Política Europeia

Retrato de Luís Lavoura

O jornal alemão Bild (ou Bild-Zeitung; em português, "Bild" quer dizer "imagem") é um tablóide populista e rasca, de tendência política marcadamente direitista, muito lido pela classe mais baixa alemã. Foi a esse jornal que o comissário europeu da Energia deu uma entrevista contendo a brilhante sugestão de que fossem postas a meia-haste, nos edifícios europeus, as bandeiras dos países que tenham défices orçamentais excessivos. É revelador que o comissário europeu dê entrevistas a esse jornal - devem estar ao mesmo nível. Não é só Portugal que deporta para a Comissão Europeia políticos tão comprometedores que poderiam causar estrago no próprio país.

Retrato de Miguel Duarte

Vale a pena ler este artigo sobre o suposto corte de cabelo à dívida pública grega. O mesmo confirma aquilo que eu pensei quando olhei para os planos apresentados na altura: praticamente não se fez qualquer redução em termos efetivos e os bancos saem deste negócio muito bem.

To correctly measure the service and reduction of debt, these must be compared with the 5.02 percent average interest rate that Greece currently pays on its bonds. When this is taken into account, even the much-touted 20 percent principal reduction on the discount bond option is much lower on a present-value basis, because the coupon rates are higher on the new bond than on the old bonds.

The 30-year discount-bond option, which would swap new debt for existing obligations at 80 percent of face value, for example, has a coupon starting at 6 percent, rising to 6.5 percent in year five and 6.8 percent in years 10 through 30. Greece realizes only 22 basis points of interest savings in the first five years and will have negative annual interest savings for the next 25 years.

Even after taking into account that Greece pays back only 80 percent of the original principal in year 30, the present value of debt falls only 1.78 percent under this option. This is a far cry from the 20 percent discount applauded by many analysts. And, to entice bondholder participation, Greece must borrow an additional 26.10 percent of the original face value to purchase the zero-coupon bonds’ principal collateral for the discount security.

É claro que tendo a Alemanha e a França a mandar (e os políticos, populistas que conhecemos por detrás), dificilmente se conseguiria melhor. A mim parece-me que cada vez é mais tempo de a Grécia fazer contas à vida (ou ameaçar fazê-lo) e impor um verdadeiro corte à sua dívida, que lhe permita resolver os seus problemas e retomar o crescimento. Os bancos dos outros países, nomeadamente a Alemanha e a França irão ficar em graves dificuldades (até porque a seguir virão outros países), mas isso, é um problema que a Alemanha e a França terão que resolver.

Retrato de Luís Lavoura

Com os juros dos empréstimos concedidos aos Estados espanhol e italiano a aproximar-se dos 7%, a crise do euro entra numa nova e decisiva fase.

Ajudar a Grécia, Portugal, a Irlanda e Chipre é relativamente fácil - questões políticas à parte - para os países ricos da Europa. Ajudar a Itália, que é um país grande e precisa de pedir muito dinheiro emprestado, é totalmente diferente - é muito difícil, mesmo em termos financeiros.

E não se pense que, de qualquer forma, isto vai ficar por aqui. Outros países - a Bélgica e, eventualmente, a própria França - já estão na calha para serem atacados pelos "mercados" a seguir.

A Europa não vai poder suster estes ataques. Vai ter que atirar a toalha ao chão.

Retrato de Luís Lavoura

Subitamente, por influência do CDS, anda muita gente excitada com a necessidade de Portugal recuperar o seu setor agrícola (e, de forma menos falada, o setor pesqueiro) e com a necessidade que Portugal terá de ter um bom e ativo ministro da Agricultura. Sugere-se que, com naturalidade, o ministro da Agricultura deverá ser do CDS, partido que tanto tem lutado em defesa desse setor.

Esquecem-se todos que Portugal não tem nem pode ter qualquer política de agricultura nem de pescas. As políticas nesses setores são estritamente comunitárias, isto é, nenhum Estado-membro da União Europeia está autorizado a ter uma política separada para a agricultura ou para as pescas. Então subsídios para esses setores, nem pensar!

O ministro da Agricultura e Pescas apenas serve de porta-voz, em Bruxelas, dos anseios e necessidades desses setores económicos em Portugal. Não tem poder para delinear uma qualquer política própria.

Retrato de Luís Lavoura

Na Alemanha surgiu uma epidemia mortal da bem conhecida bactéria Escherichia coli. Logo os alemães divulgaram o culpado, uns pepinos importados de Espanha.

O dano económico causado aos produtores espanhóis de pepino, aos produtores espanhóis de hortícolas em geral, e a produtores europeus - inclusivé portugueses - de hortícolas em geral, foi imenso.

Entretanto os alemães já verificaram que a suspeita difundida é falsa, os pepinos espanhóis nada têm a ver com o surto infeccioso. Mas o dano está feito e a Alemanha ainda não pediu desculpas, menos ainda se prontificou a pagar os elevados danos económicos causados.

Parece agora, aliás, que a culpa das infecções está na própria Alemanha.

Esta é uma história muito triste de calúnia, de xenofobia e de distorção do mercado livre, que cai extremamente mal à Alemanha. Mas, naturalmente, o povo alemão achará tudo muito bem - ao fim e ao cabo, é mais que sabido, na Alemanha, que todo o mal da Europa provem daqueles países do Sul.

 

P.S. A grande culpada do surto infeccioso, de facto, é a imunidade aos antibióticos causada pelo uso irresponsável destes. Um surto infeccioso de Escherichia coli nada tem de anormal e, em princípio, seria rapidamente debelado mediante o uso de antibióticos comuns. Se este surto é notícia é apenas porque a bactéria em questão se revelou resistente aos antibióticos e, por isso, causou mortes. Mas, é claro, do problema da resistência aos antibióticos pouco se fala nos mídia - o que interessou foi lançar lama sobre os produtores espanhóis de pepino.

Retrato de Luís Lavoura

O parlamento grego continua incapaz de decidir tomar as medidas que a Comissão Europeia dele exige. Sem essas medidas tomadas, a Europa recusa-se a emprestar mais dinheiro à Grécia, e esta terá de declarar a bancarrota.

 

Isto já seria grave mas, o que é pior, parece que, perante as notícias, os cidadãos gregos iniciaram uma corrida aos bancos, isto é, começaram a levantar os euros que têm depositados nos bancos. Se isto se concretizar, o governo grego terá que decretar um "feriado bancário", isto é, um corralito à argentina. Ou seja, terá que decretar que os bancos são obrigados a encerrar, ficando o povo impedido de levantar dinheiro deles.

 

Ficam então criadas as condições para que a Grécia abandone a Zona Euro. De facto, durante o corralito o governo grego terá que proceder à mudança da moeda, de tal forma que, quando os bancos reabrem, já só se pode levantar deles a nova moeda grega, e não os euros originais.

 

Temos portanto a sequência de eventos: notícias alarmantes --> corrida aos bancos --> imposição de um feriado bancário --> mudança da moeda durante o feriado bancário. Na próxima semana (talvez semanas) veremos se isto se desenrola de facto. As coisas podem acontecer com uma velocidade estonteante, e de forma não planeada, como se verá (?).

Retrato de Miguel Duarte

Este artigo do EUobserver levante uma questão interessante, já colocada em prática pelo Equador e neste momento a ser discutida na Grécia.

Imaginemos que após investigação por um comité independente, se chega à conclusão que alguma da dívida pública portuguesa tinha sido utilizada para fins ilícitos (ex: aquisição de bens devido a corrupção), sem que quem emprestou o dinheiro se preocupasse em investigar se tal situação existia (ex: imaginemos que se contraiu uma dívida com a aquisição de armamento e foi provado que houve corrupção nesse caso). Deve essa dívida ser paga? Ou eventual dívida pública ainda existente, vinda do tempo de Salazar, deve essa dívida ser paga?

É opinião de algumas pessoas que não, pois pagar este tipo de dívidas é incentivar que no futuro quem empreste o dinheiro continue a não ter em conta qual o destino do dinheiro que empresta ou os regimes que pedem dinheiro emprestado para fins contrários aos interesses do seu povo (ex: mais uma vez, compra de armamento).

Retrato de Luís Lavoura

Hoje o primeiro-ministro Sócrates foi a Berlim encontrar-se com a chanceler alemã sra. Merkel. Levou-lhe de presente um balanço, feito em horas extraordinárias por diligentes trabalhadores, da execução orçamental portuguesa durante o mês de fevereiro.

 

Após receber Sócrates a sra. Merkel recebeu, também na chancelaria em Berlim, o primeiro-ministro austríaco.

 

A sra. Merkel é agora a rainha da Europa. Recebeu hoje, no seu palácio em Berlim, os vice-reis das províncias Áustria e Portugal, que lá foram prestar-lhe vassalagem. O vice-rei de Portugal exibiu à soberana um atestado do seu bom comportamento durante fevereiro, esperando que ela não seja demasiado severa para com ele.

 

É este o estado atual da União Europeia: o império da sra. Merkel.

Retrato de Igor Caldeira

O mito urbano que melhor conheço, porque o vi alastrar por todo o lado, ao ponto de ouvir pessoas inteligentes e informadas propagando-o, repetindo-o e crendo nele como o papa não seria capaz de acreditar em deus, é o do efeito do Euro sobre os preços. Mais concretamente, qualquer coisa como 90% dos portugueses acredita piamente que o café custava 50 escudos em 2001, e que os comerciantes, por causa do Euro, passaram a cobrar 50 cêntimos.

 

As duas coisas não podiam ser mais erradas.

Nos idos de 1998, era eu um consumidor de café inveterado, e sabia bem quanto (me custava) pagar os 80 escudos do café. Por mais que explique que me recordo bem de quanto custava a bica no café em frente ao meu liceu, ninguém (nem sequer ex-colegas de turma, que passavam comigo as tardes a jogar às cartas), ninguém me dá razão.

Em 2001, aquando da introdução do euro, recordo-me que a bica no café do meu prédio custava 85 escudos, e que passou a 42 cêntimos. Em 2008/2009 estava em 50 cêntimos, o que dá um aumento de preços de 20% em oito anos (nada de extraordinário, abaixo de 3% de aumento anual).

 

Mas não precisam de acreditar na minha palavra: veja-se este inquérito do Público de há 10 anos atrás.

http://dossiers.publico.pt/noticia.aspx?idCanal=323&id=85339

"Sabe quanto custa um café em euros? 
Um café... anda à volta de 85 cêntimos. Não, isso é muito, é 170 escudos. Devem ser 40 e poucos cêntimos.
Paulo Santos, Motorista da Carris 
Depende. Pode ser 42 cêntimos, se o café andar, como agora, à volta dos cem escudos.
Maria Teresa Oliveira, Funcionária de agência de viagens 
Nota: 42 cêntimos são cerca de 85 escudos
"

 

Ou seja, há 10 anos atrás o café custava 85 escudos, e hoje custa (para 55 cêntimos) 110 escudos. Um aumento de 29% em 10 anos - é esse o tal efeito inflaccionista do Euro?

 

 

Por que motivo têm as pessoas esta ideia? Como pôde este mito propagar-se e enquistar-se em tão pouco tempo? Há muitas razões; uma mentira repetida muitas vezes acaba tornando-se uma verdade. Mas é um facto que a mentalidade de aldeia que ainda vamos tendo entre nós facilita esta espécie de anti-europeísmo somatizado numa negação da realidade.

O nosso problema não é o Euro. O nosso problema é que nós não somos suficientemente civilizados para o Euro. É por isso que, daqui a a uns meses, vamos pôr os contribuintes alemães a pagar pela nossa dívida.