O liberalismo não se enquadra na dicotomia Esquerda - Direita. Quando caímos na armadilha de posicionar a ideologia liberal, independentemente da sua variante neste eixo desvirtuamos o pensamento liberal e caímos numa armadilha difícil de escapar.

Tanto na esquerda como na direita vemos o estado como meio para se atingirem fins. Tanto de um lado como do outro fins económicos e morais. Fins diferentes mas não deixam de ser fins. Sem ilusões, a direita não defende a liberdade económica, defende o direito à propriedade. Tal como a esquerda não defende o direito à moralidade não restringida pelo estado, apenas a defende instrumentalmente como caminho para a "justiça social".

O liberalismo defende o indivíduo de qualquer plano central, quer seja de esquerda quer seja de direita. Defende liberdades individuais. Separa-se da anarquia no momento em que defende que o estado se justifica porque as liberdades individuais são concorrentes e regula essa concorrência de forma a evitar a lei do mais forte.

Quando colocamos o liberalismo à esquerda ou à direita colocamo-nos reféns de alguma posição que limita a esfera das liberdades inividuais. Individualmente, cada um tem as suas posições morais que estão mais em concordância com posições de esquerda ou de direita. O que nos deve unir é o acordo que não devemos impor as nossas posições aos demais, exactamente por entrarmos nas liberdades alheias. Quando nos colocamos à esquerda ou à direita afirmando-nos liberais, colocamo-nos refens de posições morais, uma armadilha difícl de escapar e que facilmente nos limita o discurso.

O fugir desta catalogação compulsiva na dicotomia "direita/esquerda" do Liberalismo deveria ser uma das grandes prioridades de qualquer Liberal.

«Uma das diferenças é por

dos ∫antos (não verificado) on Terça, 04/07/2006 - 20:47

«Uma das diferenças é por exemplo a barreira à entrada em mercados, tanto no contexto nacional como no internacional.

Intervenções fiscais ou orçamentais positivas, são outro exemplo.»

Mas esses exemplos tanto são demonstrações de falta de liberdade económica como de desrespeito pelo direito de propriedade, uma vez que se alguém é excluído dos mercados é porque não pode gerir convenientemente a sua propriedade e, no caso das intervenções fiscais ou reequilíbrios orçamentais, parte dela é confiscada/desvalorizada.

O que julgo estar a ser confundido aqui é o direito à propriedade privada em si com o reconhecimento legal mínimo que o Estado faz da propriedade ou, se quisermos, a propriedade como uma espécie de "concessão" ou "licença" e que faz parte do sistema de sustentabilidade social-democrata.

No fundo, defender a propriedade (privada) é o mesmo que defender o mercado livre e a liberdade económica.

Dos Santos,

Ricardo Francisco on Quarta, 05/07/2006 - 09:24

Dos Santos,

Concordo com o que escreve, e sem dúvidas. Agora, quantos partidos associados à direita que conhece é que defendem o direito de propriedade tal como o entende?

Em Portugal, nenhum. E quando falo do perigo de colocar o Liberalismo à esquerda ou à direita, falo no contexto Português.

«Agora, quantos partidos

dos ∫antos (não verificado) on Sexta, 07/07/2006 - 02:17

«Agora, quantos partidos associados à direita que conhece é que defendem o direito de propriedade tal como o entende?»

Nenhum. Mas só apontava o facto de não se poderem distinguir ambas as coisas dessa forma. Se são iguais, então teríamos de concluir que os partidos ditos de direita, afinal, também defendiam a liberdade económica. («Sem ilusões, a direita não defende a liberdade económica, defende o direito à propriedade.»)

O que acontece é que a "direita" não defende o direito de propriedade e, consequentemente, não defende a liberdade económica.

Retrato de Luís Lavoura

Direita e esquerda existem

Luís Lavoura on Terça, 04/07/2006 - 09:46

Direita e esquerda existem sempre, podem é ser liberais ou não ser. Tradicionalmente, tanto a direita como a esquerda mais correntes são anti-liberais. Mas, tanto na direita como na esquerda sempre houve, e há, tradições liberais. Ou seja, a meu ver, trata-se de duas dimensões diferentes, tal como aliás se vê em testes políticos do tipo Political Compass. Uma pessoa pode ser de direita ou de esquerda e, dentro de cada uma dessas opções, pode ser liberal ou estatista.

Isto também é assim noutros campos. Um ecologista pode ser liberal ou estatista. Uma feminista pode ser liberal ou estatista. E assim por diante. Um estatista advoga ordens estatais, compulsivas, para resolver os problemas que identifica. Um liberal rejeita tais ordens, preferindo arranjos flexíveis que mantenham a liberdade de cada um escolher a sua via.

Comentários

Migas on Segunda, 03/07/2006 - 23:40

Comentei-te aqui.

Abraços.

«Sem ilusões, a direita

dos ∫antos (não verificado) on Terça, 04/07/2006 - 09:19

«Sem ilusões, a direita não defende a liberdade económica, defende o direito à propriedade.»

Qual a diferença entre liberdade económica e direito de propriedade? Se a pessoa tem direito à sua propriedade, então verifica-se que existe liberdade económica.

Dos Santos,

Ricardo Francisco on Terça, 04/07/2006 - 10:11

Dos Santos,

Uma das diferenças é por exemplo a barreira à entrada em mercados, tanto no contexto nacional como no internacional.

Intervenções fiscais ou orçamentais positivas, são outro exemplo.

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