Educação

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Retrato de Miguel Duarte

Achei muito interessante este artigo, sobre estudantes de direito nos EUA que vão processar a sua antiga universidade por esta lhes ter mentido sobre as perspetivas de virem a conseguir um emprego após terem concluído o curso. É que ao que parece, nos EUA as (algumas) universidades já indicam qual é a percentagem de ex-alunos que encontraram emprego (neste caso, ao fim de 9 meses), mas, a questão não deveria ser o "simplesmente arranjar emprego" (também é relevante), mas sim, qual a percentagem de ex-alunos que arranjaram um emprego que requeria uma/a sua licenciatura.

Aliás, parece que o equivalente à Ordem dos Advogados, nos EUA, decidiu obrigar a partir do próximo ano todas as escolas a seguirem este exemplo.

Eu diria, que este seria um (bom) exemplo a seguir em Portugal e porque não, pela nossa Ordem dos Advogados, tanto mais que estando tão preocupada no desemprego dos recém-licenciados em Direito, se calhar, o melhor era começar por informar os potenciais alunos das suas perspetivas de emprego.

Retrato de Luís Lavoura

A propósito da atual geração à rasca, ouvem-se vozes que deploram a existência em Portugal de um superavit de licenciaturas em certas áreas como sociologia, direito ou até arquitetura, e que sugerem que o Estado deveria ter um papel ativo na orientação dos jovens para certas licenciaturas em detrimento de outras, prospetando o futuro do mercado de trabalho com o fim de evitar que se formasse um excesso de licenciados em certas áreas.

 

Eu considero tal ideia pouco exequível. Primeiro, porque estamos num mercado de trabalho global ou, pelo menos, europeu; o facto de haver um superavit de licenciados em certas áreas em Portugal não impede que haja falta deles alhures na Europa e que, então, eles possam emigrar. Da mesma forma, qualquer deficit de licenciados numa certa área em Portugal pode, pelo menos em princípio, ser suprido mediante a imigração para Portugal de licenciados nessa área vindos de outros países. Em segundo lugar, é difícil o Estado pôr-se a prever a evolução futura da economia ou do mercado de trabalho. Por exemplo, a arquitetura, que há poucos anos era um dos cursos superiores mais procurados, devido ao emprego maciço de arquitetos no boom de construção (pública e privada) que então se verificava, hoje em dia deu lugar a um excesso lamentável de arquitetos, no qual até os mais prestigiados, como Souto Moura, estão sem trabalho. Não estou a ver o Estado, há dez anos atrás, a prever conscienciosamente e a divulgar publicamente que a construção civil e a arquitetura iriam dar o estouro!

 

Temos, ademais, que compreender que a formação superior é uma virtude intelectual e cultural, mesmo que ela seja feita em temas de pouca utilidade. Um licenciado em direito, mesmo que não encontre emprego como advogado, será certamente uma pessoa com uma memória melhor treinada, com uma capacidade de argumentação e raciocínio mais apurada, e com uma civilidade superior a um não-licenciado. Não devemos, por isso, lamentar excessivamente a existência de licenciados sem emprego na sua área de formação. Um motorista de táxi licenciado (*) fornecerá certamente aos seus clientes uma conversa mais enriquecedora e rigorosa do que os atuais motoristas de táxi portugueses!

 

Eu faria uma sugestão mais modesta. O Estado deveria, pelo menos, assegurar-se de que está a pagar estudos superiores a quem os aproveita bem. Deveria assegurar-se que não está  a esbanjar o dinheiro dos nossos impostos em estudantes sem vocação para aquilo que estão a estudar e que não registam progressos nos seus estudos. Isso é um objetivo bem mais modesto, e facilmente realizável. O Estado poderia, como por exemplo no cantão suíço de Neuchâtel, dispôr-se a pagar educação superior apenas após a realização de testes psicotécnicos que demonstrassem a vocação do estudante para a área que ele ou ela pretendesse estudar. Ou o Estado poderia limitar o pagamento de propinas apenas à primeira, ou às primeiras duas, inscrições de cada estudante numa determinada cadeira. Isso asseguraria, pelo menos, que o dinheiro gasto na educação superior o estava a ser com quem verdadeiramente a merece.

 

(*) Nem que fosse Henrique Medina Carreira!

Retrato de Luís Lavoura

Segundo informou ontem a agência Lusa, a coligação negativa (a que nos tempos do PREC se chamaria a reação) do BE, PCP, PSD e CDS vai hoje eliminar de vez a avaliação dos professores do ensino público.

 

Não sei se possa acreditar. É mau de mais para ser verdade.

Retrato de Luís Lavoura

Entretanto, o PSD veio esclarecer o povo sobre as razões do seu "chumbo" ao projeto governamental de alteração curricular no ensino secundário. Segundo o porta-voz do PSD, esse partido votou contra esse projeto por não haver qualquer fundamentação pedagógica para a sua conveniência. (O mesmo argumento foi, aliás, invocado por Carlos Botelho no blogue da ala conservadora do PSD, o Cachimbo de Magritte.)

 

Ficamos portanto a saber que, para o PSD, apenas a pedagogia interessa quando se trata de fixar o currículo e os métodos da escola pública. As finanças, o dinheiro que se gasta a implementar a boa pedagogia, não interessam nada. Também não interessa nada o tempo, eventualmente exagerado, que os alunos são forçados a permanecer na escola, e o esforço, eventualmente irrazoável, que lhes é solicitado para fazerem coisas com relativamente pouco (ou até nenhum) interesse para a sua formação.

 

Temos agora o PSD armado em defensor da escola pública - o mesmo partido que há uns meses fazia um projeto de revisão constitucional que pretendia entregar o ensino público aos privados.

 

Temos agora o PSD que não se interessa muito com o corte na despesa pública - ou antes, esse corte deve ser feito só na tão odiada burocracia dos ministérios. A burocracia ministerial é inútil e deve ser eliminada. Já os professores nas escolas são todos muito úteis e precisam de ser mantidos, mesmo que ninguém vislumbre exatamente qual a sua utilidade nalguns casos.

 

O PSD é um partido que anda completamente às aranhas, sem luz que lhe oriente o trajeto. É triste.

Retrato de Luís Lavoura

Eu não sei se o gráfico que acompanha este artigo da The Economist está correto e se eu o estou a interpretar bem. Mas, com esses provisos, os resultados nesse gráfico são duplamente notáveis. Vê-se nele que Portugal era, em 2007, e de longe, o país do mundo com maior percentagem de doutorados entre a faixa etária relevante da população (que não vem explicado no gráfico qual seja). Eu tenho bastantes dúvidas sobre este resultado, mas já tenho menos dúvidas quanto ao segundo resultado no gráfico: Portugal é, também de longe, o país do mundo em que maior percentagem de doutoramentos é concedida a mulheres. Concretamente, em Portugal e em 2007 mais de 60% dos doutoramentos foram de mulheres, enquanto que a percentagem de mulheres entre os doutorados raramente superava os 50% noutros países.

Retrato de Luís Lavoura

Nos últimos dias têm-se feito manifestações, denotando uma grande capacidade organizativa e uma grande determinação, contra a limitação ao dinheiro que o Estado paga a algumas escolas privadas que têm contrato de associação com o Estado. Esses contratos de associação permitem aos alunos que frequentam essas escolas não pagar propinas.

 

A minha posição sobre este assunto é baseada no conceito de justiça: todas as escolas privadas devem ser tratadas da mesma forma. Não podem umas escolas privadas ser filhas e as outras enteadas. E então, das duas uma: ou todas as escolas privadas que o desejarem devem poder ter, hoje mesmo, contrato de associação com o Estado, de tal forma que todos os alunos que as frequentem o possam fazer à borla; ou, pelo contrário, só devem ter contrato de associação algumas escolas privadas que tenham uma justificação muito específica para isso e, mesmo nessas, só devem estar isentos de propina os alunos que satisfaçam determinados critérios.

 

A atual situação, em que algumas escolas privadas têm contrato de associação apenas por motivos históricos, e centenas de outras escolas privadas não têm nem podem ter contrato de associação, é injusta e tem que terminar. Isso é distorcer a sã concorrência entre escolas privadas.

 

P.S. Tenho um primo meu cujos filhos frequentam, gratuitamente, uma destas escolas privadas com contrato de associação. A escola privada em questão fica a 10 km de casa do meu primo. (Há uma outra escola privada com contrato de associação situada a cerca de 5 km da outra e, também, a 10 km de casa do meu primo.) A casa do meu primo dista cerca de 3 km e 7 km, aproximadamente, das duas escolas públicas mais próximas, que, portanto, ficam mais próximas do que as escolas privadas. O meu primo já me explicou que tem os filhos na escola privada não porque disso necessite mas somente porque gosta mais delas.

Retrato de Luís Lavoura

Ao longo dos anos, os políticos socialistas construíram em Portugal um arremedo de Estado Social igualitário, que apoia por igual todas as pessoas que se encontram numa determinada situação, independentemente da sua real necessidade.

 

Um exemplo: uma criança que tem uma ligeira deficiência cognitiva, um atraso no desenvolvimento. Foi referenciada pelo sistema de saúde público, que lhe presta apoio através de técnicas especializadas que lhe dão umas aulas especiais extra, gratuitamente para os pais. Até aqui, tudo bem. Mas, por via desse atraso, essa criança usufrui também, na escola primária, de livros escolares gratuitos e de almoços e lanches gratuitos - coisas que nada têm a ver com a deficência de que sofre, em nada a melhoram - apesar de os pais não terem quaisquer dificuldades financeiras. Que explicação pode isto ter?

 

Outro exemplo, envolvendo montantes muito maiores: uma pessoa deficiente psíquica, incapaz de prover ao seu sustento e cuidado, filha de um militar já falecido. Por via da morte do pai, usufrui, por um lado, de generosa comparticipação da Assitência na Doença a Militares ao seu internamento numa clínica privada; por outro lado, de uma pensão de sobrevivência vitalícia igual a uma elevada percentagem do salário que o pai auferia. Como é evidente, dado que o internamento é pago, a pensão de sobrevivência praticamente não é gasta. Isto compreende-se?

Retrato de Luís Lavoura

Para que haja liberdade de educação é imprescindível que os encarregados de educação tenham a liberdade de escolher a escola na qual querem colocar os seus filhos.

Isso só é possível, na atualidade, se o Estado financiar cada aluno individualmente através de um cheque-educação, permitindo que esse cheque-educação seja gasto em qualquer estabelecimento de ensino, público, privado ou cooperativo.

Isto conduziria, previsivelmente e a prazo, a uma deslocação gradual dos alunos de escolas públicas para escolas privadas, tanto para as atualmente existentes como para novas escolas privadas que seriam criadas.

Mas isto criaria um maciço problema financeiro para o Estado, o qual poderia encerrar escolas públicas agora tornadas supérfluas mas não poderia despedir os professores e funcionários auxiliares agora tornados supérfluos.

Ou seja, no caminho da liberdade de educação encontra-se um obstáculo financeiro grave: a impossibilidade legal de despedir funcionários públicos.

Para que seja alcançada a liberdade de educação não bastará a vontade política de instituir o cheque-educação, será preciso também que passe a ser possível despedir funcionários públicos - nomeadamente professores - tornados supérfluos no ensino público (como é evidente, esses professores não ficariam todos desempregados, na medida em que alguns deles seriam logo contratados pelas novas escolas privadas que entretanto teriam surgido - embora talvez auferindo salários e regalias inferiores).

Retrato de Miguel Duarte

No New York Times um artigo muito interessante sobre a avaliação de professores e um novo método "valor acrescentado" que está a ser utilizador em várias escolas:

In value-added modeling, researchers use students’ scores on state tests administered at the end of third grade, for instance, to predict how they are likely to score on state tests at the end of fourth grade.
A student whose third-grade scores were higher than 60 percent of peers statewide is predicted to score higher than 60 percent of fourth graders a year later.
If, when actually taking the state tests at the end of fourth grade, the student scores higher than 70 percent of fourth graders, the leap in achievement represents the value the fourth-grade teacher added.

Retrato de Luís Lavoura

Parece que a ministra da Educação disse qualquer coisa numa entrevista sobre o, ou um, fim das "reprovações", "retenções" ou, na mais vulgar gíria, "chumbos" na escola pública portuguesa e logo, como seria de esperar, a direita portuguesa(*) lhe caiu, reflexamente, caninamente, em cima.

 

A direita portuguesa, incluindo aquela que gosta de se apresentar com um verniz liberal, é sempre no fundo conservadora, ou até mesmo retrógrada. No campo da educação, a direita está fixada no modelo salazarista. Nesse modelo a escolaridade não era (pelo menos na prática) obrigatória. Menino (ou, ainda mais depressa, menina) que chumbasse uma, ou duas, ou três vezes acabava por, por decisão dos seus próprios pais, abandonar a escola e ir trabalhar para os campos ou fábricas. Para o sistema isso nada de mal tinha, porque a escolaridade não era obrigatória e nenhum mal havia em que metade da população fosse analfabeta.

 

A direita portuguesa não esquece esses felizes, ditosos tempos.

 

Só que, o mundo de hoje já não é o de Salazar. Hoje, uma condição de competitividade internacional - não apenas para uma pessoa, mas para uma sociedade, para um país - é ter uma população educada. No mundo de hoje, o abandono da escola não é, não pode ser uma opção.

 

Quando o meu filho mais velho estava na primeira ou segunda classe ("ano"), havia na escola dele uns meninos, que já não eram bem meninos mas sim pré-adolescentes, indisciplinados e que semeavam na escola alguma violência e instabilidade. Eram meninos de doze anos que, à custa de repetidos chumbos, ainda estavam na escola primária. As professoras compreendiam-nos - frustrados por ainda terem por colegas meninos de 7 ou 8 anos, incomodados por terem que permanecer o dia sentados em cadeiras nas quais já não cabiam, davam escape a essa frustração e a esse incómodo através da violência.

 

Num mundo de escolaridade obrigatória, num mundo de educação essencial, chumbar alunos não resolve nada, apenas agrava os problemas. É claro que não basta decretar a obrigatoriedade da escolaridade - é preciso também criar mecanismos de apoio aos alunos, que permitam que eles progridam, para que a escolaridade obrigatória não seja para eles, nem para os seus colegas, um fardo. É esses mecanismos que, em boa parte, falta criar.

 

O caminho faz-se em frente, em direção ao progresso - não se faz voltando para trás, regressando ao passado de Salazar.

 

(*) A começar pelo invariável Nuno Crato, que, apesar da sua relativa juventude, teima em fazer o lamentável papel de Velho do Restelo.