Blogues

Retrato de Luís Lavoura

A oposição e os jornalistas querem "sangue", demissões no governo. Agora gostariam que a ministra da Administração Interna se demitisse.

Devemos lembrar-nos que, há poucos meses, a oposição e os jornalistas estavam ávidos da, em seu entender inevitável, demissão do ministro das Finanças. Hoje em dia já ninguém pede a demissão desse ministro que, pelo contrário, é amplamente considerado como um dos melhores do governo.

Porque é que a ministra da Administração Interna se deveria demitir? Em minha opinião, ela nada fez de mal. Houve um grande incêndio, mais ou menos idêntico a muitos outros grandes incêndios que ao longo das anos tem havido. (No ano passado houve um incêndio maior na serra do Caramulo.) Este grande incêndio era previsível, tal e qual como a generalidade dos outros também o eram. Houve muitos mortos neste incêndio, o que não é felizmente costume, mas isso não é culpa da ministra.

Retrato de Luís Lavoura

Lemos que durante os recentes incêndios as autoridades evacuaram dezenas de aldeias, e ficamos impressionados com o imenso trabalho que as autoridades tiveram a evacuar tantas aldeias.

Mas, na verdade, cada uma dessas "aldeias" consiste hoje em meia-dúzia de casas habitadas, em média. É pouca gente.

A minha questão, porém, é: já agora, que se teve tanto trabalho em evacuar essas aldeias todas, não seria boa ideia tentar impedir que os habitantes a elas regressem? É que esta coisa de ter milhentas povoações de minúsculo tamanho é altamente prejudicial para um combate eficaz aos incêndios (os bombeiros gastam imenso tempo e esforço a procurar defender pequenos aglomerados dispersos de casas, em vez de estarem efetivamente a combater o fogo em geral) e constitui um grave risco para as próprias populações das aldeias.

Eu bem sei que se trata em grande parte de velhos casmurros, que não querem nem por nada abandonar a terreola onde sempre viveram. Mas é preciso alguém que tenha a coragem de meter juízo na cabeça dessa gente!

Retrato de Luís Lavoura

Diversas pessoas perguntam, se as autoridades fecharam à circulação o IC8 durante os recentes incêndios, porque não fecharam também a "estrada da morte" EN 236-1?

Parece-me simples de explicar. O IC8, como qualquer IC, tem uma entrada de cinco em cinco quilómetros, mais ou menos. Não se entra num IC onde se quer; trata-se de uma estrada rodeada de vedações de arame farpado e que só tem alguns, poucos acessos. Bloqueando esses poucos acessos, a estrada está cortada.
 A EN 236-1, pelo contrário, é uma estrada de acesso livre. Múltiplas estradas, estradinhas e caminhos vão desembocar nela. Não é, pura e simplesmente, possível bloqueá-la.

Retrato de Luís Lavoura

De quem é a culpa das mortes no grande incêndio do Pinhal Interior?

É impossível evitar que raios provoquem fogos. É impossível evitar que fogos se propaguem rapidamente, sob condições de alta temperatura e ventos fortes. E é impossível combater eficazmente e rapidamente tais fogos. Portanto, aí não está a culpa. Quem não acreditar no que aqui digo, que veja o exemplo dos EUA ou da Austrália, onde fogos similares a este ocorrem todos os anos.

Os fogos podem ter muito menores consequências se a matéria orgânica pronta a arder fôr pouca. Isso exige limpeza das matas, criação de corta-fogos, e fomento de espécies arbóreas folhosas. Mas tudo isso dá prejuízo direto aos proprietários rurais. A limpeza das matas custa (muito) dinheiro. Os corta-fogos são terra sem árvores, e portanto improdutiva. As espécies folhosas são de crescimento muito lento e portanto só dão algum dinheiro a muito longo prazo (50 anos). Nenhum proprietário florestal em regime de minifúndio pode pôr em prática tais medidas, sob pena de perder o pouco lucro que a floresta pode dar. Só uma gestão conjunta de grandes áreas (centenas ou milhares de hectares) florestais permite pôr em prática, de forma economicamente viável, tais medidas.

Portanto, a culpa da violência dos fogos em Portugal é, em grande parte, do minifúndio.

Mas a culpa das mortes que houve no Pinhal Interior é também, em grande parte, das minialdeias - povoações de menos de 50 habitantes, espalhadas pelo meio do pinhal. Não há forma rentável de criar grandes espaços limpos de vegetação à volta de cada uma dessas pequenas povoações; nem há forma fácil de acudir a cada uma delas no caso de um grande fogo. E foi isso que aconteceu neste incêndio: minialdeias viram-se cercadas pelo fogo, e as estradas que as elas acedem, idem.

O combate aos incêndios florestais não requer somente a eliminação do minifúndio - ele exige também a eliminação das minialdeias. Os habitantes delas devem ser mais ou menos forçados a deslocarem-se para as vilas. As aldeias isoladas no meio dos pinhais têm que ser eliminadas. Como se fez em Espanha.

Retrato de Luís Lavoura

Na França, um partido prepara-se para obter mais de dois terços dos deputados eleitos por menos de um terço dos votos (à primeira volta). Consegue ter um sistema eleitoral ainda mais distorcedor do que o inglês!

Retrato de Luís Lavoura

O sistema eleitoral britânico é eminentemente injusto e presta-se muito a interpretações erradas dos resultados eleitorais.

Na eleição anterior à de ontem, o partido conservador obteve cerca de 37% dos votos e conseguiu maioria absoluta dos deputados. Na eleição de ontem, esse partido aumentou para 42% dos votos e não obteve maioria absoluta. Os comentadores saudaram a eleição anterior como uma enorme vitória desse partido e castigaram-no nesta eleição pela sua derrota; mas, de facto, o partido conservador teve muito mais votos nesta eleição do que na anterior!!!

Retrato de Luís Lavoura

Diversas pessoas (sobretudo de direita) defendem que o Tesouro português deve emitir obrigações de muito longo prazo. Outras pessoas (sobretudo de esquerda), pelo contrário, defendem que o tesourp deve emitir dívida de curto prazo (digamos, de seis meses a dois anos). Quem tem razão?
Trata-se de uma questão de expetativas sobre a taxa de juro. Não deveria ser encarada como uma questão política (direita versus esquerda), mas como uma questão de expetativas. A taxa de juro de longo prazo anda atualmente pelos 3%; a taxa de juro de curto prazo ronda os 0%. Logo, só faz sentido emitir dívida de longo prazo se se previr que, a breve trecho, a taxa de juro de curto prazo vá subir de 0% para mais de 3%. Prevê-se isso? Ou não?
Cada participante nos mercados financeiros tem as suas expetativas. Pessoalmente, encaro a crise financeira pela qual passámos como uma grave "crise de folha de balanço" e acredito que ela imporá taxas de juro muito baixas ainda por um decénio ou mais. (O Japão teve uma crise similar em 1990 e ainda hoje tem taxas de juro baixíssmas.) Considero, portanto, que a melhor política será a de privilegiar a emissão de dívida de curto prazo.
Aceito que outras pessoas tenham opinião diferente - mas devem fundamentá-la em expetativas sobre a evolução da taxa de juro, não em preferências políticas.

Retrato de Luís Lavoura

Vi ontem a final da Taça de Portugal de futebol feminino. Vi-a na televisão; em vários anos transatos fui ao estádio.

Parece-me que houve nos últimos poucos anos uma evolução muito grande, para melhor, do futebol feminino em Portugal.

O jogo foi disputado entre dois dos principais clubes portugueses, o Sporting e o Sporting de Braga. Em anos passados somente pequenos clubes locais (Futebol Benfica, Primeiro de Dezembro, Clube de Albergaria, Valadares-Gaia) tinham futebol feminino; parece que agora alguns grandes clubes também já o têm. Com esses grandes clubes vêem recursos financeiros e organizacionais maiores.

As atletas tinham todas na casa dos vinte anos de idade. Em anos passados era vulgar ver mulheres na casa dos trinta ou até quarenta anos a jogar; agora, só as há na casa dos vinte, naturalmente mais pujantes - sinal de que a modalidade se está a apurar, só atletas na força da idade conseguem singrar nela.

As atletas ostentavam, de facto, uma invejável força física - fartaram-se de correr durante os 120 minutos (com prolongamento) do jogo. Mais um sinal de pujança e, além disso, de uma preparação física apurada. Em anos passados era normal as equipas na final da Taça treinarem apenas duas ou três vezes por semana; não acredito que as que ontem jogaram treinassem tão pouco.

Muitas das atletas já tinham jogado em clubes estrangeiros, inclusivé de nomeada. E havia atletas estrangeiras. Sinal de que o futebol feminino já tem alguma profissionalização em Portugal.

Enfim, por um conjunto de sinais percebi, mesmo sem ser acompanhante da modalidade (só vejo as finais da Taça), que ela tem evoluído fortemente em Portugal. Já não é só um entretenimento de amadoras. Agora é uma coisa a sério.

Retrato de Luís Lavoura

Cada vez se vêem mais artigos nos jornais sobre o advento dos carros movidos a eletricidade.

Diz-se que o grande problema desses carros são as baterias, mas que esse problema estará prestes a ser superado pela tecnologia.

No meu entender, porém, o grande problema dos carros elétricos é: como produzir a eletricidade de que eles necessitarão?

Segundo os meus conhecimentos, de toda a energia primária que um país desenvolvido, como Portugal, consome, 40% da energia serve para movimentar os meios de transporte, e 20% da energia serve para produzir eletricidade. Ou seja, muito aproximadamente, os carros e camiões gastam o dobro da energia primária daquela que é consumida sob a forma de eletricidade. Isto quer dizer que, se todos os carros e camiões passassem a mover-se a eletricidade, o consumo de eletricidade no país triplicaria. E eu pergunto: como será produzida tanta eletricidade?

Poder-se-á dizer que ela virá de fontes renováveis. Mas, de toda a eletricidade que hoje consumimos, apenas cerca de metade provem de tais fontes - e a maior dela são as barragens, que não podem ser indefinidamente multiplicadas. O que isto quer dizer, é que ainda será necessário imenso investimento para que toda a eletricidade que hoje consumimos possa provir de fontes renováveis. Quantas fontes renováveis serão então necessárias para que produzamos o triplo da eletricidade atual?

A mim parece-me que não há forma de as contas baterem certo - não há eletricidade suficiente para fazer movimentar os carros, a não ser que essa eletricidade seja produzida pela queima de carvão ou gás natural. Ora, se é para queimar carvão ou gás natural, mais vale queimar diretamente petróleo nos carros...

Retrato de Luís Lavoura

O Reino Unido tem um mecanismo de apoio aos idosos dependentes que constitui um bom modelo. Quando esses idosos estão por conta do Serviço Nacional de Saúde britânico, os gastos deste com cada um deles são contabilizados; quando o idoso morre, o Estado retira à sua herança todo o dinheiro que gastou com ele, deixando na herança (para transmitir aos herdeiros) um máximo de (aproximadamente) 100 mil euros. Desta forma, os herdeiros de idosos que vivam muito tempo a expensas do SNS (por terem uma doença terminal e necessitarem de cuidados paliativos, ou por estarem dementes) acabam de facto por pagar aquilo que eles gastaram.

Eu acho muito bem. Não devem ser os contribuintes a pagar os cuidados de saúde terminais. Quem paga devem ser (indiretamente) os herdeiros, que ficam sem parte da sua herança.