Educação

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Retrato de Luís Lavoura

A prova de aferição de matemática que este ano os alunos do segundo ano (antiga segunda classe - tipicamente, meninos de oito anos de idade) tiveram que resolver continha algumas questões que são tudo menos matemática.

Numa questão exibia-se algumas figuras geométricas alinhadas: primeiro um círculo, depois um quadrado, depois outro círculo, depois outro quadrado, e finalmente mais um círculo. Perguntava-se aos alunos qual deveria ser a sétima figura geométrica a aparecer nesta sucessão. Ora bem, em matemática não se raciocina por analogia. Em matemática os raciocínios são rigorosos. Em matemática uma sucessão de objetos é definida por uma regra de construção, não por um exemplo visual. Nesta medida, a pergunta colocada aos alunos não tem resposta no âmbito da matemática.

Uma outra pergunta era similar. Mostrava-se duas mesas, cada uma com alguns sólidos geométricos sobre ela. Numa mesa estava um cubo, um paralelepípedo e uma pirâmide; na outra estava um cone, uma bola e um cilindro. Mostrava-se em seguida um prisma triangular e perguntava-se aos alunos sobre qual mesa ele deveria ser colocado. Ora, mais uma vez, esta pergunta não tem resposta no âmbito da matemática. Os alunos são livres de colocar o prisma triangular sobre a mesa que quiserem, uma vez que não é fornecida qualquer regra que indique por que critério se colocam os sólidos numa ou noutra mesa. (A inferência que se pretendia que os alunos fizessem é que numa das mesas estavam sólidos com todas as faces planas, na outra estavam sólidos com pelo menos uma superfície curva. Porém, a inferência não tem lugar na matemática!)

Fiquei muito, terrivelmente apreensivo com esse teste. O teste está mal feito e não é rigoroso. Aquilo que se está a avaliar nas crianças não são conhecimentos objetivos de matemática, mas sim a capacidade de efetuar raciocínios ardilosos e não rigorosos. Isto não é matemática e isto não é teste que se faça - muito menos a crianças de oito anos, que têm o direito de ser tratadas de forma honesta e sem truques.

Retrato de Luís Lavoura

A direita portuguesa ficou a salivar porque nas recentes provas de aferição dos alunos do 4º ano as notas a matemática desceram. Para os salivadores, isso pode ser sinal de que o ministério de Nuno Crato está a diminuir o alegado "facilitismo" dos testes nacionais.

Como é natural, nos atuais tempos de baixíssima taxa de natalidade, quem assim fala não tem, em geral, filhos (embora, com toda a probabilidade, faça propaganda da necessidade de aumentar a natalidade para preservar a "raça" portuguesa), e não faz a menor ideia daquilo que custa ensinar as crianças, nem daquilo que é ensinado na escola. Fala portanto de cor, sem experiência própria.

Para alguma direita portuguesa vale atualmente a máxima comunista do "quanto pior, melhor". Se muitos alunos chumbam nas provas nacionais, isso é bom - é sinal de que as provas são exigentes.

Naturalmente, se aos alunos do 4º ano fossem postas questões sobre cálculo diferencial e integral, as provas seriam ainda mais exigentes, o "facilitismo" estaria claramente eliminado e todos os alunos, sem exceção, chumbariam. Penso que, nesse instante, a direita, na sua irracionalidade, exultaria em paroxismo.

Retrato de Luís Lavoura

O ministro da Educação, Nuno Crato, decretou um aumento profundo na autonomia das escolas públicas. Entre outros benefícios que as escolas de maior sucesso vão poder passar a auferir, conta-se a contratação de mais professores. Entre os critérios para a avaliação do sucesso das escolas conta-se a nota que os seus alunos obtenham nos exames nacionais.

Acontece que a nota dos alunos nos exames nacionais não é um bom aferidor da qualidade de uma escola, dado que escolas instaladas em meios mais favorecidos usufruem, à partida, de melhores alunos. Temos portanto que a reforma anunciada por Crato se arrisca a ter por resultado o aumento das desigualdades: às escolas que à partida usufruem de melhores alunos serão concedidos mais professores, com os quais elas poderão fornecer aos alunos que à partida já eram melhores uma educação privilegiada. Temos assim, potencialmente, o Estado a instalar um mecanismo de reforço das desigualdades.

Acresce que Crato fez esta reforma, aparentemente, de surpresa, sem ter previamente dialogado com ninguém. Instroduzir reformas de surpresa, num setor como o da educação, é injustificável e tem boas probabilidades de dar mau resultado.

Retrato de Luís Lavoura

A emigração de professores, apropriadamente aconselhada pelo primeiro-ministro, levanta contudo o relevante problema de os professores serem pessoas com um alto nível de educação, geralmente universitária, a qual educação custou muito dinheiro ao país, dinheiro que será desperdiçado a favor de outros países aquando da emigração.

Ou seja, a emigração de professores não é equivalente à emigração de trolhas (*), típica do Portugal de outros tempos. Os trolhas são pessoas nas quais o país pouco investiu e que levam para fora de Portugal pouco saber e pequena especialização. A emigração de professores é algo de totalmente diferente.

Podemos enfrentar este problema dizendo que a educação superior deveria ser custeada por quem a adquire, isto é, que os estudos universitários deveriam ser unicamente pagos pelo estudante, seja diretamente, seja através de empréstimos. Sou, no entanto, contrário a essa solução.

Este problema já foi, de alguma forma, resolvido pelos clubes de futebol. Os jogadores são livres de se transferir de um clube para outro, porém, os clubes vêem-se na necessidade de recuperar os custos que investiram na formação de jovens jogadores. (Os quais custos não são nada baixos - um primo meu, adolescente, está na Academia do Sporting, e não duvido que o dinheiro que o Sporting está a investir nele - incluindo alojamento, alimentação, transporte para a escola, etc, fora os treinos de futebol propriamente ditos - não é nada pouco.) Para recuperar esses custos, os clubes acordaram num complexo sistema de "passes" e de transferências regulamentadas, que fazem com que o jogador, sendo embora livre de mudar de clube, não o possa fazer sem que uma indemnização seja paga ao clube anterior.

 

P.S. A emigração de professores não é, evidentemente, um fenómeno novo. Um primo da minha mulher é professor de educação física. Formou-se em Portugal mas dá aulas num colégio inglês na Tailândia, e diz que está satisfeitíssimo com esse seu emprego. Arranjou-o, segundo creio, através de um vulgar anúncio num jornal.

 

(*) "Trolha" é a designação nortenha de um servente (ajudante) de pedreiro.

Retrato de Luís Lavoura

Toda a gente pede que seja dada às escolas maior autonomia, em particular na contratação dos seus docentes. Mas, em Portugal, inevitavelmente a autonomia dá nisto:

A escolha de Isabel Santos Moreno, filha do vereador Aníbal Sousa Moreno, da Câmara Municipal de Loulé, para o lugar de educadora no Agrupamento de Escolas de Almancil, está a indignar as educadoras preteridas, que acusam a escola de favorecimento. [...] As suspeitas de favorecimento surgem uma vez que Isabel Santos Moreno não tem experiência profissional e até a classificação final do curso (13 valores) é inferior à de muitas das outras candidatas. Trata-se de uma oferta de escola, o que permite ao agrupamento autonomia total na escolha dos candidatos. A explicação dada ao CM pelo director do Agrupamento Vertical de Almancil, um Território Educativo de Intervenção Prioritária (TEIP), está na entrevista: "A entrevista sobrepôs-se aos restantes critérios. Às vezes é preciso falar com os candidatos para perceber se é a pessoa indicada. [...]

Em

http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/exclusivo-cm/escola-emprega-professora-filha-de-vereador

Não se pense que isto vá ser caso único. Nas universidades portuguesas, onde há maior autonomia, sempre reinou o mesmo sistema de favorecimentos pessoais. Em Portugal, com um cultura muito personalizada, baseada nos conhecimentos e amizades pessoais, e na troca de favores, a autonomia não dará os mesmos resultados que em países mais legalistas.

Retrato de Filipe Melo Sousa

"La République n'a pas besoin de savants ni de chimistes ; le cours de la justice ne peut être suspendu."

Jean Paul Marat - Justificando a necessidade de Lavoisier ser guilhotinado. - 1794

 


"O ministro das Finanças é um técnico de economia. Penso que é um bom técnico. Mas é um político ocasional. Acho que neste momento precisamos de políticos"
"Não se pode entregar o Serviço Nacional de Saúde a um bom contabilista que diz 'vamos cortar, cortar, cortar'. Então e os doentes?".

Mário Soares, ontem - justificando a necessidade de guilhotinar as finanças do país

Retrato de João Mendes

[Também no Cousas Liberaes.]


Imaginemos um sistema em que havia mais autonomia curricular ao nível das escolas, e mais autonomia na escolha das escolas.
 
Num sistema como este, eu escolheria escolas em que as pessoas aprendessem literatura (além de textos não-literários) como parte do estudo da língua. Não porque os programas definissem o que é "boa" literatura ou "má" literatura, ou que definissem que se tem de gostar de certos livros ou não gostar de outros (isso é com cada um), mas porque a língua não é apenas um conjunto de regras de gramática. É uma emanação cultural, sendo a literatura uma aplicação da língua cujo estudo ajuda a aprender a cultura da qual a língua é uma emanação, e que portanto ajuda a compreendê-la melhor.
 
Em casa, exporia também os meus filhos a outros livros, a outras ideias, e quereria contar com a escola como um aliado na minha tentativa de lhes expandir os horizontes para além, se possível, daqueles que eu próprio tenha conseguido atingir. Mas claro, eu tenho os meus gostos e as minhas preferências, o que tenderia a toldar aquilo a que os meus filhos estariam expostos. E eu considero que os meus filhos têm direito a ter acesso a conhecimento que eu não tenha, não sendo limitados pelos meus gostos e pelas minhas preferências.
 
Em suma, quereria que a escola fosse minha aliada no meu propósito de que os meus filhos adquirissem a capacidade de compreender e criticar obras literárias e não-literárias, além da capacidade de escrever textos de ficção e de não-ficção, expandindo-lhes os horizontes, se possível, até para além dos meus.
 
Quereria isso por dois motivos principais:
1) Considero que o conhecimento e a capacidade de processar conhecimento são importantes por si só;
2) Nos tempos que correm, as pessoas precisam cada vez mais de se diferenciar das outras para conseguirem um emprego e a vida que desejarem, e para isso precisam de vantagens comparativas; esta capacidade de raciocínio é uma vantagem comparativa importante.
 
Mesmo que os meus filhos fossem para algo que pouco tivesse a ver com literatura, a capacidade de interpretação e de elaboração de textos de qualidade continuaria sempre a jogar a seu favor. Da mesma forma que a lógica matemática me ajudou, e me tem ajudado, enquanto jurista.
 
(Nota: tudo o que eu disse está pensado para toda e qualquer língua, e eu quereria que os meus filhos aprendessem mais do que português, claro está.)
 
De um ponto de vista da comunidade como um todo, considero que maximizar o nível de literacia da população tem impactos relevantes ao nível da qualidade de vida e dos empregos que se criam e aos quais se tem acesso. Tem ainda impacto relevante na capacidade que a comunidade tem de se reinventar. E tem, finalmente, impacto ao nível da capacidade que os filhos têm de se emancipar, enquanto indivíduos, das restrições colocadas pelo «background» dos pais.
 
Isto, combinado com a aprendizagem de diversas línguas, o que significa exposição a várias culturas diferentes, promove o diálogo cultural e a abertura de espírito. Promove um certo cosmopolitismo que eu considero desejável, e que tem faltado nos dias que correm.
 
Entre os mil e um projectos que me correm pela cabeça, e que um dia gostaria de implementar, um deles é precisamente fundar, ou auxiliar, uma associação vocacionada para este tipo de fins. Mas o tempo, infelizmente, não dá para tudo.
Retrato de Miguel Duarte

Achei muito interessante este artigo, sobre estudantes de direito nos EUA que vão processar a sua antiga universidade por esta lhes ter mentido sobre as perspetivas de virem a conseguir um emprego após terem concluído o curso. É que ao que parece, nos EUA as (algumas) universidades já indicam qual é a percentagem de ex-alunos que encontraram emprego (neste caso, ao fim de 9 meses), mas, a questão não deveria ser o "simplesmente arranjar emprego" (também é relevante), mas sim, qual a percentagem de ex-alunos que arranjaram um emprego que requeria uma/a sua licenciatura.

Aliás, parece que o equivalente à Ordem dos Advogados, nos EUA, decidiu obrigar a partir do próximo ano todas as escolas a seguirem este exemplo.

Eu diria, que este seria um (bom) exemplo a seguir em Portugal e porque não, pela nossa Ordem dos Advogados, tanto mais que estando tão preocupada no desemprego dos recém-licenciados em Direito, se calhar, o melhor era começar por informar os potenciais alunos das suas perspetivas de emprego.

Retrato de Luís Lavoura

A propósito da atual geração à rasca, ouvem-se vozes que deploram a existência em Portugal de um superavit de licenciaturas em certas áreas como sociologia, direito ou até arquitetura, e que sugerem que o Estado deveria ter um papel ativo na orientação dos jovens para certas licenciaturas em detrimento de outras, prospetando o futuro do mercado de trabalho com o fim de evitar que se formasse um excesso de licenciados em certas áreas.

 

Eu considero tal ideia pouco exequível. Primeiro, porque estamos num mercado de trabalho global ou, pelo menos, europeu; o facto de haver um superavit de licenciados em certas áreas em Portugal não impede que haja falta deles alhures na Europa e que, então, eles possam emigrar. Da mesma forma, qualquer deficit de licenciados numa certa área em Portugal pode, pelo menos em princípio, ser suprido mediante a imigração para Portugal de licenciados nessa área vindos de outros países. Em segundo lugar, é difícil o Estado pôr-se a prever a evolução futura da economia ou do mercado de trabalho. Por exemplo, a arquitetura, que há poucos anos era um dos cursos superiores mais procurados, devido ao emprego maciço de arquitetos no boom de construção (pública e privada) que então se verificava, hoje em dia deu lugar a um excesso lamentável de arquitetos, no qual até os mais prestigiados, como Souto Moura, estão sem trabalho. Não estou a ver o Estado, há dez anos atrás, a prever conscienciosamente e a divulgar publicamente que a construção civil e a arquitetura iriam dar o estouro!

 

Temos, ademais, que compreender que a formação superior é uma virtude intelectual e cultural, mesmo que ela seja feita em temas de pouca utilidade. Um licenciado em direito, mesmo que não encontre emprego como advogado, será certamente uma pessoa com uma memória melhor treinada, com uma capacidade de argumentação e raciocínio mais apurada, e com uma civilidade superior a um não-licenciado. Não devemos, por isso, lamentar excessivamente a existência de licenciados sem emprego na sua área de formação. Um motorista de táxi licenciado (*) fornecerá certamente aos seus clientes uma conversa mais enriquecedora e rigorosa do que os atuais motoristas de táxi portugueses!

 

Eu faria uma sugestão mais modesta. O Estado deveria, pelo menos, assegurar-se de que está a pagar estudos superiores a quem os aproveita bem. Deveria assegurar-se que não está  a esbanjar o dinheiro dos nossos impostos em estudantes sem vocação para aquilo que estão a estudar e que não registam progressos nos seus estudos. Isso é um objetivo bem mais modesto, e facilmente realizável. O Estado poderia, como por exemplo no cantão suíço de Neuchâtel, dispôr-se a pagar educação superior apenas após a realização de testes psicotécnicos que demonstrassem a vocação do estudante para a área que ele ou ela pretendesse estudar. Ou o Estado poderia limitar o pagamento de propinas apenas à primeira, ou às primeiras duas, inscrições de cada estudante numa determinada cadeira. Isso asseguraria, pelo menos, que o dinheiro gasto na educação superior o estava a ser com quem verdadeiramente a merece.

 

(*) Nem que fosse Henrique Medina Carreira!

Retrato de Luís Lavoura

Segundo informou ontem a agência Lusa, a coligação negativa (a que nos tempos do PREC se chamaria a reação) do BE, PCP, PSD e CDS vai hoje eliminar de vez a avaliação dos professores do ensino público.

 

Não sei se possa acreditar. É mau de mais para ser verdade.