprego e aumento da inflação". Será assim tão claro que uma coisa seja consequência da outra? Será que o efeito psicológico desse aumento do salário mínimo não dinamizaria o consumo interno, ajudando assim à recuperação da economia e, eventualmente, à criação de emprego?

Já se viu perfeitamente que não foram as medidas de contenção aplicadas pelos três últimos governos que evitaram o aumento do desemprego e a subida da inflação. Aliás, a única coisa que aumentou durante este tempo foram os escândalos públicos relacionados com as elevadas reformas e subvenções estatais de alguns (ex-)responsáveis políticos.
Se tal antes não suscitara falatório público não era porque não existisse, mas porque o fosso entre ricos e pobres era menor, o que dava um dramatismo menos mediatizável à questão.

Assim sendo, é preciso inverter o sentido deste fosso - fazê-lo diminuir em vez de aumentar. É preciso contrariar a actual política de salários baixos que vigora em Portugal e que, como já se viu, só gera miséria em grandes camadas da população. É que, com miséria não há liberdade.