Retrato de Luís Lavoura

Parece que a Câmara da Amadora pretende demolir, parcial ou totalmente, o bairro "problemático" da Cova da Moura, com o objetivo de o susbstituir por uma urbanização, de contornos ainda mal definidos.

Embora eu não conheça a Cova da Moura, nem conheça ninguém que lá viva, não posso deixar de repudiar vivamente estas intenções, e de lembrar um precedente de mau agoiro.

Os bairros são das pessoas que neles vivem. Não há lugar a projetos de engenharia social, a "limpezas" de bairros. Os habitantes da Cova da Moura podem querer abandonar esse bairro, ou então podem querer nele permanecer e tentar melhorá-lo. Cabe aos poderes públicos tentar ajudar (no espírito de Cavaco Silva: "eu só pretendo dar uma ajuda" :-)), não lhes cabe tentar virar o mundo do avesso. Projetos de "limpeza" de bairros, ou de re-engenharia social dos ditos, são tudo menos liberais.

Há uns anos, a Câmara de Lisboa fez o mesmo com o bairro do Casal Ventoso. O Casal Ventoso é (ou era) um bairro muito bem situado, numa colina virada a oeste, cheia de sol e com boa vista, sobre o rio e sobre Monsanto. O que a Câmara de Lisboa fez foi, pura e simplesmente, criminoso: demoliu as casas todas e mandou quem lá vivia para um canto horroroso ao pé da avenida de Ceuta, um sítio húmido, barulhento, separado do resto da cidade pela avenida, e com pouco sol.

Naturalmente, a intenção da Câmara de Lisboa será a de colocar no antigo Casal Ventoso boas urbanizações, destinadas à classe média bem-pagante, a qual terá todo o gosto em ir viver para um local tão favorecido. A Câmara oculta essas intenções, que naturalmente se traduzem em muito dinheiro a entrar nos cofres da autarquia, debaixo de uma retórica humanitária, segundo a qual apenas se pretendeu eliminar um foco de problemas (quando na verdade nada foi eliminado - os problemas transferiram-se para outros lados).

Parece que a Câmara da Amadora vai seguir este guião. A Cova da Moura é um foco de problemas - boa desculpa para a Câmara encaixar uma boa maquia demolindo o bairro, colocando os seus habitantes numa enxovia insalubre qualquer, e vendendo os terrenos a promotores de projetos imobiliários para a classe média.

morei no casal...

hugo (não verificado) on Quarta, 28/07/2010 - 01:24

penso que falas assim porque não moraste em nenhum dos bairros que falas em cima... morei 18 anos do casal ventoso mesmo no centro da rua casal ventoso de baixo neste momento tenho 28 a 12 que moro nos prédios novos na Av de cauta. para te ser sincero gosto mais de morar onde moro! mais limpo, casas com mais condições, pessoas que antes traficavam agora trabalham, mais centros de apoio (tanto a crianças como a idosos como também a famílias desfavorecidas e etc) é diferente... tenho 2 filhos menores e não estou a ver a cria-los no mundo que era ultimamente o casal ventoso, uma desgraça! caroxos a picarem em todas as esquinas, casas a cairem de velhas quando chuvia tinha de ser a baldes para aparar a chuva, podridão total! qual encosta qual carapuça, antes quero 1000 vezes morar onde moro que no antigo casal ventoso!

Cova da moura

Anónimo (não verificado) on Sábado, 18/02/2006 - 14:40

A resolução dos problemas da cova da moura ñ passa pela demolição do bairro, mais sim por requalificação, com infraestrutural a que qualquer bairro tem direito, só assim os problemas de criminalidade drogas e todo o resto pode diminuir, ñ me venham com história de cores e luz que isso ñ passa de um desculpa barata. Os filhos de imigrantes só irão sentir-se portugueses e serem bons cidadãos quando tiverem a mesma oportunidade de emprego, de escola. Imaginas vocês que viviam num pais onde ñ conseguem um emprego porque são brancos, imaginem vocês que ñ conseguem estudar porque ñ têm documentos, ou nasceram neste país e depois de 20 anos ainda voz é negado a nacionalidade porque os vossos pais perderam os documento ou ñ o têm, como poderemos ser bons cidadãos, a ñ ser pela nossa passividade e compreensão, e outra coisa a população da cova da moura é aquela que mais se encontra a trabalhar na construção civil, por isso reconstruir o bairro ñ será difícil.
É só uma questão de vontade politica e preconceitos sócias para com o bairro.

Concordei com o novo Casal

Miguel Bengla on Sábado, 24/12/2005 - 13:22

Concordei com o novo Casal Ventoso e concordo com a nova Cova da Moura.

O antigo Casal Ventoso era um aglomerado de casas degradadas e barracas, doenças e misérias. As pessoas agora pelo menos têm uma casa muito razoável para morar, e estou certo que 99% dos inquilinos prefere viver num andar do que numa barraca. O objectivo não foi acabar com o tráfico de droga, mas sim que as pessoas que lá moravam tivessem condições de vida melhor. Apesar de as condições do antigo Casal Ventoso, algomerados de barracas, ruas estreitas e becos, facilitar esse tráfico.

Situação idêntica se passa na Cova da Moura. O modo como o bairro cresceu facilita em muito a criminalidade, que afecta principalmente os seus moradores que na grande maioria são pessoas normais como tu e eu, que vieram para Portugal na esperança de encontrar uma vida melhor. Acho bem que se reformule o bairro, passando mesmo pela demolição de algumas zonas e construção de novas áreas, de modo a melhorar a qualidade de vida dos moradores.

É que os custos com estas questões não podem ser vistos como dinheiro que o Estado desperdiça. É um grande investimento, porque ajuda a integração dos imigrantes que proporciona trabalhadores mais motivados e produtivos, ao mesmo tempo que reduz o dinheiro gasto em actividades de prevenção e combate à criminalidade. No futuro "dá-nos" uma segunda e terceira geração, já de portugueses, que se sentem bem onde vivem, sem revolta e com vontade de serem portugueses e participarem em Portugal. Isto é muito difícil e importante de atingir.

Dois ocmentários:

Vitor Jesus on Sexta, 23/12/2005 - 13:49

Dois ocmentários:
O primeiro tipo era essencialmente o que o Hugo disse. Há efeitos cujo alcance não é imediatamente compreendido mas que têm grande impacto. A arquitectura é um deles. Depois, a Cova da Moura é um bairro que é feito memso pelas pessoas que lá moram. Quem quer mudar o bairro não tem força nenhuma ocntra os uqe "gostam" do bairro assim. O Estado tem de intervir nem que seja para proteger quem lá mora e que não entra no crime.

O segundo. Não acho bem entrar por questões de corrupção. Acho que é saudável admitir que a Câmara quer resolver o problema e que esta é uma medida possível (a limpeza forçada). Acho sempre preferível discutir o assunto em termos da eficácia da medida e não dos benefícios de bastidores.

efeito da arquitectura

Hugo F Garcia (não verificado) on Sexta, 23/12/2005 - 10:47

Luis,

acho que estas a ignorar uma série de factores para fazer esse julgamento.

A arquitectura tem um efeito enorme sobre uma variedade de factores.
Em primeiro a intervenção policial. se não fosse a disposição da cova da Moura seria muito mais fácil uma intervenção policial pacífica. O polícia que foi morto há uns tempos atrás não o teria sido com outro tipo de arquitectura.

Depois não são apenas as pessoas que fazem os bairros. São tambem os bairros que fazem as pessoas. Experimenta entrar no bairro da cova da moura e experimenta entrar na quinta da beloura e vê onde sentes esperança no mundo e onde te sentes mais revoltado.

Depois existe a falta de luz. A luz solar directa é o suficiente para tornar as pessoas mais felizes e a luz artificial diminui o crime aumentando a segurança e a paz social.

Já a decoração e as boas condições têm um efeito enorme sobre todos os aspectos da nossa personalidade. Nem é preciso acreditar ou perceber de feng-shui para saber isto. Mesmo os psicólogos ocidentais começam a trabalhar muito com estes factores.

E todo o jogo de espaços e cantos escondidos permite ou evita o tráfico, os assaltos, violações, etc.

não é porque o realojamento do casal ventoso foi mal feito em alguns aspectos (e não tenho a certeza que tenha sido mal feito) que se vai deixar de fazer o trabalho ou que o realojamento deixa de ser liberal.

ser Liberal é ser Tolerante e dar hipóteses aos indivíduos de terem sucesso na vida e a Cova da Moura como existe hoje não dá essa hipótese.

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