Retrato de Luís Lavoura

Num programa da RTP 2 ontem à noite, um padre e um ateu "espiritual" (como ele próprio se classificou) concordaram na conveniência de introduzir no programa escolar o ensino das religiões num sentido global (isto é, não no sentido de procurar converter as crianças a uma qualquer religião específica). Segundo eles, sendo as religiões um importante produto do espírito humano, convem que as pessoas as conheçam e percebam, para que, por exemplo, possam entender o sentido da Pietà de Miguel Ângelo ou do Magnificat de Mozart.

Trata-se, sem dúvida, de um argumento poderoso e verdadeiro. Porém, não posso concordar com a tese. Há imensos produtos do espírito humano, de grande importância, beleza e profundidade, que hoje em dia já não se ensina nas escolas. Pura e simplesmente, o saber ocupa lugar e não há cabeça humana que possa abarcar tudo que o espírito humano já produziu. Perante tais limitações, é importante escolher aquilo que se vai ensinar, ou deixar de ensinar, às crianças e jovens. Não dá para ensinar tudo. E, na hora de escolher, mais vale escolher matérias consensualmente verdadeiras do que mitos, tradições e historietas que hoje em dia, no nosso mundo científico, já pouco ou nenhum sentido fazem.

 

P.S. Para além deste argumento, há um outro: que professores teriam uma visão tão abrangente e desapaixonada das religiões que estivessem disponíveis para as ensinar, de uma forma não apostólica, aos jovens? A maioria das pessoas que se interessam por religião professa uma. Não acredito que haja em Portugal suficientes pessoas que consigam ensinar, de forma mínima, os princípios que sejam apenas do judaismo, cristianismo e islamismo - para não falar do budismo e do hinduismo.

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