O blogue de Luís Lavoura

Retrato de Luís Lavoura

Diversas pessoas (sobretudo de direita) defendem que o Tesouro português deve emitir obrigações de muito longo prazo. Outras pessoas (sobretudo de esquerda), pelo contrário, defendem que o tesourp deve emitir dívida de curto prazo (digamos, de seis meses a dois anos). Quem tem razão?
Trata-se de uma questão de expetativas sobre a taxa de juro. Não deveria ser encarada como uma questão política (direita versus esquerda), mas como uma questão de expetativas. A taxa de juro de longo prazo anda atualmente pelos 3%; a taxa de juro de curto prazo ronda os 0%. Logo, só faz sentido emitir dívida de longo prazo se se previr que, a breve trecho, a taxa de juro de curto prazo vá subir de 0% para mais de 3%. Prevê-se isso? Ou não?
Cada participante nos mercados financeiros tem as suas expetativas. Pessoalmente, encaro a crise financeira pela qual passámos como uma grave "crise de folha de balanço" e acredito que ela imporá taxas de juro muito baixas ainda por um decénio ou mais. (O Japão teve uma crise similar em 1990 e ainda hoje tem taxas de juro baixíssmas.) Considero, portanto, que a melhor política será a de privilegiar a emissão de dívida de curto prazo.
Aceito que outras pessoas tenham opinião diferente - mas devem fundamentá-la em expetativas sobre a evolução da taxa de juro, não em preferências políticas.

Retrato de Luís Lavoura

Vi ontem a final da Taça de Portugal de futebol feminino. Vi-a na televisão; em vários anos transatos fui ao estádio.

Parece-me que houve nos últimos poucos anos uma evolução muito grande, para melhor, do futebol feminino em Portugal.

O jogo foi disputado entre dois dos principais clubes portugueses, o Sporting e o Sporting de Braga. Em anos passados somente pequenos clubes locais (Futebol Benfica, Primeiro de Dezembro, Clube de Albergaria, Valadares-Gaia) tinham futebol feminino; parece que agora alguns grandes clubes também já o têm. Com esses grandes clubes vêem recursos financeiros e organizacionais maiores.

As atletas tinham todas na casa dos vinte anos de idade. Em anos passados era vulgar ver mulheres na casa dos trinta ou até quarenta anos a jogar; agora, só as há na casa dos vinte, naturalmente mais pujantes - sinal de que a modalidade se está a apurar, só atletas na força da idade conseguem singrar nela.

As atletas ostentavam, de facto, uma invejável força física - fartaram-se de correr durante os 120 minutos (com prolongamento) do jogo. Mais um sinal de pujança e, além disso, de uma preparação física apurada. Em anos passados era normal as equipas na final da Taça treinarem apenas duas ou três vezes por semana; não acredito que as que ontem jogaram treinassem tão pouco.

Muitas das atletas já tinham jogado em clubes estrangeiros, inclusivé de nomeada. E havia atletas estrangeiras. Sinal de que o futebol feminino já tem alguma profissionalização em Portugal.

Enfim, por um conjunto de sinais percebi, mesmo sem ser acompanhante da modalidade (só vejo as finais da Taça), que ela tem evoluído fortemente em Portugal. Já não é só um entretenimento de amadoras. Agora é uma coisa a sério.

Retrato de Luís Lavoura

Cada vez se vêem mais artigos nos jornais sobre o advento dos carros movidos a eletricidade.

Diz-se que o grande problema desses carros são as baterias, mas que esse problema estará prestes a ser superado pela tecnologia.

No meu entender, porém, o grande problema dos carros elétricos é: como produzir a eletricidade de que eles necessitarão?

Segundo os meus conhecimentos, de toda a energia primária que um país desenvolvido, como Portugal, consome, 40% da energia serve para movimentar os meios de transporte, e 20% da energia serve para produzir eletricidade. Ou seja, muito aproximadamente, os carros e camiões gastam o dobro da energia primária daquela que é consumida sob a forma de eletricidade. Isto quer dizer que, se todos os carros e camiões passassem a mover-se a eletricidade, o consumo de eletricidade no país triplicaria. E eu pergunto: como será produzida tanta eletricidade?

Poder-se-á dizer que ela virá de fontes renováveis. Mas, de toda a eletricidade que hoje consumimos, apenas cerca de metade provem de tais fontes - e a maior dela são as barragens, que não podem ser indefinidamente multiplicadas. O que isto quer dizer, é que ainda será necessário imenso investimento para que toda a eletricidade que hoje consumimos possa provir de fontes renováveis. Quantas fontes renováveis serão então necessárias para que produzamos o triplo da eletricidade atual?

A mim parece-me que não há forma de as contas baterem certo - não há eletricidade suficiente para fazer movimentar os carros, a não ser que essa eletricidade seja produzida pela queima de carvão ou gás natural. Ora, se é para queimar carvão ou gás natural, mais vale queimar diretamente petróleo nos carros...

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O Reino Unido tem um mecanismo de apoio aos idosos dependentes que constitui um bom modelo. Quando esses idosos estão por conta do Serviço Nacional de Saúde britânico, os gastos deste com cada um deles são contabilizados; quando o idoso morre, o Estado retira à sua herança todo o dinheiro que gastou com ele, deixando na herança (para transmitir aos herdeiros) um máximo de (aproximadamente) 100 mil euros. Desta forma, os herdeiros de idosos que vivam muito tempo a expensas do SNS (por terem uma doença terminal e necessitarem de cuidados paliativos, ou por estarem dementes) acabam de facto por pagar aquilo que eles gastaram.

Eu acho muito bem. Não devem ser os contribuintes a pagar os cuidados de saúde terminais. Quem paga devem ser (indiretamente) os herdeiros, que ficam sem parte da sua herança.

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Segundo se ouve nas notícias, o pai do terrorista de Manchester foi em tempos um opositor ao regime líbio do coronel Kadhafi, e foi por esse facto premiado com asilo político no Reino Unido. Mas ele não foi um opositor qualquer - era um membro de um grupo radical islâmico afiliado na Al Qaeda que tentava levar a cabo atentados bombistas na Líbia.

É este o tipo de gente a quem o Reino Unido ofereceu asilo político - um bombista, um radical islâmico, um membro da Al Qaeda. O Reino Unido está agora a colher a tempestade dos ventos que semeou.

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Portugal teve em tempos muito baixo prestígio junto dos franceses - era o país pobre e atrasado que fornecia as porteiras aos prédios parisienses, Mas hoje o prestígio de Portugal em França está muito em alta, como se vê pelo crescimento exponencial do número de turistas franceses em Portugal. E como se vê pelo facto de, no próximo ano, os dois clubes de futebol primeiros classificados no campeonato francês irem ambos ser treinados por portugueses - Leonardo Jardim no Mónaco, Jorge Jesus em Paris.

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Parece que não é somente o Correio da Manhã que viola o segredo de justiça, divulgando a torto e a direito notícias sobre o caso Sócrates. O New York Times faz o mesmo, prejudicando a investigação policial sobre o bombista de Manchester.

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Debate-se com ardor a quem cabem os méritos do atual surto de crescimento económico, se ao governo atual, se ao anterior.

Este debate peca por falta de dados concretos, estudos científicos. Sem tais estudos, é matéria de gostos pessoais ou opções políticas pessoais o afirmar que tal ou tal medida governamental foi ou teria sido importante.

A mim parece-me somente evidente que o atual crescimento económico se deve sobremaneira a fatores externos. Destes, o mais importante será provavelmente o estímulo económico que o Banco Central Europeu tem estado a dar à economia da Zona Euro, através do seu programa de compra de dívida. Uma proposta minha é que, neste tempo em que já não se erigem estátuas, se erija uma: um busto do sr Mario Draghi. Porque Portugal tem muitíssimo a agradecer-lhe.

Retrato de Luís Lavoura

O papa veio a Portugal como peregrino. Não em visita de Estado.

Não está mal que o Presidente da República tenha ido recebê-lo. Ele é católico. E o Presidente da República encontra-se com chefes de Estado, mesmo quando eles não estão em visita de Estado (ainda recentemente jantou com a rainha da Suécia, que esteve a título privado em Portugal).

Agora, o que já não se compreende nem se aceita é que tanto o primeiro-ministro como o presidente da Assembleia da República tenham ido receber o papa. Para quê? O que tinham a dizer-lhe? São eles católicos, que precisassem da bênção papal? Que se saiba, não são. E, mesmo que fossem, não tinham direito a mais bênçãos que todos os outros católicos que estiveram em Fátima.

Não havia necessidade e não lhes fica bem. É hipocrisia política.

Retrato de Luís Lavoura

Foi um disparate o governo ter decretado tolerância de ponto para hoje, 12 de maio, devido à visita papal.

O argumento da tradição - de que governos anteriores também decretaram tolerâncias de ponto por ocasião de anteriores visitas papais - não colhe. A tradição tem que ser jusificada a cada momento: ou ela faz sentido, aqui e agora, ou não faz. E, se não fizer, ela deve ser abandonada (pelo menos nesta ocasião). Não se mantem um mau hábito apenas por ele ser habitual.

Ponto um: nem o dia 12 de maio nem o dia 13 de maio têm qualquer especial relevância para a religião católica. Nenhum católico é obrigado a guardar esses dias.

Ponto dois: nenhum católico é obrigado a ver o papa ao vivo sempre que tenha ocasião para tal.

Ponto três: uma peregrinação a Fátima tem o mesmo valor em qualquer dia do ano. Há peregrinos a ir a Fátima (e a Santiago de Compostela, e a todos os outros santuários católicos) em todos os dias do ano.

Portanto, não há qualquer sustentação na fé católica para se defender que um católico português seja suposto aproveitar o dia de hoje para ir a Fátima ver o papa.

Ademais, e isto é muito importante, amanhã é sábado. Qualquer católico português que queira mesmo aproveitar esta ocasião para ir a Fátima, pode fazê-lo esta noite: mete-se no arro depois do trabalho, faz a viagem durante a noite, e vê o papa na missa que ele amanhã de manhã celebrará.

Não somente não há qualquer obrigação de um funcionário público português católico ir ver o papa em Fátima como, se o quisesse fazer, poderia fazê-lo sem necessitar da tolerância de ponto: o papa estará em Fátima amanhã de manhã, que é sábado.

Em suma, foi um disparate. Não tem nada a ver com laicismo, tem a ver com não haver necessidade.