O blogue de Luís Lavoura

Retrato de Luís Lavoura

Do jornal PÚBLICO de hoje:

"A reivindicação de uma morte digna surgiu, em Espanha, em 1998, quando Ramón Sampedro, um tetraplégico de 55 anos, tomou cianeto. [...] Desde então, Jorge León, tetraplégico de 53 anos, conseguiu que uma mão amiga lhe desligasse em Maio de 2006 o ventilador que lhe permitia respirar. Em 12 de Janeiro passado, Madeleine Z., uma enfermeira de 69 anos, ingeriu uma mistura de fármacos com gelado para se livrar da esclerose lateral amiotrófica. Agora, a Inmaculada Echevarria foi garantido o fim de um sofrimento de 20 anos."

Note-se que o hospital que procederá à eutanásia de Inmaculada é um hospital católico, que para o fazer desobedecerá a ordens expressas vindas da Conferência Episcopal espanhola e do próprio Vaticano. O que mostra que já ninguém consegue travar a força da liberdade em Espanha, que os próprios católicos espanhóis já assumiram que são, que têm que ser, livres.

Quando chegará a liberdade a Portugal?

Retrato de Luís Lavoura

Ver:

http://abnoxio.weblog.com.pt/arquivo/2007/03/a_palhacada_da_benzidela_do_ca

... e assino por baixo.

Retrato de Luís Lavoura

O Ministério dos Negócios Estrangeiros anunciou que Portugal vai encerrar a sua embaixada no Iraque, devido aos elevados custos em segurança que ela implica. O PSD declarou a sua oposição a esse encerramento e, por causa dele, quer (!) chamar o ministro dos negócios estrangeiros à Assembleia da República. Diz o PSD que não se deve, neste momento crucial da guerra no Iraque, abandonar esse país. Que é preciso fazer mais um esforço, aguentar firme.

Note-se que o PSD não argumenta em termos de uma qualquer utilidade da embaixada no Iraque. O PSD não sabe, nem quer saber, se a embaixada tem qualquer utilidade prática, económica ou outra. Não, para o PSD trata-se de uma questão de princípio. Não se pode abandonar o Iraque, e prontos.

A segurança da embaixada é cara mas, para o PSD, esse dinheiro deve ser gasto. Os portugueses devem gastar o seu dinheiro para se candidatarem a apanhar porrada no Iraque. Devem mesmo ser OBRIGADOS a gastar o seu dinheiro para esse efeito.

Retrato de Luís Lavoura

Ouvi esta história hoje de manhã na Antena 1.

Um cidadão alemão residia há oito anos no Algarve. Há seis anos propôs-se abrir um restaurante algures no concelho de Vila do Bispo. Foi saltando de burocracia em burocracia: faltava sempre um alvará, uma licença, uma inspeção, etc. Só passados estes seis anos tinha finalmente tudo em ordem. Para ontem estava marcada a festa de inauguração, para a qual o senhor tinha convidado dezenas de amigos. Pouco antes da festa chegou um informe da Câmara, dizendo que o restaurante não estava autorizado a abrir, uma vez que ainda faltava mais um documento qualquer. O senhor não aguentou a perspetiva de ter de enfrentar todos os seus convidados num restaurante que ainda não podia funcionar. Atirou-se da falésia de Sagres abaixo.

Retrato de Luís Lavoura

Apareceram em pelo menos um blogue liberal ("Blasfémias") diversos posts contra o desfecho da OPA sobre a PT. O tom geral desses posts é que os estatutos da PT não deveriam estar "blindados" e que se deveria "deixar o mercado funcionar".

Quero fazer notar três pontos:

1) Cada empresa deve ter a liberdade de escrever os seus estatutos como muito bem lhe apetecer. Os acionistas de uma empresa têm o direito de (re-)escrever os estatutos dessa empresa como muito bem lhes apeteça.

2) Só compra ações de uma empresa cujos estatutos estão blindados quem quer. Quem não gosta da blindagem dos estatutos, que não compre ações de empresas que os tenha blindados.

3) A blindagem de estatutos não ocorre apenas em empresas, mas também em associações e clubes, embora sob outra forma: direitos de voto especiais. É vulgar que, em associações e clubes, sócios mais antigos, ou sócios que já foram membros da direção, tenham em assembleia-geral votos que valem por 2, ou por 5, ou por 10, ou por mais. O objetivo dessa norma é impedir a conquista do clube ou associação por um grupo de novos sócios que subitamente apareça. Por exemplo, o Sport Lisboa e Benfica tem os seus estatutos "blindados" dessa forma. É normal e ninguém protesta.

"Disclaimer": não tenho ações da PT nem da Sonaecom. Não sou cliente da PT, mas sou da Sonaecom. Não sou sócio do Benfica.

Retrato de Luís Lavoura

Segundo notícia no PÚBLICO de hoje, não muito bem especificada, o governo prepara-se para proibir a exportação de resíduos industriais perigosos para tratamento noutros países, nomeadamente em Espanha, mal os novos Centros Integrados de Tratamento em Portugal estejam prontos.

Isto configurará, a meu ver, e de forma evidente, uma proibição ao livre funcionamento do mercado, neste caso com a agravante de se tratar do mercado comunitário. Em vez de permitir a livre concorrência entre si de diversas formas de tratamento dos resíduos, com diversos preços, e em diferentes países da União, o Estado português fornece aos Centros de Tratamento situados em Portugal o monopólio do tratamento de resíduos produzidos em Portugal.

Já hoje grande parte dos resíduos industriais perigosos produzidos em Portugal são exportados para tratamento noutros países, principalmente em Espanha. Não faz sentido que esta exportação, perfeitamente legítima, deixe de ser uma opção à disposição da indústria quando os Centros de Tratamento portugueses estiverem prontos.

Como é evidente, esta limitação à livre concorrência entre si de diversas opções e locais de tratamento repercutir-se-á, inevitavelmente, num aumento do preço que as indústrias terão que pagar pelo tratamento dos seus resíduos.

Retrato de Luís Lavoura

Cada universidade tem que ser capaz de ter uma política ativa, que não se limite a ser a continuação e a perpetuação de si mesma.

Num mundo em mutação, surgem novos saberes, que ganham relevância social e económica, enquanto que outros saberes perdem essa relevância. Cada universidade tem que se saber adaptar, criando novos cursos e eliminando outros, criando cadeiras e eliminando outras, criando departamentos e eliminando outros, contratando novos investigadores e despedindo ou "pondo na prateleira" outros.

Em geral, as universidades portuguesas têm como única política ativa o perpetuarem-se e reproduzirem-se. Contratam-se novos professores, criam-se novas cadeiras e novos cursos, em função dos interesses dos atuais professores, e não em função dos interesses e necessidades da sociedade.

Este é o resultado da forma de governação autogestionária das universidades portuguesas. As universidades são geridas pelos seus próprios professores, e pelos estudantes e funcionários. No jargão político português chama-se a isto "governação democrática das universidades", mas na verdade não é democracia, é autogestão. Os professores, estudantes e funcionários gerem as universidades em função dos seus interesses pessoais e de classe, e não em função do interesse da sociedade.

Ora, as universidades públicas pertencem ao Povo do país. Deve ser esse Povo, através dos seus representantes, a geri-las. Isso é que é democracia. Deve ser o Estado a gerir as universidades, uma vez que é o Estado quem as pagou e paga.

As universidades são empresas. Quem as gere deve ser o seu proprietário, em função de diretivas políticas que esse proprietário define. Quem deve definir as áreas de expansão prioritárias para cada universidade, a contratação de novos professores e investigadores, e a abertura de novos cursos, devem ser, em primeiro lugar, os representantes do Estado e do Povo - uma vez que são esse Estado e esse Povo quem pagam a Universidade e para quem ela trabalha.

Isso sim, é democracia.

Só assim as universidades poderão ter políticas que tenham em vista o futuro, e não apenas a reprodução e perpetuação do atual corpo docente, dos atuais interesses, e dos atuais saberes.

No caso das universidades privadas, elas têm que deixar de ser propriedade de cooperativas de professores, como a lei atualmente - e erradamente - estabelece, para passarem a ser propriedade de fundações privadas. São essas fundações quem as deve gerir, em função, naturalmente, dos seus interesses estatutários.

A autogestão dos professores em colaboração com os estudantes e funcionários, em que muitas universidades se encontram, não é democrática, e tem como consequência a reprodução de interesses instalados, e não a inovação e a qualidade do ensino e da investigação.

Retrato de Luís Lavoura

Em todo o mundo desenvolvido, os custos com a saúde tendem a subir em espiral, devido ao progressivo desenvolvimento de tecnologias de saúde mais e mais complicadas, as quais fornecem cada vez mais saúde - mas a um preço cada vez maior, e com vantagens marginais (em jargão de economista) decrescentes.

Para controlar esta espiral dos custos da saúde, torna-se necessário repercutir alguns desses custos sobre o cidadão que requer os cuidados de saúde. Só se o cidadão sentir na sua bolsa os custos dos cuidados que requer, é que poderá requerê-los de forma mais moderada.

É assim que, em Singapura, os cuidados de saúde hospitalar são pagos, em princípio, por cada cidadão através da sua "Conta Poupança-Saúde", a qual é obrigatória por lei nessa cidade-estado. Cada cidadão desconta obrigatoriamente uma parte substancial do seu salário para uma Conta Poupança-Saúde e, quando necessita de recorrer a cuidados hospitalares, tem obrigatoriamente de os pagar recorrendo a essa Conta (ou, eventualmente, às Contas Poupança-Saúde de familiares próximos que a isso consintam). Este sistema contribui fortemente para que os custos dos cuidados de saúde permaneçam, mais ou menos, sob controle em Singapura - uma vez que cada cidadão tem um estímulo muito direto para poupar na requisição de cuidados de saúde.

O meu post anterior, sobre os custos dos bebés prematuros, enquadra-se nesta linha de raciocínio. Têm que ser, pelo menos em parte, os pais a pagar os custos com os cuidados hospitalares requeridos pelos seus filhos. Sobretudo quando esses cuidados atingem o nível extravagante de requinte tecnológico que uma incubadora é.

É claro que, nesta ótica, desvanecem-se o "direito à vida" e o "direito à saúde" absolutos. Cada um pode ter direito a cuidados de saúde mais e mais extravagantes apenas na medida em que os possa pagar e esteja disposto a pagá-los. A vida humana pode ser prolongada mais ou menos indefinidamente, mas apenas enquanto haja dinheiro para pagar esse prolongamento.

Retrato de Luís Lavoura

O PÚBLICO de hoje traz uma artigo curto mas interessante sobre os crescentes problemas de bebés que nascem (muito) prematuramente, a propósito da recente notícia da sobrevivência de uma bebé nascida com apenas 22 semanas de gravidez.

Além dos problemas éticos relacionados com o assunto (é ou não ético tentar salvar um prematuro, quando essa tentativa é dolorosa, tem grandes probabilidades de ser infrutífera, e pode acabar por resultar numa criança permanentemente doente?), há problemas financeiros que não podem ser escamoteados. Tentar salvar um bebé prematuro custa dinheiro, muito, muito dinheiro. E grande parte desse dinheiro é pago pela sociedade como um todo - ou então por aquela parte da sociedade que tem um seguro de saúde que comparticipa tal tentativa. Um bebé prematuro resulta, em grande parte, da culpa dos pais - seja por tratamentos de infertilidade que não deveriam ter sido empreendidos, seja por a mãe ser uma fumadora, etc. Cabe perguntar se, numa perspetiva liberal, é adequado que a sociedade como um todo pague um tratamento que é da responsabilidade e para benefício apenas de um particular.

Retrato de Luís Lavoura

A educação em Portugal encontra-se, como é sabido, em péssimo estado.

No entanto, desde há muitos anos que existe em Portugal escolaridade obrigatória até ao 9º ano.

Só que, essa escolaridade obrigatória é aplicada a uma população que, em boa parte, a rejeita, não a deseja e não a compreende.

Para muitos portugueses, a educação dos filhos não é muito importante. Na melhor das hipóteses, é importante que eles passem de ano - mas não que aprendam alguma coisa.

A escolaridade obrigatória faz-se, em Portugal, em grande parte à custa de passagens de ano fictícias - em que os alunos são passados de um ano para o outro sem no entanto terem aprendido a matéria que deviam.

Conheço na minha zona um miúdo, aliás muito simpático e bem educado, que, aos doze anos de idade, anda no liceu mas não sabe fazer uma conta de multiplicar - e muito menos de dividir - do mais simples, tipo 4x3.

Parece-me claro que o ensino português tem que se re-orientar para a qualidade, em detrimento da quantidade. Tem que abandonar a utopia de um ensino obrigatório, o qual de facto não é alcançado, uma vez que boa parte da população não está, pura e simplesmente, interessada na aprendizagem.

Uma sugestão, é que a escolaridade obrigatória deveria ser re-definida em termos de idade, e não em termos de grau de ensino. Um jovem seria obrigado a permanecer na escola até aos 14 ou 16 anos de idade - mesmo que não passasse da 4ª classe em termos de conhecimentos académicos.

Penso também ser fundamental re-introduzir o princípio dos exames nacionais como condição essencial para a passagem de grau de ensino. É preciso que haja, pelo menos, um exame nacional no 3º ou 4º ano, e outro no 8º ou 9º ano, e que esses exames nacionais sejam vinculativos - que não se possa passar de ano com nota inferior a 10 no exame nacional.

Não vale a pena continuarmos a enganarmo-nos a nós próprios, fingindo que estamos a ensinar algo aos jovens, só porque eles estão na escola.

Por outro lado, os curricula e os exames nacionais devem concentrar-se apenas numas poucas disciplinas obrigatórias: português, inglês, matemática e ciências da natureza. Todas as outras disciplinas, basicamente, devem ser opcionais e deixadas largamente ao critério de cada escola. Uma escola pode decidir ensinar história, outra ensinará metalurgia, a outra música, uma outra religião, uma outra futebol: tudo isso seria largamente deixado ao cuidado de cada escola específica. Só as disciplinas básicas devem ser obrigatórias e ter um programa nacional mínimo, sujeito a exame.