O blogue de Luis Vaz Silva

Ver passar os comboios

Um dos factos mais marcantes desta época (quase-) eleitoral é o adiamento da decisão relativamente à introdução do TGV em Portugal. Sendo um projecto de uma dimensão invulgar no nosso país (fala-se em 8000 a 9000 milhões, excluindo as habituais derrapagens), deve ser debatido e objecto de um consenso alargado. O referido adiamento vem possibilitar ambos (o debate e um eventual consenso), e este artigo deve ser entendido como um contributo (desejavelmente) construtivo para este debate.
Antes de incidir sobre o projecto português para o TGV, convém perceber como e porquê surgiram os primeiros comboios de alta velocidade. Resumidamente, os primeiros TGV’s surgiram no Japão e em França nos últimos 40 anos. O que une estes dois países? Economias com muito capital per capita (traduzido para português: eles tinham dinheiro para gastar), eixos muito populosos e grandes problemas de congestionamento nos transportes domésticos. O Japão é um arquipélago de ilhas montanhosas que tenta acomodar uma população de 120 milhões de habitantes em áreas úteis muito exíguas junto ao litoral. O congestionamento das vias de tráfego existentes é de tal forma evidente, que a TAP mesmo que decidisse voar para Tóquio não o podia fazer porque este aeroporto não aceita mais tráfego. Provavelmente teria que voar para um aeroporto a centenas de quilómetros da capital. Também a França passou por problemas parecidos na década de 70 (a certa altura tinha o recorde Guinness para o maior engarrafamento automóvel da história com uma fila de centenas de quilómetros entre Paris e as praias do mediterrâneo). O que aprendemos neste espaço de tempo, é que o TGV pode ser um meio útil para resolver estes problemas.
Confrontando a situação portuguesa com a destes países rapidamente surgem diferenças óbvias. Para começar não temos o dinheiro: a dívida externa é de 100% do PIB, a dívida pública já vai em 75% e o défice orçamental em 6%. Mesmo sem grandes obras públicas já vai ser suficientemente difícil ao novo governo pôr as finanças em ordem. Ora como não temos o dinheiro, temos que o pedir emprestado no exterior. Isto não teria que ser o fim do mundo se o projecto fosse rentável: ele pagava-se a si mesmo. Infelizmente, mesmo as premissas mais optimistas apontam para que o projecto se pague em cerca de 40% (já vi várias estimativas todas em torno deste valor). Agora imaginem que os estrangeiros nos peçam juros mais elevados, ou que as premissas optimistas em termos de tráfego não se concretizem, ou que os custos de construção derrapem os habituais 20% a 30%...
Das várias linhas previstas a que faz menos sentido é a linha Lisboa-Madrid. Não é um eixo particularmente populoso (entre Badajoz e Madrid aí sim mais parece um deserto) nem existem congestionamentos rodoviários ou de tráfego aéreo evidentes. O projecto proposto prevê 9,4 milhões de passageiros/ano quando a linha Paris-Lyon tinha o dobro ao fim de 10 anos (o que permitiu aos franceses receitas superiores aos custos variáveis). Com apenas metade do tráfego previsto estamos a correr sérios riscos de acumular prejuízos anuais e ninguém está sequer a sonhar com a recuperação do investimento inicial. Mas as más notícias não acabam aqui: os 9,4 milhões de passageiros entre Lisboa e Madrid não existem, mesmo com vias descongestionadas. Seria necessário o TGV capturar todo o tráfego aéreo que existe entre Lisboa e Madrid (4 milhões) e inventar algures mais 5 milhões. Sabendo que posso conduzir o meu carro até Madrid por €50 (e dividir a despesa por mais ocupantes), ou que posso voar pelo mesmo preço, não vejo grande vantagem em pagar bilhetes de TGV a €100 por cada trajecto. Uma casal vai e vem de carro por €100 enquanto de comboio fica em €400…
Muito mais interessante é a ligação Lisboa-Porto. Aqui sim existe um eixo populoso e o comboio pode ser competitivo com o avião e o carro. Sabemos que na faixa litoral entre Setúbal e Braga residem cerca de 75% da população portuguesa. Juntando a Galiza obtemos uma faixa atlântica com 10 milhões de habitantes. É o nosso eixo fundamental, que pode e deve ser modernizado em termos ferroviários. Mas mesmo aqui tenho dúvidas que o TGV seja a melhor solução. Este é muito bom para distâncias de 200km ou 300km sem necessidade de paragens intermédias para não perder a vantagem da velocidade. Ninguém vai construir uma linha preparada para velocidades de 350km/h se o comboio depois para a cada 50km…Exactamente como existe em França e Espanha: cidades muito grandes espaçadas a poucas centenas de quilómetros entre si.
Ora, a distribuição da população em Portugal é menos compacta, estando distribuída ao longo de toda a faixa atlântica. Nós precisamos menos de uma ligação ultra-rápida Lisboa-Porto que “voa” sobre a região centro, e (cada) vez mais de um serviço tipo shuttle que ligue toda esta faixa de uma forma rápida eficiente. Adapta-se melhor à nossa realidade um comboio ainda rápido (200km/h a 250km/h) que seja eficaz no eixo Setúbal-Lisboa-Leiria-Coimbra-Aveiro-Porto-Braga-Vigo-Corunha. Perdemos 30 ou 45 minutos entre Lisboa e o Porto mas ganhamos muitos passageiros captados ao longo do percurso.
É uma tecnologia bem conhecida (os ICE alemães ou Pendolinos italianos) que raramente é referida/proposta em Portugal. É consideravelmente mais barata (pelo menos 15%) e até podemos aproveitar grande parte do corredor da linha do Norte. A combinação de custos de construção mais baixos, com bilhetes mais baratos e mais tráfego capturado nas capitais de distrito faz com que esta opção seja economicamente mais viável e atractiva. Desistindo da linha para Madrid e optando por esta solução para o nosso litoral podemos poupar milhares de milhões e ainda ficar melhor servidos em termos de serviço prestado ao público. Temos ainda a vantagem de poder modernizar gradualmente a linha troço a troço (à medida das disponibilidades do país e sem necessidade de entrar logo com o dinheiro todo) e até podemos aproveitar o material circulante que já existe em Portugal (os famosos Pendolini). Também não é grande vergonha abandonar o projecto tal como está: os suiços ricos têm um dos sistemas ferroviários mais elogiados do mundo sem entrarem em grandes velocidades. O que importa é que satisfaça as necessidades locais. No fundo, é uma questão de comprar uma solução que funciona bem em França/Espanha e tentar adaptar o país a esta solução, ou comprar uma solução mais barata e que possivelmente se adapte melhor as condições portuguesas. Agora é só fazer contas.

Luís Vaz Silva
luis.silva@ucd.ie