Retrato de Igor Caldeira
Vi ontem a segunda parte da reportagem transmitida na SIC Notícias A Vida Fora de Controlo. A primeira parte foi dedicada aos transgénicos e à manipulação dos genes de animais.

Pude anteontem ver como, numa experiência independente (numa universidade), com duas populações de peixes da mesma espécie, metade geneticamente manipulada e metade não, ao fim de quarenta gerações (poucos anos no caso) a população não alterada foi extinta pelo ciclo de vida mais curto (os outros viviam menos e reproduziam-se mais) e grande violência dos peixes geneticamente manipulados.
Pude ver como o açafrão, condimento utilizado há incontáveis séculos na Índia com fins terapêuticos foi patenteado.
Pude ver como a pele de uma vaca foi-lhe retirada e enxertada num porco.

Eu não me considero uma pessoa passadista e muito menos conservadora. Mas (aliás, precisamente por isso - mas o assunto é excessivamente sério para ir por aí, de modo que prossigo metendo o galhardete entre parêntesis) tenho a certeza que tem de haver limites, tem de haver um ponto em que dizemos que temos de parar. E quando, como um dos entrevistados disse, os cientistas se arrogam o direito de obrigar a vida a vergar-se à tecnologia, e não a pôr a técnica ao serviço da vida, então aí eu digo que chegámos aos pilares de Hércules.
E pensar - que aberrações maiores que submeter animais ao sofrimento atroz de lhe ser tirada a pele ainda vivos, ou de lhe ser colocada uma pele estranha apenas para ver se um porco poderia produzir pele de vaca; que submeter milhares de animais a vidas miseráveis afectados por doenças terríveis produzidas pelas experiências mais desvairadas; que pretender roubar à Humanidade a posse do património biológico das plantas com as quais os nossos antepassados se alimentaram; que maiores loucuras, portanto, poderiam haver que estas? Será impossível haver pior que isto? De todo, não.
A segunda parte da reportagem era sobre as pesquisas em termos de genética humana. Ao abrigo de um programa respeitante à diversidade do património genético humano, as farmacêuticas conseguiram recolher amostras de sangue de centenas de povos ameaçados de extinção. Não é preciso ser-se doutorados em Biologia para perceber o que irá acontecer, mas um MBA talvez desse jeito. Este projecto ficou conhecido como projecto vampiro, e não é por acaso. A troco de nada, as farmacêuticas vão processar o ADN destas pessoas, patentear as descobertas e enlatá-las para posterior venda.
E agora sim, chegámos ao limite do absurdo. Certo?
Errado. Eu recordo-me de já ter ouvido falar disto, mas nunca percebi o objectivo e os moldes (e será que eu queria realmente perceber?). O governo islandês resolveu permitir que os médicos vendam as fichas clínicas dos seus doentes (sem consentimento ou tampouco conhecimento dos mesmos) para pesquisas cujos resultados serão posteriormente vendidos a farmacêuticas e seguradoras. Para já, envolvida no projecto está a suíça Hoffman-LaRoche. Portanto é escusado questionarmo-nos se este é o grau mínimo da decência - é sempre possível descer mais. Aqui não estamos sequer já a falar do património da Humanidade, conceito demasiado abstracto para as pessoas que achem que tudo se vende, tudo se compra e (se puder ser assim ainda melhor) tudo se rouba. Estamos a falar de um governo (qualquer governo) pretender ser dono dos genes de alguém, delegar essa posse a terceiros que em vez de me tratarem, ou a coberto dessa desculpa, vão vender os meus genes a quartos que por sua vez vão utilizar esses dados para benefício próprio (as farmacêuticas) - e eventualmente até contra mim ou os meus familiares (as seguradoras por exemplo). Se nem sequer dono do meu corpo sou, então que sou eu?

Há, enfim uma última questão e esta é desesperante. A reportagem terminava com um biólogo céptico (um dos poucos biólogos cépticos) relativamente a todas as aberrações que estão a ser realizadas. Referia ele que a única coisa que as empresas nunca discutiam, nunca rebatiam era a sua afirmação de que 95% dos especialistas nestas áreas estão directa ou indirectamente dependentes das empresas que são as principais interessadas (de resto, as únicas beneficiárias) na criação de OGM ou na manipulação genética do ser humano. Se as empresas não contestam é porque a realidade é ainda mais feia que a apresentada pelo iólogo em causa. E o problema maior é que se a totalidade dos especialistas estiver na dependência da indústria, então não há possibilidade de contraditório nem de discussão séria. Quaisquer dados que venham a surgir serão sempre inevitavelmente falseados. Ora, não há liberdade de escolha se não houver informação credível e não há informação credível se não houver liberdade intelectual, se a ciência estiver inteiramente dominada por interesses bastante particulares. Que poder tem o consumidor perante tal situação? Nenhum.

No fim, não é só o equilíbrio natural que é posto em causa; a própria democracia fica ameaçada de extinção.

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