Ambiente

Retrato de Luís Lavoura

No passado sábado, cerca das 7:30 da manhã, eu estava em Cascais, quando comecei a ouvir na rua, pela janela aberta, um estranho crepitar. Fui à varanda e, com espanto, vi um incêndio, ainda numa fase muito inicial, num lote abandonado de terreno, coberto de erva alta e seca, que há junto ao prédio.

Naquela manhã bem fresca, mas soalheira, não havia qualquer causa natural para a ignição.

Na rua não se via vivalma, embora não seja raro haver, por ali, pessoas a passear cães àquela hora.

A ignição foi de causa humana, sem dúvidas. Mas o que poderá ter sido? Fogo posto? Um cigarro mal apagado atirado da janela de um dos prédios em volta? Um cigarro mal apagado atirado por alguém que estava a passear o cão?

Retrato de Luís Lavoura

Chegou a chuva! Aleluia, aleluia, que tanta falta tem feito!!!

Retrato de Luís Lavoura

Os incêndios são consequência direta do abandono da agricultura de subsistência que se praticava em Portugal até à década de 1960.

Até essa década Portugal era muito densamente povoado e os portugueses ganhavam o pão-nosso-de-cada-dia cultivando batatas, trigo, centeio e milho. Trata-se de culturas anuais que exigem limpeza intensiva dos campos. Em junho e julho as batatas e o trigo são apanhados e só fica nos campos o restolho; o milho só é apanhado em setembro, mas só ocorre em terras bem irrigadas e frescas. Os campos cultivados com estas culturas anuais estão sempre limpos e não ardem.

A partir da década de 1960 a agricultura de subsistência foi abandonada. As pessoas passaram a ganhar a vida nas cidades ou no estrangeiro. Os campos que antes serviam para cultivar batatas e cereais passaram a ser ocupados, ou com floresta ou com culturas perenes, como vinhas ou olivais, que não são tão intensamente tratados  e que ardem.

Continua a não haver incêndios no Alentejo, uma vez que este continua em grande parte a ser objeto de agricultura (e de pastoreio, que retira das terras as ervas que mais facilmente ardem).

Os incêndios são uma consequência do abandono da agropecuária de subsistência. É difícil ver como é que se pode, no nosso clima, acabar com os incêndios sem que haja quem cultive os campos. E o problema é que cultivar os campos, que em Portugal são montanhosos (Portugal é um país extraordinariamente montanhoso por padrões europeus) e de solos pobres, não é economicamente competitivo.

Não vale a pena comparar Portugal com outros países do sul da Europa. Na Europa do sul costuma chover mesmo no verão, e o Mediterrâneo assegura que o ar é muito húmido. Espanha não é assim, mas Espanha é um planalto com boas terras agrícolas: grande parte de Espanha é uma imensa seara de trigo.

Retrato de Luís Lavoura

Há 40 anos que em Portugal há centenas de incêndios florestais pequenos, médios, grandes e enormes.

Nessas centenas todas de incêndios florestais, praticamente nunca houve vítimas civis. Quando muito, em casos esporádicos houve uma ou duas vítimas civis (isto é, excluindo os bombeiros).

Mesmo no incêndio de Pedrógão Grande, que foi enorme e durou três dias, as muitas vítimas civis ocorreram todas apenas num curto período de tempo, talvez de uma hora ou duas, a meio do incêndio, isto é, cinco horas depois de ele se ter iniciado.

Estes dois factos - a excecionalidade da ocorrência de vítimas civis no incêndio de Pedrógão Grande, e o facto de essas vítimas terem ocorrido apenas numa pequena parte desse incêndio - apontam claramente para uma qualquer circunstância muitíssimo excecional que ocorreu durante um curto período de tempo nesse incêndio, e que causou todas essas vítimas.

Ou seja, baseado apenas nestes dois factos, eu deduzo que as vítimas civis em Pedrógão Grande não foram causadas por qualquer falha humana, mas sim por uma circunstância, climática ou outra, muito exceceional que fez com que este incêndio, num local e numa hora determinados, tivesse tido um comportamento imprevisivelmente agressivo.

Retrato de Luís Lavoura

De quem é a culpa das mortes no grande incêndio do Pinhal Interior?

É impossível evitar que raios provoquem fogos. É impossível evitar que fogos se propaguem rapidamente, sob condições de alta temperatura e ventos fortes. E é impossível combater eficazmente e rapidamente tais fogos. Portanto, aí não está a culpa. Quem não acreditar no que aqui digo, que veja o exemplo dos EUA ou da Austrália, onde fogos similares a este ocorrem todos os anos.

Os fogos podem ter muito menores consequências se a matéria orgânica pronta a arder fôr pouca. Isso exige limpeza das matas, criação de corta-fogos, e fomento de espécies arbóreas folhosas. Mas tudo isso dá prejuízo direto aos proprietários rurais. A limpeza das matas custa (muito) dinheiro. Os corta-fogos são terra sem árvores, e portanto improdutiva. As espécies folhosas são de crescimento muito lento e portanto só dão algum dinheiro a muito longo prazo (50 anos). Nenhum proprietário florestal em regime de minifúndio pode pôr em prática tais medidas, sob pena de perder o pouco lucro que a floresta pode dar. Só uma gestão conjunta de grandes áreas (centenas ou milhares de hectares) florestais permite pôr em prática, de forma economicamente viável, tais medidas.

Portanto, a culpa da violência dos fogos em Portugal é, em grande parte, do minifúndio.

Mas a culpa das mortes que houve no Pinhal Interior é também, em grande parte, das minialdeias - povoações de menos de 50 habitantes, espalhadas pelo meio do pinhal. Não há forma rentável de criar grandes espaços limpos de vegetação à volta de cada uma dessas pequenas povoações; nem há forma fácil de acudir a cada uma delas no caso de um grande fogo. E foi isso que aconteceu neste incêndio: minialdeias viram-se cercadas pelo fogo, e as estradas que as elas acedem, idem.

O combate aos incêndios florestais não requer somente a eliminação do minifúndio - ele exige também a eliminação das minialdeias. Os habitantes delas devem ser mais ou menos forçados a deslocarem-se para as vilas. As aldeias isoladas no meio dos pinhais têm que ser eliminadas. Como se fez em Espanha.

Retrato de Luís Lavoura

Há quem afirme que os eucaliptos ardem "como pólvora" e que são eles os responsáveis pela grande extensão de área ardida. Mas eu possuo dois eucaliptais nas fraldas da serra do Caramulo, que este ano arderam (tive dezenas de milhares de euros de prejuízo). E, visitando a área ardida, que verifiquei? Que os eucaliptos não arderam, nem como pólvora nem como coisa nenhuma - aquilo que ardeu foram os matos que cresciam por baixo deles (e que nem eram muitos, porque eu tivera o cuidado de limpar esses matos ainda recentemente). O mato ardeu e os eucaliptos ficaram chamuscados, mas não arderam. O fogo passou, célere, pelas propriedades, queimando o mato todo mas não chegando a pegar às árvores.

O mesmo aconteceu nos dois grandes incêndios que em anos passados varreram a serra algarvia: o mato ardeu, mas os sobreiros não. Os sobreiros permanecem vivos, apenas o mato por baixo deles ardeu.

O maior problema dos fogos em Portugal não são as árvores, carvalhos ou sobreiros ou eucaliptos ou pinheiros. As árvores muitas vezes não chegam a arder. O maior problema é o mato que, esse sim, arde como pólvora.

Retrato de Luís Lavoura

O Sporting, ordeiro e bem-educado, prepara-se para, caso ganhe o campeonato, festejar no seu estádio, pagando os custos do seu policiamento e não causando grande incómodo à vizinhança.

Mas o Benfica, rufia e arrogante, não aceita fazer o mesmo. Exige festejar no meio da cidade, perturbando a circulação automóvel e o sono de milhares de cidadãos - que no dia seguinte têm de ir trabalhar. Ainda por cima, não quer pagar o policiamento suplementar que tal solução inevitavelmente exige. E a Câmara Municipal de Lisboa vai-se curvar. Vai ser conivente em mais uma grosseira e ordinária violação da lei do ruído, como foi no ano passado. Vai permitir que sejam instaladas na Rotunda poderosas aparelhagens sonoras, com as quais os benfiquistas infernizarão a noite dos cidadãos até à hora que lhes apetecer. Porque o Benfica é a Pátria e ninguém tem o direito de dormir quando a Pátria festeja.

Fernando Medina pode ter a certeza de que não votarei nele no próximo ano se voltar a ser conivente com a, e cúmplice da, violação à lei como foi no ano passado.

Retrato de Luís Lavoura

Ontem houve cheia em Albufeira.

Agora querem que o Estado ajude.

Mas o Estado não tem nada que ajudar, porque a cheia era expetável e quem se coloca naquele lugar sabe que, mais tarde ou mais cedo, vai ficar sem os seus haveres.

Albufeira foi construída pelos árabes, recorde-se, numa encosta. É lá que está a maior parte das casas. A Baixa é uma zona predominantemente turística. Quem, por sua comodidade e para obter maior lucro, coloca a sua loja na Baixa, deve saber que, mais ano menos ano, essa loja ficará inundada.

A baixa de Albufeira situa-se entre dois morros, um a leste e outro a oeste. A norte tem mais morros, embora menos escarpados. É evidente que, quando chove muito, toda a água que escorre dos morros confluirá para a Baixa.

Para piorar a situação, a Baixa foi pavimentada com um agradável pavimento muito lisinho, bom para os peões e também para a água. É evidente que, chegada àquele pavimento, impermeável e liso, a água adquire velocidade em direção ao mar. E leva tudo à sua frente.

Houve uma cheia em setembro de 2008. As pessoas estavam avisadas. A Câmara já tinha visto uma cheia e sabia que, mais ano menos ano, outra ocorreria.

E que fez a Câmara, de 2008 para cá? Pavimentou mais um bom pedaço da praia dos Pescadores. Uma zona que era de areia foi pavimentada para que nela os turistas pudessem passear de Segway. É claro que, quanto mais pavimentação, mais depressa a água escorre.

Agora querem que o Estado ajude. Mas o Estado não tem nada que estar a ajudar o turismo e quem dele lucra.

Retrato de Luís Lavoura

Parece claro que a introdução de um imposto especial sobre os sacos de plástico foi um sucesso do ponto de vista ambiental (do ponto de vista fiscal nem por isso, mas esse ponto de vista é, em minha opinião, secundário): grande parte das pessoas utilizam hoje sacos reutilizáveis, ou carrinhos, quando fazem compras. A praga dos sacos de plástico foi grandemente diminuída.

Seria em minha opinião de tomar medidas similares - a introdução de impostos especiais - sobre outros artigos de "usar e deitar fora", nomeadamente pratos, talheres e copos de plástico flexível e não reutilizável. Todos esses artigos têm equivalentes reutilizáveis e constituem uma fonte perfeitamente dispensável de lixo.

Retrato de Luís Lavoura

Eu acho muito bem que os adeptos do Benfica festejem na Rotunda o campeonato ganho.

Mas questiono: os festejos não podem ser constituídos apenas pelos adeptos (e jogadores, e dirigentes) do Benfica, ou seja, por seres humanos, deixando de ser acompanhados por uma aparelhagem sonora que, em níveis criminosamente altos, impede de dormir, até às duas da madrugada, as pessoas que, como eu, residem a menos de dois quilómetros da Rotunda?

Câmara Municipal de Lisboa: foi você quem deu autorização para que aquela aparelhagem sonora ali fosse instalada, e para que estivesse a debitar decibéis até altas horas da madrugada? É assim que se cumpre a lei que deveria proteger os cidadãos do ruído?