Economia

Retrato de Luís Lavoura

Dizem que a indústria portuguesa do calçado está florescente, que nunca se exportou tanto calçado como em 2012.

Porém, isto é falso. A indústria portuguesa do calçado está a decair porque, embora de facto exporte cada vez mais, também importa cada vez mais. Cada vez mais o calçado português tem componentes produzidos fora de Portugal - e isto dificilmente seria evitável, numa indústria que é intensiva em mão-de-obra, setor no qual Portugal já se encontra em desvantagem. Como resultado, a cobertura das importações pelas exportações no setor do calçado está continuamente a decrescer.

Retrato de Luís Lavoura

A Alemanha tinha a esperança de se tornar a grande potência exportadora mundial de paineis solares. É esse, ao fim e ao cabo, o objetivo do seu programa Energiewende: através de variados esquemas de subsidiação estatal, incentivar o mercado doméstico de energias renováveis, com o fim de promover o desenvolvimento das empresas alemãs desse setor, dando-lhes um avanço tecnológico e economias de escala que futuramente lhes permitam conquistar outros mercados.

Mas a Alemanha não contou com a China, que bate a Alemanha aos pontos em matéria de economias de escala. Os chineses fabricam paineis solares bem mais baratos que os alemães e estão a conquistar o mercado europeu - incluindo o alemão.

Vai daí, a Alemanha mexeu os cordelinhos da União Europeia no sentido de esta impôr direitos alfandegários penalizadores sobre os paineis solares chineses. (Há sempre boas desculpas, alegações de dumping ou seja o que fôr, para justificar tais direitos alfandegários perante a Organização Mundial do Comércio.)

Mas, com quem se foram meter! Já deviam saber que a China não se fica com tais brincadeiras! Infelizmente, a China, em vez de retaliar impondo direitos alfandegários sobre os BMWs, Mercedes e Audis que a Alemanha alegremente para lá exporta (*), resolveu impôr direitos alfandegários sobre o vinho importado da União Europeia. Com isso pouco prejudica a Alemanha, mas prejudica substancialmente Portugal, que tinha na China um mercado importante e muito promissor, sobretudo para vinhos de menor qualidade.

É caso para dizer aos alemães e chineses: façam lá as vossas guerrinhas comerciais à vontade, mas não prejudiquem Portugal, por favor!

 

(*) É possível que os automóveis dessas marcas não sejam de facto hoje em dia exportados da Alemanha, sendo já atualmente produzidos na própria China.

Retrato de Luís Lavoura

Parece ser uma ideia deveras consensual que uma das causas da atual crise europeia reside nas diferentes balanças comerciais dos diferentes países, com alguns países que sistematicamente exportam muito mais do que aquilo que importam, enquanto que com outros países se passa o oposto.

Essas diferenças fazem com que o dinheiro tenda a acumular-se nalguns países. Para gastar o dinheiro que têm a mais, esses países têm que "investir" no estrangeiro. Ou seja, para simplificar, como a Alemanha exporta muito e Portugal importa muito, o dinheiro flui de Portugal para a Alemanha; para contrabalançar esse movimento, os alemães têm que enviar o dinheiro de volta para Portugal sob a forma de investimento.

Mas o investimento exagerado tende a deslocar-se para coisas que, mais tarde, acabam por revelar-se improdutivas. Por isso, a poupança exagerada acaba por conduzir a crises da dívida - quando se verifica que os endinheirados emprestaram dinheiro para projetos que se revelaram improdutivos.

Uma forma que os países exportadores da União Europeia teriam para mitigar este problema seria a introdução de impostos sobre a exportação, mais ou menos como os impostos que a Argentina impõe sobre as suas exportações de carne. A Alemanha poderia, assim, ajudar a eliminar a origem das crises, impondo impostos sobre as suas exportações de, digamos, automóveis ou outros produtos industriais. Esses impostos encareceriam os produtos alemães e, em última análise, diminuiriam ou eliminariam o excedente comercial alemão. Com a receita desses impostos o governo alemão poderia, eventualmente, ajudar os desempregados alemães que daí resultariam a viver de uma qualquer forma que produzisse menos exportações.

É uma ideia maluca? É. É iliberal? Talvez. Mas parece-me uma ideia que, em termos pragmáticos, valeria a pena considerar, quando se sabe que há países na União Europeia que, ano após ano após ano, sem cessar, acumulam enormes excedentes no seu comércio externo.

Retrato de Igor Caldeira

Tornou-se moda, em Portugal, dizer-se que sem crise financeira mundial, Portugal não estaria na presente situação. Mentes fracas precisam de fracas desculpas, e a União Europeia, o capitalismo, a globalização e os mercados são bodes expiatórios perfeitos. Quem precisa de atalhos cognitivos para justificar uma desgraça encontra neles o objecto perfeito, como em outros séculos outros atribuíam terramotos a castigos divinos. 

 

Eu, que não acredito em deuses e acho que os bodes têm melhor serventia no reino animal que na análise política, prefiro olhar para a acção humana. No caso da presente crise financeira portuguesa, em particular, podemos dizer que esta crise era evitável? 

Não creio; a única coisa que acho é que a crise mundial apenas estugou o passo de uma desgraça que qualquer pessoa com dois dedos de testa já poderia prever há dez anos atrás (portanto, de fora ficam os militantes e dirigentes de todos os partidos portugueses, lamento dizer, e aqui está um estrutural problema do nosso país: a absoluta cretinice de quem decide por nós). 

 

A crise em que nos encontramos, tendo em conta a trajectória seguida nas últimas décadas (e particularmente na última década, desde 2000/2001) era apenas uma questão de "quando", não uma questão de "se" iria acontecer. 

E para provar isso apresento um caso hipotético relativamente simples (tremendamente complexo para qualquer apoiante da CGTP- IN, mas também presumo que nenhum lerá este blogue). 

 

No mundo Z, os países pedem empréstimos, mas não pagam juros (fora, portanto, com o malvado lucro e o capitalismo financeiro mundial). 
Neste mundo, o país Y tem, no ano X, um PIB de 100, uma despesa anual de  40, cobrando em impostos 37 e tendo uma dívida pública de 60. O país Y não pode privatizar nada nem obter receitas extraordinárias para cobrir o excesso de gastos: tudo o que gastar ou vem de impostos, ou vai para dívida.

Este país ainda, ano após ano, tem constantemente um crescimento económico de 1% e um déficit de 3% do PIB. 

Crescimento 1%, Déficit 3%









  PIB Despesa Receita Dívida Despesa%PIB Receita%PIB Dívida % PIB Deficit % PIB
Ano X 100,00 40,00 37,00 60,00 40 37 60 3,00
Ano X+1 101,00 41,20 38,17 63,00 41 38 62 3,00
Ano X+2 102,01 44,26 41,20 66,03 43 40 65 3,00
Ano X+3 103,03 47,35 44,26 69,09 46 43 67 3,00
Ano X+4 104,06 50,47 47,35 72,18 49 46 69 3,00
Ano X+5 105,10 53,63 50,47 75,30 51 48 72 3,00
Ano X+6 106,15 56,81 53,63 78,46 54 51 74 3,00
Ano X+7 107,21 60,03 56,81 81,64 56 53 76 3,00
Ano X+8 108,29 63,28 60,03 84,86 58 55 78 3,00
Ano X+9 109,37 66,56 63,28 88,11 61 58 81 3,00
Ano X+10 110,46 69,87 66,56 91,39 63 60 83 3,00
Ano X+11 111,57 73,22 69,87 94,70 66 63 85 3,00
Ano X+12 112,68 76,60 73,22 98,05 68 65 87 3,00
Ano X+13 113,81 80,01 76,60 101,43 70 67 89 3,00
Ano X+14 114,95 83,46 80,01 104,84 73 70 91 3,00
Ano X+15 116,10 86,94 83,46 108,29 75 72 93 3,00
Ano X+16 117,26 90,46 86,94 111,77 77 74 95 3,00
Ano X+17 118,43 94,01 90,46 115,29 79 76 97 3,00
Ano X+18 119,61 97,60 94,01 118,84 82 79 99 3,00
Ano X+19 120,81 101,23 97,60 122,43 84 81 101 3,00
Ano X+20 122,02 104,89 101,23 126,06 86 83 103 3,00
Ano X+21 123,24 108,58 104,89 129,72 88 85 105 3,00
Ano X+22 124,47 112,32 108,58 133,41 90 87 107 3,00
Ano X+23 125,72 116,09 112,32 137,15 92 89 109 3,00
Ano X+24 126,97 119,90 116,09 140,92 94 91 111 3,00
Ano X+25 128,24 123,75 119,90 144,73 96 93 113 3,00
Ano X+26 129,53 127,63 123,75 148,58 99 96 115 3,00
Ano X+27 130,82 131,56 127,63 152,46 101 98 117 3,00
                 

Os números, não os escolhi ao acaso, apesar dos xizes, ípsilones e zês: são valores aproximados da situação portuguesa no início do século XXI. 

Ora, que vemos nós?

Que, mesmo sem as malvadas finanças internacionais, este país estava condenado ao sobreendividamento. Em 6 anos a metade do rendimento dos cidadãos seria taxado. Em 19 anos a dívida atingiria os 100% do PIB. E em 27 anos o comunismo seria atingido, com a totalidade da riqueza nacional detida pelo Estado. 

 

Ora, a última vez que em Portugal houve um orçamento superavitário foi em 1973. Não houve nenhum governo, provisório, improvisado ou permanente, com o PCP, o PS, o PSD ou o CDS, que tenha tido finanças públicas equilibradas. Como nenhum partido português alguma vez pôs em causa o modelo de défice permanente, só podemos concluir que esta situação dificilmente seria evitável. 

Dificilmente? Mas então podia acontecer ter défices e ainda assim não falir? Sim. Com taxas de crescimento económico da ordem dos 5 a 7,5%  (que, manifestamente, não temos nem temos tido nas últimas décadas). De facto, neste país Y, com uma taxa de crescimento económico permanente superior a 5% a dívida pública até diminuiria (embora, por questões que não vale a pena referir, a despesa continuaria aumentar - algo que também tem de ter o seu limite, porque no mundo real há limites para o crescimento económico quando o Estado taxa uma proporção demasiado elevada da riqueza nacional). 
 

Em resumo: deixemo-nos de merdas, deixemos de culpar a UE, Wall Street, a Alemanha, a Merkel, os Illuminati ou o Pato Donald. A culpa de estarmos nesta situação é nossa, só nossa e de mais ninguém.

Retrato de Luís Lavoura

No estrangeiro, também há pessoas que estão longe de ser comunistas mas concordam com as teses do BE e PCP. Veja-se por exemplo este post, que cita um artigo no jornal inglês Telegraph.

Retrato de Luís Lavoura

Eu que sou (ou pelo menos me considero) um liberal, e portanto nada próximo das posições comunistas em matéria económica, fico apreensivo porque, quando ouço o discurso político atual em Portugal, vejo que estou praticamente de acordo com as posições assumidas pelo BE e pelo PCP, e em desacordo com as posições dos restantes partidos.

De facto, o que BE e PCP dizem, e eu considero correto, é que o programa de austeridade está a falhar rotundamente e que está condenado a continuar a falhar, de forma cada vez mais grave, no futuro. E que o caminho correto e inevitável passa, necessariamente, por uma renegociação da(s) dívida(s), isto é, por o Estado português (e não só) impôr a alguns dos seus credores que não lhes pagará a totalidade dos juros acordados.

Eu acho que o BE e o PCP têm (infelizmente) razão, e que PS, PSD e CDS estão rotundamente errados.

Retrato de Luís Lavoura

Daqui: "Numa altura em que tanto se fala de combater as rendas e a captura do interesse público pelos privados, o anúncio de que os aeroportos vão ser privatizados a apenas um comprador, gerando uma situação de monopólio privado, e as consequentes rendas de monopólio, é uma vergonha."

Retrato de Luís Lavoura

Durante meses, a direita andou a envenenar-nos o juízo com os malefícios das Parcerias Público-Privadas (PPP). Segundo a opinião veiculada, os contratos das ditas parcerias garantiriam aos parceiros privados lucros (sintomaticamente denominados como "rendas") abusivamente altos, que urgiria diminuir mediante renegociação desses contratos.

Neste ponto, convem fazer uma pausa para se afirmar que um Estado liberal tem por função essencial a de fazer respeitar os contratos - incluindo, logo à partida, os contratos que foram assinados por esse mesmo Estado. Um Estado liberal não impõe a renegociação de contratos, respeita os contratos assinados, mesmo que não concorde com eles.

Convem prolongar a pausa para se dizer que, num período de dificuldades de acesso a crédito, dificilmente se pode levar a cabo uma renegociação de contratos que seja benéfica para o pagador. Como os juros agora são mais altos, dificilmente o parceiro privado aceitará renegociar um contrato baixando a prestação do Estado.

Finalmente, é falso o argumento de que o risco de uma PPP deva indicir sobre o parceiro privado. De facto, sendo o Estado quem pede que uma determinada estrutura (um hospital, uma autoestrada) seja construída, deve ser ele quem se assegura de que essa estrutura terá uma procura suficiente para justificar a sua construção. Não é o privado quem tem que averiguar se essa procura existirá - o Estado, como promotor da estrutura, é que deve saber que ela existe e continuará a existir.

Findo este interregno, vemos agora que as renegocições das PPP que o atual governo de direita está a levar a cabo não fazem, afinal, nada em matéria de diminuir os lucros (as tais "rendas") dos parceiros privados. O que as renegociações fazem é diminuir a quantidade de trabalhos a executar. Ou seja, o Estado paga menos, mas também recebe menos estruturas, e emprega menos gente na sua construção. Assim é que foram eliminadas as intenções de construir uma autoestrada de Sines a Beja, uma outra para Trás-os-Montes, outra pelo Algarve. O Estado poupa dinheiro, é verdade - mas também há menos obra feita.

Afinal, aquela história com que nos andaram a atirar areia para os olhos, das "rendas" abusivas dos privados, apenas se destinava a enganar-nos. O que o Estado está a fazer não é diminuir rendas, é dimuinuir obra e mandar mais gente para o desemprego.

Retrato de Luís Lavoura

Ouvi ontem na Antena 1 o comentador de economia a falar sobre o recente sucesso das exportações portuguesas. Dizia o senhor - que supostamente percebe mais de economia do que eu - que esse sucesso é tanto mais notável quanto é conseguido sem o apoio de desvalorizações monetárias, como era hábito Portugal fazê-las antes de aderir ao euro.

O comentador em causa parece não estar consciente da acentuada desvalorização que o euro tem sofrido face ao dólar norte-americano - moeda que domina o comércio internacional fora da Zona Euro, isto é, lá onde as exportações portuguesas têm crescido, porque no interior da União Europeia elas praticamente não crescem - ao longo do último ano (e antes mesmo do último ano). Em virtude das elevadas dívidas dos países da Zona Euro, os aforradores têm progressivamente abandonado as suas posições nessa moeda, com a consequência que esta desvaloriza. É assim que, no último trimestre, o euro desvalorizou 7% face ao dólar dos EUA; no último ano, a desvalorização foi de 15%. (Os dados exatos, também para períodos temporais mais extensos, podem ser encontrados aqui.)

E é assim que, de facto, as trapalhadas na Zona Euro estão a dar um valente empurrão às exportações portuguesas (e de todos os outros países da Zona). É duvidoso que Portugal estivesse a exportar tanto se o euro não se estivesse a desvalorizar tão rapidamente (e nos últimos poucos dias a queda tem sido a pique!).

Retrato de Luís Lavoura

Vale a pena ler os artigos do The Economist desta semana sobre o escândalo que atualmente varre o mundo da finança no Reino Unido e nos EUA.

O que se aprende dessa leitura é que as famosas taxas que tanto influenciam a nossa vida, como por exemplo a Euribor à qual as taxas de juro dos empréstimos bancários estão indexadas, são suscetíveis de manipulação por banqueiros (e funcionários bancários) pouco escrupulosos, para proveito do seu banco.

Com efeito, essas taxas não se baseiam em quaisquer dados reais e concretos, mas tão-somente na opinião de alguns banqueiros sobre qual deveria ser a taxa de juro supostamente justa.

Assim, a taxa Libor, referente aos empréstimos inter-bancários no mercado londrino, não é fixada com base em dados de quaisquer empréstimos concretos que tenham de facto tido lugar, mas tão-somente com base na opinião de banqueiros sobre qual teria sido a taxa que o seu banco teria tido que pagar se tivesse pedido emprestado dinheiro.

A taxa Euribor, ao que parece, é fixada da mesmíssima forma.

Também, aqueles números que todos os dias vemos no telejornal, sobre as taxas de juro pagas pelas obrigações do tesouro de variados países, também não se baseiam em quaisquer dados concretos e objetivos mas, mais uma vez, não passam de opiniões de banqueiros sobre as taxas de juro que alegadamente eles estariam dispostos a pagar.

Ou seja, vivemos num mundo em que os banqueiros podem livremente, em cartel, enganar-nos a todos, através das suas opiniões falsificadas.

É mais ou menos como se todos os dias fôssemos informados do preço de mercado de um quilo de batatas, para mais tarde virmos a saber que esses preços não eram o preço ao qual as batatas efetivamente eram vendidas nos supermercados, mas apenas a opinião de um painel de consumidores sobre qual o preço que acreditam que teriam de pagar se fossem comprar batatas ao supermercado!