Política Internacional

Retrato de Luís Lavoura

Parece que, apesar do maciço apoio financeiro que, com o beneplácito do "Ocidente", a Arábia Saudita e o Qatar - países a diversos títulos altamente louváveis, e que merecem toda a nossa solidariedade - fornecem aos rebeldes sírios, em particular aos seus ramos religiosamente mais fanáticos, estes estavam a perder a guerra. Nos últimos tempos fazem-se, sintomaticamente, ouvir repetidos apelos para que os EUA intervenham de forma mais "musculada" em apoio aos rebeldes, nomeadamente com alegações de massacres e da utilização de armas de destruição maciça - alegações similares a outras que foram feitas anteriormente em casos similares, por exemplo o célebre massacre de Raçak no Kosovo, e as célebres armas químicas móveis de Saddam Hussein, e que depois das respetivas intervenções militares foi rapidamente demonstrado não terem passado de grosseiras invenções. Mas, como os EUA estão hesitantes, ou fingem estar, Israel avançou - com a tolerância e a cobertura prontamente fornecidas por Barack Obama em pessoa - com bombardeamentos cirúrgicos sobre Damasco, para que as tropas do regime percam temporariamente o seu fulgor.

A guerra civil síria parece-se cada vez mais, aos meus olhos, com a mal-afamada guerra Irão-Iraque, que durante toda a década de 1980 fez cerca de um milhão de mortos, com o encorajamento e a benevolência das potências mundiais que, gentilmente, ora forneciam armas a um dos países ora ao outro, com o objetivo de que eles pudessem continuar a sangrar-se mutuamente sem no entanto jamais alcançarem a vitória final, desta forma assegurando um escoamento para a produção de armamento do "Ocidente" e assegurando a conveniente reciclagem dos petrodólares pelo sistema financeiro ocidental. Com a intervenção armada israelita trata-se acima de tudo, parece-me a mim, de assegurar o prolongamento de uma guerra que o regime parecia estar a ganhar, assegurando que tanto o Irão - apoiante do regime - como a Arábia Saudita - apoiante dos rebeldes - continuarão a entornar petrodólares para essa guerra e a assegurar com ela o escoamento de armas. Assim dure a guerra civil muitos anos, pensa o "Ocidente" esfregando as mãos de satisfação. Pois que, para eles, entre o atual regime sírio e os seus opositores, venha o Diabo e escolha.

Retrato de Luís Lavoura

Na década de 1980 os EUA introduziram uma importante inovação política no campo das democracias: a manutenção em funções de um presidente (Ronald Reagan) em estado de semi-senilidade e totalmente desconhecedor daquilo que a sua administração andava a fazer.

Agora a Itália introduz mais uma, e revolucionária, inovação: a manutenção em funções de um primeiro-ministro e de um governo derrotados nas eleições, por os partidos vencedores das ditas eleições se mostrarem incapazes de dar apoio parlamentar a um qualquer novo governo.

Naturalmente, todas estas inovações políticas têm uma utilidade. No caso de Ronald Reagan, tornou-se possível que a administração andasse em roda livre a desenvolver operações ilegais sem que ninguém pudesse ser responsabilizado. No caso italiano, os partidos vencedores das eleições descartam-se da incómoda tarefa de governar em tempos de vacas magras.

Retrato de Luís Lavoura

Há dois anos, o amigo ocidental deu uma generosa ajuda ao povo da Cirenaica na sua rebelião contra o poder de Kadhafi instalado em Trípoli. Mas parece que o povo da Cirenaica não está agora tão grato assim: a cidade de Benghazi é atualmente considerada demasiado perigosa para um europeu.
Além de que a Líbia, dantes um país seguro e confiável, se transformou num vespeiro de grupos (bem) armados e de livre tráfico de armas, com consequências gravosas para os países próximos, por exemplo o Mali.

Retrato de Luís Lavoura

A socialista Ana Gomes aplaude enfaticamente a intervenção armada da França no Mali.

Ana Gomes não nos explica, porém, de todo, quatro coisas.

(1) Como tem ela a certeza de que os rebeldes que combatem o governo do Mali são islamitas associados à Al Qaeda? Sabe-se que boa parte das forças rebeldes são tuaregues que apenas lutam por motivos nacionalistas (querem ter um Estado próprio). E sabe-se que há também islamitas. Mas não parece certo que os islamitas tenham mais importância ou mais poder que os tuaregues. Pelo contrário, sabe-se que já entraram em conflito, os islamitas com os tuaregues. Nem parece certo que os islamitas estejam necessariamente afiliados com a Al Qaeda - há muitos islamitas neste mundo que querem um poder islâmico mas não praticam terrorismo internacional.

(2) Se se quer combater os islamitas, porque se combate também os tuaregues? Não seria muito mais lógico apoiar os tuaregues na sua luta pela independência, e ajudá-los a dominar os islamitas que com eles se aliaram oportunisticamente? Porque se pretende manter um Estado maliano unitário que não tem qualquer coerência interna, que junta árabes no norte com negros no sul, que junta nómadas no norte com sedentários no sul, que não passa de uma consequência do colonialismo?

(3) Por que é que é nosso dever ir ajudar os malianos supostamente oprimidos pelo poder islamita? Há muitos povos por este mundo fora oprimidos por forças tirânicas, mas nós não invadimos os países deles para os ir libertar. Por que deveremos atuar diferentemente no caso do Mali? Em que é que o poder islamita no Mali é mais perverso e mais opressor do que tantos outros regimes que há por esse mundo fora? Que temos nós que nos irmos imiscuir nos problemas de uma população estrangeira alegadamente oprimida? Se há um povo oprimido, compete a esse povo manifestar a vontade de se libertar do opressor e, eventualmente, fazê-lo - não nos compete a nós.

(4) Em que é que um Estado islamita no Mali nos prejudicaria e colocaria a nossa segurança em risco? O Mali fica a muitos milhares de quilómetros da Europa. É um país muito pobre. Em que é que nos poderia pôr em risco? Não há medidas a tomar, aqui na Europa, que podem, de forma muito mais barata, impedir eventuais ameaças terroristas?

Retrato de Luís Lavoura

Doi-me quando vejo cidadãos de países pacíficos, como a Noruega e o Japão, serem postos em perigo devido à ação de um país imperialista agressivo como a França.

Acho bem que os islamitas ataquem cidadáos franceses e de outros países da União Europeia, mas não de países pacíficos e que não apoiam a brutalidade francesa.

Retrato de Luís Lavoura

Vi ontem na televisão, com estes olhos que a terra há de comer, o ministro da Defesa francês afirmar, sem se rir, que a intervenção da França no Mali era também em autodefesa, em defesa dos países vizinhos, porque, segundo afirmou, o Mali não fica assim tão longe da França.

Este inacreditável argumento fez-me lembrar quando, na década de 1980, Reagan financiava uma guerra por procuração contra a Nicarágua, explicando aos americanos que da Nicarágua ao Texas são apenas 2000 quilómetros, pelo que urgia desde já eliminar esse inimigo antes que ele pudesse invadir o Texas.

É tão triste ver a França fazer figuras que julgávamos reservadas aos EUA.

Retrato de Luís Lavoura

Em 2001 os Estados Unidos da América (EUA) invadiram o Afeganistão para derrubar o regime fundamentalista islâmico que dominava esse país. Os EUA não tinham nada que se estar a imiscuir nos assuntos internos do Afeganistão mas podiam, pelo menos, argumentar em defesa da sua atuação com o ataque terrorista de que tinham sido alvo em setembro desse ano.

Agora a França, sem qualquer razão para alegar em sua defesa, resolveu imiscuir-se nos assuntos internos do Mali, enviando uma importante força militar para combater a insurgência islâmica no nordeste desse país - a qual insurgência nenhum mal tinha feito à França, nem se presumia que pudesse vir a fazer.

Eu estou em total desacordo com esta ação militar francesa. Nenhum país tem nada que ver com o regime político noutro país qualquer, nem deve através da força militar condicionar a evolução política de outro país. A ação militar francesa é tão condenável como a invasão do Afeganistão pela União Soviética em 1981, ou do Iraque pelos EUA em 2003.

(Tal como se esperaria, a eleição de François Hollande para presidente da França nada trouxe de novo à política desse país. É apenas vinho velho numa nova garrafa.)

Retrato de Igor Caldeira

Tornou-se moda, em Portugal, dizer-se que sem crise financeira mundial, Portugal não estaria na presente situação. Mentes fracas precisam de fracas desculpas, e a União Europeia, o capitalismo, a globalização e os mercados são bodes expiatórios perfeitos. Quem precisa de atalhos cognitivos para justificar uma desgraça encontra neles o objecto perfeito, como em outros séculos outros atribuíam terramotos a castigos divinos. 

 

Eu, que não acredito em deuses e acho que os bodes têm melhor serventia no reino animal que na análise política, prefiro olhar para a acção humana. No caso da presente crise financeira portuguesa, em particular, podemos dizer que esta crise era evitável? 

Não creio; a única coisa que acho é que a crise mundial apenas estugou o passo de uma desgraça que qualquer pessoa com dois dedos de testa já poderia prever há dez anos atrás (portanto, de fora ficam os militantes e dirigentes de todos os partidos portugueses, lamento dizer, e aqui está um estrutural problema do nosso país: a absoluta cretinice de quem decide por nós). 

 

A crise em que nos encontramos, tendo em conta a trajectória seguida nas últimas décadas (e particularmente na última década, desde 2000/2001) era apenas uma questão de "quando", não uma questão de "se" iria acontecer. 

E para provar isso apresento um caso hipotético relativamente simples (tremendamente complexo para qualquer apoiante da CGTP- IN, mas também presumo que nenhum lerá este blogue). 

 

No mundo Z, os países pedem empréstimos, mas não pagam juros (fora, portanto, com o malvado lucro e o capitalismo financeiro mundial). 
Neste mundo, o país Y tem, no ano X, um PIB de 100, uma despesa anual de  40, cobrando em impostos 37 e tendo uma dívida pública de 60. O país Y não pode privatizar nada nem obter receitas extraordinárias para cobrir o excesso de gastos: tudo o que gastar ou vem de impostos, ou vai para dívida.

Este país ainda, ano após ano, tem constantemente um crescimento económico de 1% e um déficit de 3% do PIB. 

Crescimento 1%, Déficit 3%









  PIB Despesa Receita Dívida Despesa%PIB Receita%PIB Dívida % PIB Deficit % PIB
Ano X 100,00 40,00 37,00 60,00 40 37 60 3,00
Ano X+1 101,00 41,20 38,17 63,00 41 38 62 3,00
Ano X+2 102,01 44,26 41,20 66,03 43 40 65 3,00
Ano X+3 103,03 47,35 44,26 69,09 46 43 67 3,00
Ano X+4 104,06 50,47 47,35 72,18 49 46 69 3,00
Ano X+5 105,10 53,63 50,47 75,30 51 48 72 3,00
Ano X+6 106,15 56,81 53,63 78,46 54 51 74 3,00
Ano X+7 107,21 60,03 56,81 81,64 56 53 76 3,00
Ano X+8 108,29 63,28 60,03 84,86 58 55 78 3,00
Ano X+9 109,37 66,56 63,28 88,11 61 58 81 3,00
Ano X+10 110,46 69,87 66,56 91,39 63 60 83 3,00
Ano X+11 111,57 73,22 69,87 94,70 66 63 85 3,00
Ano X+12 112,68 76,60 73,22 98,05 68 65 87 3,00
Ano X+13 113,81 80,01 76,60 101,43 70 67 89 3,00
Ano X+14 114,95 83,46 80,01 104,84 73 70 91 3,00
Ano X+15 116,10 86,94 83,46 108,29 75 72 93 3,00
Ano X+16 117,26 90,46 86,94 111,77 77 74 95 3,00
Ano X+17 118,43 94,01 90,46 115,29 79 76 97 3,00
Ano X+18 119,61 97,60 94,01 118,84 82 79 99 3,00
Ano X+19 120,81 101,23 97,60 122,43 84 81 101 3,00
Ano X+20 122,02 104,89 101,23 126,06 86 83 103 3,00
Ano X+21 123,24 108,58 104,89 129,72 88 85 105 3,00
Ano X+22 124,47 112,32 108,58 133,41 90 87 107 3,00
Ano X+23 125,72 116,09 112,32 137,15 92 89 109 3,00
Ano X+24 126,97 119,90 116,09 140,92 94 91 111 3,00
Ano X+25 128,24 123,75 119,90 144,73 96 93 113 3,00
Ano X+26 129,53 127,63 123,75 148,58 99 96 115 3,00
Ano X+27 130,82 131,56 127,63 152,46 101 98 117 3,00
                 

Os números, não os escolhi ao acaso, apesar dos xizes, ípsilones e zês: são valores aproximados da situação portuguesa no início do século XXI. 

Ora, que vemos nós?

Que, mesmo sem as malvadas finanças internacionais, este país estava condenado ao sobreendividamento. Em 6 anos a metade do rendimento dos cidadãos seria taxado. Em 19 anos a dívida atingiria os 100% do PIB. E em 27 anos o comunismo seria atingido, com a totalidade da riqueza nacional detida pelo Estado. 

 

Ora, a última vez que em Portugal houve um orçamento superavitário foi em 1973. Não houve nenhum governo, provisório, improvisado ou permanente, com o PCP, o PS, o PSD ou o CDS, que tenha tido finanças públicas equilibradas. Como nenhum partido português alguma vez pôs em causa o modelo de défice permanente, só podemos concluir que esta situação dificilmente seria evitável. 

Dificilmente? Mas então podia acontecer ter défices e ainda assim não falir? Sim. Com taxas de crescimento económico da ordem dos 5 a 7,5%  (que, manifestamente, não temos nem temos tido nas últimas décadas). De facto, neste país Y, com uma taxa de crescimento económico permanente superior a 5% a dívida pública até diminuiria (embora, por questões que não vale a pena referir, a despesa continuaria aumentar - algo que também tem de ter o seu limite, porque no mundo real há limites para o crescimento económico quando o Estado taxa uma proporção demasiado elevada da riqueza nacional). 
 

Em resumo: deixemo-nos de merdas, deixemos de culpar a UE, Wall Street, a Alemanha, a Merkel, os Illuminati ou o Pato Donald. A culpa de estarmos nesta situação é nossa, só nossa e de mais ninguém.

Retrato de Luís Lavoura

Entretanto, foi recebida na semana passada sem surpresa, mas quase não foi focada em Portugal, a notícia da morte (de causa não divulgada) do ditador da Etiópia, o primeiro-ministro Meles Zenawi.

Trata-se de uma personalidade de quem não convem falar muito no "Ocidente", de quem era um grande favorito apesar de ter sido um ditador genuíno. (Tal como por exemplo o seu vizinho do Ruanda, o sr. Paul Kagame.) Ao "Ocidente" só convem falar dos outros ditadores, aqueles de quem não se gosta, como por exemplo o sírio sr. Assad.

Enfim, morreu mais um ditador apoiado pelo "Ocidente". Que a terra lhe seja leve, mas que a memória não o olvide.

Retrato de Luís Lavoura

O presidente da Comissão Europeia, Furão Burroso, é tão ridículo e inútil que não sei se deva rir, se chorar.

Ontem deu-lhe para perorar que a União Europeia não aceita receber lições de democracia de ninguém, isto é, de nenhum dos seus parceiros no G20. Eu acho muito bem que a União Europeia não receba lições de democracia - mas então, também não as dê aos outros!

Em vez de se armar ao pingarelho e se pôr a dar lições de superioridade democrática aos outros países, o sr Burroso deveria enxergar-se, perceber a sua crescente irrelevância, e manter-se calado para evitar ser ridículo.