NOTA INTRODUTÓRIA: Para quem não está habituado a ler este blogue não estranhe o facto de dois membros do mesmo movimentos terem opiniões contrárias e estarem completamente à vontade para o expressar neste espaço. É perfeitamente normal :)
Bem o título poderá chocar e tenho de admitir que por principio até concordo com o que o Luís Lavoura e outros bloguers defendem. Sem dúvida a existir uma redução de salários ele tem de começar por quem ganha mais. Mais num país como o nosso em que existem algumas assimetrias em comparação com países mais desenvolvidos que convém ser eliminadas.
No entanto não posso concordar, dada a realidade portuguesa, que a primeira solução a ser aplicada seja a de redução dos salários na função pública.
Esta solução, embora optima na teoria, julgo que se iria revelar completamente desastrosa na pratica. Passo então a explicar:
- é uma lei que por ser nominal não poderá englobar todas as realidades que existem dentro da função pública. Isto é, muito provavelmente seria uma lei do tipo: acima de X Euros a pessoa viria o seu salário reduzido.
- acontece que tal a ser efectuado, embora de facil aplicações, iria contemplar tantos os que recebem muito para as rensponsabilidades que têm como os que até recebem pouco para as responsabilidades que têm, causando uma primeira fonte de injustiça.
- mas pior que isso não solucionaria um dos problemas de onde mais "sangra" os cofres do Estado: a capacidade de quem tem poder de retirar dinheiro do Estado. Para este ponto irei utilizar o exemplo que dei aqui do João Galamba:
Graças ao BASE, ficamos a saber que o mesmo retira de uma das suas prestações de serviço 3.469,12 Eur mensais. Partindo do pressuposto que as outras duas prestações que o mesmo deputado executa são de igual montante. Nesse caso então mensalmente (caso fosse em acumulação) ele receberia de prestação de serviços ao Estado ou organismos do Estado cerca de 10.407,36 Eur mensais, além do que receberia como deputado em part-time (que presumo ser a condição do mesmo). Ora esta lei que é proposta de diminuição de salários neste caso concreto apenas resultaria numa diminuição muito diminuta no seu rendimento mensal (menor de 5% no caso de uma redução de 20% do vencimento).
E isto é apenas uma extrapolação de um caso conhecido e em que existe informação pública. Certamente não deverão faltar casos em que a mesma pessoa retira rendimentos do Estado de diversas formas (prestação de serviços, empresas, acumulação de cargos, etc...) em que nesta lei não viria o seu rendimento sofrer um grande impacto.
Pior, caso a pessoa tenha a possibilidade de influenciar o rendimento que retira do Estado, então a diminuição do valor até poderia ser nula pois poderia ser compensada por uma nova prestação de serviços ou aumento nas já existentes.
Ou seja, na pratica o que uma lei assim levaria, a que apenas ficasse aplicada a quem não tem essa capacidade, e que são, sejamos honestos, os que dentro dos vários grupos de pessoas que existem no Estado, os que realmente produzem mais. Ou seja, tal medida iria afectar principalmente os mais produtivos em detrimentos dos mais improdutivos que muito provavelmente não viriam o seu rendimento diminuido.
Isto teria um impacto material e psicológico brutal a nível de estrutura do estado e mesmo na sociedade, aumentando ainda mais a sensação de injustiça que existe, sem nenhum beneficio de grande montante (muito provavelmente assistiriamos a um aumento das prestações de serviços e dos próprio gastos correntes em materiais).
Nesse sentido, enquanto procurarmos uma solução genérica, estaremos a perder tempo para encontrar uma solução mais consistente.














Eu não discordo...
Luís Lavoura on Quarta, 03/02/2010 - 14:23... das objeções que levantas, muito pelo contrário, concordo totalmente. São problemas práticos difíceis de ultrapassar.
Luís Lavoura
Sim, e embora não tenha
João Cardiga on Quarta, 03/02/2010 - 19:04Sim, e embora não tenha desenvolvido julgo a tua questão relativamente aos professores do secundário bastante pertinente.
O problema com o problema que levanto é que é de dificil resolução.
Julgo que um passo interessante era por exemplo as pessoas que trabalharem para o estado serem vista pela totalidade do $ que recebem pelo estado, independentemente do formato...
resposta
Luís Lavoura on Quinta, 04/02/2010 - 09:39O facto de estes problemas existirem não impede a necessidade - a meu ver trata-se de facto de uma necessidade - de diminuir os salários pagos pelo Estado.
Tomemos como exemplo os pilotos da Força Aérea. Já aí se regista o problema de que os salários que auferem são tão baixos que eles preferem abandonar a profissão para se passarem para o setor privado. O mesmo problema se regista a nível dos médicos, por exemplo, que abandonam o setor público para irem trabalhar (apenas) para o privado.
Mas esses problemas, bem reais mas pontuais, resolvem-se com medidas pontuais de aumento dos saários ou das categorias destes ou daqueles funcionários públicos.
O problema da acumulação de "tachos" por conta do Estado também é real mas, mais uma vez, abrange um número limitado de pessoas (tipicamente aquelas com influência política) e podem-se fazer leis adicionais que cerceiem esse problema.
Luís Lavoura
Não é assim tão limitado...
João Cardiga on Quinta, 04/02/2010 - 19:26Pegando nos teus pontos por ordem inversa:
a) não me parece que seja um número assim tão limitado, além de que o efeito seria de certo muito maior do que o simples corte directo implicito. Por exemplo, partindo do pressuposto (não sei quão afastado estará da realidade), que o salário médio é de 1.000 e que a medida que preconizas reduziria 20% desse salário médio (o que seria um verdadeiro milagre), se eliminasses as prestações de serviços que o Galamba presta (que não consigo compreender dado o facto que ele tem um unico patrão), estarias a eliminar um custo de 10.000 Eur mensal, ou seja afectando uma unica pessoa é o equivalente à poupança que consegues com a tua medida aplicada a 50 pessoas! Mais com o beneficio de que não terás ninguém contra (muito provavelmente até acharão correcta) essa medida sem serem os próprios visados. Ou sejas dás um sinal claro que tens um compromisso sério para com a redução de pessoal, começando essa redução bem por cima. Só isso irá incentivar a que o resto das pessoas tenham uma maior motivação para elas próprias pouparem, pelo qu pouparás não só directamente como também terás muita poupança indirecta, ou seja estaremos a falar de uma medida que poderá poupar provavelmente largos milhões de euros e abrindo porta para se criar a motivação correcta para uma poupança em larga escala.
b) Julgo que deviamos mudar a forma como vemos O estado e passar a ver "os" estado, isto é estamos perante uma realidade demasiadamente diversa para que 230 pessoas e com mais uns quantos a ajudar consegurem registar todos os problemas e depois conseguirem encontrar uma solução unica para resolver esses problemas.
A empresa tem um drive principal: o lucro; o estado não é assim tão diferente. Eu diria que de topo deve apenas existir duas preocupações:
- prestar um serviço de alta qualidade;
- ao mais baixo custo possível;
Ou seja ele só tem de se preocupar com o objectivo, que deve de ser o mais genérico possível nesta matéria. Por exemplo Portugal tem um problema com a despesa. Não compete ao Estado/Governo como é que vai poupar mas sim quanto vai poupar. Ou seja o Governo aponta um valor de redução (p.e. 5%) depois compete às unidades escolherem o "como" é que vão poupar, pois são elas que conhecem a realidade e são elas que têm de ser responsabilizadas caso não cheguem aos valores. Raios pagamos a milhares de directores e sub-directores para quê? São a eles que compete saber o como, a responsabilidade é deles e a unica coisa que têm de saber é que o próprio lugar que ocupam depende disso mesmo (como acontece a qualquer cidadão português).
Depois o Governo só tem de se certificar que a poupança não é atingida à custa da qualidade (como tem sido apanágio no passado), mais nada. Um director até deve ter a possibilidade de aumentar os seus colaboradores se isso contribuir para que exista poupança no global!
Ou seja eu julgo que a solução passa por:
a) trazer um pouco mais de justiça/motivação aos recursos humanos do Estado;
b) deixar de ter uma visão socialista/conservadora das soluções para o estado (isto é, a solução para o problema não é centralizada mas numa optica de responsabilização/liberdade de procura de solução individual);
c) criar um sistema de responsabilização que obviamente tem de ser acompanhado de uma maior liberdade de acção.
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