Ouvi hoje na rádio que a Comissão Europeia (ou uma outra entidade europeia qualquer, já não me lembro exatamente qual) criticou a aplicação por Portugal dos fundos estruturais recebidos da União ao longo da década de 1990, afirmando que o país estaria hoje melhor se tivesse gastado esses fundos prioritariamente na educação, em vez de os ter gastado sobretudo em infra-estruturas, leia-se em estradas.
Eu não sei se esta crítica é válida. Os problemas da educação não se resolvem só, nem mesmo sobretudo, com dinheiro. Se Portugal tem tão maus resultados no campo educativo, isso deve-se em grande parte a problemas culturais básicos. Os portugueses não estão, em grande parte, verdadeiramente interessados em educar-se e em aprender. Muitos portugueses não compreendem bem para que é que a educação serve, nem estão muito empenhados em apoiar a educação dos seus filhos. Muitos portugueses afirmam claramente que a educação não serve para nada, o que interessa é que a criança ou jovem possa o mais cedo possível ingressar numa fábrica para ajudar a pagar os custos do sustento da família, pois que um trabalhador tanto ganha e tão bem encontra emprego tendo a segunda classe como tendo o décimo-segundo ano. Esta é a mentalidade de muitos portugueses. E muitos outros acham que é de facto importante ter o décimo-segundo ano, não porque se aprenda alguma coisa, mas porque esse diploma dá automaticamente direito a um salário maior na função pública, quer se saiba alguma coisa de útil ou não. Para esses outros portugueses, mais uma vez, a educação não é importante, o importante são os "canudos".
Portanto, não é para mim de forma nenhuma evidente que Portugal hoje em dia estivesse melhor se ao longo da década de 1990 tivesse atirado mais dinheiro para o setor da educação, em vez de o usar a construir estradas.
Mas faço de bom grado um compromisso: teria sido bem melhor se Portugal tivesse gastado mais dinheiro em infra-estruturas de educação. Se, em vez de gastar tanto dinheiro na construção civil de estradas, o país tivesse gastado esse dinheiro na construção civil de escolas. As escolas são infra-estruturas. Não educam, mas podem pelo menos fazer com que os alunos se sintam bem nelas. E é vergonhoso que haja escolas onde o vento entra pelas frinchas da caixilharia das janelas, onde não há aquecimento que permita uma temperatura uniforme de 20 graus Celsius nas salas no Inverno, onde não há um ginásio, onde não há uma cantina.
A investir em infra-estruturas, Portugal podia, ao menos, ter investido nas infra-estruturas mais necessárias para uma vida digna.













