Retrato de Luís Lavoura

Há dias, ouvi mais uma vez pessoas a queixarem-se da emigração que sai de Portugal. Mas desta vez quem se queixava eram pessoas com uma capacidade intelectual superior à média, que deveriam saber pensar melhor.

A emigração é positiva para todas as partes nela intervenientes. É (em geral - há exceções) positiva para o emigrante, que enriquece ou, pelo menos, evita empobrecer. É positiva para o país que recebe o emigrante, que supre as suas necessidades de mão-de-obra e faz o seu PIB crescer. E é positiva também para o país de onde o emigrante parte. Esta última asserção é que é geralmente mal compreendida.

O emigrante que parte fá-lo porque as suas qualificações se manifestam desnecessárias no país de onde parte. Se essas qualificações são - aqui e agora - desnecessárias, então, mesmo que essas qualificações sejam elevadas, não há inconveniente em que ele se vá embora. Deveríamos, de facto, refletir em porque insistimos em gastar dinheiro a fornecer educação a pessoas quando o mercado de trabalho não consegue aproveitar as qualificações profissionais assim adquiridas.

O emigrante retira pressão sobre recursos escassos no país. É menos uma boca a alimentar cá, é menos procura por produtos importados.

O emigrante, ao partir, contribui para diminuir um excedente de mão-de-obra que há no país. A prazo, isso contribui para que haja uma escassez de mão-de-obra, que estimulará o aumento da eficiência na utilização do trabalho, a mecanização, e o aumento dos salários. Raramente há progresso económico em países onde a mão-de-obra é superlativamente abundante.

Evidentemente, é mais positivo ainda para o país de origem da emigração quando os emigrantes remetem as suas poupanças no estrangeiro de volta para o país. Muitos emigrantes portugueses hoje em dia já não o fazem. Mas, mesmo não o fazendo, a sua emigração é positiva para Portugal, porque retira pressão sobre recursos escassos e tende a fazer aumentar os salários cá.

Como foi apontado por John Kenneth Galbraith já há dezenas de anos, no seu livro A sociedade da pobreza, há poucos remédios tão infalíveis para a pobreza de um país como permitir que os seus habitantes emigrem em grande número para países mais ricos. A emigração é uma solução para a pobreza que a história demonstra funcionar sempre.

re2: emigração

Aires Ferreira (não verificado) on Sábado, 26/05/2012 - 01:34

Caro Luís Lavoura,

Não tenho qualquer problema de princípio contra a migração de talentos. Nesse aspecto, concordo consigo.

Há alguns cientistas estrangeiros a trabalhar em Portugal, de facto. Também concordo consigo.

Contudo, aconteceu algo de pernicioso no ensino superior; nos anos 80/90, por falta de massa crítica, contratou-se para o quadro universitário docentes de forma pouco rigorosa (por exemplo, muitos sem doutoramento; alguns viriam a doutorar-se mais tarde). Contraçõe por decreto e não de forma liberal e consequente pelas Universidades. O resultado é que, perto da viragem do século, o sistema estava a chegar ao limite, sem espaço para sangue novo. Então, uma nova geração de cientistas, muito melhor preparada em média, verdadeiramente internacional, tendo efectuado doutoramentos e pós-doutoramentos nas melhores universidade estrangeiras, viram a sua entrada no sistema português barrada, não porque existiam lá cientistas estrangeiros (ou portugueses) de qualidade comparável, mas antes porque o sistema estava já completo, como atrás mencionei.

Ora, se numa certa altura (democratização do ensino superior) foi preciso remediar-se com o que se tinha à mão (alunos mais ou menos promissores, professores de secundário, etc.), já não se compreende que a coisa tenha sido feito de forma a não permitir a renovação mais tarde.

Esses docentes de quadro ficaram com a vida feita: dão umas aulas (a maior parte de pobre qualidade) e não fazem investigação (ou a que fazem é marginal). Claro que há excepções, mas as excepções não servem para tirar uma conclusão geral.

Este é um exemplo claro em que a emigração de portugueses é um mau sinal para o País. Um País que não planeou o seu desenvolvimento, e gestão de recursos. Você já viajou por aí; conhece perfeitamente Países em que tais erros crassos não foram cometidos.

Em suma, concordo genericamente consigo, mas há casos que resultam de um enorme falhanço de planeamento, como o caso que referi. A renovação do superior está a ser feita à custa de programas que oferecem pouca estabilidade (programa Ciência e investigador FCT da FCT), o que resulta em que as Universidades estão a perder tempo, procedendo a uma renovação lenta e pouco eficiente. Ora a velocidade de adaptação e de desenvolvimento das sociedades é cada vez mais fulcral, num mundo cada vez mais pequeno e mais rápido. Alguns países ainda há pouco no 2º e 3º mundos já o perceberam.

Cumprimentos,
A. F.

re: emigração

Aires Ferreira (não verificado) on Sábado, 19/05/2012 - 13:56

Como é óbvio, a ideia do seu post é verdadeira, mas é uma genereralização. Há casos em que o País ficar a perder por ver os seus mais capazes optarem por outras paragens. Aqueles casos em que seria fulcral em tais cidadãos tivessem espaço de acção no seu país natal, de forma a contribuir para o seu desenvolvimento.

Cump., A. F.

Retrato de Luís Lavoura

resposta

Luís Lavoura on Segunda, 21/05/2012 - 16:43

o País [pode] ficar a perder por ver os seus mais capazes optarem por outras paragens

Isso não é necessariamente assim, dado que Portugal também pode recorrer à imigração.

Por exemplo: o Reino Unido contrata médicos portugueses - pessoal altamente especializado. Mas Portugal não fica necessariamente a perder, pois também contrata médicos uruguaios para virem para cá.

Da mesma forma, há montes de cientistas portugueses a trabalhar no estrangeiro, e há muita gente a carpir a perda de massa cinzenta que isso constitui. Mas deveriam saber que também há montes de cientistas estrangeiros a trabalhar em Portugal!

E, se bem que haja futebolistas portugueses a jogar em equipas estrangeiras, nem por isso as equipas portuguesas deixam de ter futebolistas - muitos deles estrangeiros - de qualidade aceitável ou mesmo muito boa.

  • As linhas e os parágrafos quebram automaticamente

Mais informação sobre as opções de formatação