Educação

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Retrato de Miguel Duarte

No New York Times um artigo muito interessante sobre a avaliação de professores e um novo método "valor acrescentado" que está a ser utilizador em várias escolas:

In value-added modeling, researchers use students’ scores on state tests administered at the end of third grade, for instance, to predict how they are likely to score on state tests at the end of fourth grade.
A student whose third-grade scores were higher than 60 percent of peers statewide is predicted to score higher than 60 percent of fourth graders a year later.
If, when actually taking the state tests at the end of fourth grade, the student scores higher than 70 percent of fourth graders, the leap in achievement represents the value the fourth-grade teacher added.

Retrato de Luís Lavoura

Parece que a ministra da Educação disse qualquer coisa numa entrevista sobre o, ou um, fim das "reprovações", "retenções" ou, na mais vulgar gíria, "chumbos" na escola pública portuguesa e logo, como seria de esperar, a direita portuguesa(*) lhe caiu, reflexamente, caninamente, em cima.

 

A direita portuguesa, incluindo aquela que gosta de se apresentar com um verniz liberal, é sempre no fundo conservadora, ou até mesmo retrógrada. No campo da educação, a direita está fixada no modelo salazarista. Nesse modelo a escolaridade não era (pelo menos na prática) obrigatória. Menino (ou, ainda mais depressa, menina) que chumbasse uma, ou duas, ou três vezes acabava por, por decisão dos seus próprios pais, abandonar a escola e ir trabalhar para os campos ou fábricas. Para o sistema isso nada de mal tinha, porque a escolaridade não era obrigatória e nenhum mal havia em que metade da população fosse analfabeta.

 

A direita portuguesa não esquece esses felizes, ditosos tempos.

 

Só que, o mundo de hoje já não é o de Salazar. Hoje, uma condição de competitividade internacional - não apenas para uma pessoa, mas para uma sociedade, para um país - é ter uma população educada. No mundo de hoje, o abandono da escola não é, não pode ser uma opção.

 

Quando o meu filho mais velho estava na primeira ou segunda classe ("ano"), havia na escola dele uns meninos, que já não eram bem meninos mas sim pré-adolescentes, indisciplinados e que semeavam na escola alguma violência e instabilidade. Eram meninos de doze anos que, à custa de repetidos chumbos, ainda estavam na escola primária. As professoras compreendiam-nos - frustrados por ainda terem por colegas meninos de 7 ou 8 anos, incomodados por terem que permanecer o dia sentados em cadeiras nas quais já não cabiam, davam escape a essa frustração e a esse incómodo através da violência.

 

Num mundo de escolaridade obrigatória, num mundo de educação essencial, chumbar alunos não resolve nada, apenas agrava os problemas. É claro que não basta decretar a obrigatoriedade da escolaridade - é preciso também criar mecanismos de apoio aos alunos, que permitam que eles progridam, para que a escolaridade obrigatória não seja para eles, nem para os seus colegas, um fardo. É esses mecanismos que, em boa parte, falta criar.

 

O caminho faz-se em frente, em direção ao progresso - não se faz voltando para trás, regressando ao passado de Salazar.

 

(*) A começar pelo invariável Nuno Crato, que, apesar da sua relativa juventude, teima em fazer o lamentável papel de Velho do Restelo.

Retrato de Miguel Duarte

A Universidade do Porto já aceitou, algo inédito em Portugal, a concurso uma candidatura estrangeira para Reitor, sendo que pode inclusivamente vir a ser considerada uma segunda candidatura estrangeira, se não for rejeitada como outras já o foram (no total a UP rejeitou cinco candidaturas estrangeiras a reitor, como a UA também já tinha feito no passado, algo que, devido ao seu elevado número é no mínimo algo suspeito). Curiosamente, se não fossem as candidaturas estrangeiras, o actual reitor da Universidade do Porto, Marques dos Santos, não teria concorrentes ao cargo (será que não há portugueses com ambição ou experiência para tal?).

Pergunto-me porque as grandes empresas nacionais também não abrem os seus processos de recrutamento ao estrangeiro, nomeadamente para os executivos de topo, em vez de restringirem as suas escolhas aos gestores nacionais. Por experiência própria (sou casado com uma estrangeira), sei que existe discriminação na selecção de recursos humanos para preencher vagas em organizações portuguesas, mesmo quando se tem perante si uma pessoa com elevadas qualificações e que fala português fluentemente. Numa economia nacional que se quer competitiva a vinda de estrangeiros com qualificações elevadas e experiêncais diferentes deveria ser recebida de braços abertos.

Retrato de Luís Lavoura

Ou me engano muito ou, na batalha final contra os sindicatos de professores, a ministra da Educação acabou por ceder em toda a linha. Cedeu tudo: deixam de existir exames de acesso à profissão, deixam de existir mecanismos de limitação à progressão na carreira (ou esses mecanismos podem ser torneados). Não percebo muito do assunto mas fiquei com a impressão, pelas notícias, de que foi uma derrota total para a ministra da Educação - e para o país.

Os maus professores podem estar contentes. Os partidos da oposição, que foram seus compagnons de route, também.

Lisboa, 28 de Dezembro - O MLS - Movimento Liberal Social tem seguido com interesse e preocupação o debate em torno da avaliação de professores e do estatuto de carreira docente. Sendo a Educação um dos pilares de uma sociedade livre, o MLS considerou importante intervir neste debate com propostas concretas.

Estas propostas passam, sumariamente, por uma avaliação 360º para os professores (consultar documento em anexo). Assim, além de uma auto-avaliação, seria ainda necessária uma avaliação por parte dos colegas, dos alunos, da direcção, do superior hierárquico e uma avaliação externa. Todos estes elementos deverão então ser ponderados para chegar a uma avaliação final, a qual teria impacto na carreira do professor. O MLS considera ainda que o exame de admissão deverá ser mantido, e que a separação de carreira proposta pelo Ministério da Educação faz sentido, sendo que voltar atrás é um erro.

"Querendo uma Educação de qualidade, que ajude os alunos a adquirirem os conhecimentos e as competências necessárias a terem sucesso, é importante garantir que os professores de qualidade são premiados pelo seu esforço e dedicação," afirmou Faisal Aboobakar, porta-voz do MLS para Educação. "Assim, é importante haver uma avaliação completa do trabalho do professor, e que essa avaliação tenha verdadeiro impacto. A carreira dos professores deve premiar aqueles com mérito, e é isso que o MLS defende nas suas propostas."

Retrato de Luís Lavoura

Quando se referem à obrigatoriedade, imposta pelo Estado, de as crianças terem aulas de educação sexual, alguns conservadores argumentam que tal obrigatoriedade violaria a "liberdade de educação" de que os pais deveriam dispôr em relação aos seus filhos.

Eu creio que há aqui um grave erro. A instrução não é uma liberdade de que os pais disponham. A instrução é um direito que as crianças têm. A instrução (sexual ou qualquer outra) deve ser discutida em termos de as crianças terem direito a ela, e não de os pais terem a liberdade de a ministrar.

(Note-se a importante diferença entre instrução - que significa a transmissão de conhecimentos e de saberes científicos acumulados - e educação - que envolve também a transmissão de valores, culturais, religiosos, comportamentais ou outros.)

Retrato de Luís Lavoura

O dirigente sindical dos professores (de liceu e escola primária, que para os universitários valem regras totalmente diferentes) Mário Nogueira veio dizer que, agora que o PS está em minoria na Assembleia da República, urge que os partidos da oposição legislem no sentido de acabar com a avaliação dos professores e com a divisão da sua carreira em dois (2, o número mais pequeno a seguir a 1) escalões diferentes, de acordo com as posições que assumiram na legislatura anterior.

Eu acho que Mário Nogueira tem toda a razão. Chegou a hora da cobrar as dívidas. E o PSD e o CDS puseram-se a jeito na legislatura anterior, devem agora pagar a dividazinha que contraíram com os queridos professores e com o seu admirável dirigente sindical. Vamos a ver se terão a coerência de o fazer, ou se preferirão ser ideologicamente coerentes.

(Já agora, podem aproveitar a ocasião e abolir também a avaliação dos professores universitários, e abolir a nefanda divisão da sua carreira em três (3, que horror, um número tão grande!) categorias diferentes - professor auxiliar, professor associado e professor catedrático. Professores universitários todos iguais e todos na mesma categoria, é aquilo que se deseja.)

Retrato de João Mendes

Neste meu segundo LLM, em International Business Law (com especialização em Concorrência), na Católica, há vários alunos estrangeiros, sendo que o LLM é leccionado, e tem o programa em, inglês. Quando começaram estes programas, vozes levantaram-se contra os mesmos, dizendo que era o cúmulo ter programas destes que não fossem primariamente em português. Pela minha parte, só muitíssimo favorável a este tipo de iniciativas.

Atrair alunos estrangeiros e criar uma universidade de prestígio a nível global parece-me ser um objectivo mais que razoável num mundo globalizado. Fazer parcerias com as melhores universidades a nível mundial, no sentido de permitir intercâmbios vários, é também algo que, para mim, não podia deixar de acontecer no mundo em que vivemos.

Não só não podia deixar de acontecer, no entanto, como também é desejável que aconteça. O intercâmbio de ideias é um motor de progresso, não só para cada aluno individualmente considerado, como para a Humanidade como um todo. As universidades devem ser pólos importantes para esse intercâmbio de ideias, e é isto que se atinge criando universidades com cadeiras em inglês, lingua franca global, quer se queira quer não, e atraindo alunos das mais diversas origens, bem como criando oportunidades aos alunos nacionais de partirem, também eles, para outras paragens.

A minha experiência pessoal não contém uma experiência de Programa Erasmus, mas fiz um LLM em Londres devido a um acordo que a Católica celebrou com o King's College. Foi uma excelente experiência para mim, muito proveitosa em vários aspectos, tanto académicos como não. De volta a Portugal, encontrar-me numa sala com alunos (e professores!) que vêm da Eslóvenia, da Roménia, dos EUA, do Brasil, da Geórgia, e poder discutir com eles os mais variados temas, ter uma perspectiva diferente, aprender sobre culturas e ideias diferentes, tudo isto é ouro sobre azul para mim. Mas não só para mim, para todos os que tenham a hipótese de o fazer.

Não é com medo de perder a nossa "identidade nacional", definida a priori por algumas pessoas que acham que sabem qual ela é, que vamos longe. Atraindo estrangeiros, ainda para mais qualificados, para cá, e deixando portugueses irem para fora, assim propiciamos um intercâmbio frutuoso entre culturas e ideias e formas diferentes de estar na vida, e alteramos ideias e aprendemos com os outros, e eles aprendem connosco.

Até porque a pior coisa que se pode fazer à identidade e à cultura portuguesas, quaisquer que elas sejam, é fechá-las numa caixa a sete chaves, condenando-as a definhar. A cultura e a troca de ideias viva, deixar os indivíduos escolher, por si, aquilo que pensam, sem lhes ser imposta uma "cultura" por cima, que tem de ser "protegida", isso é a melhor forma de mantermos vivas a nossa identidade e culturas. Quaiquer que elas sejam.

Retrato de João Mendes

Na minha opinião, a melhor forma de combater tanto o desinteresse como o desconhecimento político é através do sistema educativo. Mais concretamente, penso que os alunos deveriam ter uma disciplina em que aprendessem o regime político português e o regime político europeu, pelo menos as bases dos mesmos, bem como os direitos e deveres dos cidadãos. Nessa disciplina, os alunos seriam convidados não só a aprender os regimes, mas também a discuti-los.

Poderia também ser feito, ao longo do ano, um trabalho de grupo sobre um tema político concreto, em que os alunos teriam de discutir essa questão e tomar uma posição sobre a mesma, de acordo com os dados que recolheram. O trabalho teria uma componente escrita e uma componente de avaliação oral.

Bem sei que disciplinas deste tipo ficaram estigmatizadas pelo uso que delas foi feito pelo Estado Novo, mas isso não é razão para abandonar o conceito, apenas a forma incorrecta e abusiva como foi implementado pelo Estado Novo. É importante que as pessoas saiam da escola a saber como funcionam as várias instituições políticas, que saiam da escola como cidadãos informados, e prontos a dar o seu contributo individual para a sociedade em que se inserem.