Economia

Retrato de Luís Lavoura

Três décadas de supply-side economics - política económica baseada no apoio à produção e que negligencia o apoio ao consumo - conduziram o mundo a um beco sem saída. Como Marx previu e Keynes exibiu, o capitalismo corre sempre o risco de uma crise de sobre-produção. As grandes empresas do mundo atual têm acumulada nos bancos uma fortuna colossal, que não investem porque, pura e simplesmente, são muito fracas as perspetivas de consumo para a nova produção que seria gerada por esse investimento. Durante muito tempo, o consumo nos países ricos foi sustentado em grande parte pelo crédito, uma vez que os salários da maior parte da população não aumentavam; porém, o crédito tem limites, chega uma hora em que é preciso pagar as dívidas e, a partir dessa hora, o consumo colapsa.

A política económica precisa de voltar a apoiar o consumo em detrimento da produção. Isso implica que, nos países democráticos, se dê maior importância aos interesses e às necessidades dos jovens - que são a parte potencialmente mais consumista da população - em detrimento dos interesses e necessidades dos idosos, centrados na manutenção do valor das suas poupanças. Os rendimentos dos jovens trabalhadores precisam de ser aumentados, em detrimento dos rendimentos dos idosos aforradores. Ou seja, tem que se aumentar a parte do rendimento que vai para o trabalhador - tipicamente um jovem desejoso de consumir - em detrimento da parte do rendimento que remunera o capital investido - tipicamente pertencente a um idoso que não deseja consumir. As democracias vão ter que voltar a dar primazia aos interesses dos jovens e dos trabalhadores.

Retrato de João Mendes

Primeiro, nacionaliza-se a empresa, em nome do «interesse nacional», ou então cria-se a empresa pública de raiz. Depois, a empresa passa a servir o «interesse nacional», o que parece sistematicamente incluir:

  • a desorçamentação de dívida da entidade que criou a empresa, seja o Estado ou uma autarquia local, para a empresa; 
  • a criação de diversos cargos de chefia, que serão ocupados por gente de confiança do Governo para executar as políticas de defesa do «interesse nacional» que a empresa prossegue;
  • a criação de regras de preços para a prestação dos serviços que significam que se torna quase impossível haver retorno financeiro da empresa, o que por sua vez significa que o Estado vai ter intervir financeiramente para manter a empresa à tona - com dinheiro muitas vezes emprestado.
 
Em tempo de vacas gordas, vai havendo dinheiro para manter as empresas à tona, e quem quer que aponte para os vários problemas das empresas públicas é acusado de desprezar o «interesse nacional» que elas servem. Que não é relevante que não tenham retorno porque prestam um «serviço público», e isso é que interessa.
 
O resultado é que ficamos a financiar uma rede alargada de empresas, com dinheiro emprestado, empresas essas que sistematicamente são usadas para os fins acima enunciados.
 
Chega um momento em que esta situação, insustentável financeiramente, estoira.
 
Em tempo de crise financeira, mantém-se, no entanto, o argumento do «interesse nacional», mas agora também por vezes conjugado com a ideia de que não convém privatizar numa altura de aperto. Isto porque não se conseguirá um preço muito bom e, em termos contabilísticos, poderá mesmo significar que se fica com uma situação financeira ainda pior, porque se vai vender «um activo». Será melhor, se se quiser privatizar de todo, esperar por um período de vacas gordas.
 
Este argumento esquece que, de facto, teria sido melhor privatizar em período de vacas gordas, mas que isso não aconteceu. Como isso não aconteceu, agora temos uma crise financeira entre mãos que implica uma reestruturação do Estado (em sentido lato). Temos de reestruturar o Estado para libertar que recursos que andam a ser usados para criar esquemas de desorçamentação de dívida (já para não falar do escândalo que são as empresas públicas de gestão de património imobiliário), de forma a que estes recursos possam ser utilizados para fins, espera-se, bem mais rentáveis e produtivos.
 
Até este momento de crise muito séria, tinha-se conseguido aguentar o forte das empresas públicas com a história do «interesse nacional». Mas agora chegámos a um ponto em que ou vai, ou racha. Vai mesmo haver privatizações. Infelizmente, não vai ser privatizado tudo o que devia ser. Mas a situação financeira do país tornou-se de tal forma grave que já não dá para adiar mais. 
 
Sim, teria sido melhor termos feito reformas estruturais antes do Estado entrar em colapso financeiro. Mas não o fizemos. Adiar as reformas agora à espera de melhores dias, quando essas reformas são necessárias para que esses melhores dias surjam, é brincar com dinheiro dos contribuintes numa altura em que o tempo para a brincadeira acabou, e o tempo para ser sério, que devia ser sempre, se tornou incontornável.
 
[Também no Cousas Liberaes.]
Retrato de Miguel Duarte

Vale a pena ler este artigo sobre o suposto corte de cabelo à dívida pública grega. O mesmo confirma aquilo que eu pensei quando olhei para os planos apresentados na altura: praticamente não se fez qualquer redução em termos efetivos e os bancos saem deste negócio muito bem.

To correctly measure the service and reduction of debt, these must be compared with the 5.02 percent average interest rate that Greece currently pays on its bonds. When this is taken into account, even the much-touted 20 percent principal reduction on the discount bond option is much lower on a present-value basis, because the coupon rates are higher on the new bond than on the old bonds.

The 30-year discount-bond option, which would swap new debt for existing obligations at 80 percent of face value, for example, has a coupon starting at 6 percent, rising to 6.5 percent in year five and 6.8 percent in years 10 through 30. Greece realizes only 22 basis points of interest savings in the first five years and will have negative annual interest savings for the next 25 years.

Even after taking into account that Greece pays back only 80 percent of the original principal in year 30, the present value of debt falls only 1.78 percent under this option. This is a far cry from the 20 percent discount applauded by many analysts. And, to entice bondholder participation, Greece must borrow an additional 26.10 percent of the original face value to purchase the zero-coupon bonds’ principal collateral for the discount security.

É claro que tendo a Alemanha e a França a mandar (e os políticos, populistas que conhecemos por detrás), dificilmente se conseguiria melhor. A mim parece-me que cada vez é mais tempo de a Grécia fazer contas à vida (ou ameaçar fazê-lo) e impor um verdadeiro corte à sua dívida, que lhe permita resolver os seus problemas e retomar o crescimento. Os bancos dos outros países, nomeadamente a Alemanha e a França irão ficar em graves dificuldades (até porque a seguir virão outros países), mas isso, é um problema que a Alemanha e a França terão que resolver.

Retrato de Miguel Duarte

Os bancos portugueses têm estado a solicitar que os 12 biliões de Euro que foram colocados de lado para o caso de ser necessário ajudar os bancos não sejam usados como estava previso (uma nacionalização de parte dos bancos), mas sim para amortizar parte das dívidas que o Estado tem à banca nacional.

A mim parece-me uma muito boa ideia, tal como seria boa ideia o Estado poder usar parte do dinheiro que tem recebido para amortizar dívidas que tenha a empresas privadas.

Não faz qualquer sentido andar-se por esta altura a "ajudar" a banca via a entrada do Estado, mesmo que temporária, no capital dos mesmos e se o Estado amortizar o que deve, esse dinheiro poderá ser usado pela banca para emprestar a outros clientes (ex: empresas exportadoras) e para a própria banca amortizar parte da sua dívida ao exterior.

Retrato de Luís Lavoura

Portugal está a entrar na silly season, ou então é o seu Presidente da República que, com a idade, está a ficar silly.

Ontem Cavaco Silva afirmou que seria bom que o euro se desvalorizasse em relação ao dólar, para que os produtores europeus pudessem exportar com mais facilidade. A afirmação deu manchetes noticiosas.

Convem esclarecer três coisas:

(1) A valorização do euro e do dólar não pode ser manipulada pelos políticos nem pelos bancos centrais, ao contrário daquilo que acontece com a valorização, por exemplo, da moeda chinesa. Isto porque o euro e o dólar são livremente comprados e vendidos nos mercados, sendo portanto os seus valores determinados pela lei da oferta e da procura. Para que a valorização do euro e do dólar pudesse ser manipulada seria preciso instituir um sistema de câmbios controlados, em que as moedas não pudessem livremente entrar e sair dos países que as utilizam, etc.

(2) A valorização do euro não depende primariamente das trocas comerciais, mas sim da utilização do euro como moeda em que são efetuadas transações puramente financeiras, e como moeda de reserva.

(3) A zona euro, como um todo, tem um comércio externo praticamente equilibrado (isto é, sem défices nem superávites). Não tem um problema de falta, nem de excesso, de exportações. Não tem, portanto, qualquer necessidade de uma desvalorização da sua moeda para incentivar as suas exportações. Só países individuais da zona euro é que têm problemas de défice (por exemplo, Portugal) ou de superávite (por exemplo, a Holanda) no seu comércio externo - a zona euro como um todo não os tem.

Pelo que, aquilo que Cavaco Silva disse não faz qualquer sentido.

Retrato de Luís Lavoura

O problema a que se assiste atualmente, em particular com a desvalorização efetuada pela Moody's, é que os mercados financeiros, ao contrário daquilo que acontece com os mercados de mercadorias, são pró-cíclicos, ou seja, têm uma realimentação (feed-back) positiva.

Num mercado de mercadorias, digamos por exemplo batatas, quando há excesso de oferta (porque, digamos, o ano agrícola foi bom e criaram-se muitas batatas), o preço baixa e a procura fica assim estimulada, os consumidores começam a comprar e consumir mais batatas em vez de comprarem centeio ou milho, conduzindo tendencialmente a um equilíbrio entre a oferta e a procura.

Num mercado financeiro as coisas passam-se de forma oposta. Quando há falta de procura de um qualquer produto financeiro, essa falta de procura estimula uma perceção de desconfiança desse produto financeiro, a qual leva a que cada vez mais os investidores se afastem dele. O produto financeiro desvaloriza-se cada vez mais - há uma realimentação positiva.

(Há outras razões, mais complexas, para esta realimentação positiva, nomedamente a questão das garantias que são exigidas para os empréstimos tomados para investir, etc.)

Recorde-se que a razão evocada pelos economistas clássicos para a não-intervenção dos Estados nos mercados prende-se com o facto de estes terem tendência a se auto-regularem e a equilibrarem-se a si mesmos. Mas esta razão aplica-se apenas aos mercados de mercadorias! Os mercados finaceiros exibem a tendência oposta - tendência a desequilibrarem-se, a apresentar períodos de euforia seguidos de períodos de depressão, tendência a reforçar perceções (de um produto ser bom ou de ele ser mau) que surjam.

Retrato de João Mendes

[Também no Cousas Liberaes.]

 

Há duas questões de conflitos de interesses particularmente relevantes no que toca às agências de «rating»:
 

  • Os detentores do capital da agência de «rating» serem, eles próprios, investidores interessados nas avaliações que a agência faz;
  • As agências de «rating» serem pagas pelas empresas que avaliam, e não pelos potenciais investidores (que não detenham capital da agência de «rating»).
Claro que, em geral, um investidor é livre de seguir, ou não, os critérios de avaliação de risco de crédito das agências de «rating». O que pode ajudar o mercado a lidar com estes conflitos de interesses, porque se uma agência de «rating» tiver uma reputação de ser tendenciosa, e de ter uma metodologia de avaliação pouco fidedigna, os investidores terão menos interesse em seguir os pareceres que esta emita.
 
A questão é que há investidores institucionais que usam, por questões estatutárias, e mesmo legais, os «ratings» de certas agências, não tendo critérios próprios de avaliação de risco de crédito. Isto significa que esses investidores institucionais, bastante importantes, por sinal, têm assim menos liberdade de escolha no que toca a como reagir aos «ratings» das agências de «rating» a que se encontram vinculados: têm de os seguir e acabou-se. 
 
É isto que confere um efeito sistémico relevante aos «ratings» que são emitidos, o facto de haver investidores institucionais, incluindo investidores públicos, que são forçados a seguir os «ratings». Caso estes investidores não tivessem este género de limitações, o impacto sistémico das avaliações seria menor. Mas seria importante que elas fossem substituídas, caso o sejam, por critérios técnicos válidos, e não critérios puramente políticos. Porque ignorar risco de crédito por questões políticas é um jogo muito perigoso.
 
O BCE vai dispensar as opiniões das agências de «rating» sobre a dívida portuguesa. A questão aqui está em saber porque é que o fez. Pessoalmente, acho que o BCE pode perfeitamente ter critérios próprios para avaliar a dívida. Mas esses critérios devem ser critérios técnicos de qualidade. O BCE não pode ignorar risco de crédito por questões políticas, dado que isso põe em causa o próprio BCE e, portanto, o próprio euro.
 
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Há que abordar a questão do oligopólio de agências de «rating» que existe. Seria importante que fosse quebrado, e que existisse mais concorrência no sector. Para que isto aconteça, devem diminuir as barreiras de entrada ao mercado que simplesmente protegem as agências de «rating» actuais.
 
Isto assunto está impreterivelmente ligado com a regulação das agências de «rating» e, especificamente, sobre o tipo de regulação pública que deve incidir sobre essas agências. Seria possível criar regras de conduta segundo as quais as agências deveriam tornar claras as metodologias que utilizam para aferir o risco de crédito, da mesma forma que, por exemplo, alguém que faz uma sondagem ou um estudo científico deve tornar clara a metodologia que utilizou.
 
Seria também possível criar regras relativas a conflitos de interesses, embora me pareça que havendo mais agências no mercado, os investidores teriam capacidade para ter em conta o potencial conflito de interesses ao decidirem se seguem, ou não, a avaliação de certa agência. Mas podia-se acabar, de forma mais alargada, com consequências legais automáticas de certa tomada de posição por parte de um agência de «rating» para certos investidores institucionais. Deve haver livre apreciação por parte dos investidores das avaliações a que têm acesso.
 
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Não penso que uma agência de «rating» 'europeia' seja solução para o que quer que seja. O que nós precisamos não é de uma agência que seja tendenciosa a favor da Europa. Os «ratings» dessa agência seriam para ignorar, precisamente porque ela não avaliaria «rating» de um ponto de vista técnico relevante, tendo uma preocupação política proteccionista por trás das suas avaliações.
 
O que nós precisamos é de um mercado de «rating» a funcionar devidamente. Um mercado com variedade de escolha, e em que os investidores possam escolher se usam, ou não, os «ratings» das agências quando fazem os seus investimentos.
 
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O João Cardiga diz, a dada altura, num texto aqui neste blogue, que Portugal só precisaria de uma segunda tranche de ajuda internacional se não cumprisse o acordo com a Troika. Mas isso não é necessariamente assim. Há o risco de, mesmo cumprindo o Acordo, Portugal necessitar de ajuda, e esse risco não pode ser ignorado simplesmente por se considerar que é mais provável o cumprimento do Acordo levar a que o risco de ser necessária uma segunda tranche diminua.
 
Em segundo lugar, refere que as condições institucionais formais em Portugal melhoraram, algo que a própria Moody's refere no relatório. O problema é que, como eu já referi noutros textos, as condições formais valem muito pouco sem acções concretas. E relativamente a acções concretas, tivemos muito poucas. Isto deve ser conjugado quer com o baixíssimo nível de credibilidade que Portugal tem neste momento e, infelizmente, com um nível menor de credibilidade da própria UE e do FMI por causa quer do que tem acontecido na Grécia, quer pela forma como as decisões têm sido tomadas em geral.
 
Entretanto, enquanto nós temos muito poucas medidas estruturais tomadas, e a nossa credibilidade e da UE/FMI está em baixa, o nosso nível de dívida pública permanece extremamente elevado (acima de 90% do PIB), e o tempo passa. O tempo passa e aproxima-se o tempo de pagar a dívida. E para pagar a dívida temos de tomar medidas concretas, porque só assim teremos condições para pagar a dívida. Só que essas medidas concretas são extremamente complicadas de tomar, tanto que não as conseguimos tomar, apesar de sucessivas promessas, desde há dez anos (para já não falar de antes disso).
 
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Os Estados Unidos, apesar das guerras políticas actuais sobre o «debt ceiling», não só continuam a ter o dólar, e este continua a ser a moeda de reserva por excelência a nível global, como também têm um «track record» nos últimos cem anos completamente diferente do «track record» europeu. E mesmo assim, os próprios EUA já tiveram avisos por parte, por exemplo, da Standard & Poor's em relação ao seu «rating».
 
Claro que eu sei que prever o futuro com base no passado é um problema, mas as reputações criam-se com base em acção passada. São difíceis de criar, mas basta um erro para as arrasar. Os Estados Unidos posicionam-se neste momento, com as suas guerras sobre o «debt ceiling», para cometer esse erro, mas muita gente o considera improvável. Se o cometerem, no entanto, vamos ter uma crise bastante profunda. E a reputação dos EUA, e o seu «rating», vão, usando um eufemismo, sofrer com isso.
 
Entretanto, a China tem grande interesse em que os EUA não entrem em «default», dados os seus avultados investimentos em dívida americana. Não é por acaso que há uns anos falou de transformar os «special drawing rights» do FMI numa moeda de reserva global. E não me parece por acaso que agora a agência de «rating» chinesa ande a pressionar os EUA para que haja entendimento no Congresso sobre o «debt ceiling».
 
Esperemos que essa pressão seja bem sucedida a breve trecho, e que o problema com o «debt ceiling» nos EUA seja resolvido.
Retrato de Miguel Duarte

O país inteiro (e a Europa) está em negação, considerando injusta e descabida a avaliação pela Moody's das obrigações emitidas pela República Portuguesa como Ba2 (anteriormente Baa1). Pergunto-me se alguma dessas pessoas estaria disponível no momento para adquirir dívida portuguesa e se não consideraria que qualquer aquisição no momento da mesma dívida não seria especulativa?

É que segundo a grelha da Moody's:

  • Baa1, Baa2, Baa3: Moody judges obligations rated Baa to be "moderate credit risk". They are considered medium-grade and as such "protective elements may be lacking or may be characteristically unreliable";
  • Ba1, Ba2, Ba3: Moody judges obligations rated Ba to have "questionable credit quality."

Ora, tendo em conta esta grelha e conhendo o a situação atual do país, claramente não estamos na categoria do "Baa". A probabilidade de o país não pagar parte da sua dívida é muitíssimo elevada, há muito ultrapassámos o risco "moderado", sendo que tal como afirmado no comunicado da Moody's, já foi assumido pela União Europeia, no caso grego, que não pagar parte da dívida pode ser uma solução. Acresce a isto que todas as propostas da Troika para resolver a crise, são propostas essencialmente de adiamento do problema. Aliás, analisando em detalhe o comunicado da Moody's só consigo afirmar que o mesmo é benévolo face à realidade do país. Pois vejamos:

The first driver informing today's downgrade of Portugal's sovereign rating is the increasing probability that Portugal will not be able to borrow at sustainable rates in the capital markets in the second half of 2013 and for some time thereafter. Such a scenario would necessitate further rounds of official financing, and this may require the participation of existing investors in proportion to the size of their holdings of debt that will become due.

Pela minha parte, tenho quase a certeza que em 2013 Portugal não vai conseguir ir aos mercados de capitais (mesmo que o défice fique abaixo dos 3%), sendo que a conseguência será, evidentemente, convencer ou obrigar os investidores privados a esquecer parte da dívida, ou/e a aceitar o seu pagamento posterior (isto já foi afirmado por muitos economistas nacionais e estrangeiros). A única forma de inverter esta situação seria aumentar o crescimento económico, mas, com as medidas que estão a ser tomadas, a nossa economia vai continuar a contrair. Com a economia em contração, qualquer tipo de défice implica que temos que ir ao mercado pedir sempre mais dinheiro emprestado, ano após ano.

Although Portugal's Ba2 rating indicates a much lower risk of restructuring than Greece's Caa1 rating, the EU's evolving approach to providing official support is an important factor for Portugal because it implies a rising risk that private sector participation could become a precondition for additional rounds of official lending to Portugal in the future as well. This development is significant not only because it increases the economic risks facing current investors, but also because it may discourage new private sector lending going forward and reduce the likelihood that Portugal will soon be able to regain market access on sustainable terms.

Não é evidente? Se a UE para a Grécia já está a tender para o caminho do chamado "haircut", é evidente que se a situação em Portugal se deteriorar, o mesmo caminho irá ser aconselhado a Portugal.

The second driver of today's rating action is Moody's concern that Portugal will not achieve the deficit reduction target -- to 3% by 2013 from 9.1% last year as projected in the EU-IMF programme -- due to the formidable challenges the country is facing in reducing spending, increasing tax compliance, achieving economic growth and supporting the banking system. As a result, the country may be unable to stabilise its debt/GDP ratio by 2013. Specifically, Moody's is concerned about the following sources of risk to the budget deficit projections:

1) The government's plans to restrain its spending may prove difficult to implement in full in sectors such as healthcare, state-owned enterprises and regional and local governments.

2) The government's plans to improve tax compliance (and, hence, generate the projected additional revenues) within the timeframe of the loan programme and, in combination with the factor above, may hinder the authorities' ability to reduce the budget deficit as targeted.

3) Economic growth may turn out to be weaker than expected, which would compromise the government's deficit reduction targets. Moreover, the anticipated fiscal consolidation and bank deleveraging would further exacerbate this. Consensus growth forecasts for the country have been revised downwards following the EU/IMF loan agreement. Even after these downward revisions, Moody's believes the risks to economic growth remain skewed to the downside.

4) There is a non-negligible possibility that Portugal's banking sector will require support beyond what is currently envisaged in the EU/IMF loan agreement. Any capital infusion into the banking system from the government would add additional debt to its balance sheet.

Palavras sábias. Então no que toca ao 1) todos nós, que vivemos neste país, sabemos que a tarefa a que o governo se propõe é extremamente ambiciosa.

No que toca ao upgrade do rating a Moody's também nos dá uma resposta:

Developments that could stabilise the outlook or lead to an upgrade would be a reduction in the likelihood that private sector participation might be required as precondition for future rounds of official support or evidence that Portugal is likely to achieve or exceed its deficit reduction targets.

A further downgrade could be triggered by a significant slippage in the execution of the government's fiscal consolidation programme, a further downward revision of the country's economic growth prospects or an increased risk that further support requires private sector participation.

Ou seja, "basta" à UE abandonar a ideia de vir a envolver privados em "haircuts" e afins (neste momento muito prováveis), para que o rating podesse subir, ou então, o atual governo fazer um trabalho brilhante, que supere todas as expectativas (realistas) e que demonstre que as probabilidades de o nosso país pagar o que deve e dar a volta por cima são afinal realistas.

Eu compreendo que para os políticos este tipo de relatórios é um "murro no estômago" e que inclusivamente são também uma "profecia auto-realizável". Até se pode dizer que o momento não é o mais adequado. Contudo a missão da Moody's não é agradar a políticos, mas sim ajudar os investidores a tomar decisões informadas, muitos dos quais compram dívida pública para clientes. Eu, como investidor no mercado, por via de fundos de investimento, espero sinceramente que os gestores dos ditos tenham em conta este relatório, pois não podia concordar mais que investir em dívida pública da República Portuguesa é neste momento especulação, devendo apenas investir neste tipo de obrigações quem esteja disponível para assumir riscos elevados. Dado que a componente de dívida pública é geralmente considerada "segura" num portfólio de investimentos e que a dívida portuguesa neste momento é tudo menos "segura", diria que para a generalidade dos investidores, que preze a segurança, o melhor conselho é precisamente desfazer-te da dívida pública dos PIGS.

Como português, que já paga demasiados impostos, obviamente este não foi um relatório simpático, mas como investidor que espera receber parte da sua pensão no futuro derivado desses mesmos investimentos, fico contente que a Moody's esteja a fazer o seu trabalho.

Retrato de Luís Lavoura

Segundo comunicado do Conselho de Ministros de hoje, "Foi aprovado o decreto-lei que elimina os direitos especiais detidos pelo accionista Estado na EDP – Energias de Portugal, S.A., na Galp Energia, SGPS, S.A., e na Portugal Telecom, SGPS, S.A.".

Ou seja, se bem entendo, acabaram finalmente as golden shares.

O que é motivo para festa!

Retrato de Luís Lavoura

Ouvi ontem no noticiário da RTP 2 uns pequeníssimos excertos do discurso do novo ministro das Finanças na Assembleia da República. Senti uma lufada de ar muito fresco a percorrer-me. Até que enfim!!!

Para já, é tão bom ver um ministro das Finanças que (ainda) tem todos os cabelos na cabeça, ainda por cima com boa cor (embora este último pormenor se possa dever a pintura). Já estou farto de carecas!

Depois, e sobretudo, o ministro disse que é hora de aplicar em Portugal, sem subterfúgios nem reservas mentais, todas as leis de concorrência da União Europeia. Deixar que haja livre concorrência em todos os setores, incluindo de serviços, deixar que capital estrangeiro invista livremente em Portugal, incluindo na compra de quaisquer empresas portuguesas. Isto é a rejeição explícita de toda a prática de todos os governos portugueses desde a adesão à UE!!!

Parabéns senhor ministo das Finanças, assim continue!

Isto é uma lufada de ar (muito) fresco. Tão fresco, que até vai dar resfriado a muita boa gente.