Cultura

Artigos que tenham a ver com a política cultural (ex: cinema, música, pintura, escultura, ...).
Retrato de Luís Lavoura

É uma excelente decisão a do novo ministro da Cultura, de colocar os quadros de Joan Miró pertencentes ao espólio do antigo BPN em exposição pública.

Tendo o BPN sido nacionalizado, os quadros passaram a pertencer ao Estado. E não se compreende que o Estado detenha quadros daquela qualidade (ou, pelo menos, fama) sem permitir que o povo os veja. O Estado existe para servir e beneficiar o povo.

Retrato de Luís Lavoura

As touradas estão em decadência acentuada na Península Ibérica. Em Portugal há-as cada vez menos, em Espanha 60% da população diz rejeitá-las, e em cada vez maiores áreas da Península desaparecem totalmente, seja proibidas pelas autoridades locais, seja por falta de público. Cada vez mais touradas são feitas literalmente para inglês ver, sendo que os turistas acham "very typical" na Península atividades que certamente não quereriam ter nos seus próprios países.
Para acentuar esta decadência só faltavam acontecimentos como este: uma tourada em Madrid, ontem, foi interrompida logo ao segundo touro (normalmente há-os seis) depois de todos os três matadores de serviço terem sido agredidos pelos dois primeiros touros, sendo que um deles arcou com ferimentos numa perna que provavelmente lhe retirarão definitivamente a vontade, quiçá a capacidade, de voltar a exercer a sua profissão.
Os amigos dos animais certamente rejubilarão. Eu também.

Retrato de Luís Lavoura

É espetacular que, em matéria de Estado de Direito em Portugal, ele tenha que ser imposto por um agente estrangeiro como a leiloeira Christie's. Uma instituição privada inglesa mostra-se mais atenta e respeitadora da lei portuguesa do que os agentes públicos portugueses. A lei de Portugal tem que ser imposta por um agente estrangeiro, ainda por cima privado. É espetacular. Assim se vê a diferença entre a cultura do Estado de Direito no Reino Unido e em Portugal.

Retrato de Luís Lavoura

O Estado vai vender cerca de 80 obras do pintor catalão Joan Miró, que pertenciam ao BPN e passaram a pertencer ao Estado aquando da nacionalização desse banco.

Eu pergunto, se se vendem estes Mirós com o fim de angariar dinheiro, não seria igualmente boa ideia, quiçá melhor até, vender, sei lá, o tríptico de Hyeronymus Bosch que está no Museu Nacional de Arte Antiga, os melhores coches do Museu dos Coches, ou as valiosas esculturas do Museu Soares dos Reis?

Retrato de Luís Lavoura

Morreu ontem o grande mestre da sitar e divulgador no Ocidente da música hindustani.

Que eu saiba, deu um único concerto em Portugal, na Fundação Gulbenkian há cerca de 30 anos.

Retrato de João Mendes

O Luís Humberto Teixeira é um tipo porreiro, animado e inteligente. A sua sagacidade é notória e transparece na sua escrita, que flui a bom ritmo, tornando difícil largar o seu livro Verdes Anos - História do Ecologismo em Portugal (1947-2011).

Descobri que o livro existia pelo Facebook, quando o Luís Humberto me convidou para a sua apresentação ao público. Apesar de não ter conseguido ir, pedi descaradamente uma cópia ao próprio autor, que teve a gentileza de me arranjar uma cópia não apenas deste livro, mas também do seu Reciclemos o sistema eleitoral! (2003).

Tenho muitos livros que quero ler, mas fiz deste uma prioridade. O tema interessava-me e o livro não desapontou. Aliás, vai para além do que o título deixa transparecer. Dada a preocupação do Luís Humberto de enquadrar devidamente os temas que discute, com a confiança apenas possível a quem os domina, este livro fornece não apenas uma visão da História das ideologias verdes em Portugal, mas também uma base teórica para pensar sobre sistemas políticos e sociais e a forma como se influenciam.

O livro está bem organizado, pressuposto importante para uma fácil e boa compreensão do que é discutido. Primeiro, o Luís Humberto apresenta-nos uma sumária descrição das ideologias verdes, explicando as diferenças entre o ecologismo e o ambientalismo. Depois, viajamos pela Europa e pelas bem diferentes experiências verdes pelo continente. Apenas então, já com uma boa bagagem sobre as ideologias e o que se passa a nível europeu, passamos para Portugal.

Já em Portugal, o Luís Humberto fala-nos da Liga para a Protecção da Natureza e das suas actividades durante e após o Estado Novo. Fala-nos, com a maior das desenvolturas, entre outras coisas, sobre o período pós-revolucionário e dos anos 80, sobre as várias organizações não governamentais que foram surgindo, sobre o início d'«Os Verdes» e sobre a CDU, sobre o MPT e até, brevemente, sobre o PAN. Com base em entrevistas e em estudo de documentação vária, conta-nos várias perspectivas sobre o que se foi passando - e depois vai mais além.

No seu livro, o Luís Humberto não se preocupa apenas em enumerar factos que lhe foram sendo contados pelos vários intervenientes directos que entrevistou. Preocupa-se ainda em explicar o que aconteceu de um ponto de vista teórico, de enquadrar aquilo que aconteceu em Portugal nas teorias que se foram desenvolvendo com base em outras experiências. E é desta parte que eu penso ser possível retirar princípios abstractos que ajudam a pensar a forma como ideologias e formas de pensar e de agir se disseminam e procuram alargar a sua área de influência.

Diz o autor que o seu estudo surgiu devido a uma lacuna que encontrou - não havia estudos aprofundados sobre este tema em Portugal, e as referências a nível internacional eram essencialmente inexistentes. Foi para suprir esta falha que o estudo foi efectuado e, depois, que surgiu este livro. Da perspectiva de alguém de fora da área, considerei este livro uma mais-valia. Aprendi com ele não apenas um conjunto de factos sobre o ecologismo em Portugal, mas também uma proposta de enquadramento destes factos - com a qual, aliás, me identifiquei, e considerei persuasiva.

Este livro é, assim, um produto completo, o qual se lê e com o qual se aprende sem se notar. Não me sinto capaz de avaliar se supriu a lacuna que o Luís Humberto queria suprir - outros opinarão sobre isso. Mas pessoalmente, ajudou-me a assentar ideias sobre um conjunto alargado de temas, com o bónus de ter aprendido sobre ecologismo e a sua História em Portugal e noutros países europeus pelo meio. Portanto, para mim, foi uma boa leitura. E penso que será uma boa leitura para outros que tenham interesse sobre estes temas.

[Também no Cousas Liberaes.]

Retrato de Luís Lavoura

O Estado decidiu vender o Pavilhão Atlântico (PA) com o argumento de que não é função do Estado gerir equipamentos culturais. Eu aceito esse argumento. Mas pergunto: por que não utiliza o Estado exatamente o mesmo argumento para vender uma multitude de outros equipamentos culturais que continua a deter? A começar pelo Centro Cultural de Belem e a acabar no Teatro Nacional de São Carlos, diria eu, fora muitos outros equipamentos da mesma natureza mas que pertencem a autarquias locais (o antigo Cinema São Jorge é um exemplo). Será que é função do Estado gerir esses equipamentos culturais mas não o PA? Ou será que não existem investidores privados interessados em comprar esses equipamentos?

Alternativamente, pergunto, por que não faz o Estado uma concessão desses equipamentos culturais, ou por que não os arrenda, em vez de os vender? Se não é função do Estado geri-los, então o Estado poderia, perfeitamente, arrendá-los (para o exercício de uma atividade qualquer, não necessariamente cultural) ou então concessioná-los (para uma atividade bem definida e com um determinado caderno de encargos). Não seriam tais soluções financeiramente mais racionais do que a venda - agora que os preços do imobiliário estão deprimidos - e não obedeceriam, igualmente bem, à ideia de que não é função do Estado gerir equipamentos culturais? E não se impõem tais soluções, agora que é imperativo emagrecer as estruturas do Estado?

Retrato de Luís Lavoura

Muitos bloggers têm escrito muitos posts sobre a morte de Václav Havel, antigo presidente da Checoslováquia e da República Checa.

Focam-se sempre na morte de Havel, o homem político.

Eu diria que os méritos de Havel como homem político são discutíveis e apresentam algumas nódoas. Pelo contrário, os méritos de Havel como autor de peças de teatro são indiscutíveis.

É pena que Havel seja, aparentemente, tão pouco lido e representado em Portugal. Apesar de as suas peças se referirem a um período muito particular, e ultrapassado, da história política e social do seu país, trata-se de peças brilhantes e que merecem a leitura e a representação em todo o tempo.

Retrato de João Cardiga

Não é a primeira vez que leio comparações entre o comunismo (ideologia) e o nacional-socialismo alemão (regime). Tais comparações são normalmente motivadas por um profundo sentimento anti-comunista, e que como qualquer sentimento anti-qualquer-coisa tem mais de emoção do que razão. A ultima destas comparações absurdas vem apresentada n'O Insurgente, que muito ao seu estilo coloca um link de um artigo para transmitir uma ideia, neste caso um insulto, diz a propósito de Saramago que "only moral cripples are communists".

 

Não sei se a ideia é um insulto simples a Saramago, ou mostrar uma profunda incompreensão sobre a ideologia do comunismo. Ou se a ideia talvez seja suavizar o Nacional-socialismo alemão (o regime). Como sempre a intenção só o autor poderá responder.

 

Embora julgue natural um americano demonstrar tal desconhecimento e preconceito, já julgava que um europeu teria um pouco mais de cultura e conhecimento para não difundir tais comparações absurdas. Talvez se o autor compreendesse um pouco mais a ideologia comunista não teria escrito tal post. Talvez os ataques a essa ideologia fossem um pouco mais consistentes e o fizessem reflectir sobre as suas próprias posições, que muitas vezes acabam por provocar uma regressão na esfera da liberdade individual tão grande como a do próprio comunismo. Julgo que aí talvez fosse bastante mais interessante e evitasse reproduzir um insulto estupido a uma pessoa...

No mundo actual a maior parte dos Estados ambiciona ter uma economia forte e competitiva a nível global, e também um tecido empresarial extremamente produtivo, criativo e inovador. Segundo Gisele Raulik-​​Murphy, senior researcher do University of Wales Institute, uma das formas que os países têm para atingir estes objectivos é investir num Sistema Nacional de Design.

Um Sistema Nacional de Design, conforme Gisele Raulik-​​Murphy define no artigo “An International Perspective”, assenta em 4 pilares:

 

- Promoção — centros de design, exposições, publicações, prémios, conferências e demais actividades ou informação que tenham como alvo principal o público em geral;

- Suporte — programas de integração em PME’s, aconselhamento e monitorização, programas sectoriais, demonstrações e demais actividades ou informação que tenham como alvo principal a indústria;

- Educação — toda a educação, formal ou não, que permita ao designer ser um bom profissional;

- Política ou Estratégia Nacional de Design – a implementação das 3 áreas de acção acima deverá ser regida por estratégias determinadas pelo Governo que tenham em conta os principais stakeholders (a indústria, o sector do design e os próprios designers, entre outros).
 

Olhando para o ranking 2009  – 2010 das 20 economias mais competitivas constatamos a ligação entre competitividade e a aposta num Sistema Nacional de Design:
 

1. Suiça - Promoção do Design

2. Estados Unidos - Promoção do Design mas, estão a ser publicamente debatidas diversas propostas com vista a elaborar uma Política Nacional de Design (http://​www​.designpolicy​.org/)

3. Singapura - Promoção, Suporte e Política Nacional de Design

4. Suécia - Promoção e Suporte do Design

5. Dinamarca - Promoção, Suporte e Política Nacional de Design

6. Finlândia — Promoção, Suporte e Política Nacional de Design

7. Alemanha - Promoção e Suporte do Design

8. Japão - Promoção, Suporte e Política Nacional de Design (desde 1956)

9. Canadá — Promoção do Design

10. Holanda - Promoção, Suporte e Política Nacional de Design

11. Hong Kong 

12.Taiwan - Promoção e Suporte do Design

13. Reino Unido - Promoção, Suporte e Política Nacional de Design (desde 1949)

14. Noruega - Promoção e Suporte do Design

15. Austrália - Promoção do Design

16. França — Promoção e Suporte do Design

17. Aústria

18. Bélgica — Promoção e Suporte do Design

19. Coreia do Sul - Promoção, Suporte e Política Nacional de Design

20. Nova Zelândia - Promoção, Suporte e Política Nacional de Design
 

A nível Europeu lembro as palavras de Jan R. Stavik, presidente do BEDA(Bureau of European Design Associations): “The European Commission sees design as crucial in bridging the gap between creativity and innovation today. We have achieved a genuine breakthrough for design in Europe, which can boost European competitiveness in the future”.

Talvez no futuro vejamos surgir algum tipo de Política Comunitária de Design ou a sua integração numa grande Estatégia Comunitária de Inovação. Ficamos à espera para ver o que nos trás a European Innovation Strategy a ser revelada em breve.
 

E em Portugal? O nosso país encontra-​​se no 43º lugar do index de competitividade. A nível político a importância dada ao design é mínima. Basta ler os programas eleitorais das últimas legislativas e contar as raras vezes em que a palavra “design” é mencionada por cada partido. Além disso, geralmente o contexto da menção não revela uma visão global das potencialidades do design, mas sim uma intervenção pontual na área x ou y. Resumindo, existem programas de Promoção e Suporte do Design, mas não existe em Portugal uma Política Nacional de Design.

Em tempo de crise Portugal não se pode dar ao luxo de continuar a adiar este projecto. É necessário apanhar o comboio da competitividade, sendo necessário investir nos 4 pilares que formam um Sistema Nacional de Design ou, pelo menos, que se lançar um debate público sobre as vantagens e desvantagens da criação desse mesmo Sistema e de uma Política Nacional de Design.