Ambiente

Se bem se lembram, as SCUT's demoraram cerca 3 anos a construir e tiveram um período de carência de pagamento de 7.
Pois bem, passada a festarola, aguarda-se a "continha" (é já a partir deste ano).

Em 2001, Ferro Rodrigues adiantava o valor de 12 mil milhões de euros, a pagar em trinta anos.
Já em 2003, o Tribunal de Contas, entre críticas veementes, falava em 15 mil milhões de euros.
Ao chegar a 2005, mudou de opinião, avançando com um custo estimativo total de 17 mil milhões de euros.

O actual governo prepara-se para tomar decisões sobre "obras de regime" que demorarão 15 anos a completar, que custarão certamente um balúrdio incontável de dinheiro a todos os accionistas heterovoluntariados, ainda não calculado adequadamente.
Nem tão pouco se pode ainda especular sobre o período de tempo em que a factura se vai apresentar à porta do "mistério" das finanças.

Perante este magnífico historial de contabilidade enronica, a sociedade civil vai-se queixando.
Num gesto que ainda consegue ser mais espantoso do que todo este contexto, o sr. ministro "acha" que tem toda a legitimidade para decidir, sem ligar a apelos da dita.

Caro Primeiro-Ministro,

Quando me começam a falar de seca, imagino logo uma filinha de tractores a 20-à-hora a caminho de Lisboa.

Para ser franco, nunca partilhei muito da dor dos agricultores. Ou melhor, lamento estarem irredutivelmente ligados a essa actividade. Bolo das lamentações, tentando quantificar o inquantificável:

- 33% culpa deles, já que o tempo sempre foi o que foi e a culpa não é de ninguém se crescer tomates não é rentável. Isto é o sec XXI, e a agricultura, do ponto de vista de actividade económica, não é mais especial do que um decorador de interiores ou um bancário.

- 17% culpa das circunstâncias, já que um agricultor típico (acho) tem idade para ser meu pai (até avô), com baixas qualificações. Não se reconverte estes agricultores assim tão facilmente,

- 50% fruto de políticas tipo PAC que vê na agricultura e afins uma tal nobreza e imprescindibilidade que justifica ser um buraco sem fundo para dinheiros públicos.

Normalmente a agricultura e afins é aquela poção mágica que mistura muitos temas quentes: ecológicos (o global warming, o buraco do ozono e a poluição), a globalização (o capitalismo selvagem e as temíveis políticas neo-liberais), a tradição e os recursos (quase) naturais de um país (Portugal cheio de mar tem de ter pescadores), etc.

A coisa gira é que está tudo ao contrário. Exemplos:

- O global warming nunca me convenceu muito para ser franco. Não digo que não exista (séculos de "urbanização" não podem ser inócuos) mas tb está muito longe de ser um dado aquirido. Já vi muita gente afirmar que o clima tem uma espécie de personalidade própria e sempre foi assim. Exigir constância ao clima e à temperatura chega a ser ridículo. Pelo meio, entre a influência humana e a indomabilidade da natureza, há-de haver um bom compromisso.

- a globalização. esta então é que foi virada ao contrário. Quem é contra ela (vejamos assim), esquece-se que, se não fossem medidas proteccionistas, muito provavelmente iríamos tirar muitos africanos da pobreza ao mesmo tempo que tinhamos alimentos mais baratos em casa.

- os pescadores elevados a património mundial. É muito giro ir à Nazaré ver barquinhos. Mas posso dar mais exemplos de outras coisas giras. Alguém me quer contratar para fazer uma lista de coisas giras?

A seca como quase tudo, não é boa nem é má. A seca é uma condição e a água é um recurso.

O contéudo desta notícia: http://dn.sapo.pt/2006/01/05/sociedade/tribunal_nega_indemnizar_contaminado.html

Que o estado gaste vários milhões de euros num sistema de saúde com o argumento que é a melhor forma de apoiar os necessitados (melhor não abordar os défices crónicos da estrutura médico-hospitalar).

Que um orgão do estado ilibe outro alegando desconhecimento de causa (tipo, não sabia que as pistolas têm balas, logo, não matei ninguém).

Que 20 anos depois, o processo ainda circule em tribunal (!!!...).

Que o estado não se atribua um critério mínimo de decência e respeito por um dos seus cidadãos (I rest my case).

Retrato de Luís Lavoura

Ouvi hoje de manhã na Antena 1 que a construção do novo Hospital Pediátrico de Coimbra, há longo tempo aguardada e há longo tempo em curso, está parada porque se descobriu que as fundações já construídas estão todas cheias de água. Parece que, literalmente, à medida que se despejava betão para as fundações esse betão se transformava em lama, devido à muita água existente no local. Segundo um entrevistado, a situação não era totalmente imprevista: sabia-se que no local escolhido para a construção passa uma ribeira subterrânea. A obra está parada e os decisores interrogam-se agora se será possível prossegui-la ou se, pelo contrário, se deverá recomeçar do zero, escolhendo um novo local (onde?) para instalar o Hospital Pediátrico - de que a cidade há muitos anos urgentemente necessita.

Esta história fez-me lembrar duas outras, melhor conhecidas, uma passada e outra futura. A história passada é a do túnel do metropolitano no Terreiro do Paço, em Lisboa. O malfadado túnel meteu água a jorros e está desde então em reparação. A versão atual é que abrirá em 2007. É melhor nem se falar do dinheiro que já se gastou com essa obra - a construção de um túnel no meio da água.

A história futura é mais grandiosa: o aeroporto da Ota. Não tem sido muito falado, mas pretende construir-se esse aeroporto numa zona onde atualmente passam duas ribeiras e que está atualmente parcialmente ocupada por um paul. Trata-se de uma zona baixa, por onde correm dois pequenos afluentes do Tejo, e alagadiça.

Veremos o que o futuro nos reserva. Adivinho o imbróglio que será quando se começar a construir as fundações do aeroporto e o betão se começar a liquefazer todo. Vai-nos custar os olhos da cara.

(Se por essa altura ainda tivermos olhos e cara.)

Retrato de Luís Lavoura

A Quercus divulga hoje um estudo segundo o qual as emissões de gases com efeito de estufa em Portugal aumentaram substancialmente durante o ano de 2005. A principal culpada foi a produção de eletricidade que, devido à seca, foi feita essencialmente em centrais térmicas, mediante a queima de combustíveis fósseis: gás natural (Carregado, Gondomar), fuelóleo (Setúbal), ou carvão (Abrantes). Pelo contrário, as emissões derivadas do transporte rodoviário diminuiram cerca de 2%, pois a alta dos preços dos carburantes conteve o consumo.

A pergunta que cabe fazer é, porque é que não se fez refletir também sobre o preço da eletricidade a elevação do preço do petróleo, o que teria certamente contido também as emissões derivadas da produção de eletricidade. As pessoas esforçaram-se por diminuir o seu consumo de carburantes rodoviários, dado que viram o seu preço a subir. Pelo contrário, uma vez que o preço da eletricidade não subiu, as pessoas não tiveram qualquer estímulo para diminuir o consumo dela.

De facto, a não subida do preço da eletricidade distorceu o mercado, em casos em que a eletricidade concorre com outras opções. Por exemplo, no aquecimento de uma casa pode-se usar um aquecedor elétrico, ou então a queima de gás natural ou gás de botija. O preço destes dois últimos aumentou substancialmente durante 2005, enquanto que o preço da eletricidade se manteve artificialmente constante. Houve pois uma distorção do mercado a favor da opção eletricidade - a qual é muito menos eficiente em termos energéticos, levando pois a maiores emissões de gases com efeito de estufa.

A política de fixação e não-oscilação do preço da eletricidade tem que acabar. O preço da eletricidade, tal como o de qualquer outo bem, deve oscilar livremente, de mês a mês, em função da situação de seca ou não seca e em função do preço dos combustíveis fósseis.

Retrato de Luís Lavoura

Enquanto nós aqui andamos entretidos a discutir o deficit do orçamento de Estado, o Japão -- cujo Estado tem um deficit quase tão grande como o do nosso -- anda mais preocupado com os problemas que potencialmente afetam, de facto, a vida da nação. O problema real, para o Japão, é o aumento do preço do petróleo. O primeiro-ministro do Japão é um tipo liberal e usa um corte de cabelo que lhe tem valido muitas críticas. Mas, em matérias sérias, o Japão usa o seu disciplinado estilo nacional: depois de, no Verão passado, ter lançado a campanha "no trabalho sem gravata" -- com o fim de se estar mais à fresca e, assim, não se precisar de pôr a temperatura do ar condicionado tão baixa -- neste Inverno o Japão leva a cabo a campanha "mais uma camisola", incentivando as pessoas a usar mais roupa por forma a que a temperatura do aquecimento possa ser regulada para um valor mais baixo.

O Japão não brinca em serviço. Tem uma economia muito mais eficiente em termos energéticos do que a Europa, mas já viu que não é suficiente. E disciplina é o forte dos nipónicos, mesmo que ideologicamente sejam liberais.

P.S. Eu por mim procuro nas lojas da especialidade um tecido bem grosso, mas 100% lã, para mandar fazer umas calças. No mercado não se encontam calças suficientemente quentes; ou são de algodão, que não é quente, ou são de lã cortada com fibras artificiais, ou são de lã demasiado fina. Nada como um bom tecido de lã pura para se obter umas calças quentes e confortáveis. Ficam caras por causa do alfaiate, mas acho que vale a pena.

Retrato de Luís Lavoura

No PÚBLICO de hoje aparece uma excelente notícia, que já tardava há muitos, muitos anos:

"O secretário de Estado do Desenvolvimento Rural e das Florestas anunciou ontem que o governo pretende ordenar todo o território de caça até ao fim da legislatura, acabando com o regime cinegético livre."

Para quem não saiba, o regime cinegético livre é aquele em que qualquer caçador, de qualquer parte do país, pode caçar em qualquer propriedade, desde que esta não pertença a uma reserva de caça. É o regime cinegético da "tragédia dos baldios": cada um caça o mais que pode, sem se responsabilizar por criar a caça, sem pagar nada pelo prazer que extrai da caça.

Assumir publicamente, claramente, que se tenciona acabar com este regime, ainda que progressivamente, ainda que num prazo não muito curto, já é um grande progresso. (Assim soubesse o governo assumir, da mesma forma, que deseja acabar com as rendas antigas, ainda que progressivamente, ainda que num prazo não muito curto...)

Faltará depois moralizar o regime de caça associativo e, sobretudo, garantir o direito à não-caça para qualquer propriedade e proprietário. Isso também será necessário. Mas um primeiro passo, sempre imprescindível, será eliminar a selvajaria incivilizada que o regime de caça livre constitui.

Retrato de Luís Lavoura

Os agricultores de Entre-Douro-e-Minho manifestam-se hoje, em Lisboa, pedindo ao Estado apoios por causa da situação de seca. Afirmam não ter suficiente forragem para as suas vacas leiteiras. A queda na produção de forragens foi de 30 a 40%. Lembram que a sua região produz 45% do leite produzido no continente, devido a um "altíssimo encabeçamento por hectare" - nas palavras de um seu dirigente associativo - isto é, devido ao elevado número de vacas por hectare de terra existente no Entre-Douro-e-Minho.

Não perceberão a contradição em que eles próprios caem? A solução, óbvia, para a sua situação, é diminuirem o número de vacas. Se a seca causa problemas a estes agricultores, se a forragem é insuficiente, isso deve-se a eles terem aumentado em excesso o número de vacas. Aumentaram-no tanto que, vinda a seca, não conseguem alimentar os animais.

É responsabilidade dos agricultores precaverem-se contra secas (ou outras intempéries que possam diminuir a produção de forragens) diminuindo o encabeçamento de animais. Se os agricultores estão em maus lençóis, isso é em parte por sua culpa.

O que é feito das licenças para produção de energia eólica?

Quantas das empresas que obtiveram as licenças efectuaram realmente os investimentos de implantação?

Quais as empresas que venderam essas licenças antes do próprio investimento?

Quanto dinheiro ganharam essas empresas sem realizarem qualquer investimento apenas à custa das licenças garantidas pelo estado português?

Quem gere essas empresas?