Retrato de João Cardiga

Desde que estou na blogosfera já fui apelidado de muitas coisas ("comunistas", "esquerdalha", "capitalista", "engenheiro social", etc...) pelo que provavelmente depois deste artigo deverei juntar de "bloquista".

Escrevo hoje para falar, e tentar desmitificar, duas das medidas mais polémicas do Bloco de Esquerda. E escrevo pois, na maioria dos casos as mesmas são apelidadas de "populistas", "extremistas" ou "radicais", matando assim uma discussão que pode ser muito proveitosa. Pior, julgo que é uma resposta dogmática para um tema científico. Ou seja os contra-argumentos para algo que deriva de anos de estudo cientifico são puros ataques subjectivos.

Dito isto passemos para as medidas:

1 - Proibição de despedimentos em empresas com lucro

Um dos pressupostos em que acenta a teoria económica mainstream é o da racionalidade dos agentes. Isto é o agente comporta-se de forma a maximizar o seu bem-estar analisando sempre os beneficios e custos de determinada acção*. Todas as conclusões desta teoria, como por exemplo a de os mercados serem a melhor forma de distribuição de bens escassos e serem geradores de progresso e bem-estar, são sustentados por este pressuposto. Obviamente, caso os agentes se comportem de forma irracional, é aberto a "caixa de Pandora", e a própria modelização da nossa sociedade** que fica em risco.

Dito isto passemos então para o contexto actual: o de crise de procura.

A maior motivação de um empresário é a maximização do lucro (pelo menos é o que se diz e se pressupõe). Uma das formas tipicas e comummente utilizadas em Portugal para se atingir este objectivo*** é através da diminuição do custo de trabalho, que muitas vezes é concretizada através do despedimento. Ora dado o contexto actual (o de crise económica) o empresário tem, não só a motivação, como a oportunidade e incentivo para agir dessa forma. Assim para mazimizar o seu lucro, o empresário despede parte dos seus colaboradores e consegue produzir o mesmo com menos trabalhadores (recorrendo muitas vezes a horas extra), ganhando uma vantagem competitiva em relação à concorrência.

Dir-me-ão: está a ser racional! Pois, mas o problema é que não está! A questão é que se todos os agentes agirem da mesma forma (e dado que são racionais irão agir) a verdade é que a sua vantagem competitiva será de muito curto prazo, ou mesmo nula. Com a agravante de que neste processo, e com estas acções se destroi procura o que fará diminuir o lucro de todos. Dito de outra forma, os agentes têm uma acção irracional!

Ora se no contexto normal isto seria mau, numa crise de procura seria um autêntico desastre à espera de acontecer (basta recordar 1929), acabando a sociedade toda por pagar os erros de um conjunto muito limitado de individuos.

E é neste contexto que esta medida aparece. Isto é, é uma forma de diminuir os incentivos existentes aos agentes se comportarem de forma irracional.

Dado esta realidade gostaria de dar a minha opinião sobre esta medida. Ao contrário do "mainstream" não concordo que se apelide a mesma de populista ou extremista. É uma solução ideologicamente certa para o BE. E é uma medida corajosa e que poderia ter trazido para o debate temas que urgem serem discutidos. Mas na minha opinião, e como é natural, é uma medida errada. Além da questão ideológica, é errada porque é aplicada por igual a todas as situações não resolvendo de todo o problema que visa combater. Se é verdade que existem empresas que têm lucros e que utilizarão os despedimentos de forma incorrecta, existirão outras cuja a sua viabilidade de médio prazo estará dependente de uma restruturação, pelo que a aplicação desta medida contém um risco elevado de aumentar o desemprego e agravar a crise.

No entanto, julgo que ao se debater esta medida existem importantes questões em aberto:

A) O que fazer para combater este problema?

B) Deverá uma empresa internalizar o custo social das suas decisões?

C) Para que serve o lucro?

D) O que é uma empresa?

2 - Nacionalização da Galp e da EDP

Existem mercados que pelas suas caracteristicas não pode existir concorrência, são normalmente apelidados de monopólios naturais. Este é um tema importante, principalmente em Portugal, onde julgo que os monopólios naturais são um pouco mais extensos do que noutros países.

Assim é importante, nos casos dos monopólios naturais, saber o que fazer. Tipicamente, e que seja do meu conhecimento, existem duas "soluções": ou são privados ou são do Estado.

Neste ponto partilho da opinião do Bloco: os monopólios naturais deverão ser do Estado****. Mas a minha partilha de opinião termina neste ponto, porque a Galp e a EDP contêm na sua actividade monopólios naturais e actividades concorrênciais. Assim julgo que a questão não se coloca em termos de quais empresas nacionalizar, mas sim quais actividades nacionalizar!

NOTAS:
* Esta teoria implica outros pressupostos (p.e. informação perfeita) que não julguei relevante para o tema em discussão.

** Se analisarmos o nosso passado recente, quase toda a produção politica é baseada nas conclusões da teoria económica mainstream.

*** Basta recordar o que tem sido dito pelos partidos de direita, em especial pela MFL.

**** Neste artigo que já é extenso não explico quais os meus argumentos para este ponto pois não é a objectivo principal do mesmo.

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Força de habito

João Cardiga on Terça, 15/09/2009 - 23:17

Quando estou a ter uma discussão nos comentários goto de perguntar. É força de habito...

Não sei se hoje ainda consigo mas vou tentar...

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Resposta

João Cardiga on Terça, 15/09/2009 - 15:01

"São contratos diferentes, a remuneração vai ser diferente, sendo que a diferença vai depender da valoração feita da diminuição de risco decorrente da existência de um prazo fixo no contrato a termo (e da negociação entre as partes, e da lei)."

E o meu problema é esse, é que se analisar este tema desta perspectiva a valoração tem sido nula ou mesmo negativa ;)

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Hm

João Mendes on Terça, 15/09/2009 - 15:38

Isso diz muito sobre o contrato sem termo enquanto (não-)opção para os empresários, parece-me.

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Artigo

João Cardiga on Terça, 15/09/2009 - 23:01

Posso colocar esta temática em artigo?

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Artigo

João Mendes on Terça, 15/09/2009 - 23:08

Perguntas-me a mim? Tu é que sabes que artigos escreves! :P

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Amanhã à noite...

João Cardiga on Terça, 15/09/2009 - 23:20

Bem julgo que já ultrapassei a minha capacidade por hoje, vai ter que ficar para amanhã!

Vou apenas comentar as

André Escórcio ... on Domingo, 13/09/2009 - 22:30

Vou apenas comentar as nacionalizações.
Não concordo com a nacionalização da GALP e da EDP, a meu ver o que deveria ser nacionalizado era a REN e as refinarias da Galp.

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Concordo

João Cardiga on Domingo, 13/09/2009 - 22:59

Também concordo contigo. Julgo serem os monopolios naturais que a Galp e a EDP possuem...

Não sou especialista em

fv on Sábado, 12/09/2009 - 16:57

Não sou especialista em economia, por isso não sou capaz de fazer uma análise profunda do efeito da proibição dos despedimentos. Apenas vou referir que um factor muito importante foi ignorado na análise: a economia global. Um despedimento generalizado em Portugal (ou em qualquer outro lado) não afecta igualmente as empresas, porque só diminui a procura localmente, podendo as empresas continuar a ter níveis semelhantes de procura em outras zonas.
Não está provado que o factor diminuição de procura é superior ao factor aumento de lucro por trabalhador.

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Aumento do lucro por trabalhador...

João Cardiga on Sábado, 12/09/2009 - 18:54

Como escrevi no comentário anterior nem sempre o aumento de lucro por trabalhador é algo benéfico.

Posto isto e pelo que introduzes - economia global - o efeito é precisamente o contrário. Isto é, por estarmos numa economia global e não numa economia local é que os despedimentos na Pampilhosa da Serra tem um efeito em Lisboa (provavelmente diminuto é verdade). E embora o efeito mais forte seja sempre a nível local, com o tempo ele é sentido em todo o lado.

Aliás esta crise demonstrou perfeitamente isso, os despedimentos no USA afectam o nosso PIB, assim com na Alemanha, França, Espanha, etc...

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Ponto bastante importante

João Mendes on Sábado, 12/09/2009 - 17:22

Este comentário é extremamente relevante, parece-me, e aplica-se bem às várias políticas de fomento de procura interna.

Produtividade

Hugo Garcia on Sábado, 12/09/2009 - 15:23

A primeira medida que falas é exactamente o que para mim está mal com o bloco de esquerda.

As empresas devem procurar encontrar o máximo de lucro e se o fizerem reduzindo o número de pessoas nada disso está errado. FRio e desumano ? Nada disso.

As empresas ao faze-lo atingem o máximo de produtividade de um trabalhador, ou melhor ainda, a relação:

Lucro/ nº de trabalhadores.

Em Portugal, a maior falha reside exactamente na produtividade dos trabalhadores. É necessário aumentar a produtividade dos trabalhadores para que:

1 sejamos competitivos e se atraia investimento
2 poder reduzir o número de anos de trabalho de uma pessoa oferecendo a reforma mais cedo
3 permitir que as pessoas tenham mais tempo para a sua família.

Para se melhorar as condições dos portugueses é preciso que estes sejam mais produtivos, para que possam ter mais consumo com menos horas de trabalho.
E essa proposta do Bloco vai contra tudo isso.

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Raciocinio Unico

João Cardiga on Sábado, 12/09/2009 - 18:48

Julgo que o raciocinio que aplicas está dentro do que apelido de "Raciocinio Unico Dominante". Se verificares o racio que determinas tem dois elemento: lucro - trabalhadores. Em Portugal só se olha para um dos lados: trabalhadores e isso é profundamente errado. A produtividade pode ser aumentado se conseguires criar mais valor para a produção nacional.

Repara que, por exemplo no calçado e no vestuário somos nós que produzimos e empresas (marcas) estrangeiras que comercializam. Isso faz com que automaticamente a produtividade nesses paises de origem seja superior à nossa.

A obsessão com os trabalhadores e com os seus custos faz com que não haja soluções alternativas. Os salários em Portugal já são suficientemente baixos e existe muito pouca margem para redução. Além de que essa redução faz com que nos afundamos mais. A falta de criacção de marcas (isto é produtos de valor acrescentado) é uma causa muito mais forte para a nossa falta de produtividade.

"As empresas devem procurar encontrar o máximo de lucro e se o fizerem reduzindo o número de pessoas nada disso está errado."

Depende. Quando fazes a mesma coisa com menos horas de trabalho, então isso é bom, chama-se eficiência. Quando fazes a mesma coisa com as mesmas horas de trabalho então é péssimo, pois leva a uma precariezação. Exemplo:

Tens uma empresa com 3 trabalhadores. Ou seja tens 24h de trabalho por dia. Imagina que demoras 24h para fazer 1 produto.

a) se descobrir uma forma de fazer um produto em 16h, então um despedimento é justificado e esta situação é benéfica para a sociedade.

b) se no entanto isso não acontecer e tu despedes porque dado o contexto consegues despedir 1 pessoa e obrigar os outros trabalhadores a trabalhar mais 4 horas por dia então isso é péssimo para a sociedade.

E como podes ver em ambos os casos existem despedimentos. Olhar só para o lucro como meta é errado pois é um indicador cego. E quando o caminho tem muitas falésias não julgo inteligente andar de olhos fechados!

rótulos

Hugo Garcia on Domingo, 13/09/2009 - 12:37

Não percebi muito bem esse rótulo. Geralmente quem usa esses rótulos é que está a querer simplificar a realidade à sua capacidade de compreensão.

Deixa-me então falar-te da diferença entre pensamento linear (que estás a usar) e pensamento sistémico.
Pelo pensamento linear os travões permitem um carro travar, mas para uma pessoa com pensamento sistémico os travões permitem que um carro ande mais depressa.

E em discussões estratégicas tens de usar o pensamento sistémico. Se quiseres posso te enviar os apontamentos de uma cadeira de estratégia onde se explica como se usa o pensamento sistémico.

Ora bem, ao proibires as empresas de despedir, estás a desencorajar que elas contratem.

E se uma empresa não despede o mau trabalhador, não pode contratar o bom trabalhador. E assim se perde a tal produção que falas.

Na tua pressa para me colares um rótulo, não te lembraste que eu estava apenas a dar uma breve explicação e que esta discussão é muito mais complexa do que eu possa eventualmente reduzir num comentário.
Conseguir promover o emprego e subir o nível de salário (que é outro problema apesar de teres posto no mesmo saco) são discussões complexas que envolvem muitas medidas integradas.

Não te apresses a julgar-me, quando no teu post reclamaste com o facto de te julgarem.

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Esclarecimentos...

João Cardiga on Domingo, 13/09/2009 - 22:12

"Na tua pressa para me colares um rótulo..."

Antes demais não te quis colocar nenhum "rotulo". O "rotulo" foi à forma de raciocinar relativamente à produtividade, pensava que tinha sido claro. Quanto à questão linearidade vs Sistémico julgo que:

"As empresas devem procurar encontrar o máximo de lucro e se o fizerem reduzindo o número de pessoas nada disso está errado"

é linear e não sistémico. O "nada" implica que não existe nenhuma situação em que reduzir pessoas é errado. Parece-me que também neste ponto tinha dado um exemplo que contrariava esta linearidade...
Mais, esta foi a tua unica premissa para desenvolveres o teu raciocinio, peço desculpa se entendi mal, mas na verdade não colocaste mais nada do que isto.

"Conseguir promover o emprego e subir o nível de salário (que é outro problema apesar de teres posto no mesmo saco) são discussões complexas que envolvem muitas medidas integradas."

Desculpa mas não coloquei no mesmo saco, aliás nem falei em nenhum momento em subir o nível de salário (de onde é que tiraste essa ideia?), mais o objectivo deste artigo não passou, nem de perto nem de longe por discutir QUAIS as medidas de promoção de emprego ou medidas para subir o nível de salário, apenas dar o background de onde estas medidas do BE surgem.

"Não te apresses a julgar-me, quando no teu post reclamaste com o facto de te julgarem."

Desculpa mas não me apressei a julgar. Vou tentar explicar:

Eu escrevi:

"Julgo que o raciocinio que aplicas está dentro do que apelido de "Raciocinio Unico Dominante"."

O "aplicas" refere-se obviamente ao comentário! E que racicionio que aplicaste:

Premissa: "As empresas devem procurar encontrar o máximo de lucro e se o fizerem reduzindo o número de pessoas nada disso está errado"

Conclusão: "As empresas ao faze-lo atingem o máximo de produtividade de um trabalhador, ou melhor ainda, a relação: Lucro/ nº de trabalhadores."

E na minha resposta demonstrei-te que a premissa é falsa (pois pode ser ou não ser errado) e que transforma a tua conclusão também errada. Existem casos (como o exemplo que dei) em que aumentas o rácio mas a situação não é benéfica. O que eu gostava de saber é se concordas ou não com esta minha ultima afirmação.

Quanto ao facto de me "julgarem" não era uma "reclamação", raios, apetece-me dizer que não leias tão linearmente o que escrevo ;)

P.S. "Deixa-me então falar-te da diferença entre pensamento linear (que estás a usar)..." Esta questão gostava mesmo muito que me esclarecesses. Onde é que utilizei pensamento linear (com transcrições) e porque é que o meu raciocinio é linear e o que tu aplicaste um pensamento sistemico no teu comentário...

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Resposta

João Mendes on Segunda, 14/09/2009 - 02:30

Todo o teu raciocínio não toma em linha de conta que a dificuldade em despedir está ligada à facilidade de contratar. Quanto mais tu dificultas o despedimento, com base em critérios de suposta humanidade, mais estás a dificultar também a contratação, porque uma contratação torna-se um risco tanto maior quanto seja difícil despedir. Isto cria desemprego, principalmente para pessoas que estão a entrar no mercado de trabalho e para pessoas que percam o emprego quando são mais velhas. Isto parece-me, usando os teus termos, um custo social relevante.

Em termos de "humanidade", estamos a falar em tornar as coisas mais difíceis para quem não tem, por qualquer razão, emprego, e torná-las mais fáceis para quem já tem emprego. É uma questão de preferência dizer que se prefere favorecer desta forma os que já têm emprego...

Estes custos e a falta de flexibilidade tornam, também, as empresas menos competitivas. As empresas têm de se adaptar a alterações no mercado, e devem poder fazê-lo despedindo trabalhadores. Esses trabalhadores serão então contratados por outras empresas ou criarão as suas próprias empresas, e é este tipo de sistema que deve ser promovido. Tu pareces assumir que as nossas empresas estão mal basicamente porque os gestores são uma cambada de incompetentes que não estão interessados em criar produtos de qualidade, e então a tua solução é aumentar o custo de contratar pessoas? Assumindo, para efeitos desta discussão, que tens razão, então parece-me que a solução estaria sempre noutro lado, e que a solução que propões além de não resolver o problema que identificas, só criaria problemas a quem não tem emprego, e criaria ainda mais desemprego.

Claro que este cenário assume que não existe uma alternativa, que na realidade existe, que é o contrato de prestação de serviços, os recibos verdes. Sendo mais difícil de despedir, sendo mais arriscado haver um contrato de trabalho, então a escolha vai recair sobre os recibos verdes. Falsos ou verdadeiros. E assim, garanto-te, aumentas a precariedade que querias evitar ao dificultar os despedimentos.

Mas não, porque a medida seguinte seria a tributação dos recibos verdes como se fossem contratos de trabalho, por exemplo, ou então uma medida que desse direitos análogos aos do contrato de trabalho às pessoas a recibo verde (tipo de medida parecido com medidas que dão mais direitos a pessoas em união de facto por haver cada vez menos casamentos).

Isso, por sua vez, criaria um incentivo ao trabalho clandestino, o que levaria à necessidade de aumentar o número de inspectores laborais. Ao mesmo tempo que o desemprego aumentaria, sendo que já entretanto teriam sido postas em prática medidas do tipo aumentar o subsídio de desemprego e aumentar o tempo que se poderia receber o subsídio de desemprego. Enquanto isto, as pessoas com emprego teriam menos incentivos a serem eficientes, sendo que este desincentivo seria coberto pelas empresas, que teriam de fomentar a eficiência das pessoas com as medidas que tu preconizas (ainda mais do que numa economia flexível), de facto, e isto aumentaria ainda mais o custo de os empregar... Entretanto, os outros, os desempregados, passavam mais tempo no desemprego, teriam mais dificuldade em arranjar emprego, e tudo isto seria pago pelos que tinham emprego e por empresas menos competitivas.

Olha-se para Portugal e o panorama não é minimamente animador, e o panorama não é animador porque não se tem seguido uma política laboral que tenha em linha de conta os desempregados. Tem-se seguido uma política laboral com base neste tipo de ideias. E o Governo deve governar para todos, não só para alguns.

É este o problema, para mim, com o teu raciocínio sobre o desemprego e despedimentos.

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Esclarecimentos.

João Cardiga on Segunda, 14/09/2009 - 12:28

"e que a solução que propões..."

Julgo que o melhor é começar por explicar a minha posição visto que não o fiz até agora e parece-me que acabei por vos induzir em erro.
O modelo que eu defendo é o de um Estado Social forte e uma flexibilização laboral. Julgo que se quiserem posso desenvolver posteriormente esta ideia, mas neste ponto apenas queria dizer que para mim ambos são faces da mesma moeda. Isto implica uma taxa de tributação elevada e uma mudança no código de trabalho. Mas isto é o modelo que defendo quando não faço a análise contextual que é vital.

Assim gostava de dizer que embora defenda este modelo sei que no momento actual tem de se ter muito cuidado com a sua aplicação. Os modelos não são intemporais e as medidas não podem ser implementadas sem analisarmos em que momento estamos. Neste contexto, se fosse feito uma reforma profunda e rápida seria um simples desastre. Porquê? Porque aumentariamos exponencialmente os custos do Estado sem conseguirmos aumentar as receitas (o que aumentaria o deficit orçamental e da segurança social) e não existiria a taxa de renovação de emprego dado a conjuntura, mais acabaria, como expliquei por agravar a crise. Julgo que esta conjuntura será válida para os próximos 2 a 4 anos.

Mas isto não quer dizer que concorde com a solução do BE, aliás deixei isso muito claro no artigo. Também não apontei uma solução pois não sei se é importante nos concentrarmos neste problema. Depende muito da abordagem e a estratégia com que se enfrenta esta crise. O PS, por exemplo, em contraste não se concentrou neste problema e preferiu antes aumentar o Investimento Publico. Julgo que é uma melhor solução pois permite a reestruturação das empresas, fazendo aumentar a procura.

Gostaria que fosse implementada alguma politica que conseguisse separar o trigo do joio (ou nos exemplos que dei era o exemplo A do exemplo B) sob pena de depois da crise ficarmos com as piores empresas no mercado (por exemplo só com empresas do tipo B), mas não sei se é possível.

Mais é de uma extrema importância que a crise seja estancada antes que fique pior. Pois se por enquanto estamos (julgo que ainda) na crise económica ela pode evoluir. Da ultima vez que estivemos numa situação identica a evolução foi a seguinte:

Crise financeira -> crise económica -> crise social -> crise politica

Portanto é de vital importancia que ela fique no segundo passo.

Agora respondendo ao teu comentário:

Julgo que o primeiro e segundo paragrafo ficou esclarecido.

"As empresas têm de se adaptar a alterações no mercado, e devem poder fazê-lo despedindo trabalhadores."

Este tipo de despedimentos já existem e são facéis de executar.

"Tu pareces assumir que as nossas empresas estão mal basicamente porque os gestores são uma cambada de incompetentes que não estão interessados em criar produtos de qualidade, e então a tua solução é aumentar o custo de contratar pessoas?"

Exigências da minha profissão. Julgo que muitos problemas são de gestão, mas obviamente não são apenas de gestão. A minha experiência pessoal é que me permite aferir que muitos dos problemas que existem são resolvidos se existirem bons gestores. E o ideal é que o mercado "selecione" as empresas com boas práticas de gestão, algo que não está a acontecer neste momento. Esse sim é o problema fundamental.

"Claro que este cenário assume que não existe uma alternativa, que na realidade existe, que é o contrato de prestação de serviços, os recibos verdes. Sendo mais difícil de despedir, sendo mais arriscado haver um contrato de trabalho, então a escolha vai recair sobre os recibos verdes. Falsos ou verdadeiros. E assim, garanto-te, aumentas a precariedade que querias evitar ao dificultar os despedimentos."

Julgo que este é o melhor exemplo de como a teoria falha. O recibo verde poderia ser uma optima oportunidade para se flexibilizar os contratos. Mas para isso era necessário que os recibos verdes fossem mais remunerados que os com contrato. E isso faria mais pela flexibilização do que qualquer lei.

A verdade é que tens (e agora vou utilizar um termo esquerdista) tens o patronato a fazer lobby e a prometer o paraiso depois da flexibilização quando na realidade utilizam os contratos mais flexiveis para outros fins. Enquanto isso acontecer não consegues criar uma relação de confiança entre ambos os lados.

Aliás dever-se-ia estudar este tema profundamente antes de se avançar com uma flexibilização.

(continua... - mas podes já comentar)

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Nota prévia: desculpa lá,

João Mendes on Segunda, 14/09/2009 - 16:16

Nota prévia: desculpa lá, já sei que não defendes a posição do BE. Fui simplesmente preguiçoso (já era tarde quando escrevi isto), e devia ter falado no BE em vez de em ti.

Passando agora ao que escreveste, muito brevemente. A mesma ordem de ideias que tu mencionas relativamente a estancar a crise é também usada para defender medidas proteccionistas em geral, durante crises. E esta medida que o BE apresenta é do mesmo tipo dessas medidas proteccionistas. A intenção é boa, mas o efeito seria perverso, pelos motivos que apresentei. Da mesma maneira que reacções proteccionistas exacerbam a crise, estas medidas exacerbariam também a crise.

Resumindon, um sistema flexível absorve o choque melhor que um sistema rígido. Enquanto o sistema flexível vai esbatendo o choque, o sistema rígido quebra-se.

Relativamente aos fins das empresas, o fim de uma empresa é o lucro. Relativamente aos custos sociais, sim, devem ser internalizados, aqueles conseguimos internalizar (ver a poluição, por exemplo), através de regimes de impostos e outras medidas equivalentes. Tais como todos os custos sociais devem ser internalizados por aqueles que mais eficientemente os conseguem reduzir.

Relativamente às boas práticas de gestão, aqui encontramos um problema. O que é uma boa prática de gestão? Depende. Depende daquilo que tu valorizes. E depende do contexto em que a empresa se encontre. Não me parece fácil encontrar absolutos, mas não é a minha área, por isso não posso comentar em pormenor. Em termos gerais, no entanto, parece-me que para que haja selecção de empresas com boas práticas de gestão, é preciso aumentar a concorrência. Ou seja, abrir fronteiras e ter uma política de concorrência robusta. É também preciso uma boa política de educação, quer de gestores, quer da população em geral, para termos gestores de qualidade e uma força de trabalho qualificada.

Para mim, estas medidas iriam ao encontro dos problemas que tu avanças, iriam lidar com os factores que levam a que haja baixo valor acrescentado nas empresas portuguesas. Uma política de fomento do conhecimento, da inovação e da concorrência, como princípios fundamentais, parece-me ser a solução. E claro, uma economia flexível, que absorvesse os choques sem simplesmente quebrar.

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Reposta e continuação de resposta.

João Cardiga on Segunda, 14/09/2009 - 23:19

Antes demais sem problema. Só que a determinada altura já não percebia se tinha conseguido transmitir essa parte.

"A mesma ordem de ideias que tu mencionas relativamente a estancar a crise é também usada para defender medidas proteccionistas em geral, durante crises."

Bem julgo que é um pouco diferente. Sou completamente contra o proteccionismo baseado em fronteiras, isto é em zona geográficas, mas já não sou contra outros tipos de "proteccionismos" (embora também aqui é um outro tema). Mas neste campo, não concordo com a medida do BE pelos motivos que mencionei, mas numa crise de procura tens de resolver esse problema...

"Resumindon, um sistema flexível absorve o choque melhor que um sistema rígido. Enquanto o sistema flexível vai esbatendo o choque, o sistema rígido quebra-se."

Concordo, daí ser apologista de um modelo de flexissegurança. Só que não constrois um prédio anti-sismico no meio de um sismo ;)

"Relativamente aos fins das empresas, o fim de uma empresa é o lucro."

Mas existe "bom lucro" e "mau lucro". Um exemplo muito obvio de mau lucro é o das organizações mafiosas...

"Relativamente aos custos sociais, sim, devem ser internalizados, aqueles conseguimos internalizar (ver a poluição, por exemplo), através de regimes de impostos e outras medidas equivalentes."

Tens que ver que no exemplo B no fundo o que a empresa faz é externalizar um custo que deveria ser próprio...

"Relativamente às boas práticas de gestão, aqui encontramos um problema. O que é uma boa prática de gestão? Depende."

Agora diria que és um aluno de gestão :) Mas respondendo à pergunta eu diria que é fácil determinar o que é uma boa prática de gestão: cumprir as leis/regras que existem. Para já bastava-me isso, pois muito provavelmente limparia do mercado das más empresas!

E aqui gostaria de passar para a continuação do meu comentário anterior. Que é quando olhas para modelos estrangeiros tens de olhar também para a cultura do mesmo. Eu gosto muito do modelo de flexisegurança (Estado social forte e flexibilidade laboral) pois tem até ao momento demonstrado ser o melhor em termos de desenvolvimento (e também é o que mais perto está dos valores que defendo). No entanto existe um pequeno pormenor que é necessário para ele funcionar: respeitos pelas regras por parte das pessoas (quer na figura de trabalhador quer na figura de gestor). E julgo que ainda não atingimos.

Também é preciso saber para que é que queremos a flexibilidade laboral, se é para os propositos que tu e o Hugo enunciaste (e que eu concordo), tudo bem, mas se for para ganhar poder de negociação e diminuir as condições de vida dos trabalhadores, dito de outra forma, se servir para precariezar a vida humana, então eu não quero. E num país onde muita gente acha que por ser dono de uma empresa pode dispor dos seus trabalhadores a seu bel prazer, aliás que julga a empresa um pequeno feudo, num país onde temos cerca 65% da produtividade média da união europeia e os custos da mão de obra é apenas 50% da média da União Europeia, e onde o custo de mão de obra representa menos de 25% do total de custos parece-me que é preciso muito cuidado a abordar este tema.

É que se tivermos errado (e poderemos estar) para Portugal e a flexibilização tiver como output (e poderá ter) uma precarização, então estamos a defender um erro irrecuperável. E esta é uma responsabildade que eu não assumo de animo leve. Nenhum de nós tem o direito de interferir negativamente na vida das outras pessoas. E quando eu dou os exemplos não é para dizer que sou contra a flexibilização, estou só a alertar que num tema desta responsabilidade não há margem para erro, e neste tema vejo muita gente a falar dos beneficios mas não vejo muita gente da mesma área a falar dos riscos. Num tema social não há margem para a "destruição criativa".

Mais, não é só o efeito da precariezação que está em causa. É que esta poderá pôr em causa o próprio Estado Social devido à diminuição das receitas (menos IRS e SS) cruzada com o aumento das despesas (ou seja terás de compensar fiscalmente). Ou seja, mais importante que a facilidade de despedir e contratar, é a qualidade deste acto que é importante e isso não está garantido aprioristicamente pelo mercado. Aliás se eu olhar para o mercado português actual mais facilmente acredito no contrário.

"...é preciso aumentar a concorrência."

Concordo totalmente. Julgo mesmo que esta é a grande prioridade.

"É também preciso uma boa política de educação, quer de gestores, quer da população em geral, para termos gestores de qualidade e uma força de trabalho qualificada."

Também julgo que é importantissimo (e depois de tanto discordar acabamos por concordar :))

"Uma política de fomento do conhecimento, da inovação e da concorrência, como princípios fundamentais, parece-me ser a solução."

Concordo, e ao contrário do TGV (onde acho que não há margem de recuo a não ser num ou noutro pormenor), julgo que em vez das actuais medidas para as "piiquenas" e médias empresas (via pequenas obras publicas que provavelmente aumentaram as rotundas e as "rotundas do sec. XXI" que são as ciclovias) esse seria um melhor investimento (e totalmente compativel com o estado actual da economia).

"E claro, uma economia flexível, que absorvesse os choques sem simplesmente quebrar."
Obviamente! :)

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O que eu disse é que quando

João Mendes on Terça, 15/09/2009 - 00:49

O que eu disse é que quando há uma crise, medidas do tipo "proibir despedimentos a empresas com lucro", que o BE defende, não só não estancam a crise, como ainda criam mais problemas. No caso concreto, iam piorar ainda mais o problema do desemprego, não iam estancar nada. Da mesma maneira que o proteccionismo durante crises cria mais problemas, não resolve problemas. E os argumentos invocados são muito do mesmo estilo.

Entretanto, ao flexibilizares estás a dar mais "bargaining power" aos empregadores, sim. Mas também estás a dar mais oportunidades a pessoas que não estão empregadas, e a criar incentivos ao trabalho. Para desempregados, há sistemas para que estes encontrem emprego o mais depressa possível, há oportunidades de treino, e há subsídio de desemprego. Há também a hipótese de criarem uma nova empresa.

Quanto a boas práticas de gestão, cumprir a lei parece-me uma boa ideia, mas parece-me uma boa ideia também para trabalhadores e para toda a gente. O problema é quando as leis induzem a fraude por serem mal pensadas. Não só tens os problemas de a lei não resolver o problema que pretenderia resolver e, em vez disso, piorá-lo, tens ainda o problema de aumentar a actividade dos tribunais inutilmente, um custo social relevante, parece-me, dada a importância de um sistema de justiça eficiente. É isto que se passa, na minha opinião, com a lei laboral actual. Não estou com isto a dizer que os empregadores estão justificados quando não cumprem a lei, mas estou a dizer que a lei, de facto, induz a que não a cumpram.

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Tens razão...

João Cardiga on Terça, 15/09/2009 - 09:14

Tens razão no que falas dessa medida do BE. De facto acredito que não só induziria a mais desemprego como levaria a que o Estado perdesse receitas (no fundo era um estimulo a que as empresas tivessem prejuizo).

"Mas também estás a dar mais oportunidades a pessoas que não estão empregadas, e a criar incentivos ao trabalho."

Mais uma vez insisto na qualidade desta opção. A criacção de trabalho per si não é nem bom nem mau.

"Não estou com isto a dizer que os empregadores estão justificados quando não cumprem a lei, mas estou a dizer que a lei, de facto, induz a que não a cumpram."

Eu diria que na minoria dos casos. Quando tens empresas a recorrer sistematicamente a contratos a termo, a culpa não é da lei ou quando tens empresas que não pagam indemnizações ou sequer os subsidios que devem a culpa não é da lei.

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Resposta

João Mendes on Terça, 15/09/2009 - 11:21

Bom, eu prefiro um sistema que cria emprego a um que cria desemprego, all things remaining equal. Prefiro que as pessoas estejam empregadas a que estejam desempregadas. E para garantir qualidade, é preciso tomar as medidas que descrevi acima, e não simplesmente manter um sistema que cria desemprego.

Porque é que as empresas recorrem "sistematicamente" a contratos a prazo? Porque são menos arriscados, contratos sem termo são mais arriscados. Mais uma vez, não é aleatório, e está ligado às regras sobre despedimentos. Além disso, quando uma lei não é cumprida sistematicamente, eu penso em duas possibilidades: a cultura de incumprimento de que tu falas, e uma lei que não a põe em causa.

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A parte mais dificil...

João Cardiga on Terça, 15/09/2009 - 11:44

Julgo que a parte mais dificil é: "all things remaining equal"...

"Porque são menos arriscados, contratos sem termo são mais arriscados."

Então como é que achas que deveriam ser remunerados?

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Como é que eu acho que

João Mendes on Terça, 15/09/2009 - 12:38

Como é que eu acho que deveriam ser remunerados?

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Risco

João Cardiga on Terça, 15/09/2009 - 13:44

Sim! Para a mesma função tens um contrato a termo e outro sem termo, achas que se deve remunerar da mesma forma?

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São contratos diferentes, a

João Mendes on Terça, 15/09/2009 - 13:55

São contratos diferentes, a remuneração vai ser diferente, sendo que a diferença vai depender da valoração feita da diminuição de risco decorrente da existência de um prazo fixo no contrato a termo (e da negociação entre as partes, e da lei).

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Responder

João Cardiga on Terça, 15/09/2009 - 14:58

Olha vou responder lá em baixo senão fica uma palavra por linha...

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Podes enviar-me os

João Mendes on Domingo, 13/09/2009 - 14:00

Podes enviar-me os apontamentos a mim? ;)

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