Retrato de Luís Lavoura

Tenho lido muitas opiniões segundo as quais os problemas de finanças públicas de alguns Estados membros da Zona Euro, como a Grécia e Portugal, não poderão deixar de levar ao fim do euro ou, pelo menos, ao abandono da utilização do euro por parte desses países.

Muitas dessas opiniões deixam-me suspeitoso por serem assinadas por autores ingleses ou norte-americanos. É sabido que o pessoal desses países nunca gostou do euro porque essa nova moeda colocou em risco a supremacia internacional do dólar americano e da libra esterlina. O pessoal desses países tem um desejo mais ou menos secreto de que a Zona Euro se desmembre. Eles estão portanto a expôr como inevitável aquilo que, de facto, mais desejam.

Eu gostaria que esses autores comparassem a situação da Grécia, ou de Portugal, com a situação do Estado americano da Califórnia. Esse Estado está ainda mais falido do que a Grécia. Com a importante diferença de que, enquanto os políticos gregos estão relativamente de acordo sobre o que fazer para acabar com a situação de falência do seu país, os políticos californianos andam há anos às voltas com a situação de falência do seu Estado sem conseguirem chegar a acordo sobre o que fazer.

Repare-se que, enquanto que a Grécia ou Portugal são economias marginais e relativamente pequenas dentro da Zona Euro, a Califórnia forma uma parte muito substancial da economia dos EUA. Portanto, os problemas financeiros do Estado e República da Califórnia são muito mais importantes, no contexto dos EUA, do que os problemas financeiros da Grécia e de Portugal o são no contexto da Zona Euro.

Há uma agravante no caso da Califórnia. Se o Estado da Califórnia fale, ele tem pouco sítio onde cortar as suas despesas. O Estado da Califórnia não fornece aos seus cidadãos serviços de saúde, nem serviços de educação básica, nem serviços de defesa militar. Não pode, portanto, cortar nesses serviços. O Estado da Grécia, pelo contrário, paga uma enorme variedade de serviços aos seus cidadãos, pelo que tem uma larga margem de discricionariedade na escolha de quais os serviços em que irá cortar as suas despesas. Enquanto que o Estado da Califórnia se vê automaticamente obrigado a cortar nas despesas da Universidade da Califórnia, que é uma das poucas coisas que ele paga, o Estado da Grécia pode perfeitamente decidir cortar apenas um pouco nas universidades mas mais nos gastos com a defesa ou com a saúde, por exemplo.

Ora, o certo é que ninguém diz que, por a Califórnia falir, isso porá em risco o dólar americano como moeda. Ninguém diz que a Califórnia poderá deixar de utilizar o dólar como sua moeda. É para todos evidente que, se a Califórnia não tem dinheiro para pagar aos seus funcionários, então terá que passar a pagar menos - mas que a moeda utilizada nos pagamentos continuará a ser o dólar americano. Ora, se isto é assim com a Califórnia, por que motivos não há-de também ser assim com a Grécia? Ou com Portugal? É para mim evidente que, se o Estado português está com dificuldades de tesouraria, terá que passar a pagar menos aos seus funcionários - e até poderá optar entre pagar menos aos soldados, ou aos médicos do SNS, ou aos professores universitáios, ou aos empregados das repartições. Mas nada disso implica que os pagamentos deixem de ser efetuados em euros. Da mesma forma que o Estado e República da Califórnia está a cortar nos salários dos professores da Universidade da Califórnia, mas continua a pagar-lhes em dólares.

Retrato de Luís Lavoura

perceção

Luís Lavoura on Sexta, 26/02/2010 - 15:02

Sim, mas isso é apenas uma diferença de perceção, isto é, não se trata de uma diferença objetiva entre os dois casos.

É claro que se pode defender que a situação financeira da Grécia é má porque os investidores acreditam que ela não tem saída, enquanto que a situação financeira da Califórnia é razoável porque os investidores acreditam que o Estado federal a socorrerá. Trata-se de finanças baseadas em perceções, em opiniões e em crenças, e não em dados objetivos.

Enfim, isso é o cerne da especulação.

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É claro que se pode defender que a situação financeira da Grécia é má porque os investidores acreditam que ela não tem saída, enquanto que a situação financeira da Califórnia é razoável porque os investidores acreditam que o Estado federal a socorrerá. Trata-se de finanças baseadas em perceções, em opiniões e em crenças, e não em dados objetivos.

Enfim, isso é o cerne da especulação"

 

Mas os negócios têm uma forte componente de percepção. Ao contrário do que alguns julgam a economia é uma ciência social não é uma ciência exacta. Todo e qualquer negócio começa com uma relação de confiança. Pessoalmente o que estes "doutos" querem

é quebrar essa relação pois como disseste o euro, ao contrários das perspectivas transatlanticas, é um caso sério de sucesso e um sério concorrente ao dólar...

Retrato de Luís Lavoura

pois

Luís Lavoura on Sexta, 26/02/2010 - 18:16

Pois, eu acho que é precisamente isso que está em causa.

Trata-se de pessoas ou instituições, essencialmente norte-americanas, que estão interessadas em acabar com o euro. Então especulam sobre a possibilidade de a Grécia falir, para causar problemas à Zona Euro.

É claro que, se houvesse alguém interessado em acabar com o dólar norte-americano, especularia sobre a possibilidade de a Califórnia falir. Mas não há ninguém interessado nisso.

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Excelente artigo. Julgo no

João Cardiga on Sexta, 26/02/2010 - 12:38

Excelente artigo. Julgo no entanto que existe uma diferença entre os USA e a zona Euro: a convicção que independentemente da situação existe sempre alguém para fazer o bail out (isto é ninguém pondera que o USA expulse a California do seu território). Esta solidariedade própria de um Estado Federal infelizmente ainda não existe na zona Euro...

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Califórnia x Portugal & Grécia

Miguel Duarte on Domingo, 28/02/2010 - 10:21

Segundo a S&P, uma obrigação da Califórnia oferece mais risco que Portugal e ligeriamente menos que a grécia. As tabelas explicativas dos ratings estão aqui. Sendo que actualmente:

  • Portugal - A+
  • Califórnia - A-
  • Grécia - BBB+

A Califórnia não me parece por isso estar a ter nas emissões da sua dívida uma grande vantagem face à Grécia (e não tem absolutamente vantagem nenhuma face a Portugal). Agora o que existe nos EUA e não existe na zona Euroa, é a emissão de obrigações federais (que presumo, talvez mal, apenas possam ser aplicadas em despesas federais)...

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