Economia

Retrato de Luís Lavoura

As previsões para a economia portuguesa apontam, de forma consistente, para crescimento - embora muito pequeno - em 2014.

É claro que tal crescimento, a verificar-se, será positivo. Diminuirá o desemprego, ou pelo menos permitirá que ele não aumente, e diminuirá a pressão sobre as empresas que dependem da procura interna. E será muito positivo para o Estado, que terá mais PIB sobre o qual angariar mais impostos.

Mas, em última análise, esse crescimento do PIB não é muito importante. Porque o PIB junta, num mesmo agregado, a produção e o consumo.  E nós sabemos que, em Portugal, o consumo não pode aumentar muito sem que as exportações que o sustentam também cresçam - ou sem que o desequilíbrio externo se amplie.

As contas externas de Portugal têm uma tendência crónica para o desequilíbrio. Por isso, o fundamental para Portugal não é o crescimento do PIB: é o crescimento das exportações (ou, mais precisamente, da balança corrente, a qual inclui, além das transações de bens e mercadorias, também os lucros de capital investido e as remessas dos imigrantes). Só se as exportações crescerem é que as importações também poderão crescer sem que surja um desequilíbrio; e só se as importações crescerem é que o nível de vida poderá aumentar.

Se o crescimento do PIB que se prevê para 2014 ocorrer apenas do lado do consumo interno, ele será insustentável. O que é desejável é o crescimento das exportações, não do PIB.

Retrato de Luís Lavoura

Há quem diga que a Alemanha é muito competitiva porque há dez anos fez umas reformas económicas que limitaram o aumento dos salários lá.

Porém, grande parte dos produtos alemães não são competitivos devido aos seus baixos preços, bem pelo contrário. Eles são competitivos porque são insubstituíveis.

A indústria alemã está fortemente especializada em bens de investimento, e não em bens de consumo. Eu, que vivi na Alemanha, posso afirmar que a maior parte dos produtos que se vêem à venda na Alemanha são produzidos no estrangeiro, porque a Alemanha, na sua maior parte, não produz produtos de consumo: produz e exporta sobremaneira produtos químicos, produtos elétricos, e sobretudo máquinas, isto é, bens de equipamento, de investimento.

E mais: não tem concorrência séria nesses setores. Por exemplo, muitos Estados americanos estão agora atrapalhados com falta de drogas letais com as quais levem a cabo a pena de morte, porque a indústria alemã (e suíça) se recusa a vender-lhas e a indústria americana é incapaz de as produzir. Em matéria de indústria química, a Alemanha é insubstituível.

Não se trata, portanto, de ser competitivo. A Alemanha não é competitiva - é pura e simplesmente insubstituível na produção de uma série de bens de investimento. Nem mundo em que esses bens são muito necessários, a Alemanha adquire, inevitavelmente e automaticamente, um enorme excedente comercial.

É como a Coreia do Sul, que é insubstituível em matéria de construção de navios de uma determinada complexidade. Não há no mundo estaleiros que os saibam construir que não os coreanos. Num mundo em que muitos desses navios sejam necessários, necessariamente a Coreia terá grandes exportações.

Retrato de Luís Lavoura

Há quem diga que a Alemanha tem excedente comercial porque o euro está desvalorizado em relação ao seu valor real; segundo esses, se a Alemanha tivesse moeda própria, essa moeda valorizar-se-ia até eliminar o excedente comercial da Alemanha.

Mas isto não é verdade: no mundo atual, o valor das moedas é determinado essencialmente pelo seu valor de investimento e não pelo seu valor comercial. A maior parte das moedas são compradas para se investir com elas, e não para se pagar qualquer bem físico (ou serviço) com elas.

Retrato de Luís Lavoura

Não há qualquer razão contra a pretendida privatização dos CTT.

O facto de essa empresa dar lucro não é argumento: as empresas não são estatais por darem lucro ou por darem prejuízo, mas por outros motivos; tanto no setor estatal como no setor privado há empresas que dão lucro e outras que dão prejuízo.

Também, os CTT não conferem especial "coesão nacional" a Portugal; idêntica coesão é fornecida pelas empresas de grande distribuição, de telefonia móvel, ou de autocarros expresso, que são todas privadas.

Os CTT não detêm hoje um monopólio na distribuição de correio e, também, cada vez mais operam ou pretendem operar noutras áreas de negócio - desde muito recentemente, a banca - que são concorrenciais.

Não se vê portanto em que é que os CTT sejam tão especiais que não devam ser privatizados.

Retrato de Luís Lavoura

Ontem houve muita congratulação por Portugal ter saído da "recessão técnica", ou seja por, nas estatísticas (as quais têm muito de dúbio, dado que a economia negra é muito grande), a economia ter crescido por dois trimestres consecutivos. No segundo trimestre de 2013 cresceu 1,1%, no terceiro trimestre cresceu 0,2%.

A mim, mais do que a saída da "recessão técnica", o que me impressiona é a descida abrupta da taxa de crescimento de um trimestre para o seguinte, a qual descida sugere que, em breve, a economia portuguesa poderá estar outra vez a encolher. 0,2% de crescimento é quase nada. Daí para se voltar à recessão ("técnica", claro) vai um passinho de caracol.

Retrato de Luís Lavoura

O governo decidiu investir a empresa que gere as reservas estratégicas de combustíveis de Portugal com uma nova missão: investigar permanentemente, e divulgar publicamente, a formação dos preços de venda ao público dos diversos combustíveis.

Eu acho isto deveras curioso porque os preços dos combustíveis são, em geral, dos preços mais transparentes que há. Os combustíveis constituem, em larga medida, aquilo a que os economistas (de língua inglesa) chamam commodities: produtos indiferenciados, vendidos em massa e por um preço padronizado. Não há grande margem para as empresas produtoras e vendedoras diferenciarem o seu produto, ou a qualidade do seu serviço, e cobrarem ao consumidor um preço variável. Por isso, o preço dos combustíveis varia pouco. Contraste-se por exemplo com os preços do pão ou do leite, que variam muito substancialmente consoante a qualidade do produto, da embalagem, consoante a marca, etc.

É portanto deveras peculiar que, no seu afã de impôr transparência nos preços, o governo dirija uma atenção especial logo para um dos produtos cujo preço é menos opaco!

Retrato de Luís Lavoura

Segundo o Fórum Económico Mundial, Portugal é um país economicamente relativamente pouco competitivo. Mas eu não sei se devamos ligar muito a tal classificação porque, segundo ela, a Mongólia é um dos países menos competitivos economicamente de todo o mundo. Ora, acontece que a Mongólia é precisamente o país que no ano passado registou maior crescimento económico de todos (uns assombroosos 27% de aumento no PIB)!

Retrato de Igor Caldeira

 

 

 

Espero com este título cretino ter atraído muitos leitores. O título pode ser cretino, mas a ideia é partilhada por muitos e, nesse sentido, merece ser investigada. 

 

§1 - Forçando a realidade às nossas crenças...

Se há coisa que a prolongada convivência com amigos economistas me ensinou, é que o uso de estatísticas por leigos (como eu) na matéria presta-se a muitos disparates. Na verdade, como os próprios admitem, até entre os economistas o mau uso, quando não o abuso, de dados estatísticos é tudo menos raro. 

 

Vem isto a propósito de um artigo publicado no jornal francês La Tribune, onde se diz o seguinte: 

 A dívida pública aumentou mais nos países que aplicaram as receitas de rigor orçamental da troika. É o que se conclui das estatísticas publicadas segunda-feira pelo Eurostat.

 

O artigo vem acompanhado de dois gráficos, um que nos dá dados relativos a um ano e um trimestre (sim, eu sei; ridículo) e outro que nos dá os dados relativos à dívida pública na UE (irrelevante). E é a partir daqui que nos querem convencer que a austeridade provoca dívida. 
 

§2 - Alternativas

Devo frisar que não estou a dizer que o modelo que tem vindo a ser seguido é o correcto. É preciso ser falho de imaginação ou inteligência para crer que a cada momento da vida temos apenas duas soluções; no caso concreto, que temos apenas a escolha entre a austeridade da troika ou o "investimento público" que muita Esquerda ainda advoga, sem nunca explicar de onde viria  o dinheiro, posto que ninguém, à parte a própria troika, nos quer emprestar a taxas de juro que possamos pagar (presumindo que podemos pagar as taxas da troika, o que muitos põem em causa). Há outras soluções, como o default/bancarrota e saída do euro. Há quem diga que essa é a única solução. Talvez seja, mas não é isso que aqui me preocupa.

 

§3 - Let's get down to business

 

O que me preocupa é a afirmação de que a austeridade é que tem criado a dívida. Para se afirmar isto, espetar dois gráficos de excel com dados relativos a um ano ou 15 meses é inacreditável. O que a seriedade e a honestidade intelectual exigiria seria colocar duas questões antes de dar esta resposta: 
Primeira questão: Até à implementação dos programas de austeridade, como se comportou a dívida pública nos países em causa?
Segunda questão: Sem implementação dos programas em causa, que têm assegurado o financiamento destes países, como teria evoluído a dívida pública?

 

3.1 - Até à implementação dos programas de austeridade, como se comportou a dívida pública nos países em causa?

Ora, quanto à primeira questão, e usando a mesma fonte (Eurostat), vemos que, no período de 2003 a 2012 (uma década é sempre um período de análise mais sério que um ano) o momento de viragem e forte crescimento da dívida pública é 2008, e não 2010 ou 2011 - portanto, antes da implementação dos programas CE/ECB/FMI, e exactamente no momento em que a crise financeira desembarca na Europa. Isso é bem visível nos casos da Espanha e da Irlanda, que tinham contas públicas bastante saudáveis até esse momento e superavits orçamentais frequentes. O caso da Irlanda é particularmente chocante e demonstra bem os perigos de ter uma visão intervencionista da economia, em que poder político e poder financeiro estão sempre entrelaçados. 

 

Já no caso da Grécia e de Portugal, não tenhamos dúvidas de que a crise orçamental não era uma questão de SE, mas de QUANDO iria chegar. A dívida pública nunca parou de aumentar ao longo da década em análise, nunca tiveram um excedente orçamental e, dado que esse permanente gasto nunca foi acompanhado de um crescimento económico que permitisse superar (e assim, justificar) os sucessivos défices, pode apenas concluir-se que o que a crise financeira mundial fez foi estugar o passo a um desastre anunciado. 

 

3.2 - Sem implementação dos programas em causa, que têm assegurado o financiamento destes países, como teria evoluído a dívida pública?

Quanto à segunda questão, não me parece descabido que se continue a argumentar que sem austeridade imposta pela troika, a economia portuguesa poderia já estar a crescer. De facto, a austeridade que adviria [advirá?] da falência do país e saída do euro permitiria [permitirá?] (à custa de terríveis sacrifícios durante um a três anos) recuperar mais rapidamente e voltar a crescer muito em breve. Se virmos por exemplo o caso da Estónia, o embate com a crise foi muito mais violento que no nosso caso. Mas ao fim de dois anos o desemprego está a diminuir fortemente e a economia já recuperou. 

 

A questão é que muitos anti-troika parecem acreditar que, sem troika, haveria dinheiro para pôr a economia a crescer. Mas, como bem sabemos, as taxas de juro da dívida pública são absolutamente incomportáveis. Ninguem está disponível para nos emprestar dinheiro a taxas que possamos pagar. De modo que a resposta à segunda questão é simples: sem troika, a dívida pública teria explodido durante mais uns meses até que seríamos forçados ao default.

 

§4 - Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa

 

Devo dizer, em jeito de conclusão, que nada disto impede de dizer algumas coisas:

  • que o programa em causa está errado, porque não equaciona o problema do crescimento (o que não quer dizer que o crescimento só possa ser gerado pela dívida - tivemos, como mostrei, uma década de acentuado crescimento da dívida sem com isso se gerar crescimento);
  • que a austeridade, por si só, não resolve tudo (mas isso, nem os defensores internacionais da austeridade dizem: daí a insistência nas reformas estruturais);
  • que as reformas que estão a ser implementadas são insuficientes e estão nos sectores errados; 
  • que não se antevê nenhuma saída para a crise no contexto actual - bem pelo contrário.

 

§5 - A inconsequência dos anticapitalistas

 

Sucede apenas que pegar nuns dados aleatórios e afirmar a descoberta de uma verdade inatacável nem é bom, nem fica bem. Os críticos da troika terão de fazer mais e melhor. Os melhores de entre eles sabem bem qual é a alternativa, e estão dispostos a aceitá-la. Outros, ainda andam a sonhar com amanhãs que cantam e empréstimos imaginários de capitalistas transnacionais beneméritos. O que, vindo de gente que se diz anti-capitalista, tem muito que se lhe diga

(Nos entretantos, recomendo vivamente a leitura das alternativas às políticas que temos vindo a seguir.)

Retrato de Luís Lavoura

O ministro Álvaro foi a Angola e disse que deseja que haja mais investimento angolano em Portugal. Disse que também quer que as empresas portuguesas invistam mais em Angola.

Basicamente, ambas as coisas estão erradas.

O investimento angolano em Portugal não serve para nada, a não ser para livrar alguns ricaços portugueses de ações desvalorizadas que têm em carteira. Os investidores angolanos ainda não abriram em Portugal uma única fábrica, uma única estrutura produtiva. Apenas compram ações de empresas portuguesas, o que faz certamente algum dinheiro entrar no país (como o ouro do Brasil no século 18) mas em nada faz progredir a estrutura produtiva. Portanto, mais investimento angolano em Portugal, não obrigado. O que precisamos cá é de investimento alemão ou francês - investimento em estruturas produtivas tecnologicamente avançadas.

O investimento português em Angola, em grande parte (excetua-se o investimento na exploração dos recursos naturais, incluindo agrícolas, angolanos, e na construção civil), também é um erro: transfere para Angola fábricas que estavam cá. Os empresários portugueses vão para Angola produzir bens que até agora produziam cá e exportavam para lá. Ou seja, trata-se de investimento que faz diminuir as capacidades de exportação portuguesas. Também não é isso que queremos.

Em suma, o ministro Álvaro disparatou duplamente.

Retrato de Luís Lavoura

Diz-se que a recente crise política, especialmente a demissão de Paulo Portas, causou enormes prejuízos ao país, nomeadamente através da queda da bolsa e do aumento das taxas de juro pagas pelo Estado. Diz-se que terão sido esses enormes prejuízos que forçaram os líderes políticos a recuar.
Eu não entendo esta tese. Na minha ótica, não houve grandes prejuízos.
(1) As taxas de juro das obrigações do Estado são computadas em mercado secundário e em nada afetam aquilo que o Estado realmente paga. Ou seja, o facto de as taxas de juro em mercado secundário subirem muito durante um, ou dois, ou três meses nenhum prejuízo causa ao Estado. O Estado apenas é afetado pelas taxas de juro no mercado primário, isto é, no momento em que leiloa as suas obrigações. E esses leilões só têm lugar ocasionalmente, e podem ser adiados caso as circunstâncias no mercado sejam desfavoráveis. Portanto, o Estado não perdeu rigorosamente nada com a crise.
(2) A bolsa escassamente afeta a economia real. O facto de as ações de um banco, por exemplo, descerem para metade do seu valor não faz esse banco ficar mais pobre. Apenas os detentores dessas ações ficam mais pobres. Mas, mesmo isso não passa de um efeito temporário. Quem investe em ações sabe que se arrisca a perder uma parte substancial do seu dinheiro, embora temporariamente. A descida em bolsa das empresas portuguesas em nada prejudicou nem os consumidores, nem os trabalhadores - a economia do país prosseguiu incólume.
Portanto, a meu ver, não houve quaisquer prejuízos. Os prejuízos só teriam existido se esta situação se tivesse mantido durante alguns meses. Houve pessoas que perderam dinheiro, mas essas pessoas têm a obrigação de aceitar as perdas, pois sabem que estão num mercado arriscado. E trata-se, de qualquer forma, de pessoas especialmente ricas, com as quais os políticos não se deveriam preocupar em demasia.