Educação

Posts sobre Educação.
Retrato de Miguel Duarte

No seguimento da polémica "Dá-me o Telemóvel", eis um artigo na Newscientist , sobre o comportamento violento.

Basicamente, não é nada que já não se soubesse, mas nunca é demais afirmar. Basicamente, o comportamento violento de uma criança pode ser gerado por falta de apoio emocional, abrigo, alimento, etc., durante os primeiros dois anos de vida. Estrague-se a primeira infância de alguém e provavelmente está-se a estragar piscológicamente um ser humano para a vida.

As implicações disto são profundas, principalmente numa sociedade como a nossa, onde actualmente, muitas mães e pais não têm exactamente tempo e recursos financeiros para dar a atenção devida aos seus filhos.

PS: Outros estudos já indicavam também que o abuso verbal na primeira infância leva a uma diminuição das capacidades cognitivas e de linguagem.

Intervenção da Prof. Isabel Fevereiro no programa "Prós e contras", da qual aplaudo...

Parte 1

Parte 2

Agora que a poeira já assentou, coloco aqui o excerto de uma intervenção para o programa Vidas Alternativas, em que dou a minha opinião sobre o caso da aluna, da professora e do telemóvel. Não me pronuncio sobre as atitudes da aluna e da professora, mas sim sobre o papel dos meios de comunicação social neste caso.


powered by ODEO

Retrato de Luís Lavoura

Continuam a dar brado as imagens que foram divulgadas de uma aluna do secundário em discussão violenta com uma professora a propósito de um telemóvel.

Infelizmente, nas discussões e nas tomadas de posição que têm vindo a público, foca-se invariavelmente a indisciplina por parte da aluna e dos alunos, sem procurar ver as coisas de forma minimamente equilibrada.

É normal alunos com esta idade, a idade em que as glândulas sexuais andam hiperativas, desrespeitarem os professores. Eu próprio, que fui sempre um excelente aluno do ponto de vista técnico-científico, fartei-me de cometer desrespeitos aos professores e de perturbar o decorrer das aulas, ou de colaborar com colegas que praticavam tais coisas, quando era aluno do secundário. Não se pode julgar o comportamento de miúdos de 15 anos de acordo com os mesmos critérios que se usam para adultos de 45. É normal, se bem que indesejável e criticável, que miúdos de 15 anos cometam diversos atos de indisciplina escolar, passando inclusivé por tentativas de agressão a professores. Por exemplo, lembro-me de uma vez eu ter colaborado numa "brincadeira" que consistiu em colocar pequenos alfinetes, com a ponta virada para cima, na cadeira da professora, para que ela se picasse toda quando se sentasse (felizmente ela notou, pelos risinhos prevalecentes na turma quando ela se ia a sentar, que havia marosca, olhou para a cadeira e percebeu o que lhe tínhamos preparado).

É preciso também notar que o telemóvel é hoje, para uma adolescente, mais ou menos aquilo que o diário íntimo era para uma adolescente de há um século atrás. As adolescentes de hoje passam a vida agarradas ao telemóvel, a receber e enviar SMSs para os amigos e namorados, e a rascunhar outros SMSs que nunca chegam a enviar. O telemóvel contem os nomes e contactos de todos esses amigos, e tem gravadas as "conversas" via SMS que a jovem com eles realizou ou pretendeu realizar. É normal que uma jovem de hoje veja a confiscação do seu telemóvel com a mesma preocupação que levantaria, há um século atrás, a violação de um diário. Na cabeça da aluna, a apreensão do telemóvel pela professora poderia incluir por parte desta, mais tarde, a devassa da vida íntima da aluna. Isto poderá ajudar a explicar - juntamente com as tais gónadas hiperativas - o comportamento da aluna.

Um terceiro ponto que convem focar é que um professor que se quer dar ao respeito não pode cair na asneira de entrar em confronto físico com um aluno. É preciso afirmar claramente que a professora, neste caso, agiu (quase) tão mal como a aluna. A professora, literalmente, engalfinhou-se com a aluna, procurando fisicamente impedir que ela alcançasse o seu telemóvel. É claro que uma tal atuação, da parte da professora, só poderia estimular ainda mais a aluna para a luta, e os colegas todos para o gozo da situação. Uma professora que se queira dar ao respeito não pode estar a retirar ao aluno um seu objeto pessoal e até íntimo - como é o telemóvel - e depois a lutar ativamente contra o aluno procurando impedir que ele recupere esse objeto.

P.S. No mesmo sentido deste post, leia-se isto.

Retrato de Igor Caldeira

Sem comentários. E ainda vamos a ver se a professora não é punida.

Retrato de Luís Lavoura

Transcrevo um interessante comentário do blogger João Campos, que pode ser encontrado aqui:

"O sistema [de cheque-ensino}, na teoria agrada-me. Permite manter um sistema público de educação, enquanto força os pais a tomarem um lugar na educação dos seus filhos (lugar do qual se têm vindo a demitir) e obriga as escolas a funcionarem num modelo que, creio, só premiará a exigência e o mérito - qualidades das quais a escola pública portuguesa está actualmente deficitária.

No entanto, na prática a ideia do cheque-ensino suscita-me algumas dúvidas. Não tenho dúvidas de que em áreas urbanas teria tudo para dar certo; já quanto ao interior, tenho algumas reservas. Dou o exemplo do concelho onde nasci, Odemira:

Se é verdade que existem várias escolas básicas no concelho (Odemira, Sabóia, Colos, S. Teotónio), não é menos verdade que a rede de transportes existente no concelho não permitiria, actualmente, uma efectiva escolha: as famílias residentes em Odemira poderiam escolher a escola dos seus filhos, mas os residentes de Colos ou Sabóia não poderiam fazê-lo com recurso à rede de transportes públicos.

No concelho apenas existe uma escola secundária, na vila de Odemira. Uma vez mais, dados os transportes (e as distâncias), a escolha entre escolas secundárias de concelhos da região seria muito complicada. E mesmo a própria escola secundária em Odemira poderia estar ameaçada. Actualmente, a escola secundária de Odemira recebe todos os alunos do concelho que desejam prosseguir estudos no secundário. Imaginemos que essa quantidade de alunos, com os respectivos cheques-ensino, não é suficiente para o orçamento de que a escola necessita para funcionar com qualidade, escolhendo os melhores professores, equipando-se convenientemente para proporcionar aos alunos um ensino de qualidade, etc. A solução não poderia passar, creio, pela abertura de uma segunda escola secundária em concorrência à primeira - visto a população escolar não ser suficiente sequer para a manutenção com qualidade de uma. Como resolver este caso? Distribuindo os alunos por Ourique, Santiago do Cacém, Aljezur e Monchique, obrigando-os a largas dezenas de quilómetros por dia? Se sim, com que transportes?

Note-se que, mesmo para os alunos do concelho, a deslocação para estudar em Odemira já é complicada: os horários e as turmas da escola são feitos em função dos transportes; alunos como eu, no meu tempo, nunca poderiam começar o dia de aulas às 8h30, uma vez que nos era impossível estar em Odemira a essa hora. Residindo na aldeia de Sabóia, tinha de acordar todos os dias por volta das 7h30 da manhã (mais ou menos) para apanhar o (único) autocarro para Odemira, às 8h30. Chegava a Odemira, entre as 9h15 e as 9h20. Se saísse às 13h00, poderia apanhar um autocarro para voltar para casa (que, por fazer outro itenerário, demorava mais de uma hora); isso, porém, raramente acontecia, tendo apenas transporte para regressar às 18h30. Ou seja, passava doze horas por dia fora de casa. Isto já foi há alguns anos, mas a situação mantém-se.

Menciono Odemira, que é a minha terra, mas provavelmente o exemplo pode ser aplicado a muitas outras áreas do interior do país. Como poderia então o cheque-ensino, por si só, promover a qualidade do ensino em áreas como esta?"

Em resposta, escrevi eu:

"Grande parte das teorias liberais assentam na possibilidade da existência de um mercado, isto é, de muitas opções, com concorrência efetiva entre elas.

Infelizmente, em muitos casos, nomeadamente em terras pequenas, o mercado não existe nem pode existir, porque a procura é tão pequena que não dá para sustentar mais do que um estabelecimento. Isto não se aplica só às escolas [...]

Em terras como essas, é necessário o Estado intervir para impôr padrões mínimos de qualidade aos estabelecimentos existentes, pois que não há pressão da concorrência para o fazer."

Retrato de Luís Lavoura

Tirado daqui:

"Correia de Campos já faz parte da história e agora as manifestações [...] são dirigidas contra Maria de Lurdes Rodrigues. [...] A verdade é que muitos professores e muitos dos seus familiares não gostam que lhes mexam com a vida.

São anos e anos em auto-gestão. Com professores a faltar e os alunos a gozar o furo sem nada aprender e nada fazer. As aulas de substituição são já um dado adquirido, mas há bem pouco tempo havia gritos sindicais, atrás de gritos sindicais, contra a blasfémia ministerial.

Aliás, até uma boa medida como a estabilidade na colocação dos professores mereceu criticas dos sindicatos. Sempre que se pede aos professores que se adaptem ao novo mundo, pode até acontecer que a maioria dos docentes esteja disponivel para a mudança, mas os sindicatos é que não estão, nem estarão, para aí virados.

Sobre a mais recente polémica com a avaliação dos professores, a maioria dos que são bons está a favor e não quer mais adiamentos provocados pela desculpa de que o sistema não é perfeito. É aqui que os sindicatos devem começar a mudar. Se a avaliação é absolutamente necessária, e é, se os sindicatos não concordam com o método, e não concordam, devem apresentar o método que na sua opinião mais se aproxima da perfeição. Ou seja, fazer parte da solução e não do problema.

[...]

Mas talvez fizesse bem aos sindicatos olhar para a sondagem, divulgada ontem pela SIC, em que os portugueses aparecem a dizer que a educação melhorou.

Esperemos que esta pré-campanha eleitoral fora de tempo - falta mais de um ano para as legislativas - não faça a oposição e os sindicatos serem do contra por ser contra, nem o Governo recuar à procura de votos. Para bem do país, avaliem os professores. Mesmo com um método imperfeito."

Retrato de Luís Lavoura

Faz-me deveras impressão ver o PSD, agora acompanhado, ainda por cima, por alguns bloggers da área liberal, como por exemplo o João Miranda e o André Azevedo Alves, a aliar-se aos professores como forma de combater o governo Sócrates.

Para já, estar-se a aliar a um tipo nojento como o Mário Nogueira, fiel assalariado do PCP com bigodinho à portuguesa, destacado pelo Partido para tomar conta do sindicato dos professores, é uma aliança muito dúbia. Mas enfim, se a causa fosse boa, eu ainda engoliria essa.

O pior, é que é para mim óbvio que a luta dos professores é uma luta retrógrada, reacionária e injusta.

Os professores batem-se por duas coisas. Primeiro, contra os critérios de avaliação dos professores. Isso estaria talvez bem, se antes eles não se tivessem batido contra a própria avaliação. O que os professores queriam, a sua luta, era que houvesse uma "avaliação" na qual todos os professores pudessem receber a classificação máxima. Uma "avaliação" na qual não houvesse classificação nem ordenamento, uma "avaliação" em que todos fossem identificados como tendo igual mérito. Foi essa a luta dos professores. Descredibilizaram-se com ela.

A outra coisa pela qual os professores se batem é por continuarem a ser eles quem manda nas escolas. Essa luta poderia ter alguns elementos de justiça, se não fosse os professores esquecerem-se sistematicamente que a escola não lhes pertence a eles nem é paga por eles. A escola pública foi criada pelo Estado e é paga pelo Estado, logo, é normal (para o bem ou para o mal) que seja o Estado quem nela manda. (Evidentemente que o desejável é que o Estado mande na escola em função do bem da comunidade e da sociedade como um todo.) Os professores recusam-se a entender que a escola estatal deve, mesmo no entendimento de um Estado socialista, pertencer ao povo - não aos seus funcionários. A autonomia escolar pela qual os professores parecem bater-se é: os professores mandam na escola a seu bel-prazer, e o Estado paga a fatura. Ora, isto não é correto - nem mesmo no entendimento de um Estado social-democrata.

Faz-me verdadeira confusão que, num acesso do mais puro oportunismo, a oposição do PSD, e de alguns bloggers que se dizem liberais, ao atual governo, decida aliar-se a tais causas.

As últimas mortes na noite do Porto levam a que a criminalidade esteja na ordem do dia da agenda politica nacional.
De um lado (CDS) culpa-se o governo por cortar na policia, do outro lado (PS) prometem-se a abertura de novos cursos para a PSP e GNR para o combate da criminalidade, existindo ainda aqueles (Câmara Municipal do Porto) que vêm na videovigilância em locais públicos a solução milagrosa para este problema.
Todos são coniventes no método de combate à criminalidade, mais policias, mais vigilância, mais formas de actuar a jusante.
Pois eu digo que o problema tem de ser combatido a montante.
Ninguém nasce a saber falar, ninguém nasce a saber andar, também ninguém nasce criminoso. A verdadeiras perguntas são: como se formam e formaram os marginais hoje? O que foi feito no sistema educativo para combater a marginalização? Que medidas foram tomadas para combater a secreção social, racial e económica existente no sistema educativo? Que politicas de inclusão?
Em síntese o que falhou na formação destes cidadãos e também o que aconteceu a nível social para que estes se tornassem criminosos?
Só respondendo a estas questões podemos desenhar politicas educativas e sociais para combater o problema da criminalidade.
Poupe-se nos policias, invista-se na educação.

Retrato de Miguel Duarte

Era uma vez uma professora da primária que dava aulas numa escola e que se chamava Gibbons. Uma escola especial, num país muçulmano, onde meninos ocidentais não muçulmanos conviviam com meninos muçulmanos e eram felizes, muito felizes. Neste país longe, muito longe, chamado Sudão, a professora, um dia, decidiu pedir a uma aluna para trazer o seu ursinho e pediu aos meninos e meninas para decidir entre si qual o nome que o ursinho deveria ter.

Vinte dos vinte e três meninos e meninas decidiram, democraticamente, que o ursinho se devia chamar Maomé. Não sabemos porque escolheram esse nome, mas talvez fosse porque esse era um nome muito comum no seu país e alguns dos meninos tinham esse nome.

A professora respeitou a escolha dos seus alunos e pediu, a cada um deles, para levar sucessivamente o ursinho para casa durante o fim-de-semana e para escrever um diário sobre o que fizeram com o ursinho Maomé. No fim, o objectivo era fazer um livro com os diários dos meninos, o título seria "O Meu Nome é Maomé".

No entanto nesse país longe, muito longe, viviam vários homens maus, sendo que um deles era pai de um dos meninos. Assim que viu o que estava a acontecer e porque era inseguro, muito, muito inseguro, relativamente à sua religião, decidiu apresentar queixa na polícia. Esse homem mau disse à polícia que a senhora professora estava a brincar com o seu profeta, que por acaso também tinha o mesmo nome do ursinho.

Assim que isso aconteceu, outros homens maus juntaram-se a ele e decidiram fazer mal à professora. A professora foi então presa e sujeita a julgamento, de acordo com uma lei que os homens maus criaram e que se chama Charia. Essa lei é muito má, pois é usada para justificar a discriminação das meninas, para fazer maldades às pessoas que não a respeitam ou que não são muçulmanas e até para reduzir a liberdade das pessoas.

No julgamento, o juiz, que também era um homem mau, não quis distinguir entre alguém que queria brincar com o seu profeta e alguém que simplesmente tinha respeitado a vontade dos seus alunos. Decidiu então o juiz condenar a professora Gibbons a 15 dias de prisão e à expulsão do país longínquo. Fazendo a professora muito, muito triste e os meninos e meninas também muito, muito tristes.

O ursinho, esse, também ficou muito triste, pois teve que mudar de nome.