Retrato de Filipe Melo Sousa

Queres uma sociedade livre de dinheiro? Ou se fores menos radical queres uma sociedade em que seja feita uma redistribuição do dinheiro?
Já te perguntaste de onde vem o dinheiro?

O Dinheiro é um direito de saque. Mas esse instrumento de troca não pode existir a não ser que haja mercadorias e bens a ser transaccionados. É o instrumento de equidade que determina que dois homens livres trocam o que quiserem oferecendo valor por valor igual.

Por isso, o dinheiro não é o instrumento de um mendigo, nem é o instrumento de um ladrão nem de um saqueador, pois esses indivíduos querem adquirir o direito de saque sem ter contribuído com nada de valor para a troca. Não há oceano de lágrimas, nem arsenal militar, nem todas as armas do mundo poderiam transformar o papel (que deveria ser ouro) do teu bolso em pão que precisas para sobreviver até ao dia de amanhã.

Dizem que o dinheiro é detido pelos fortes em detrimento dos fracos? Mas de que força falam? De certeza que não é a força dos músculos. O bem-estar advém da capacidade que o homem tem de raciocinar. O dinheiro produzido por alguém que inventa um motor é feito em detrimento de quem não o inventou? O dinheiro produzido por uma mente inteligente é produzida em detrimento de uma mente inapta? Um trabalhador competente produz em detrimento de um incompetente? Um investidor ambicioso ganha em detrimento de um pensionista prudente que compra títulos do tesouro? Não! A produção de valor antecede a vontade de saquear. É esta regra de precedências que não alcança a mente de quem se diz com direito de retirar o dinheiro.

Efectuar trocas por meios de dinheiro é um princípio ético. Significa que cada homem é dono do seu próprio corpo. O dinheiro restringe a prescrição do teu esforço ao serviço de outrem para além da tua vontade. Permite-te de seguida obter bens pelo valor que o homem para quem trabalhas oferece. Ao deter dinheiro tens de reconhecer que o homem trabalha para o seu próprio proveito, não para o seu prejuízo. Tens de reconhecer que não são bestas de carga para levar com o prejuízo e a miséria dos outros. O dinheiro é um instrumento de troca de proveitos, não de misérias. O dinheiro permite-te trocar o teu talento à luz da razão, não as tuas fraquezas à luz da estupidez. Do mesmo modo que tu compras o melhor que o teu dinheiro pode oferecer. Queres o melhor produto, o melhor desempenho, fazendo o teu melhor julgamento. Este é o código moral que o dinheiro representa. É isto que queres distorcer e destruir?

Mas o dinheiro é apenas um instrumento. Pode-te levar onde quiseres, mas não se substitui a ti como condutor. Dá-te os meios de satisfazer os teus desejos, mas não te incute desejos. O dinheiro é um obstáculo para aqueles que tentarem reverter a lei da casualidade. O dinheiro não trará felicidade a alguém que se evade do conhecimento da valorização, nem lhe dará um propósito se ele desistir de procurar. Não trará inteligência para um tolo, respeito por um incompetente, nem admiração por um cobarde. O homem que puder comprar a inteligência dos seus superiores pondo-o ao ser serviço, passando assim ele a julgar, acabará como sua vítima mais tarde. Acabarão por abandoná-lo e voltar a seus superiores. Ele descobrirá assim que homem algum poderá ser inferior ao seu dinheiro. É este um mau princípio? É isto que se deve corrigir?

Apenas um herdeiro que não precisa do dinheiro está apto a herdar esse bem-estar. Se um herdeiro estiver à altura do seu dinheiro, ele irá servi-lo do mesmo modo de quem o criou. Caso contrário, acontece precisamente o que escrevi no parágrafo acima. Dizem que o dinheiro o corrompeu. Ou terá sido antes ele a corromper o seu dinheiro? Não sintas inveja de um herdeiro sem valor. O seu bem-estar não é o teu. E tu não terias feito melhor que ele. Não consideres que a herança dele deveria ter sido dividida contigo. Arranjar 100 parasitas em vez de um só não traria de volta o valor de quem faleceu. O dinheiro é um poder vivo que morre quando não tem mais raízes. O dinheiro não serve a mente que não está à sua altura. É este o princípio que se deve destruir?

O dinheiro é o teu meio de existência. O veredicto que pronunciares sobre a sua origem é igual ao veredicto que pronunciares sobre a tua vida. Se corromperes a sua origem, vais destruir a tua própria existência. Conseguiste adquirir o teu dinheiro através de mendicidade ou da fraude? Os teus bens não serão tributo do teu mérito, mas antes um estandarte da tua vergonha. Então podes sair à rua e gritar que o dinheiro é mau e perverso. Porque te vai lembrar a tua depravação. É por isso que consideras o dinheiro mau e fonte de corrupção? É por isso que defendes a sua redistribuição?

Não há ninguém que goste tanto do dinheiro como quem o adquiriu honestamente. Nem ninguém que o despreze tanto como aquele que o obteve sem o merecer. Cada vez que ouvires uma palavra de desprezo em relação ao dinheiro podes concluir se estás a falar com alguém que não vive do dinheiro que produz, antes alguém que vive com o sustento dos outros.

Pobre de quem, por falta de auto-estima se sentir culpado por aquilo que possui. De quem não tem sentido moral do seu direito. De quem não estiver pronto a defender a sua própria vida. Estarão à mercê de uma horda de saqueadores sedentos. Seres rastejantes que saltam da sua toca assim que farejam alguém que esteja disposto a pedir perdão pelo seu bem-estar. Eles virão prontamente buscar o seu saque, aliviá-lo da sua culpa, e da sua vida.

Queres meter no topo da nossa sociedade uma elite que vive com esse duplo critério? Que usam a força bruta em vez do poder da razão? Numa sociedade com ética, eles seriam nada mais que criminosos. Mas se estabeleceres uma sociedade de criminosos-por-direito e saqueadores-pela-lei, vais ter homens a usar a força para tirar o valor das mãos de vítimas desarmadas. Esses homens do sistema acreditam estar a salvo devido às leis que eles criaram para os proteger. Mas estarão mais tarde a mercê de alguém que usar o mesmo estratagema. Vencendo aquele que mais pisar os restantes. Terás uma sociedade não será mais valorizada a inteligência mas sim a força bruta. A sociedade só pode ruir sob o saque e a guerra.

Queres saber quanto tempo falta para esse dia chegar? Observa a saúde do dinheiro. Se vires que o dinheiro é uma questão de favores, e não de trocas justas, se vires a corrupção ser recompensada como honestidade. E a honestidade a tornar-se um sacrifício pessoal. Se vires enriquecerem à tua custa, e a lei protege-os a eles e não a ti, então esse dia está próximo.

Se quiseres destruir uma sociedade começa por destruir o dinheiro. Pilha as reservas centrais. E emite uma pilha de papel contrafeito a quem tinha anteriormente uma garantia de valor. Isso vai matar todas as referências objectivas, e vais por as pessoas a viver sob regras arbitrárias. O ouro é um valor intemporal. O papel é um valor arbitrário, emitido por saqueadores que mexem nas contas que não lhes pertencem. Espera pelo dia em que vires a tua conta a zero.

Quando acabares de destruir todos os meios de sobrevivência, não tenhas esperanças nas virtudes do homem. Não esperes que ele continue a produzir, se o esforço for punido, e o saque recompensado. Não comeces a perguntar: “quem está a destruir o mundo”. Porque és tu próprio.

Adaptado do inglês "D'Anconia Money Speech"

Retrato de Luís Lavoura

"[o dinheiro] não pode

Luís Lavoura on Terça, 27/06/2006 - 08:25

"[o dinheiro] não pode existir a não ser que haja mercadorias e bens a ser transaccionados"

É precisamente esta a minha objeção àqueles que falam em esquemas de capitalização como se eles fossem uma panaceia universal para os problemas da segurança social.

É claro que o dinheiro se multiplica num esquema de capitalização, por força, seja das taxas de juro, seja da especulação bolsista. Mas esse dinheiro de nada vale se não houver mercadorias e bens que possam ser transacionados.

Como Marx bem dizia, o único valor, em última análise, é o valor do trabalho humano (e o valor dos recursos naturais, cujo possível esgotamento não era ainda encarado no tempo de Marx). Se não houver trabalho humano não há valor, e então o dinheiro de nada serve.

Marx foi um bom economista

Ricardo Francisco on Terça, 27/06/2006 - 14:42

Marx foi um bom economista no seu tempo. O Caro Luís Lavoura devia actualizar os conhecimentos de economia, mas já tive oportunidade para o dizer.

Quando se fala em dinheiro, ou massa monetária distingue-se entre massa monetária real ou nominal. Quando a massa monetária nominal é superior ao valor real correspondente (activos reais) esta é desvalorizada, leia-se sofre com a inflação. Devido a isto usa-se a massa monetária real, que é corrigida da inflação. Tambem se usam taxas de juros reais, por contraponto a taxas de juro nominais, sendo que a primeira é corrigida da inflação.

"É claro que o dinheiro se multiplica num esquema de capitalização, por força, seja das taxas de juro, seja da especulação bolsista. Mas esse dinheiro de nada vale se não houver mercadorias e bens que possam ser transacionados." Luís LAvoura

O dinheiro não se multiplica num esquema de capitalização. Isto é uma confusão de conceitos. O dinheiro investido, gera em média retornos associados ao risco do investimento em si. Se for num depósito em um banco, gerará retornos constantes típicos de um investimento com risco baixo e com liquidez elevada, em um esquema de capitalização.

A massa monetária cresce por várias razões. Uma delas, e a mais importante, não é por especulação ou pelas taxas de juro. Cresce porque a economia real cresce. A população cresce e a produtividade cresce, logo os activos reais crescem a este ritmo combinado. Isto para a tristeza dos seguidores de Marx do século XX.

Como já escrevi antes, não existe prespectiva para a redução de produtividade média na humanidade, pelo contrário, logo não se prespectiva as hipóteses da teoria de "stable growth" que parece gostar.

A sucesso da economia de mercado, capitalista na sua fundação e liberal na sua ideologia já está cá para durar. Como disse o outro, "habitem-se".

"Como Marx bem dizia, o único valor, em última análise, é o valor do trabalho humano (e o valor dos recursos naturais, cujo possível esgotamento não era ainda encarado no tempo de Marx). Se não houver trabalho humano não há valor, e então o dinheiro de nada serve." Luís LAvoura

"o único valor, em última análise, é o valor do trabalho humano" - Acho incrível que não perceba que esta frase, com a qual concorda, implica a negação do direito de propriedade? Estas frases bombásticas dignas de um comício do PC ou do BE (versão do Be às portas de uma fábrica de Leiria) atentam à inteligência e conhecimentos dos seus colegas bloggers...

Saudações liberais...

Retrato de Luís Lavoura

"esta frase, com a qual

Luís Lavoura on Terça, 27/06/2006 - 15:12

"esta frase, com a qual concorda, implica a negação do direito de propriedade"

Não vejo como.

Implica a negação do

Ricardo Francisco on Terça, 27/06/2006 - 17:19

Implica a negação do direito de propriedade já que o direito de propriedade tal como ele é definido nas democracias liberais não está restringido a ser devido ao trabalho. Quando se defende que todo o valor
é devido ao trabalho, diz-se que todos os que se apropriam de valor (que tem a forma da aquisição do direito de propriedade sobre algo que tem valor) sem ser devido ao seu trabalho a adquiriram indevidamente e, logo, devem ser expropriados.

E já agora, nesta prespectiva, tambem as heranças são claramente discutíveis...

Eu já lhe disse antes, é bom perceber as implicações do que defendemos. Um pressuposto pode levar a mais conclusões do que aquela que pretendemos...

Espero que agora já veja como. E que entenda a incompatiilidade entre Marxismo e Liberalismo...esta entre outras razões...

Retrato de Luís Lavoura

Quando se diz que todo o

Luís Lavoura on Quarta, 28/06/2006 - 08:37

Quando se diz que todo o valor é, em última análise, devido ao trabalho humano, está-se a significar que a propriedade, sem trabalho humano, de nada vale. Por exemplo, se eu possuo uma macieira, ela não produz maçãs a não ser que alguém trate dela; se eu possuo uma casa e quero que ela me valha de alguma coisa, tenho que a arrendar, o que implica que alguém trabalhe para ma pagar. A propriedade, só por si, não dá de comer a ninguém; é preciso alguém que trabalhe para cozer o pão, fazer os tecidos, construir as casas, etc.

Ou seja, não se está a negar o direito à propriedade. Está-se apenas a dizer que a propriedade, só por si, não alimenta ninguém, não produz produtos úteis ao Homem.

Para produzir coisas são necessários três fatores: capital, trabalho, e recursos naturais. A propriedade só por si é capital apenas: sem os outros dois fatores, de nada serve. Mas o próprio capital é, em geral, produto do trabalho humano: uma casa foi construída por alguém, uma árvores foram plantadas por alguém, etc. Ou seja, em última análise, quase tudo resulta do trabalho humano - exceto os recursos naturais, claro.

Definições

Migas on Quarta, 28/06/2006 - 10:58

Pois, mas a definição marxista não é essa. Para Marx, a actividade intelectual de gerir e investir não é "trabalho", é capital, cujo retorno constitui apropriação indevida do "surplus-value".

Retrato de Luís Lavoura

Bem, eu nunca li Marx

Luís Lavoura on Quarta, 28/06/2006 - 11:20

Bem, eu nunca li Marx (talvez o Migas tenha lido...), nem de tal tive necessidade uma vez que, ao contrário daquilo que alguns parecem pensar, não sou nem nunca fui marxista.

Mas para mim é evidente que pensar, inventar, e gerir um investimento, é trabalho humano. Penso que para Marx - que, apesar do seu famoso mau feitio, e das suas ideias políticas, era um homem inteligente - também seria evidente que, quando James Watt inventou a máquina a vapor, estava a trabalhar e não propriamente a divertir-se, e que esse seu trabalho deveria, de alguma forma, ser recompensado. O cérebro de James Watt poderia ser classificado como "capital", mas a sua atividade era certamente "trabalho"...

Caro Luís,

Ricardo Francisco on Quarta, 28/06/2006 - 13:30

Caro Luís,

Se calhar de facto o problema é não ter lido Marx, e por isso não entender o alcance da afirmação com a qual tão abertamente concordou.

De facto o trabalho intelectual conta como trabalho, aplicando o caso de Watt. Já um capitalista que coloca fundos para que um investigador seja remunerado enquanto investiga, segundo Marx, não deveria ter direito sobre o valor gerado pelo trabalho desse mesmo investigador. O que é o mesmo que dizer que qualquer direito de propriedade adquirido sem ser via trabalho na concepção Marxista é indevido, o que é incompatível com a noção de direito de propriedade vigente nas DEmocracias liberais Europeias.

Compreende agora o meu ponto?

Viva o dinheiro ganho com

Pedro Viana (não verificado) on Segunda, 26/06/2006 - 19:13

Viva o dinheiro ganho com esforço!
Viva o mérito!
Abaixo as heranças!
Todos com iguais condições de partida! De que vale o dinheiro que se ganha por se partir à frente? Viva o esforço! Promova-se o esforço e o mérito! Por morte todos os bens do defunto serão postos a concurso para determinar quem mais merece possuí-los, quem tem o plano que mais dinheiro permite gerar a partir deles. Viva o mérito da melhor proposta! Viva o dinheiro ganho com mérito!

Retrato de Luís Lavoura

Se não houvesse heranças,

Luís Lavoura on Terça, 27/06/2006 - 10:47

Se não houvesse heranças, muitas pessoas não teriam motivação para trabalhar, esforçar-se e ganhar dinheiro.

As pessoas trabalham e esforçam-se para seu próprio bem, e dos seus descendentes diretos. Se soubessem que o seu esforço não reverteria para o bem dos seus filhos, muitas pessoas não se esforçariam nada.

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