Ciência e Tecnologia

Retrato de Miguel Duarte

E qual é o sistema operativo que é usado pela NASA em Marte?

Linux

Retrato de Luís Lavoura

... chegam-nos de Coimbra, cuja universidade parece ter em estado avançado de ativação um projeto de produção de energia elétrica a partir de fontes geotérmicas na zona do Dão. Querem ir buscar a energia a cinco quilómetros de profundidade... maravilha!

Retrato de Miguel Duarte

Este artigo é interessante, no sentido em que é um indício das discussões éticas que iremos ter nos próximos anos relativamente à genética.

Qual irá ser o poder que os pais irão ter nos genes dos seus filhos? Até que ponto, a ser admitida intervenção genética para melhorar determinadas características, ou retirar doenças, irá essa intervenção ser regulada?

O meu ponto de vista é muito simples: o quer que venha a ser feito terá sempre que ser feito tendo em conta o interesse do futuro ser que irá nascer. Ou seja, por exemplo, duvido que algum de nós se importasse de ter nascido sem algumas doenças de origem genética, e esse será provavelmente o início.

No entanto, a verdadeira questão é que a espécie humana irá dar nas próximas centenas de anos um salto evolutivo enorme e tal não pode ser controlado verdadeiramente. Está na natureza genética de todos os pais, humanos ou não, desejar o melhor para os seus filhos e ter os filhos que melhor poderão assegurar a propagação dos seus genes. Irá por isso, à medida que existir tecnologia para isso, existir uma enorme pressão no sentido de se fazerem alterações genética nos filhos. Se se proibir num país, existirá sempre outro onde tal será autorizado, ou será feito às escondidas.

A par disto, a própria sociedade se vai habituar ao facto que a espécie vai mudar. Pois a tecnologia já o está a fazer. Hoje já existem vários casos de implantes da tecnologia no corpo humano e esta é uma área em pleno desenvolvimento. Ainda na minha geração irei assistir concerteza a implantes no cérebro, a olhos electrónicos completamente funcionais e muitas outras tecnologias.

Muitos de nós, já estariam hoje dispostos a implantar por exemplo um processador no cérebro, ou uma memória de electrónica, se isso lhes desse acesso a um poder de cálculo tremendo ou a um conhecimento enciclopédico, sem quaisquer efeitos secundários. Mais não fosse porque assim seria possível aumentar-se os rendimentos.

A nova espécie que irá surgir, será inevitavelmente um misto de máquina com homem geneticamente alterado. É a "lei" natural da evolução a funcionar, cada indivíduo a tentar obter uma vantagem competitiva para si e para os seus descendentes, com a inevitável sobrevivência do mais apto. Sendo caso para se dizer "toda a resistência é fútil". Quanto muito, poderemos tentar regular a coisa, no sentido de proteger da melhor forma possível os seres que irão ser gerados.

Agora, até que ponto deve o Homem, e o Estado, regular a evolução? ;)

Retrato de Luís Lavoura

No Economist desta semana, um artigo debruça-se sobre uma tecnologia que poderá ser de extrema importância no futuro em geral, e para Portugal em particular: ventoinhas eólicas flutuantes.

O vento no alto mar sopra tipicamente a uma velocidade muito superior à obtida em terra. E a diferença na velocidade repercute-se tremendamente no potencial energético: um vento duas vezes mais veloz significa uma potência energética quatro vezes maior.

As atuais ventoinhas eólicas implantadas no mar estão fixadas no fundo, em mares de profundidade inferior a quarenta metros. Isso é viável em locais como o Mar do Norte, na costa inglesa e dinamarquesa. Mas ao longo da nossa costa, em que a profundidade aumenta rapidamente até muitas centenas de metros, tais ventoinhas são inviáveis.

Entretanto, as ventoinhas eólicas estão a aumentar de tamanho cada vez mais. As mais modernas - e eficientes - são gigantes que produzem cinco Megawatts de energia cada. Só se pode implantar duas ventoinhas dessas por cada quilómetro quadrado. Essas ventoinhas gigantescas provocam grande impacto na paisagem, e grande destruição da natureza (abertura de grandes estradões até ao alto dos montes) para a sua implantação e manutenção.

A solução óbvia para tudo isto é tentar implantar essas ventoinhas gigantescas no alto mar, a grande distância da costa, a flutuar e não fixas ao fundo. Está-se a trabalhar ativamente nesse tipo de solução, e prevê-se que ela comece a chegar ao mercado - a custos compatíveis - dentro de cinco a dez anos.

Será certamente ótimo para Portugal, que dispõe de muito mar. Mas, como de costume, teremos que ir comprar a tecnologia a empresas estrangeiras.

Retrato de Luís Lavoura

As leis de proteção à "propriedade intelectual" são geralmente justificadas como sendo necessárias para estimular o trabalho de pesquisa e invenção. Acontece que, na prática do dia-a-dia, acontece por vezes precisamente o contrário: a proteção da "propriedade intelectual" é utilizada como forma de defender os negócios de algumas grandes empresas, e de impedir pessoas inventivas e inovadoras de montarem os seus próprios negócios.

Vem isto a propósito de uma notícia num jornal de hoje, segundo a qual um tribunal português condenou a uns meses de prisão uns indivíduos que vendiam umas antenas de televisão capazes de descodificar os sinais codificados de alguns canais. Sem ter lido, desta notícia, mais do que o cabeçalho, e portanto sob risco de estar a asneirar em matéria de facto, ocorre-me perguntar o seguinte: então um indivíduo que, fruto do seu esforço e engenho, consegue inventar uma forma de descodificar um sinal codificado, não deve ser livre de vender a outrem o produto do seu trabalho e inventividade? Um Estado razoável deveria estimular os indivíduos a serem inventivos e engenhosos, permitindo-lhes que tentassem descodificar os sinais codificados e, se o conseguissem, ganhar muito dinheiro dessa forma. Se a companhia de televisão vê o seu sinal descodificado, isso é culpa dela, que não o codificou de forma suficientemente engenhosa: a companhia de televisão deve contratar melhores técnicos de software, que lhe codifiquem o sinal de forma mais elaborada, e não recorrer ao Estado para castigar o indivíduo que, engenhosamente e laboriosamente, conseguiu descodificar o sinal.

O Estado não deve servir para garantir os lucros da companhia de televisão, e sim para estimular a inventividade. E esse estímulo não é conseguido garantindo que a codificação do sinal está protegida por lei, mas sim, antes pelo contrário, garantindo que, quem quer que consiga inventar forma de descodificar o sinal, pode comercializar o seu invento e ganhar dinheiro à custa do seu trabalho intelectual.

Retrato de Igor Caldeira
Vi ontem a segunda parte da reportagem transmitida na SIC Notícias A Vida Fora de Controlo. A primeira parte foi dedicada aos transgénicos e à manipulação dos genes de animais.

Pude anteontem ver como, numa experiência independente (numa universidade), com duas populações de peixes da mesma espécie, metade geneticamente manipulada e metade não, ao fim de quarenta gerações (poucos anos no caso) a população não alterada foi extinta pelo ciclo de vida mais curto (os outros viviam menos e reproduziam-se mais) e grande violência dos peixes geneticamente manipulados.
Pude ver como o açafrão, condimento utilizado há incontáveis séculos na Índia com fins terapêuticos foi patenteado.
Pude ver como a pele de uma vaca foi-lhe retirada e enxertada num porco.

Eu não me considero uma pessoa passadista e muito menos conservadora. Mas (aliás, precisamente por isso - mas o assunto é excessivamente sério para ir por aí, de modo que prossigo metendo o galhardete entre parêntesis) tenho a certeza que tem de haver limites, tem de haver um ponto em que dizemos que temos de parar. E quando, como um dos entrevistados disse, os cientistas se arrogam o direito de obrigar a vida a vergar-se à tecnologia, e não a pôr a técnica ao serviço da vida, então aí eu digo que chegámos aos pilares de Hércules.
E pensar - que aberrações maiores que submeter animais ao sofrimento atroz de lhe ser tirada a pele ainda vivos, ou de lhe ser colocada uma pele estranha apenas para ver se um porco poderia produzir pele de vaca; que submeter milhares de animais a vidas miseráveis afectados por doenças terríveis produzidas pelas experiências mais desvairadas; que pretender roubar à Humanidade a posse do património biológico das plantas com as quais os nossos antepassados se alimentaram; que maiores loucuras, portanto, poderiam haver que estas? Será impossível haver pior que isto? De todo, não.
A segunda parte da reportagem era sobre as pesquisas em termos de genética humana. Ao abrigo de um programa respeitante à diversidade do património genético humano, as farmacêuticas conseguiram recolher amostras de sangue de centenas de povos ameaçados de extinção. Não é preciso ser-se doutorados em Biologia para perceber o que irá acontecer, mas um MBA talvez desse jeito. Este projecto ficou conhecido como projecto vampiro, e não é por acaso. A troco de nada, as farmacêuticas vão processar o ADN destas pessoas, patentear as descobertas e enlatá-las para posterior venda.
E agora sim, chegámos ao limite do absurdo. Certo?
Errado. Eu recordo-me de já ter ouvido falar disto, mas nunca percebi o objectivo e os moldes (e será que eu queria realmente perceber?). O governo islandês resolveu permitir que os médicos vendam as fichas clínicas dos seus doentes (sem consentimento ou tampouco conhecimento dos mesmos) para pesquisas cujos resultados serão posteriormente vendidos a farmacêuticas e seguradoras. Para já, envolvida no projecto está a suíça Hoffman-LaRoche. Portanto é escusado questionarmo-nos se este é o grau mínimo da decência - é sempre possível descer mais. Aqui não estamos sequer já a falar do património da Humanidade, conceito demasiado abstracto para as pessoas que achem que tudo se vende, tudo se compra e (se puder ser assim ainda melhor) tudo se rouba. Estamos a falar de um governo (qualquer governo) pretender ser dono dos genes de alguém, delegar essa posse a terceiros que em vez de me tratarem, ou a coberto dessa desculpa, vão vender os meus genes a quartos que por sua vez vão utilizar esses dados para benefício próprio (as farmacêuticas) - e eventualmente até contra mim ou os meus familiares (as seguradoras por exemplo). Se nem sequer dono do meu corpo sou, então que sou eu?

Há, enfim uma última questão e esta é desesperante. A reportagem terminava com um biólogo céptico (um dos poucos biólogos cépticos) relativamente a todas as aberrações que estão a ser realizadas. Referia ele que a única coisa que as empresas nunca discutiam, nunca rebatiam era a sua afirmação de que 95% dos especialistas nestas áreas estão directa ou indirectamente dependentes das empresas que são as principais interessadas (de resto, as únicas beneficiárias) na criação de OGM ou na manipulação genética do ser humano. Se as empresas não contestam é porque a realidade é ainda mais feia que a apresentada pelo iólogo em causa. E o problema maior é que se a totalidade dos especialistas estiver na dependência da indústria, então não há possibilidade de contraditório nem de discussão séria. Quaisquer dados que venham a surgir serão sempre inevitavelmente falseados. Ora, não há liberdade de escolha se não houver informação credível e não há informação credível se não houver liberdade intelectual, se a ciência estiver inteiramente dominada por interesses bastante particulares. Que poder tem o consumidor perante tal situação? Nenhum.

No fim, não é só o equilíbrio natural que é posto em causa; a própria democracia fica ameaçada de extinção.

Retrato de Igor Caldeira
Eis agora uma especialista a confirmar a introdução de alterações revolucionárias na forma de as empresas encararem os seus produtos e os seus processos:
Penso que está a emergir uma tendência de desmaterialização e de descarbonização. Temos uma economia muito baseada em coisas materiais e em energia. A questão é como desenvolver uma economia baseada noutros recursos. É preciso pensar em termos de economia de funcionalidades, o que significa vender mais serviços que produtos. Um exemplo disto é a Interface, líder mundial na produção e venda de alcatifas, que hoje em dia, aluga alcatifas em vez de as vender, ou a Michelin que tem um serviço de aluguer de pneus e não de venda. Isto significa que as empresas estão a procurar vender serviços de qualidade a médio-longo prazo em vez de vender produtos. Depois também podem fazer uma melhor manutenção, e no final é mais fácil tratar da reutilização e da reciclagem do produto. Todos estes processos de desmaterialização, descarbonização, economia de funcionalidades e a análise do ciclo de vida do produto devem aumentar, porque vemos que há tanta procura de materiais e energia com o aumento da população mundial, que vamos ter de pensar em implementar novos modos de vida e não apenas pequenas transformações. Teremos de transformar a economia mundial.
Bénédicte Faivre-Tavignot, em entrevista à Sair da Casca
Retrato de Miguel Duarte

Apesar de fanático por novas tecnologias, sou completamente contrário ao uso do voto electrónico, para questões importantes (eleições oficiais), sob a forma como está a ser feito actualmente na maior parte dos locais (ou seja, sem a possibilidade de auditoria via papel).

A prova de que tenho razão foi um teste recente na Califórnia, em que todos os sistemas testados foram penetrados por hackers, tendo sido possível alterar os resultados.

O Voto Electrónico, para ser seguro, deverá ter sempre um rasto em papel, visível ao votante no momento do voto, que ficará depositado numa urna selada e poderá ser auditado posteriormente.

Retrato de Igor Caldeira

Welcome Ned Ludd, your case is good,
Make Perceval your aim;
For by this Bill, 'tis understood
Its death to break a Frame-- [...]

You might as well be hung for death
As breaking a machine--
So now my Lad, your sword unsheath
And make it sharp and keen- [...]

Nos alvores da Revolução Industrial, e enquanto a Inglaterra se debatia com o expansionismo napoleónico, o movimento luddita representou uma das primeiras manifestações de revolta perante a desumanização e a mecanização do trabalho. Dois séculos depois, podemos bem estar prestes a poder ultrapassar muitos dos dramas que então se colocavam - e de uma forma altamente lucrativa.

Em 1999 três investigadores (Paul Hawken e o casal Lovins) publicaram o livro Natural Capitalism, no qual defendem que estamos prestes a assistir a uma nova Revolução Industrial - todos os principais pressupostos tecnológicos, todas as inovações que eles referem já existem. Falta-lhes apenas a massificação. Esta nova revolução, ao contrário do que sucedeu ao longo dos séculos XVIII e XIX, não só será ambientalmente benéfica (aliás, o ambiente é a sua trave mestra) como não será socialmente disruptiva (podendo inclusivamente abrir as portas para uma nova dignificação do trabalho).

Assim, não é este livro uma exposição de um mundo utópico e dependente de futuros avanços, mas um alerta para a existência, hoje, de mecanismos que poderão ser decisivos para a competitividade das economias cujo aproveitamento depende de quatro princípios:

1 - Aumento radical da produtividade dos recursos (acabando com o desperdício não económico dos recursos humanos e naturais - há de resto duas teorias, uma do factor 10 outra do factor 4, que referem que, acabados os desperdícios, poderá ser reduzido em 75 a 90% o consumo de materiais e energia para produzir a mesma quantidade de bens)
2 - Biomimicry (tornar os ciclos industriais em linhas biológicas, isto é, circuitos fechados de materiais que são continuamente reutilizados)
3 - Service and Flow Economy (ou seja, em vez de uma economia de compra de bens, uma economia de compra de serviços - o que as empresas passam a vender é um serviço ou uma utilidade; quando o bem - que pertence sempre à empresa, deixa de cumprir a sua função, retorna à origem, sendo reprocessado para ser novamente utilizado)
4 - Investimento no Capital Natural (ou seja, não apenas reduzir o ritmo de destruição ambiental, mas reinvestir na sua restauração)

Os autores desafiam as teorias económicas convencionais e o capitalismo convencional ao afirmar que o capital que no futuro será determinante, não será nem o financeiro (superabundante), nem o manufacturado, mas o humano, e principalmente o natural. De facto, afirmam eles que durante duzentos anos o corpo principal da teoria económica tem sido "baseado na falácia de que os capitais humano e natural têm pouco valor quando comparados com o resultado final". Mais grave ainda, baseia-se na noção errada de infinitude dos bens naturais - algo que, podendo fazer sentido no tempo de Locke ou de Smith, é no entanto profundamente disparatado nos tempos que correm.

Mais ainda, renegam a ideia (muito em voga, ainda como produto da mentalidade neoclássica) do poluidor-pagador, e fazem-no por três motivos fundamentais:

1 - Muitos dos serviços que recebemos da natureza não têm substitutos, logo, não podem de facto ter preço (por exemplo, a produção de oxigénio pelas plantas)
2 - Atribuir um valor ao capital natural é difícil e impreciso (na melhor das hipóteses)
3 - Assim como a tecnologia não pode substituir os sistemas de apoio à vida do planeta, também as máquinas não podem substituir a inteligência humana e a cultura.

"Como seria a nossa economia se nela fossem plenamente valorizadas todas as formas de capital, incluindo o humano e o natural? E se a nossa economia fosse organizada não em torno das abstracções sem vida da economia neoclássica e da contabilidade, mas em torno das realidades biológicas da natureza?"

É este o cenário que, ao longo de centenas de páginas descrevendo as tecnologias actualmente existentes que poderão determinar quais os países mais competitivos do século XXI, os três autores expõem. Uma das coisas que mais me agradou no livro foi precisamente o facto de romper com a ideia feita de que ser amigo do ambiente é incorrer num custo (ao ponto de renegarem a possibilidade de pagamento das externalidades). Bem pelo contrário, mostram como será economicamente vantajoso (para não dizer imperioso) aderir ao "capitalismo natural".

Naturalmente, muita desta evolução depende sobretudo dos privados. No entanto, para lá de outras formas de intervenção (que podem por exemplo incluir a promoção de áreas educacionais e de formação profissional relevantes para esta nova "revolução industrial"), gostaria de relevar a proposta dos Liberais Democratas britânicos: "The Lib Dems will cut income tax and switch to green taxes on pollution instead. "

Links:

http://www.natcap.org/
http://www.libdems.org.uk/environment/issues/stern.html
http://www.wupperinst.org/en/home/index.html
http://www.rmi.org/