Ambiente

Retrato de Luís Lavoura

Em Viseu a água para a rede pública é transportada em autotanques. (Em muitas outras cidades e vilas do país a mesma coisa está a ser feita, só que não se fala disso para não se dar má fama a essas cidades e vilas. Mértola já está a ser abastecida por autotanques há muito mais meses que Viseu.) Isso custa um ror de dinheiro às autarquias. Mas a população continua a ser autorizada a gastar água à sua vontade. Não há racionamento nem aumento de preço da água, apesar do enorme custo que as autarquias suportam com o transporte dela.

Em tempo de seca, mandaria a mais elementar racionalidade económica e ambiental que se aumentasse o preço da água - para o dobro, para o triplo, para o que fosse necessário. Mas em Portugal há a ideia de que a água é um bem público que deve ser tendencialmente gratuito (e que deve ter o mesmo preço em todos os pontos do país). Por isso, a população não tem qualquer verdadeiro estímulo para poupar água. Os autotanques que servem Viseu podem custar muito à autarquia, mas os viseenses podem continuar a gastar água à vontade sem olhar ao seu custo.

Retrato de Luís Lavoura

Portugal já está em seca há muitos meses. Mas durante esses meses todos quase que não se falou da seca no espaço mediático. Subitamente, em outubro começou-se a falar muito da seca (e atualmente fala-se dela todos os dias). Porquê? Porque em outubro acabou a necessidade de utilizar água para irrigação na agricultura (isto é, efetuaram-se as últimas colheiras e terminou o ano agrícola), pelo que já não se tem que considerar a medida verdadeiramente eficaz - interromper o fornecimento de água à agricultura.

É que, em Portugal 80% da água é gasta na agricultura. Pelo que, se se quer enfrentar eficazmente uma seca, a mais importante medida deveria ser eliminar o gasto de água na agricultura. Mas essa é uma medida muito dura, que eliminaria todo um importante setor económico e da qual portanto os governantes não querem que se fale. Por esse motivo, só se começa a discutir verdadeiramente o problema da seca quando o ano agrícola já acabou, ou seja, quando já foi gasta a imensa maior parte da água que teria sido preciso poupar.

Retrato de Luís Lavoura

Transcrevo partes de um post de Vital Moreira que me parece muito pertinente: "a responsabilidade dos municípios [nos incêndios florestais] é grande e é indesmentível. Quem faz o planeamento da ocupação territorial são os municípios no seu plano diretor municipal, incluindo a localização de zonas industriais rodeadas de matas (algumas das quais arderam), sendo também os municípios que irresponsavelmente licenciam edificações isoladas no meio de pinhais e eucaliptais, que foram vitimas dos incêndios. Grande parte das estradas sem bermas limpas são estradas municipais. São os municípios que têm a obrigação legal de fazer cumprir a distância legal de segurança das matas em relação a habitações, obrigação que em geral não cumprem."

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Em entrevista à Antena 1, o deputado do PAN André Silva diz que é inadmissível que continue a haver fábricas que têm, a um palmo de distâcia da parede da fábrica, eucaliptos. Ele diz que tem no telemóvel dele fotografias de casos desses, e eu acredito. Mais: confesso que eu próprio sou proprietário de um eucaliptal que tem, a poucos palmos de distância, a parede de uma antiga fábrica (que já fechou, mas podia até não ter fechado).

O deputado André Silva tem toda a razão, mas a pergunta que se põe é: é a fábrica que deve ser encerrada, ou são os eucaliptos que devem ser cortados? A resposta não é nada evidente...

Entendamos a origem do problema. Até há poucos anos, qualquer um instalava uma fábrica ou oficina em qualquer terreno que possuísse. Da mesma forma, qualquer um plantava um eucaliptal num qualquer terreno que possuísse. Cada um podia, ao fim e ao cabo, fazer o bem lhe aprouvesse com a sua propriedade. Assim, o meu pai plantou um eucaliptal numa sua propriedade, e um seu vizinho instalou uma fábrica na propriedade dele; ficaram a fábrica e o eucaliptal encostados um ao outro.

Hoje em dia já não é assim. As pessoas hoje em dia só podem instalar fábricas nos parques industriais devidamente infraestruturados por cada concelho. Mas, em matéria de habitação, o mesmo princípio continua a prevalecer: se uma pessoa possui um terreno em zona urbanizável, então é livre de construir nele uma moradia, sem ter em conta que na vizinhança muito próxima desse terreno pode haver um outro no qual haja uma plantação de eucaliptos. Finda a construção da moradia, o seu proprietário adquire o direito de ir mandar vir com o proprietário dos eucaliptos, dizendo-lhe que eles estão muito perto da moradia e que portanto têm que ter o mato limpo. Ou seja: o proprietário da moradia impõe custos económicos a um vizinho que nada tem a ver com a moradia.

Qual a solução, deputado André Silva? Não sei. São os eucaliptos que estão plantados onde não devem, ou são as fábricas que estão instaladas onde não devem? Ou são ambas as coisas? E, como é admissível que um pessoa possa construir uma moradia sem que seja proprietária de todos os terrenos que se situam na periferia de segurança - ou seja, no raio de 50 metros para todos os lados - dessa moradia? Como pode o proprietário de uma moradia ir exigir que todos os proprietários da vizinhança suportem os custos inerentes a limpar os seus terrenos, apenas para segurança e usufruto dessa moradia?

Retrato de Luís Lavoura

O Presidente da República dá ao governo um prazo de dois anos para resolver o problema dos incêndios florestais.

Mas não se preocupe o Presidente: como no ano passado e neste ardeu praticamente tudo o que havia para arder, temos agora pela frente uma meia dúzia de anos em que arderá muito pouco. Pelo que, daqui a dois anos o problema dos incêndios estará, evidentemente, resolvido. Só voltará a deixar de o estar daqui a uns dez ou doze anos, quando poderemos esperar fogos ainda maiores que os deste ano.

(Os grandes fogos anteriores a 2016 e 2017 foram em 2003 e 2005 - dez a doze anos antes.)

Retrato de Luís Lavoura

O que me causa repulsa agora, que toda a gente fala dos incêndios e dá sentenças sobre o que deveria ser feito para acabar com eles, é o fraquíssimo conhecimento que a imensa maior parte dessa gente tem do mundo rural português e, sobretudo, da sua economia.

A sentença mais frequente e óbvia é que "os proprietários devem ser obrigados a limpar o mato das suas propriedades". Isso está muito bem, mas quem passa esta sentença deve julgar que a limpeza do mato é muito barata, que os proprietários são todos uns ricaços, que as propriedades lhes dão enormes lucros, e que portanto pouco lhes custa gastar uma pequena parte desses chorudos lucros na limpeza do mato.

Ora, tudo isto é em geral falso. A maior parte dos proprietários são pessoas comuns, pequenos burgueses que vivem nas cidades e que ganham pequenos salários. As propriedades rurais dão, na zona de minifúndio, lucros mínimos ou nulos. E a limpeza do mato dá muito trabalho, gasta muita gasolina (se fôr feita com motorroçadora) ou gasóleo (se fôr feita com trator), e fica muito cara. Ainda pior, dado que muita da gente que agora habita o mundo rural não tem capacidade física para efetuar a limpeza (que é trabalho duro), os proprietários teriam que se deslocar das cidades para as suas propriedades rurais para fazerem eles próprios a limpeza, o que também custa muito dinheiro e tempo.

Em conclusão, essa sentença "os proprietários que limpem os seus terrenos" é muito justa, mas economicamente inviável.

Retrato de Luís Lavoura

Muito barulho político foi feito em Portugal a propósito dos incêndios deste verão, especialmente o de Pedrógão Grande, onde 64 pessoas morreram.

Agora, na Califórnia, supostamente um dos Estados mais ricos do planeta, fogos devastam (em outubro!) zonas residenciais inteiras, muitas centenas de casas são destruídas, e as autoridades dizem que pelo menos 17 pessoas (mas provavelmente mais!) morreram.

Felizmente, em Portugal ardem mais eucaliptos do que casas.

Retrato de Luís Lavoura

No passado sábado, cerca das 7:30 da manhã, eu estava em Cascais, quando comecei a ouvir na rua, pela janela aberta, um estranho crepitar. Fui à varanda e, com espanto, vi um incêndio, ainda numa fase muito inicial, num lote abandonado de terreno, coberto de erva alta e seca, que há junto ao prédio.

Naquela manhã bem fresca, mas soalheira, não havia qualquer causa natural para a ignição.

Na rua não se via vivalma, embora não seja raro haver, por ali, pessoas a passear cães àquela hora.

A ignição foi de causa humana, sem dúvidas. Mas o que poderá ter sido? Fogo posto? Um cigarro mal apagado atirado da janela de um dos prédios em volta? Um cigarro mal apagado atirado por alguém que estava a passear o cão?

Retrato de Luís Lavoura

Chegou a chuva! Aleluia, aleluia, que tanta falta tem feito!!!

Retrato de Luís Lavoura

Os incêndios são consequência direta do abandono da agricultura de subsistência que se praticava em Portugal até à década de 1960.

Até essa década Portugal era muito densamente povoado e os portugueses ganhavam o pão-nosso-de-cada-dia cultivando batatas, trigo, centeio e milho. Trata-se de culturas anuais que exigem limpeza intensiva dos campos. Em junho e julho as batatas e o trigo são apanhados e só fica nos campos o restolho; o milho só é apanhado em setembro, mas só ocorre em terras bem irrigadas e frescas. Os campos cultivados com estas culturas anuais estão sempre limpos e não ardem.

A partir da década de 1960 a agricultura de subsistência foi abandonada. As pessoas passaram a ganhar a vida nas cidades ou no estrangeiro. Os campos que antes serviam para cultivar batatas e cereais passaram a ser ocupados, ou com floresta ou com culturas perenes, como vinhas ou olivais, que não são tão intensamente tratados  e que ardem.

Continua a não haver incêndios no Alentejo, uma vez que este continua em grande parte a ser objeto de agricultura (e de pastoreio, que retira das terras as ervas que mais facilmente ardem).

Os incêndios são uma consequência do abandono da agropecuária de subsistência. É difícil ver como é que se pode, no nosso clima, acabar com os incêndios sem que haja quem cultive os campos. E o problema é que cultivar os campos, que em Portugal são montanhosos (Portugal é um país extraordinariamente montanhoso por padrões europeus) e de solos pobres, não é economicamente competitivo.

Não vale a pena comparar Portugal com outros países do sul da Europa. Na Europa do sul costuma chover mesmo no verão, e o Mediterrâneo assegura que o ar é muito húmido. Espanha não é assim, mas Espanha é um planalto com boas terras agrícolas: grande parte de Espanha é uma imensa seara de trigo.