Educação

Posts sobre Educação.
Retrato de Luís Lavoura

Manuel Carvalho da Silva, antigo secretário-geral da Intersindical e membro do Partido Comunista, é agora professor na Universidade Lusófona, a mesma que licenciou Miguel Relvas.

Retrato de Luís Lavoura

Portugal ainda exibe um respeito, uma veneração desbragados pelo "canudo" académico. Mantem-se como um dos países em que possuir uma licenciatura concede mais vantagens laborais (em termos de maior salário). Em grande medida, as classes sociais em Portugal ainda são classes académicas: o estatuto social das pessoas mede-se pelos "canudos" académicos que possuem.

Só assim se compreende a enorme atenção que é concedida à forma como alguns políticos obtiveram as suas qualificações académicas. Estou convencido de que aquilo que mais contribuiu para destruir a reputação de José Sócrates, aos olhos de muito boa gente, foi a forma manhosa como ele terá obtido o seu diploma de engenheiro. Mais do que quaisquer atributos políticos, o que muitas pessoas não lhe quiseram perdoar é ele ser engenheiro sem ter gastado para isso o mesmo dinheiro e esforço que a generalidade dos outros gastam e gastaram.

Agora é Miguel Relvas quem cai sob acusações similares. Acusações com tão pouco e tão mau, tão vil, tão invejoso, tão mesquinho sentido como aquelas que foram feitas contra José Sócrates.

A qualidade de um político não se mede pela genuinidade dos seus "canudos" académicos.

Retrato de Luís Lavoura

Infelizmente, a perversidade do teste nacional referido no post anterior não se esgotou em perguntas com respostas indefinidas, como as referidas nesse post. Foi mais longe.

Numa outra pergunta, pretendia-se que os alunos calculassem o perímetro, em centímetros, de um retângulo desenhado na folha do teste. Ora, o referido retângulo tinha (disse-me a professora que me mostrou o teste), propositadamente, lados que não tinham medida exata em centímetros: o comprimento estava entre os seis e os sete centímetros, a largura entre os três e os quatro. Isto, note-se, num teste dirigido a meninos que não sabem o que são números decimais, nem milímetros.

Ainda numa outra pergunta, dizia-se que uma pessoa olhava para um parque de estacionamento no qual estavam carros e motas e dizia: "Vejo nove veículos e vinte e oito rodas". Pedia-se para os alunos calcularem o número de motas e o número de carros que estavam no parque. Tudo bem (embora a pergunta seja, em meu entender, demasiadamente difícil para uma criança típica de oito anos), com um importante senão: a frase, corretamente interpretada, dá a ideia de que no parque há nove veículos e, ao lado deles, há 28 rodas. Ou seja, faz-se um enunciado com uma frase arrevezada e ambígua, quando se poderia ter escrito: "Vejo nove veículos. Esses nove veículos têm, no total, vinte e oito rodas." Mas isso seria pedir de mais ao tarado sádico que elaborou o teste.

Eu diria que está na altura de o senhor ministro da Educação pôr na rua os indivíduos perversos que elaboraram este teste. Ou então, de os portugueses porem o próprio ministro na rua. É de mais!!!

Retrato de Luís Lavoura

A prova de aferição de matemática que este ano os alunos do segundo ano (antiga segunda classe - tipicamente, meninos de oito anos de idade) tiveram que resolver continha algumas questões que são tudo menos matemática.

Numa questão exibia-se algumas figuras geométricas alinhadas: primeiro um círculo, depois um quadrado, depois outro círculo, depois outro quadrado, e finalmente mais um círculo. Perguntava-se aos alunos qual deveria ser a sétima figura geométrica a aparecer nesta sucessão. Ora bem, em matemática não se raciocina por analogia. Em matemática os raciocínios são rigorosos. Em matemática uma sucessão de objetos é definida por uma regra de construção, não por um exemplo visual. Nesta medida, a pergunta colocada aos alunos não tem resposta no âmbito da matemática.

Uma outra pergunta era similar. Mostrava-se duas mesas, cada uma com alguns sólidos geométricos sobre ela. Numa mesa estava um cubo, um paralelepípedo e uma pirâmide; na outra estava um cone, uma bola e um cilindro. Mostrava-se em seguida um prisma triangular e perguntava-se aos alunos sobre qual mesa ele deveria ser colocado. Ora, mais uma vez, esta pergunta não tem resposta no âmbito da matemática. Os alunos são livres de colocar o prisma triangular sobre a mesa que quiserem, uma vez que não é fornecida qualquer regra que indique por que critério se colocam os sólidos numa ou noutra mesa. (A inferência que se pretendia que os alunos fizessem é que numa das mesas estavam sólidos com todas as faces planas, na outra estavam sólidos com pelo menos uma superfície curva. Porém, a inferência não tem lugar na matemática!)

Fiquei muito, terrivelmente apreensivo com esse teste. O teste está mal feito e não é rigoroso. Aquilo que se está a avaliar nas crianças não são conhecimentos objetivos de matemática, mas sim a capacidade de efetuar raciocínios ardilosos e não rigorosos. Isto não é matemática e isto não é teste que se faça - muito menos a crianças de oito anos, que têm o direito de ser tratadas de forma honesta e sem truques.

Retrato de Luís Lavoura

A direita portuguesa ficou a salivar porque nas recentes provas de aferição dos alunos do 4º ano as notas a matemática desceram. Para os salivadores, isso pode ser sinal de que o ministério de Nuno Crato está a diminuir o alegado "facilitismo" dos testes nacionais.

Como é natural, nos atuais tempos de baixíssima taxa de natalidade, quem assim fala não tem, em geral, filhos (embora, com toda a probabilidade, faça propaganda da necessidade de aumentar a natalidade para preservar a "raça" portuguesa), e não faz a menor ideia daquilo que custa ensinar as crianças, nem daquilo que é ensinado na escola. Fala portanto de cor, sem experiência própria.

Para alguma direita portuguesa vale atualmente a máxima comunista do "quanto pior, melhor". Se muitos alunos chumbam nas provas nacionais, isso é bom - é sinal de que as provas são exigentes.

Naturalmente, se aos alunos do 4º ano fossem postas questões sobre cálculo diferencial e integral, as provas seriam ainda mais exigentes, o "facilitismo" estaria claramente eliminado e todos os alunos, sem exceção, chumbariam. Penso que, nesse instante, a direita, na sua irracionalidade, exultaria em paroxismo.

Retrato de Luís Lavoura

O ministro da Educação, Nuno Crato, decretou um aumento profundo na autonomia das escolas públicas. Entre outros benefícios que as escolas de maior sucesso vão poder passar a auferir, conta-se a contratação de mais professores. Entre os critérios para a avaliação do sucesso das escolas conta-se a nota que os seus alunos obtenham nos exames nacionais.

Acontece que a nota dos alunos nos exames nacionais não é um bom aferidor da qualidade de uma escola, dado que escolas instaladas em meios mais favorecidos usufruem, à partida, de melhores alunos. Temos portanto que a reforma anunciada por Crato se arrisca a ter por resultado o aumento das desigualdades: às escolas que à partida usufruem de melhores alunos serão concedidos mais professores, com os quais elas poderão fornecer aos alunos que à partida já eram melhores uma educação privilegiada. Temos assim, potencialmente, o Estado a instalar um mecanismo de reforço das desigualdades.

Acresce que Crato fez esta reforma, aparentemente, de surpresa, sem ter previamente dialogado com ninguém. Instroduzir reformas de surpresa, num setor como o da educação, é injustificável e tem boas probabilidades de dar mau resultado.

Retrato de Luís Lavoura

A emigração de professores, apropriadamente aconselhada pelo primeiro-ministro, levanta contudo o relevante problema de os professores serem pessoas com um alto nível de educação, geralmente universitária, a qual educação custou muito dinheiro ao país, dinheiro que será desperdiçado a favor de outros países aquando da emigração.

Ou seja, a emigração de professores não é equivalente à emigração de trolhas (*), típica do Portugal de outros tempos. Os trolhas são pessoas nas quais o país pouco investiu e que levam para fora de Portugal pouco saber e pequena especialização. A emigração de professores é algo de totalmente diferente.

Podemos enfrentar este problema dizendo que a educação superior deveria ser custeada por quem a adquire, isto é, que os estudos universitários deveriam ser unicamente pagos pelo estudante, seja diretamente, seja através de empréstimos. Sou, no entanto, contrário a essa solução.

Este problema já foi, de alguma forma, resolvido pelos clubes de futebol. Os jogadores são livres de se transferir de um clube para outro, porém, os clubes vêem-se na necessidade de recuperar os custos que investiram na formação de jovens jogadores. (Os quais custos não são nada baixos - um primo meu, adolescente, está na Academia do Sporting, e não duvido que o dinheiro que o Sporting está a investir nele - incluindo alojamento, alimentação, transporte para a escola, etc, fora os treinos de futebol propriamente ditos - não é nada pouco.) Para recuperar esses custos, os clubes acordaram num complexo sistema de "passes" e de transferências regulamentadas, que fazem com que o jogador, sendo embora livre de mudar de clube, não o possa fazer sem que uma indemnização seja paga ao clube anterior.

 

P.S. A emigração de professores não é, evidentemente, um fenómeno novo. Um primo da minha mulher é professor de educação física. Formou-se em Portugal mas dá aulas num colégio inglês na Tailândia, e diz que está satisfeitíssimo com esse seu emprego. Arranjou-o, segundo creio, através de um vulgar anúncio num jornal.

 

(*) "Trolha" é a designação nortenha de um servente (ajudante) de pedreiro.

Retrato de Luís Lavoura

Toda a gente pede que seja dada às escolas maior autonomia, em particular na contratação dos seus docentes. Mas, em Portugal, inevitavelmente a autonomia dá nisto:

A escolha de Isabel Santos Moreno, filha do vereador Aníbal Sousa Moreno, da Câmara Municipal de Loulé, para o lugar de educadora no Agrupamento de Escolas de Almancil, está a indignar as educadoras preteridas, que acusam a escola de favorecimento. [...] As suspeitas de favorecimento surgem uma vez que Isabel Santos Moreno não tem experiência profissional e até a classificação final do curso (13 valores) é inferior à de muitas das outras candidatas. Trata-se de uma oferta de escola, o que permite ao agrupamento autonomia total na escolha dos candidatos. A explicação dada ao CM pelo director do Agrupamento Vertical de Almancil, um Território Educativo de Intervenção Prioritária (TEIP), está na entrevista: "A entrevista sobrepôs-se aos restantes critérios. Às vezes é preciso falar com os candidatos para perceber se é a pessoa indicada. [...]

Em

http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/exclusivo-cm/escola-emprega-professora-filha-de-vereador

Não se pense que isto vá ser caso único. Nas universidades portuguesas, onde há maior autonomia, sempre reinou o mesmo sistema de favorecimentos pessoais. Em Portugal, com um cultura muito personalizada, baseada nos conhecimentos e amizades pessoais, e na troca de favores, a autonomia não dará os mesmos resultados que em países mais legalistas.

Retrato de Filipe Melo Sousa

"La République n'a pas besoin de savants ni de chimistes ; le cours de la justice ne peut être suspendu."

Jean Paul Marat - Justificando a necessidade de Lavoisier ser guilhotinado. - 1794

 


"O ministro das Finanças é um técnico de economia. Penso que é um bom técnico. Mas é um político ocasional. Acho que neste momento precisamos de políticos"
"Não se pode entregar o Serviço Nacional de Saúde a um bom contabilista que diz 'vamos cortar, cortar, cortar'. Então e os doentes?".

Mário Soares, ontem - justificando a necessidade de guilhotinar as finanças do país

Retrato de João Mendes

[Também no Cousas Liberaes.]


Imaginemos um sistema em que havia mais autonomia curricular ao nível das escolas, e mais autonomia na escolha das escolas.
 
Num sistema como este, eu escolheria escolas em que as pessoas aprendessem literatura (além de textos não-literários) como parte do estudo da língua. Não porque os programas definissem o que é "boa" literatura ou "má" literatura, ou que definissem que se tem de gostar de certos livros ou não gostar de outros (isso é com cada um), mas porque a língua não é apenas um conjunto de regras de gramática. É uma emanação cultural, sendo a literatura uma aplicação da língua cujo estudo ajuda a aprender a cultura da qual a língua é uma emanação, e que portanto ajuda a compreendê-la melhor.
 
Em casa, exporia também os meus filhos a outros livros, a outras ideias, e quereria contar com a escola como um aliado na minha tentativa de lhes expandir os horizontes para além, se possível, daqueles que eu próprio tenha conseguido atingir. Mas claro, eu tenho os meus gostos e as minhas preferências, o que tenderia a toldar aquilo a que os meus filhos estariam expostos. E eu considero que os meus filhos têm direito a ter acesso a conhecimento que eu não tenha, não sendo limitados pelos meus gostos e pelas minhas preferências.
 
Em suma, quereria que a escola fosse minha aliada no meu propósito de que os meus filhos adquirissem a capacidade de compreender e criticar obras literárias e não-literárias, além da capacidade de escrever textos de ficção e de não-ficção, expandindo-lhes os horizontes, se possível, até para além dos meus.
 
Quereria isso por dois motivos principais:
1) Considero que o conhecimento e a capacidade de processar conhecimento são importantes por si só;
2) Nos tempos que correm, as pessoas precisam cada vez mais de se diferenciar das outras para conseguirem um emprego e a vida que desejarem, e para isso precisam de vantagens comparativas; esta capacidade de raciocínio é uma vantagem comparativa importante.
 
Mesmo que os meus filhos fossem para algo que pouco tivesse a ver com literatura, a capacidade de interpretação e de elaboração de textos de qualidade continuaria sempre a jogar a seu favor. Da mesma forma que a lógica matemática me ajudou, e me tem ajudado, enquanto jurista.
 
(Nota: tudo o que eu disse está pensado para toda e qualquer língua, e eu quereria que os meus filhos aprendessem mais do que português, claro está.)
 
De um ponto de vista da comunidade como um todo, considero que maximizar o nível de literacia da população tem impactos relevantes ao nível da qualidade de vida e dos empregos que se criam e aos quais se tem acesso. Tem ainda impacto relevante na capacidade que a comunidade tem de se reinventar. E tem, finalmente, impacto ao nível da capacidade que os filhos têm de se emancipar, enquanto indivíduos, das restrições colocadas pelo «background» dos pais.
 
Isto, combinado com a aprendizagem de diversas línguas, o que significa exposição a várias culturas diferentes, promove o diálogo cultural e a abertura de espírito. Promove um certo cosmopolitismo que eu considero desejável, e que tem faltado nos dias que correm.
 
Entre os mil e um projectos que me correm pela cabeça, e que um dia gostaria de implementar, um deles é precisamente fundar, ou auxiliar, uma associação vocacionada para este tipo de fins. Mas o tempo, infelizmente, não dá para tudo.