Educação

Posts sobre Educação.
Retrato de Luís Lavoura

Anda muita gente abespinhada com o fim dos exames do 4º ano, determinado por recente lei aprovada na Assembleia da República.

Lamentavelmente, ainda não vi um único argumento que mostre qual a necessidade, ou vantagem, da existência de tais exames. Apenas tenho lido argumentos impressionistas e imprecisos, segundo os quais deve haver exames nesse ano porque quando nós éramos crianças também os havia, ou porque a não-existência de exames representa uma escola "facilitista". Estes argumentos roçam a irracionalidade. O que eu gostaria mesmo era obter um argumento positivo, claro, para a existência de exames no final do 4º ano.

Em minha opinião, sendo as crianças supostas continuar na mesma escolaridade obrigatória e não havendo variação no currículo obrigatório que elas terão que frequentar, não se justifica a existência de exames, nem no final do 4º ano nem no final do 6º ano. E, no final do 9º ano, os exames só se justificarão se o aluno pretender continuar a escolaridade (agora isso tornou-se obrigatório), e esses exames devem servir para ajudar a escolher o ramo de ensino que o aluno prosseguirá. Os exames devem situar-se à entrada, e não à saída, de um ciclo de ensino, e devem servir para aferir da aptidão do aluno para começar a frequentar esse ciclo de ensino. Da mesma forma que, quando uma pessoa quer ingressar numa profissão, lhe pode ser pedido para ultrapassar algum teste de competências, assim os exames devem ser postados à entrada de um ciclo de ensino - por exemplo, exames de admissão à universidade ou exames de admissão ao 10º ano. Porém, aos alunos que saem de um nível de ensino não é necessário fazer passar exames.

Retrato de Luís Lavoura

Permito-me, entretanto, suspeitar que o atraso na abertura deste ano letivo - um atraso perfeitamente desnecessário, dado que a colocação dos professores decorreu sem qualquer percalço - foi motivado, não por uma precaução da parte do ministério da Educação, mas sim pela orientação ideológica deste no sentido de destruir a escola pública e favorecer as escolas privadas.

Ou seja, o ministério da Educação sabota deliberadamente o ensino público, com o fim de que os pais, fartos de aturar a bandalheira e a incompetência, se resignem a colocar os filhos em escolas privadas.

É o que suspeito que esteja a acontecer.

Retrato de Luís Lavoura

No ano passado, erros na colocação dos professores fizeram com que alguns (relativamente poucos) alunos tivessem grandes atrasos no início das aulas de algumas disciplinas.

Este ano, o ministério da Educação resolveu jogar pelo seguro: adiou a abertura do ano letivo, por forma a que todos os alunos tiveram atrasos no início das aulas de todas as disciplinas.

Pode-se dizer que o ministério da Educação resolveu socializar o atraso; em vez de alguns alunos sofrerem grandes atrasos, todos sofreram um pequeno atraso.

Foi um progresso? Não. Foi apenas uma redistribuição da asneira.

Retrato de Luís Lavoura

Deve haver poucos países na Europa nos quais os alunos tenham tantas semanas de férias quantas em Portugal. Nunca vi nenhuma estatística sobre o assunto, mas os conhecimentos singulares que vou tendo sobre o assunto sugerem-me que em países mais civilizados os alunos têm férias muio menos longas.

As férias de verão são inacreditáveis: quase quatro meses sem aulas. Os alunos passam um terço do ano sem fazer absolutamente nada. Aquilo que conheço sugere-me que, noutros países, os alunos têm apenas um ou dois meses de férias de verão. Mesmo tendo em conta que o nosso verão é mais quente e, por isso, mais difícil de suportar na escola, não compreendo por que motivo não têm os nossos alunos apenas dois meses de férias.

Seria conveniente que as férias de verão fossem muitíssimo mais curtas, mesmo que isso fosse parcialmente compensado por mais semanas de paragem a meio dos períodos letivos.

O governo atual (cujo desempenho na área da educação e ciência é um excelente motivo para que eu queira ver a atual maioria pelas costas) resolveu piorar, em vez de melhorar, as coisas, pondo o próximo ano letivo a começar apenas a 20 de setembro. Quando deveria tentar que ele começasse a 1 de setembro. Julho e agosto são mais que suficientes para os alunos não terem aulas.

Retrato de Luís Lavoura

Deu muito brado na comunicação social o facto de a recente prova de avaliação à qual foram submetidos os professores "contratados" ter concluído que muitos desses professores deram diversos erros ortográficos e de pontuação na escrita do português.

Mas, será isso grave? Depende de qual a disciplina que o professor leciona. Um professor de uma língua estrangeira (inglês, francês, etc) não tem necessariamente que ser proficiente a português. Um professor de matemática ou de informática ou de música também pode escrever num português macarrónico, e nem por isso será necessariamente mau a ensinar a disciplina que lhe compete.

Ademais, o português não é, em minha opinião - e sei que com ela ofenderei as sensibilidades do CDS e dos conservadores em geral - uma disciplina de grande importância. Português é uma língua para consumo interno e em mais meia dúzia de países no mundo. Inglês sim, é uma disciplina muito importante. E matemática. Mas, mesmo essas, eu não consideraria que todos os professores necessitam de saber perfeitamente.

Retrato de Luís Lavoura

Leia-se este artigo de Alexandre Homem Cristo, pessoa da direita que passa por especialista em educação. Atente-se nas seguintes enormidades:

"Portugal tem maus professores. E não é por acaso: é fácil tornar-se professor. Por um lado, veja-se que, enquanto os cursos mais prestigiados mantêm notas de acesso ao ensino superior bastante elevadas, nos cursos de ciências da educação acontece o inverso. Ou seja, dito de forma clara: quem hoje vai para professor não são os bons alunos."

Cristo mete os pés pelas mãos, confundindo cursos "mais prestigiados" com bons cursos, e sugerindo que os estudantes de cursos menos prestigiados são necessariamente maus estudantes. O que não faz qualquer sentido. O facto de um curso ter baixa nota de entrada não significa nem que o curso seja mau, nem que todos os seus estudantes sejam maus. A título de exemplo, eu entrei no meu curso universitário com nota de 17, mas esse curso tinha, e continua a ter, nota mínima de acesso de 12, por ser um curso pouco prestigiado.

"Por outro lado, quem hoje frequenta os cursos da área da educação são, em média, os que têm níveis socioeconómicos mais baixos e que, por isso, obtêm mais bolsas de acção social. [...] em nenhuma área há uma concentração tão grande de estudantes com baixo nível socioeconómico."

E depois? O que é que o facto de um estudante ter baixo nível socioeconómico significa que esse estudante seja mau, ou que o curso que ele frequenta o seja? Que capcioso raciocínio está Cristo aqui a sugerir às mentes direitistas que o lêem?

Cristo comete ainda um terceiro, e clamoroso, erro: o de pensar que a nota que um aluno ou estudante aufere tem qualquer relação com a sua qualidade como profissional. Um bom estudante universitário pode revelar-se um mau profissional, tal como um bom estudante universitário pode tornar-se um mau profissional. E tal como um bom ou mau aluno do liceu pode vir a tornar-se um mau ou bom estudante universitário. Nada têm a ver umas coisas com as outras. A avaliação tem que ser contínua.

Retrato de Luís Lavoura

Todos os anos os exames nacionais constituem uma nova surpresa para os alunos: ora porque são incrivelmente difíceis - e eu já tive ocasião de ver exames desses ao nível do quarto ano, com requintes de malvadez em perguntas formuladas de forma estranha e com "rasteiras" totalmente inadmissíveis -, ora porque são inacreditavelmente fáceis. (Parece que foi o caso este ano, creio que por haver eleições no próximo.)

Sendo que estas oscilações na dificuldade dos exames - que eu não acredito serem obra do acaso, antes obedecerem a orientações políticas - fazem com que não seja legítimo comparar as notas dos alunos que fizeram exames em anos diferentes, eu pergunto se não seria mais correto passar a dar as notas dos exames apenas em termos comparativos, ou seja, um aluno de, por exemplo, 78% não seria aquele que tivesse feito 78% do exame certo, mas sim aquele que tivesse obtido melhor classificação do que 78% dos alunos que fizeram o mesmo exame.

De facto, apenas tal nota comparativa permitirá comparar alunos que tenham feito exame em anos diferentes. Um aluno de 78% será sempre aquele que foi melhor do que 78% dos colegas que fizeram o mesmo exame, seja qual tenha sido a dificuldade desse exame.

Retrato de Luís Lavoura

Os alunos suecos deram o maior trambolhão de que há memória nos testes internacionais PISA; o sistema de educação sueco apresenta-se atualmente como obtendo piores resultados, tanto em matemática como em ciências naturais, do que países já de si com uma educação medíocre como os EUA e o RU.
Perante este cenário, o ministro da Educação sueco diz que a culpa é da reforma que, há vinte anos, retirou a responsabilidade pela educação ao Estado central e a entregou aos municípios. O ministro sugere que as escolas deveriam voltar a ser "nacionalizadas".
(A refletir por alguns liberais portugueses que defendem que se faça em Portugal aquilo que a Suécia fez há vinte anos - que se entregue a gestão das escolas às autoridades locais.)

Retrato de Luís Lavoura

Ontem apareceu mais uma interessante reportagem na TVI sobre as escolas privadas com contrato de associação com o Estado, as quais foram apropriadamente apodadas por uma pessoa nessa reportagem como "as parcerias público-privadas (PPP) da educação". Estas PPP permanecem, incompreensivelmente, em vigor, distorcendo a concorrência leal entre escolas privadas e sugando inaceitavelmente o dinheiro dos contribuintes a favor de algumas famílias e de alguns grupos empresariais (incluindo a Igreja Católica).

Note-se que eu até posso estar de acordo se, numa situação de desafogo financeiro, o Estado decidir promover a liberdade de ensino e a concorrência entre escolas, financiando os alunos que decidam estudar em quaisquer escolas privadas. Não compreendo nem aceito, porém:

(1) Que o Estado o faça agora, num momento de grande aperto financeiro, em que se deveria sobremaneira poupar o dinheiro dos contribuintes e em apoiar sobremaneira os mais desfavorecidos;

(2) Que o Estado fnancie desta forma apenas algumas escolas privadas e não todas (as que queiram participar em tal esquema), desta forma participando num esquema de corrupção em que algumas famílias (aquelas cujos filhos frequentam as escolas privadas privilegiadas) e alguns grupos empresariais são financiados mas outros não são;

(3) Que o Estado financie estas escolas diretamente e por turma, em vez de financiar os alunos individualmente, desta forma compactuando com um esquema fraudulento em que as escolas privilegiadas podem ter turmas com cada vez menos alunos a funcionar mas mantendo sempre o mesmo financiamento estatal.

Enfim, um esquema que tresanda a corrupção do princípio ao fim. Corrupção com a qual os sucesivos governos vêem cada vez mais compactuando, com destaque para o atual governo, que mais do que qualquer outro - dada a situação financeira do país - teria a obrigação de acabar com esta pouca-vergonha.

Retrato de Luís Lavoura

O governo sugere, no seu pomposo Guião para a Reforma do Estado, a concessão de escolas a grupos (querer-se-ia dizer cooperativas) de professores.

Convem lembrar que esta ideia de escolas que pertencem a cooperativas de professores já é aplicada em Portugal há muitos anos - nas universidades ditas privadas (que nominalmente pertenciam, pelo menos originalmente, a cooperativas de professores). Os resultados, ao que consta, não são em geral brilhantes. A maioria das universidades privadas tem um corpo docente fraco e instável e está sobremaneira orientada para o fornecimento de "canudos" a quem esteja disposto a pagar por eles.

E diz-se que há muitas escolas privadas, a nível liceal, cuja principal orientação académica é a mesma - o fornecimento de boas notas a quem queira pagar por elas.

Temo que, se a ideia do governo fôr aplicada, escolas desse tipo - de fachada pertencentes a grupos de professores, na realidade pertencentes a grupos económicos bem organizados, e orientadas para o fornecimento de diplomas a bom preço - pululem.

Convem também notar o perigo da aplicação deste guião governamental em zonas rurais de baixa densidade populacional, onde necessariamente há poucas escolas por haver poucos alunos. Em tais zonas a concorrência entre escolas é, necessariamente, pouca ou nenhuma. Que a única escola existente se deteriore nas mãos de uma auto-nomeada cooperativa de professores é algo que não podemos aceitar.