O blogue de Luís Lavoura

Retrato de Luís Lavoura

Quando eu tinha dezasseis anos fui obrigado a ler, na cadeira de Língua Portuguesa, o romance de Eça de Queiroz Os Maias. Trata-se de um romance para adultos e eu nessa altura não era um adulto, pelo que tive dificuldade em perceber muito do que nele está. Uma das coisas que mais confusão me fez é que, nesse romance, há homens que fazem amor com as esposas dos seus bons amigos e, nos intervalos dessa atividade, continuam a cumprimentar com grande amizade e a tratar com o máximo decoro esses seus amigos, enquanto nas traseiras lhes andam a papar as esposas. Para a minha sensibilidade de adolescente aquilo apareceu como repugnante. Ainda hoje continua a aparecer.

A prática moderna de muitas pessoas que discutem nas caixas de comentários dos blogues é análoga. Depois de iniciarem o comentário com um muito cordial "caro X", prosseguem o comentário insultando e rebaixando o seu opositor X da forma mais soez e desconsiderada possível. Aliás, é quase possível afirmar com segurança que, sempre que um comentário se inicia com um "caro X", esse comentário se destina apenas a insultar X.

A cultura portuguesa é uma cultura muito hipócrita, como constatei na leitura d'Os Maias e continuo a constatar na leitura quotidiana de caixas de comentários.

Retrato de Luís Lavoura

Estão muitas pessoas muito escandalizadas com a proposta feita pelo governo alemão, explicitamente pelo chefe do Partido Democrata Livre (FDP) dele participante, Philipp Roesler, de que o orçamento grego seja colocado sob a tutela de um comissário europeu especialmente designado para esse efeito.

A mim essa proposta não me choca demasiadamente. Se a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu emprestam uma elevada quantia à Grécia, quantia sem a qual o país não poderia sobreviver (na sua forma presente), parece-me natural que essas entidades exijam ter um poder concreto sobre a forma como essa quantia vai ser gasta pela Grécia. Se essas entidades não têm confiança em que o governo grego gastará a quantia adequadamente, então é normal que exijam a retirada de alguns poderes orçamentais a esse governo.

(A título de comparação, imagine-se o que deverá o governo português fazer se, no futuro, se constatar que o Governo Regional da Madeira continua a gastar dinheiro de forma irresponsável e o faz em desobediência aos compromissos que recentemente assumiu. Obviamente, em tal caso o governo português terá o direito, de facto a obrigação, de retirar do Governo Regional da Madeira os seus poderes de gastar dinheiro como lhe apraza.)

O que já não me parece, de forma nenhuma, aceitável, é uma outra condição que, aparentemente, o governo alemão pretende impôr: que todo o dinheiro angariado pelo governo grego sob a forma de impostos sirva, antes do mais, para pagar as dívidas do Estado grego. Isso seria, para mim, impôr ao povo grego uma brutal escravatura da dívida, em que o pagamento da dívida teria primazia sobre quaisquer outras necessidades ou políticas da Grécia. Uma coisa é exigir que a Grécia procure pagar as suas dívidas, outra, muito distinta, é impôr que o pagamento das dívidas tenha primazia imediata sobre qualquer outra necessidade da Grécia.

Retrato de Luís Lavoura

Muita gente anda entusiasmada por o primeiro-ministro italiano, Mario Monti, ter dito que a austeridade não basta e que é preciso crescimento económico para que as crises de dívida possam ser resolvidas na Europa.

O problema, porém, é que não é nada óbvio como é que se poderá gerar esse crescimento económico.

A receita liberal para o crescimento, assente em privatizações, abertura dos mercados, etc, pode gerar crescimento mas dificilmente o fará a curto prazo ou de imediato. Não é por um mercado ser liberalizado que, de um dia para o outro, aparecem nele muitas empresas pujantes. Não é por uma empresa ser privatizada que, de um dia para o outro, ela começa a fazer mais negócio e a empregar mais pessoas.

A receita keynesiana para o crescimento gera um crescimento falso, não genuíno, assente em obras públicas desnecessárias e insustentáveis, que custam balúrdios a manter em funcionamento. A título de exemplo temos a Via do Infante, na qual o tráfego diminuiu para metade desde que passaram a ser pagas portagens - sinal seguro de que não há, pura e simplesmente, dinheiro na economia para manter aquela autoestrada. Ou temos aquela marina na Madeira na qual nenhum iate aporta - sinal evidente de que a obra pública é, pura e simplesmente, desnecessária.

A Europa é um continente velho e revelho, com uma população em envelhecimento acelerado, que estaria em contração se não fosse a imigração. E a Europa não quer deixar de o ser - quaisquer propostas para abrir a Europa a mais imigração esbarram numa forte resistência popular. Uma população em regressão dificilmente gera a imensa procura que leva a que projetos de investimento possam ter altas perspetivas de lucro e, portanto, ir em frente.

Além disso, os custos da energia (e de muitas matérias primas) estão em alta constante. Sem energia barata é difícil gerar as altas taxas de lucro dos investimentos que permitem o crescimento.

Mario Monti tem razão, o crescimento é indispensável. O problema é que ninguém sabe bem como alcançá-lo na Europa.

Retrato de Luís Lavoura

O Estado português vendeu os 21% da participação que detinha na EDP a uma empresa estatal chinesa.

Agora prepara-se, aparentemente, para vender 25% da REN a uma empresa estatal chinesa, e mais 15% da REN a uma empresa estatal árabe (do emirato de Omão).

Tenho a vaga impressão de que, quando a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu ordenaram as privatizações ao Estado português, não era exatamente isto que tinham em vista. Deveriam estar a pensar, creio eu, na venda destas participações a empresas privadas europeias e não a empresas estatais asiáticas.

De qualquer forma, é interessante notar que Portugal já é um país com menos empresas estatais do que muitos países avançados da Europa. Por exemplo, em França a empresa produtora de eletricidade é estatal, e na Alemanha a principal empresa de telecomunicações também o é. Em Portugal ambos esses setores estão integralmente privatizados. Podemo-nos perguntar por que é que a Alemanha e a França são países mais avançados e progressivos do que Portugal quando têm mais empresas estatais. Podemos também perguntar por que é que a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu dão ordens ao Estado português mas não as dão aos Estados alemão nem francês.

Entretanto, quando a TAP vier a ser privatizada, não me admirarei se a melhor oferta não vier do Brasil nem da Alemanha mas sim da Arábia. Vai ser giro de ver.

Retrato de Luís Lavoura

Uma ideia genial é como Luís Menezes Leitão descreve, muito apropriadamente, o novo tiro no pé que a União Europeia decidiu dar em si mesma - ou que alguns Estados da União Europeia decidiram dar naqueles que já estão bem massacrados.
Cada vez mais penso que a atual União Europeia é um sítio pouquíssimo recomendável, do qual Portugal faria bem em sair o quanto antes.

Retrato de Luís Lavoura

Este é talvez o post da semana passada que melhor resume o que penso:

"a declaração da Standard & Poor's de que a resposta dos líderes europeus "não está à altura dos riscos" constitui a verdade nua e crua e deveria ser motivo para que os líderes europeus encarassem a sério este problema. Mas o mais provável é que a resposta não esteja à altura dos riscos precisamente porque a Europa não tem neste momento líderes à altura para enfrentar a maior crise de sempre na construção europeia. E não tem também instituições à altura para substituir os actuais líderes por outros que estejam à altura.

Em Portugal o Governo também não tem estado infelizmente à altura da crise. Desbaratou todo o seu capital político em nomeações controversas enquanto as reformas marcam passo. Ao mesmo tempo o Ministro das Finanças conseguiu o prodígio de já estar a falhar a meta do défice de 2012 em 0,9% do PIB apenas duas semanas depois de o ano ter começado. Isto simplesmente porque se esqueceu de contabilizar os efeitos em 2012 da transferência dos fundos de pensões efectuada para salvar o défice de 2011."

(Negritos meus.)

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Depois de uma campanha publicitária em que recomendava às pessoas que não se reconciliassem, a Associação Portuguesa para o Apoio à Vítima (APAV) vai agora um passo mais longe e, em nova campanha publicitária, recomenda às pessoas que cortem relações.

Faz sentido. De acordo com a APAV, qualquer pequeno erro deve ser o erro final - a pessoa ofendida deve cortar relações e nunca mais se reconciliar com a outra.

Se o mundo fosse vivido de acordo com as recomendações da APAV, seria um inferno de intolerância.

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Parece que estão a surgir na concertação social, vindas quer da parte das associações patronais, quer dos sindicatos, algumas excelentes propostas para melhorar a lei laboral.
Uma das propostas é a que pretende que as empresas possam decidir encerrar nalguns dias que em geral constituiriam "pontes" em troca de retirar um número correspondente de dias de férias aos trabalhadores. Trata-se de uma proposta positiva pois permitirá (1) às empresas poupar os custos de abertura (segurança, energia, água e limpeza) nalguns dias, mantendo a empresa fechada, (2) aos trabalhadores, permitindo-lhes gozar fins-de-semana prolongados, (3) ao setor turístico interno, permitindo-lhe programar alguns fins-de-semana de maior afluência.
Outra proposta é permitir que as empresas negoceiem com os trabalhadores uma redução temporária do horário de trabalho com a correspondente redução no salário. Seria uma solução excelente, inclusivé para certos trabalhadores que, por motivos familiares ou de pré-reforma, desejem trabalhar menos horas durante algum tempo. Poderia também acabar por constituir uma forma de dividir o mesmo trabalho por mais trabalhadores (mas com salários reduzidos), reduzindo o desemprego e as desigualdades sociais.
É saudável ver estas propostas úteis a surgir diretamente das associações civis, e ver estas dispostas a negociar diretamente umas com as outras, sem necessidade do governo de permeio.

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O PSD decidiu, a muito custo, legalizar a utilização de barrigas de aluguer em Portugal. A legalização será muito restritiva: "apenas em situação de último recurso e [só] para casais". "A porta continuará fechada para mães solteiras", especifica o jornalista, a quem a utilização de barrigas de aluguer por pais solteiros nem deve passar pela cabeça. (Significativamente, o projeto de lei do Bloco de Esquerda sobre o assunto tem por título "Garante o acesso de todas as mulheres à Procriação Medicamente Assistida", o que constitui uma deliciosa peça de prosa sexista, quase inacreditável nesse partido.) Ademais, o PSD tem o cuidado de garantir que "é proibido qualquer pagamento à mulher que suporte a gravidez por outrém, além dos actos médicos", o que cria mais um ramo para a economia paralela, ou negra, sem faturas nem recibos, em que o dinheiro será pago às mães de substituição por debaixo da mesa, por forma a não ser contabilizado no PIB nem pagar IRS. Magnífico, senhores!!!

O caminho para a liberdade é longo e doloroso. Portugueses que queiram recorrer à procriação medicamente assistida terão que continuar a deslocar-se a Espanha, como Cristiano Ronaldo fez (felicito-o!), ou quiçá à Turquia ou à Índia, onde, felizmente, reina a liberdade neste campo. Aqui temos paladinos da moral e da ética que querem o povo preso aos bons costumes da moral conservadora.

Retrato de Luís Lavoura

Consta que Manuela Ferreira Leite disse ontem numa conferência qualquer umas coisas que - descontando o mau jeito com que as disse - considero muito acertadas.

Ferreira Leite disse que o Serviço Nacional de Saúde não pode continuar a pagar indiscriminadamente certos tratamentos a pessoas idosas. Ela referiu explicitamente tratamentos de hemodiálise a pessoas de mais de setenta anos de idade, exemplo que talvez não seja o mais adequado. Mas a ideia mantem-se, e eu acho que ela é correta. O país, disse ela, não tem rendimentos, não tem dinheiro que lhe permita tais luxos. Os tratamentos, claro, devem ser livres - a quem os possa e queira pagar. As pessoas que tenham dinheiro para se tratarem, tratar-se-ão. O Estado é que não pode fornecer gratuitamente o serviço a todos.

É duro? É. É feio? É. Mas é a realidade. A partir de certa idade, torna-se irracional, um desperdício de dinheiro, estar a procurar prolongar indefinidamente a vida. Aquilo que essas pessoas produzem ou podem vir a produzir já não compensa o esforço. Se elas tiverem dinheiro para continuarem a tratar-se, poderão fazê-lo. Mas a sociedade, o Estado, é que não pode estar a pagar isso.