Política Internacional

Retrato de Luís Lavoura

Em relação às eleições presidenciais norte-americanas, a minha opinião é a seguinte: entre Trump e Clinton, venha o diabo e escolha.

Não sou, felizmente, cidadão dos EUA. Mas, se fosse, e não quero ser, não votaria em qualquer desses dois. Tenho muita dificuldade em dizer qual seja pior do que o outro.

Eu votaria na candidata do partido verde, Jill Stein. 

Retrato de Luís Lavoura

Não costumo comentar neste blogue política estrangeira, mas faço hoje uma exceção.

Barack Obama reconheceu ontem que errou na sua intervenção na guerra líbia, por não ter previsto o que iria fazer quando a tivesse ganhado.

Só lhe fica bem reconhecer publicamente que errou. É o primeiro dever, de seja quem for, reconhecer os seus erros.

Devemos porém notar que Obama cometeu na Líbia exatamente o mesmo erro que Bush tinha, antes dele, cometido no Iraque.

É lamentável que os presidentes americanos não aprendam com os erros dos seus antecessores. Que repitam os erros em que os seus antecessores já caíram.

Mas há pior: Obama nem sequer aprendeu com o seu próprio erro. Voltou a cometer na Síria o erro que tinha cometido na Líbia, e que o seu antecessor tinha cometido no Iraque.

Síria, Líbia e Iraque: três países árabes com sociedades muito fragmentadas mas que se mantinham unidas sob ferozes ditaduras. Em todos os três casos, os Estados Unidos resolveram atacar o ditador, e com isso destruir o país e deixar o caos a fermentar atrás de si.

Obama reconheceu o seu erro e louvo-o por isso. Mas não lhe posso perdoar, porque mostrou ser burro, ao não ter aprendido nem com o erro do seu antecessor, nem com o seu próprio erro.

Retrato de Luís Lavoura

Andam muitos portugueses muito preocupados com a possibilidade de Donald Trump se tornar presidente dos EUA. Mas eu, como português que sou, e não americano, preocupo-me muito mais com a possibilidade de Hillary Clinton se tornar presidente dos EUA. Porque Hillary Clinton é muito dada a criar ou fomentar guerras no Velho Mundo (seja na Líbia ou na Síria ou na Ucrânia), as quais me podem afetar bastante. Donald Trump, pelo contrário, apenas estará inclinado a fazer mal nos EUA e no Novo Mundo, coisa que bem pouco me afetará. Por isso, entre os dois venha o diabo e escolha, mas eu sempre prefiro Trump a Clinton. Porque sou português, não sou americano.

Retrato de Luís Lavoura

Anda muita gente horrorizada com Donald Trump. É evidente que o indivíduo tem um aspeto deveras asqueroso e que é fortemente (e irrealisticamente) xenófobo. Mas penso que se deveria dar alguma atenção às suas propostas na área económica: eliminar o IRC (ou o seu equivalente americano) e introduzir um imposto plano (sempre de 10%) sobre todos os rendimentos. Penso que são propostas que merecem séria consideração (embora possivelmente sejam, a curto prazo, quase tão irrealistas como a xenofobia).

Em compensação, Hillary Clinton promete-nos mais do mesmo. Com ela, tudo nos EUA permanecerá na mesma, ou pior. E em particular, para nós que estamos longe dos EUA, com ela só poderemos esperar mais política externa agressiva, de subversão de regimes (Síria, Líbia, etc) e criação de guerras aqui e ali.

Retrato de Luís Lavoura

O presidente dos EUA Barck Obama afirmou recentemente que a eliminação do Estado Islâmico está dependente de uma solução para o que fazer com o presidente sírio Assad.

Obama exprimiu muito bem, se bem que de forma criptográfica, a política americana em relação ao Estado Islâmico: só queremos que o Estado Islâmico seja eliminado se simultâneamente pudermos mudar o regime sírio. Ou seja, para os EUA, o Estado Islâmico é preferível a Assad; só se eliminará o Estado Islâmico se primeiro se puder eliminar Assad.

De forma efetiva, os EUA são aliados do Estado Islâmico. Para eles, este úlimo pode continuar a existir. Assad é que não pode permanecer no poder.

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Em muito recente entrevista a uma televisão chinesa, o presidente Assad da Síria afirmou que o essencial, para ele, é que no futuro a Síria seja (isto é, permaneça) um Estado não-religioso: um país com liberdade de religião, no qual pessoas de todas as religiões possam viver lado a lado sem que nenhuma religião seja privilegiada pelo Estado.

Disse Assad muito bem. Esta é de facto a diferença crucial entre Assad e os seus opositores: enquanto que todos estes últimos, sem exceção, desejam um Estado sírio muçulmano sunita, Assad quer um Estado sírio não-religioso.

E, por este motivo, eu prefiro Assad aos seus opositores.

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A França, entretanto, já veio mostrar serviço, gabando-se de ter bombardeado uns tantos camiões que se deslocavam, carregados de petróleo extraído em campos petrolíferos do Estado Islâmico.

O presidente russo não perdeu tempo a escarnecer da França: as filas de camiões carregados de petróleo são tão extensas que, segundo ele, qualquer avião voando a 5 quilómetros de altitude as vê. Pergunta o presidente russo porque é que só agora é que a França se lembrou de bombardear essa óbvia fonte de receitas do Estado Islâmico: a exportação de petróleo.

É bom de ver que o Estado Islâmico não tem nenhum oleoduto nem nenhum porto de mar: exporta o seu petróleo através de camiões, presumivelmente para a Turquia, e esse petróleo é carregado em petroleiros num porto turco. À vista de toda a gente, claro. Toda a gente sabe que aquele é petróleo provindo do Estado Islâmico. Quem o paga sabe muito bem a quem o está a comprar. Não é necessária muita intelligence para se saber como e onde o Estado Islâmico se financia.

Se o "Ocidente" não bate com força no Estado Islâmico, é por duas razões muito simples. Primeiro, porque o Estado Islâmico é amigo de amigos do "Ocidente". Os países do Golfo e a Turquia não desgostam por aí além do Estado Islâmico, e o "Ocidente" não lhes quer desagradar. Segundo, porque o Estado Islâmico dá bastante jeito: retira algum território à Síria e ao Iraque, que são aliados do Irão, e impede que o Curdistão adquira mais força.

Há por aí montes de hipocrisia.

Retrato de Luís Lavoura

Se se quer eliminar o Estado Islâmico através de guerra, isso não poderá ser feito apenas com bombardeamentos. Terá que ser feito com tropas no terreno, com infantaria e com tanques. E há tropas dispostas a fazê-lo - os peshmergas curdos. Se lhes derem autorização, eles estarão dispostos a atacar o Estado Islâmico e conquistar-lhe terreno. Desde que, naturalmente, lhes seja permitido ficar com uma parte desse terreno anexada ao seu Curdistão. E isso não necessita de  prejudicar a Turquia - tal como há um Curdistão em território iraquiano sem que isso cause muita mossa à Turquia, também poderia haver um Curdistão em território sírio - e poder-se-ia permitir ao Curdistão iraquiano estender-se até Mossul.

É espúrio o "Ocidente" pretender eliminar militarmente o Estado Islâmico sem recorrer à ajuda dos peshmergas curdos. Tropas francesas não irão lá fazer o trabalho que pode perfeitamente ser feito pelos curdos.

Retrato de Luís Lavoura

A resposta aos ataques terroristas em França dificilmente pode ser dada por mais bombardeamentos na Síria. Os terroristas vivem na Europa, não vivem na Síria. Os sírios não têm culpa de que haja franceses com vontade de fazer ataques terroristas. Os terroristas eram cidadãos franceses, que falavam entre si em francês e viviam em França. Quanto muito, receberam treino na Síria - mas também poderiam tê-lo recebido na Líbia ou na Nigéria ou no Paquistão.

Além disso, o facto de o Estado Islâmico estar agora a recorrer ao terrorismo é um sinal da sua fraqueza. Já incapaz de possuir território com a facilidade de outrora, o Estado Islâmico recorre ao terrorismo, que é a arma dos fracos. Reduzir ainda mais a força do Estado Islâmico, através de mais bombardeamentos, dificilmente evitará ataques terroristas.

O terrorismo evita-se através de medidas prudenciais, não através de guerra.

Retrato de Luís Lavoura

Segundo notícia da RT, o presidente Obama e o seu secretário das Finanças Lew informaram as autoridades da Zona Euro e da Grécia de que a hora do recreio terminou: têm que tratar rapidamente de chegar a um acordo para que as dívidas da Grécia sejam aliviadas e o país possa permanecer na Zona Euro. Parece que os EUA já estão fartos de ver europeus e gregos a brincarem ao gato-e-rato e estão a dar ordem para que o jogo acabe.

A ordem será, sem dúvida, obedecida.