O blogue de Luís Lavoura

Retrato de Luís Lavoura

O governo anunciou ter elaborado uma "proposta de Lei [que] visa simplificar o procedimento de mudança de sexo e de nome próprio no registo civil para as pessoas a quem clinicamente tenha sido diagnosticada uma mudança da identidade de género (transexualidade)", proposta essa que deverá ser apresentada, para eventual consagração em lei, à Assembleia da República.

A mim parece-me óbvio que todas as pessoas devem gozar da liberdade de, quando adultas, mudarem o seu nome próprio, e também de mudarem os seus apelidos. Essa liberdade não deve estar reservada apenas aos transexuais e não deve carecer de qualquer tipo de autorização judicial, notarial ou conservatorial, nem sequer médica. Se às pessoas - sejam elas transexuais ou não - lhes apetece mudar o seu nome próprio, ou os seus apelidos, por qualquer motivo, que as deixem mudar - não deve ser necessária a autorização de ninguém para esse efeito, nem ninguém tem nada que andar a averiguar por que motivos as pessoas querem mudar o nome.

Faço notar que é normal as pessoas mudarem o nome quando se convertem a uma religião, e desde sempre foi normal nalgumas culturas (a chinesa, segundo já ouvi dizer) as pessoas mudarem de nome uma ou mais vezes ao longo da vida. Há também línguas (o inglês, por exemplo) em que certos nomes próprios tanto podem ser aplicados a um homem como a uma mulher. Não há razão para que o mesmo não possa ocorrer em Portugal.

Há, é claro, que assegurar a segurança jurídica dos procedimentos - ou seja, que o nome da pessoa muda mas que todas as autoridades sabem bem que a pessoa é a mesma. Mas, espero eu, essa segurança permanecerá acautelada.

A proposta de lei do governo é portanto muito benvinda, mas (1) não se deve restringir aos transexuais, e (2) não se deve restringir aos nomes próprios, deve abranger também os apelidos.

Retrato de Luís Lavoura

Uma notícia interessante sobre um benefício fiscal:

 

http://jornal.publico.pt/noticia/01-09-2010/camara-de-matosinhos-isenta-jp-sa-couto-de-pagar-imi-durante-5-anos-20120729.htm

 

"O executivo da Câmara de Matosinhos [...] aprovou ontem benefícios fiscais para a JP Sá Couto [... A] empresa sediada em Perafita está isenta do pagamento do IMI (Imposto Municipal sobre Imóveis) durante cinco anos e tem direito a uma redução de 50 por cento do valor de IMT (Imposto Municipal sobre Transmissões Onerosas de Imóveis) neste período. Estes benefícios mereceram aprovação dos vereadores do PS e do PSD, mas também votos contra dos eleitos pela Associação Narciso Miranda Matosinhos Sempre."

 

Esta última associação questiona, em minha opinião muito corretamente, "por que razão [se] toma uma medida excepcional, beneficiando apenas uma empresa e obrigando todas as outras [...] a cumprir as suas obrigações, pagando a taxa máxima de IMI e IMT".

 

A Associação Narciso Miranda Matosinhos Sempre (curioso nome...) tem em minha opinião muita razão. O Estado não deve, em geral, beneficiar certas empresas. O Estado deve, antes, beneficiar todo o clima empresarial. O Estado tem a obrigação, até constitucional, de tratar todos os cidadãos de forma igual. Da mesma forma, deve tratar todas as empresas de igual forma. Da mesma forma que o Estado deve promover concursos públicos transparentes, em que todas as empresas podem concorrer por igual e sem favorecimentos, também o Estado não deve beneficiar, fiscalmente ou de qualquer outra maneira, qualquer empresa.

Retrato de Luís Lavoura

O que a Federação Portuguesa de Futebol, com a colaboração encapotada do governo, está a fazer a Carlos Queiroz é uma canalhice, própria de cobardes sem cheta (uma espécie particularmente vil de seres humanos).

Fico satisfeito por os jogadores Simão Sabrosa e Paulo Ferreira se terem afastado da seleção nacional de futebol. Outros deveriam fazer o mesmo. Nos próximos jogos dessa seleção irei torcer pelos estrangeiros.

Retrato de Luís Lavoura

O desemprego subiu brutalmente em Portugal nos últimos meses ou anos.

 

Os políticos da oposição culpam o atual governo por essa subida.

 

Não têm razão. O desemprego teria forçosamente que aumentar em Portugal, mais tarde ou mais cedo, porque muito do emprego que dantes havia em Portugal se devia a um empolamento injustificado do setor da construção civil. Esse setor absorvia uma enorme fatia da mão-de-obra em Portugal. Mas esse setor era exageradamente pesado no conjunto da economia portuguesa e, mais tarde ou mais cedo, teria que colapsar. Como colapsou. Como continua a colapsar. Era e é inevitável. E o consequente desemprego também o é.

 

A economia portuguesa estava dopada com construção civil, para objetivos tanto privados (construção de casas e de escritórios) como públicos (construção de estradas, etc). Hoje o país está saturado dos produtos dessa construção civil. Há casas a mais e estradas a mais - levantando até já sérios problemas de financiamento da sua manutenção. Já não são precisas, essencialmente, mais casas nem mais estradas. O setor da construção civil, antes preponderante na economia portuguesa, perdeu o vigor. É ele, suponho, o grande responsável pelo aumento do desemprego.

 

E isso é inevitável. Com este governo ou com qualquer outro, teria que acontecer, mais cedo do que tarde.

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Felizmente existe em Portugal uma Comissão Nacional de Proteção de Dados (CNPD) que não vai (facilmente) em cantigas de embalar. Depois de há três dias a CNPD ter proibido (aplauso!) a Google de andar a filmar ruas portuguesas com pessoas e automóveis incluídos, agora a CNPD impediu (aplauso reiterado) o município da Amadora de instalar um sistema de videovigilância indiscriminada do espaço público.

 

Entretanto, o ministério da Administração Interna do atual governo socialista (o tal que, de acordo com Fernanda Câncio, é bom que chegue em matéria de liberdades de costumes) já veio dizer que "é favorável aos projectos de videovigilância como instrumentos de prevenção da criminalidade e apoio à investigação criminal e por está (sic) disponível para a apoiar (sic) o novo projecto que venha a ser apresentado"

Retrato de Luís Lavoura

Acho de péssimo gosto a atuação da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) para com o treinador da seleção nacional de futebol Carlos Queiroz (CQ).

 

A FPF fez um contrato de trabalho com CQ com a duração de quatro anos. A FPF deve cumprir esse contrato com CQ, mesmo que não esteja satisfeita (como não está, tem o direito de não estar, aliás muita gente não está) com o desempenho de CQ.

 

A FPF gostaria de rescindir o contrato com CQ para contratar outro treinador. É um desejo legítimo. Só que: gostaria, mas não pode. E é feiíssimo tentar despedir CQ utilizando como desculpa uma (uma só!) suposta falta profissional, de gravidade muitíssimo questionável, por este eventualmente cometida.

 

O tribunal de trabalho não deve servir para despedir à má fé um trabalhador que tem cumprido corretamente o seu contrato. CQ tem trabalhado o melhor que pode e sabe (o que não quer dizer que esteja a trabalhar bem) e a FPF tem a obrigação de o "aturar" até ao fim do contrato. Não deve procurar desculpas de mau pagador para o despedir através de um processo disciplinar mal e tardiamente inventado.

 

Os contratos são para se cumprir.

 

Se a FPF cometeu um erro ao contratar CQ por um período de tempo tão longo, deve assumir esse erro e jurar não voltar a cometê-lo. Não deve tentar corrigir o erro através de um truque desonesto.

Retrato de Luís Lavoura

No tempo de Salazar tínhamos o condicionamento industrial, cujo objetivo era garantir que suficiente mão-de-obra a um preço suficientemente baixo permaneceria disponível para exploração pelos proprietários rurais.

 

Hoje em dia temos o condicionamento comercial, acerrimamente defendido pela sinistra aliança entre o Partido Comunista e a Igreja Católica - o primeiro interessado em defender a pequena burguesia (que sempre foi o esteio de sustentação de comunismo e fascismo), a segunda interessada em obrigar as pessoas a respeitar o Segundo Mandamento de Moisés.

 

Deve-se dizer, em abono da verdade, que Portugal é tradicionalmente, desde há muitos decénios, um dos países mais livres da Europa Ocidental em matéria de horários de comércio. A generalidade das lojas pode abrir basicamente quando quiser. Ainda no outro dia encontrei no centro de Lisboa (Largo da Estefânia) uma farmácia aberta ao domingo sem cobrar mais nos medicamentos por isso - disseram-me que era simplesmente o horário normal dessa farmácia.

 

Mas um último bastião de condicionamento comercial permanece - os horários de abertura das grandes superfícies. Agora, finalmente, em boa hora, o governo deciciu alijar esse último resquício de condicionamento, libertar um pouco mais a sociedade - e logo as forças coligadas do Partido Comunista e da Igreja Católica se levantaram, começaram a fazer barulho.

 

A curto ou médio prazo, felizmente, esses inimigos da liberdade estão condenados ao insucesso.

Retrato de Luís Lavoura

Pedro Arroja previa que o fim do atual sistema político português começaria pela Justiça. Isto aconteceria, segundo Arroja, porque o povo português, endemicamente, culturalmente, não tem o sentido da justiça, pelo que, não vê qualquer entrave a que o sistema de Justiça seja utilizado para fins que não são o dele.

 

Estas opiniões de mau presságio vêem-me repetidamente à mente quando assisto àquilo a que temos assistido nos últimos anos - a utilização do sistema de Justiça para a luta política por parte do Partido Social-Democrata, dos seus compagnons de route e correias de transmissão (das quais uma das mais notáveis é o impropriamente designado Sindicato dos Magistrados do Ministério Público).

 

Os antigos romanos colocaram o seguinte paradoxo: "Quem policiará os polícias?", ou seja, quem é que será o garante de que os órgãos policiais cumprirão a lei. Em Portugal temos hoje em dia precisamente este problema em relação aos juízes e aos magistrados do Ministério Público. Trata-se de pessoas com um poder imenso sobre a vida dos cidadãos vulgares e não vulgares, mas esse poder encontra-se completamente fora de controle - os juízes e magistrados do Ministério Público podem fazer o que lhes der na real gana, incluindo as mais perversas maldades, sem que ninguém lhes possa pôr a cabeça no cepo.

 

É precisamente isso que agora se passou com o despacho de encerramento do processo Freeport, no qual os magistrados responsáveis introduziram com perversidade umas frases indistintamente assassinas de caráter, sobre o antigo ministro do Ambiente e (indistintamente, pois claro) sobre os seus dois secretários de Estado, frases pelas quais ninguém os poderá chamar a pedra, acusá-los nem julgá-los.

 

No nosso sistema constitucional de equilíbrios e controles falta, distintamente, algo, alguém ou alguns limites materiais, que controle e limite o poder do sistema judicial e do Ministério Público, impedindo-os de cometer os pesados danos que estão a infligir à democracia e ao Estado de Direito, e impedindo-os de participar na luta política.

Retrato de Luís Lavoura

Parece que a ministra da Educação disse qualquer coisa numa entrevista sobre o, ou um, fim das "reprovações", "retenções" ou, na mais vulgar gíria, "chumbos" na escola pública portuguesa e logo, como seria de esperar, a direita portuguesa(*) lhe caiu, reflexamente, caninamente, em cima.

 

A direita portuguesa, incluindo aquela que gosta de se apresentar com um verniz liberal, é sempre no fundo conservadora, ou até mesmo retrógrada. No campo da educação, a direita está fixada no modelo salazarista. Nesse modelo a escolaridade não era (pelo menos na prática) obrigatória. Menino (ou, ainda mais depressa, menina) que chumbasse uma, ou duas, ou três vezes acabava por, por decisão dos seus próprios pais, abandonar a escola e ir trabalhar para os campos ou fábricas. Para o sistema isso nada de mal tinha, porque a escolaridade não era obrigatória e nenhum mal havia em que metade da população fosse analfabeta.

 

A direita portuguesa não esquece esses felizes, ditosos tempos.

 

Só que, o mundo de hoje já não é o de Salazar. Hoje, uma condição de competitividade internacional - não apenas para uma pessoa, mas para uma sociedade, para um país - é ter uma população educada. No mundo de hoje, o abandono da escola não é, não pode ser uma opção.

 

Quando o meu filho mais velho estava na primeira ou segunda classe ("ano"), havia na escola dele uns meninos, que já não eram bem meninos mas sim pré-adolescentes, indisciplinados e que semeavam na escola alguma violência e instabilidade. Eram meninos de doze anos que, à custa de repetidos chumbos, ainda estavam na escola primária. As professoras compreendiam-nos - frustrados por ainda terem por colegas meninos de 7 ou 8 anos, incomodados por terem que permanecer o dia sentados em cadeiras nas quais já não cabiam, davam escape a essa frustração e a esse incómodo através da violência.

 

Num mundo de escolaridade obrigatória, num mundo de educação essencial, chumbar alunos não resolve nada, apenas agrava os problemas. É claro que não basta decretar a obrigatoriedade da escolaridade - é preciso também criar mecanismos de apoio aos alunos, que permitam que eles progridam, para que a escolaridade obrigatória não seja para eles, nem para os seus colegas, um fardo. É esses mecanismos que, em boa parte, falta criar.

 

O caminho faz-se em frente, em direção ao progresso - não se faz voltando para trás, regressando ao passado de Salazar.

 

(*) A começar pelo invariável Nuno Crato, que, apesar da sua relativa juventude, teima em fazer o lamentável papel de Velho do Restelo.

Retrato de Luís Lavoura

Acabo de almoçar num restaurante (sala pequena) em que, com 40 graus de temperatura exterior, o ar condicionado estava ligado mas a porta da rua permanecia aberta.

 

Tenho dificuldade em explicar estes comportamentos - comuns em Portugal - à luz de uma teoria que postula que os empresários atuam racionalmente no sentido de fornecer o melhor produto, ao mais baixo custo, aos clientes, sendo que, caso não o façam, outros empresários mais racionais surgirão que o farão e os suplantarão.

 

A eletricidade é assim tão barata? Não creio.

 

Os clientes não afluiriam ao restaurante caso a porta estivesse fechada mas com um letreiro a dizer "Aberto"? Duvido.

 

Tenho para mim que estes casos demonstram que a teoria acima identificada é, de facto - apesar de perfeitamente lógica -, falsa. Pelo menos, em Portugal não se aplica. Talvez se aplique alhures.