O blogue de Luís Lavoura

Retrato de Luís Lavoura

Lamentavelmente o fundamentalismo religioso está hoje a tornar-se cada vez mais frequente nas mais diversas religiões. Cada vez mais as pessoas se separam por linhas de clivagem religiosas, ao contrário do que aconteceria há uns 50 ou 100 anos atrás. Veja-se aqui um exemplo tirado do moderno Israel - um país onde as pessoas que não são religiosas, ou que não são etnicamente tão puras quanto os fundamentalistas exigem, não se podem casar (ou então, têm que ir casar-se ao estrangeiro) porque o Estado está totalmente empossado pela sua religião oficial.

Retrato de Luís Lavoura

Uma entrevista muito notável a Pedro Ferraz da Costa sobre o estado da economia portuguesa e sobre o malogrado Plano de Estabilidade e Crescimento do governo - que, como ele diz, contem insuficiente estabilidade e crescimento absolutamente nenhum. Deverá estar disponível em breve (na segunda-feira, julgo) em

www.rtp.pt/programas/estesabado

Vão lá e ouçam. Dura meia hora, mas cada minuto vale a pena.

Retrato de Luís Lavoura

Recebi ontem a minha conta de IMI (Imposto Municipal sobre Imóveis) a pagar. Verifiquei com espanto que os prédios urbanos pagam esta ano mais 3,75% de IMI do que no ano passado. Isto num ano em que a inflação oficial foi nula ou negativa, em que as rendas não foram autorizadas a subir, e em que o mercado imobiliário se encontra largamente paralisado e com preços estagnados.

Eu gostava de saber onde é que o poder político foi descobrir que houve uma valorização dos imóveis em 3,75% este ano.

É claro que isto é um aumento de impostos (não muito) encapotado, o que é legítimo. As Câmaras Municipais estão tão endividadas e com tanto deficit quanto o Estado central, pelo que desejam aumentar as suas receitas sacando mais aos munícipes. Mas, sugiro eu, haveria formas bem mais justas de efetuar um aumento do IMI, nomeadamente:

(1) Eliminando progressivamente as isenções de IMI, nomeadamente as isenções que beneficiam casas compradas recentemente. Não há qualquer razão social para que o Estado favoreça quem compra casa própria e lhe ofereça uma isenção de IMI por muitos (dez, creio eu) anos. Há também um conjunto de outras isenções ao IMI que não têm qualquer justificação social. No fundo, trata-se sempre de isenções fiscais que favorecem essencialmente a classe alta. O meu entendimento é que os impostos devem ser tendencialmente planos, o que implica a não existência de deduções nem de isenções fiscais.

(2) Tornando mais rápido o processo de reavaliação fiscal de imóveis mais velhos. Atualmente esses imóveis só são reavaliados quando mudam de proprietário. Penso que essa regra poderia ser alterada, obrigando à progressiva reavaliação fiscal dos imóveis mesmo quando o proprietário não se altera. Isso conduziria a um aumento do IMI sobre imóveis que hoje continuam a ser injustamente beneficiados por manterem um valor fiscal muito inferior ao valor real.

Retrato de Luís Lavoura

No seguimento da apresentação do PEC, diversos comentadores têm afirmado que a restrição nele prevista a algumas deduções fiscais constitui um ataque à classe média.

Isto é uma frase populista. Acontece que "classe média" é um conceito muito mal definido, em particular porque quase toda a gente gosta de dizer que pertence à classe média. Fica muito mal uma pessoa dizer que pertence à classe baixa mas também é pouco elegante dizer-se que se pertence à classe alta, pelo que toda a gente que se quer bem acaba por dizer que pertence à classe média. A classe média acaba pois por abarcar uma imensidão de gente, e é facilitista qualquer um argumentar que o Estado está a atacar uma coisa tão grande e informe como seja a classe média.

Recentemente houve na blogosfera uma discussão sobre "classe média" entre Fernanda Câncio (FC) e Luís Aguiar-Conraria (LAC). FC afirmou que quase todas as pessoas da classe média hoje em dia têm ao seu serviço uma mulher-a-dias. LAC contrapôs que os rendimentos da classe média em Portugal são de tal forma baixos que não dão para contratar uma mulher-a-dias.

O cerne da argumentação de LAC é que, fazendo a média dos rendimentos em Portugal, a classe média em Portugal é constituída por pessoas que ganham qualquer coisa como 750 euros por mês. As pessoas que ganham 1500 euros por mês não são portanto da classe média - são da classe alta. As pessoas de quem FC falava, que têm uma mulher-a-dias para as ajudar nos afazeres caseiros, não são de facto classe média - são classe alta.

O corte nos benefícios fiscais que o governo agora pretende implementar constitui, suspeito eu, precisamente um ataque à classe alta - não à classe média. Porque em Portugal a classe média não tem dinheiro para pôr os filhos numa escola privada e dificilmente tem dinheiro para efetuar despesas em saúde que ultrapassem as compras de alguns fármacos.

Seria bom que os comentadores aceitassem que, quando falam em classe média, estão de facto, tal como FC, a referir-se sobretudo a pessoas da classe alta.

Retrato de Luís Lavoura

Recorrentemente os políticos e comentadores do Porto queixam-se de que o Estado desinveste na sua região e investe prioritariamente em Lisboa. Ainda agora voltamos a ouvir essa lengalenga, pelas vozes de Rui Rio e de Rui Moreira, queixando-se de que o Estado vai deixar de construir um TGV Lisboa-Porto e um TGV Porto-Vigo.

Eu recentemente fui duas vezes de automóvel à região do Porto. Qual não é o meu espanto ao deparar com a auto-estrada A1 quase totalmente vazia de automóveis na terra de Santa Maria. Só então me lembrei de que há atualmente, quase encostada a essa autoestrada A1, uma outra autoestrada paralela mas onde não se paga portagem. Nós cá em Lisboa não temos luxos desses, duas autoestradas a correr em paralelo. Continuando em direção a Norte, deparo com um maravilhoso trecho de uns dez quilómetros em qua a A1 tem quatro faixas em cada sentido, com um tráfego porém diminuto. Uma maravilha, uma autoestrada larguíssima mas com pouquíssimo tráfego. Nós cá em Lisboa não temos disso, até Vila Franca (20 quilómetros) há apenas três faixas e quase sempre com muito tráfego.

Fiquei convencido de que os queixumes portuenses não têm razão de ser. A região do Porto está muito melhor servida de autoestradas do que a de Lisboa.

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Pelo que se vai conhecendo sobre o futuro PEC - plano governamental para o equilíbrio das finanças públicas -, parece-me que este só muito improvavelmente irá cumprir o objetivo que se propõe.

O plano apoia-se em quatro vertentes:

(1) acreditar que o PIB crescerá, o que permitirá arrecadar mais impostos:

(2) um ligeiro aumento de impostos, por via da eliminação de algumas deduções fiscais;

(3) a eliminação (por enquanto, apenas adiamento) de alguns investimentos públicos, em particular as linhas de TGV Lisboa-Porto e Porto-Vigo;

(4) a privatização de algumas empresas públicas, como a REN, a TAP e os CTT.

Quanto ao ponto (1), parece-me que isso é "contar com o ovo no cu da galinha". Portugal tem desde há muitos anos um fraco potencial de crescimento, em particular devido à estagnação demográfica. Tenho sérias dúvidas de que o crescimento ao longo dos próximos três anos possa ser de molde a aumentar significativamente a cobrança de impostos.

Quanto ao ponto (2), parece-me em princípio positivo, na medida qme que muitas das atuais deduções fiscais distorcem abusivamente o sistema fiscal e são de facto injustas.

Quanto ao ponto (3), é evidentemente positivo, embora muito insuficiente.

Quanto ao ponto (4), não altera de forma prolongada o balanço entre despesas e receitas do Estado, apenas permite colmatar temporariamente a falta de outras fontes de receita. É também questionável que, nos tempos que correm, o Estado consiga vender (por bom preço) algumas das empresas e participações que detem.

Eu diria que, se o governo apenas tem isto para nos propôr, então é um plano fraquíssimo, findo a aplicação do qual o Estado português estará tão mal de finanças como atualmente.

Retrato de Luís Lavoura

O papa Bento 16 virá em breve em visita a Portugal. Eu não sou religioso mas acho muito bem que ele venha e que os católicos (não o país em geral!) lhe proporcionem a melhor receção possível.

Sou um liberal e acho que os gostos e opções das pessoas, incluindo os gostos e as opções religiosas, devem preferencialmente, se não mesmo exclusivamente, ser pagos pelas próprias pessoas. Nesta linha de pensamento, acho revoltante que algumas câmaras municipais se estejam a preparar para gastar o seu escasso dinheiro - e a generalidade das câmaras municipais está já hoje brutalmente endividada! - em apoios à visita papal.

Eu digo: quando o bispo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus, vem a Portugal, quem paga a receção são os fieis dessa igreja, e eu acho muito bem e nada tenho contra. E também acho muito bem que os católicos paguem a receção ao papa, a edificação dos altares onde ele irá rezar missa, a segurança dos ajuntamentos de população e tutti quanti. Mas não acho bem que o Estado contribua. As opções religiosas da população devem ser livres, o que implica que devam ser financiadas pela própria população. O Estado não deve gastar o seu dinheiro para meter uma religião - qualquer que ela seja - pela goela dos portugueses abaixo.

Retrato de Luís Lavoura


Um artigo muito interessante no The Economist
mostra o caminho que a Grécia está a trilhar, e que provavelmente é o mesmo que nos espera, mais cedo que tarde (os negritos são meus):

GEORGE PAPACONSTANTINOU, the [...] Greek finance minister, likens the effort to steer Greece away from economic disaster to “changing the course of the Titanic.” Until this week it looked as if the country was headed for an iceberg labelled default. Two austerity packages had failed to convince Greece’s European partners—or the financial markets—that measures to cut the budget deficit this year from 12.7% of GDP to 8.7% would work.

Critics in Brussels said that Greece’s Socialist government was relying too heavily on pledges to cut tax evasion and soak the rich, rather than slash spending, especially on public-sector pay and pensions. The markets pushed spreads on Greek bonds over their German equivalents to record highs. Greece’s ten-year bonds were offering mouth-watering yields of some 6%, twice the German level.

On March 3rd, however, [...] government announced some severe measures: a rise in the top rate of value-added tax, from 19% to 21%, more increases in excise tax on fuel, tobacco and alcohol, a freeze on pensions and an unprecedented 30% cut in civil servants’ Christmas, Easter and summer bonuses. This last is equivalent to a cut of one month’s pay for Greece’s 700,000-strong public-sector workforce.

[...]

One way forward might be to persuade other euro-area countries to buy Greek bonds [...] Greece cannot afford to go on borrowing indefinitely at 350 basis points over Germany. The gains from austerity measures could be swallowed up by such a high debt premium.

[...] German banks are on the hook for so much Greek (and other Mediterranean) debt that some kind of taxpayer support may be unavoidable.

[...] Turkey’s prime minister, has just proposed that the two formerly hostile neighbours should make a joint agreement to cut defence spending.

[...] The IMF would probably tell Greece to sack thousands of public-sector workers and cut pensions sharply.

Greek trade unions are predictably furious over the bonus cuts, which come on top of a 4% pay cut they have already swallowed. [...] Mr Papandreou’s approval ratings have held up, with more than 60% of Greeks accepting that tougher measures are needed.

[...] Greece will shortly complete an overhaul of its tax legislation and come up with proposals to reform state pensions, which now eat up over 11% of GDP. A shortage of competent bureaucrats makes it harder to ensure that any new targets are met. [...]

Retrato de Luís Lavoura

Os Açores são um arquipélago constituído por nove ilhas. Todas as nove ilhas são diferentes, claro, mas há uma que é mais diferente do que as outras: São Miguel. São Miguel é a maior das nove ilhas e tem metade da população dos Açores. Ou seja, de todas as outras oito ilhas, só uma - a Terceira - tem população vagamente comparável à de São Miguel mas, mesmo assim, todas elas oito juntas não ultrapassam a população de São Miguel. São Miguel tem também uma sociedade muito mais desigual do que a das restantes oito ilhas - enquanto que nelas prevalece a igualdade de rendimentos, e uma grande entreajuda entre a população, em São Miguel há grandes extremos de pobreza e riqueza. As famílias açorianas muito ricas são todas de São Miguel, e os horríveis extremos de pobreza nos Açores são também todos encontrados em São Miguel (essencialmente nas partes norte e leste da ilha). Uma outra curiosidade de São Miguel é que os seus habitantes falam com uma pronúncia muito acentuada e caraterística, parecida à pronúncia madeirense e, nos casos mais extremos, quase incompreensível para os portugueses do Continente, enquanto que em todas as outras oito ilhas as pronúncias dificilmente são distinguíveis da pronúncia portuguesa padrão.

Dadas estas singularidades de São Miguel relativamente a todas as outras ilhas, não pode deixar de ser peculiar o seguinte. Qualquer natural dos Açores, com exceção dos de São Miguel, diz tipicamente "eu sou da ilha X", mas os micaelenses sistematicamente dizem "eu sou dos Açores". Ou seja, São Miguel identifica-se sempre com "os Açores", enquanto que todas as outras oito ilhas se singularizam a si mesmas. Se alguém diz que é dos Açores, é certo e sabido que é de São Miguel; qualquer habitante das outras oito ilhas dirá de que ilha é, jamais dirá apenas que é dos Açores.

Esta peculiaridade foi horrivelmente visível nas recentes reportagens sobre um autocarro caído por uma ribanceira abaixo na zona nordeste de São Miguel - não por coincidência, uma das zonas mais pobres de Portugal. Há ribanceiras em todas as ilhas açorianas, e um acidente destes é muito diferente consoante ocorra numa ilha pequena, como as Flores ou a Graciosa, onde todas as pessoas se conhecem entre si, ou numa ilha grande e impessoal como São Miguel. O mínimo que se exigiria seria, enfim, que as reportagens dissessem que o desastre ocorreu em São Miguel, para localizar com alguma precisão. Mas não: as reportagens disseram sistematicamente que "nos Açores um autocarro caiu por uma ribanceira" e tivemos que esperar até ouvir a típica pronúncia de um habitante local a falar para percebermos que o desastre ocorrera em São Miguel.

Seria pedir de mais, que os micaelenses mudassem os seus hábitos e passassem a identificar a ilha de que são naturais em vez de se refugiarem no "sou dos Açores". Mas pode-se exigir dos mídia nacionais que não adoptem este procedimento de confundir São Miguel com os Açores. Quando algo ocorre em São Miguel, deve-se dizer onde ocorreu, e em particular em que ilha ocorreu - não se deve dizer apenas "nos Açores".