Política Internacional

Retrato de Luís Lavoura

Claramente, na opinião do "mundo livre", o povo palestiniano deverá ser castigado por, nas passadas eleições, ter votado em quem não devia.

Israel, os EUA e a União Europeia propõem-se, a curto ou médio prazo, deixar de apoiar financeiramente a Palestina (no caso de Israel não se trata de facto de um apoio, mas sim da devolução à Autoridade Palestiniana de taxas sobre as exportações por ela cobradas). Todos sabem que essa suspensão do apoio se repercutirá duramente sobre o povo palestiniano.

Curiosamente, ninguém pretendeu deixar de apoiar a Palestina quando esta era dirigida por uma Autoridade consabidamente corrupta e que consabidamente desviava grande parte dos apoios concedidos para chorudas contas bancárias no estrangeiro. Nessa altura, aparentemente, na ótica do "mundo livre", o dinheiro concedido à Palestina estaria a ser sabiamente aplicado pelos seus dirigentes. É só agora, quando chega ao poder uma Autoridade constituída, aparentemente, por homens sérios e não corruptos, que o "mundo livre" se aflige com a possibilidade de os dinheiros concedidos serem utilizados para outros fins que não aqueles a que deveriam servir.

Mas o "mundo livre" deveria ter consciência de que já não é dono do mundo. O poder do dinheiro já não é o que era - pois que o aumento do preço do petróleo outorgou esse poder em países como a Venezuela, o Irão, a Rússia e a Arábia Saudita. E o poder da força bruta baqueou no Iraque, tendo ficado cruamente expostos os seus limites.

"Claro que, por princípio, as eleições são boas, e no caso em concreto até já foram validadas. Mas o que fazer quando ganham os maus?"
George W. Bush, sobre a vitória do Hamas nas eleições palestinianas, 26-01-2006

As eleições são boas... por princípio?!?!?

O que fazer quando ganham... os maus?!?!?

Eu sei que o Hamas é um grupo terrorista que nada merece, mas falar assim de eleições democráticas que ocorrerm dentro da normalidade...

E a bem ver, o comentário aplica-se ao próprio. Ou o que dizer dos campos de tortura que os EUA espalharam pelo mundo, já para não voltar a referir as bomas atómicas que mataram, e continuam ainda a matar, milhões de pessoas inocentes. E a lista podia continuar muito mais.

No mundo em que vivemos tanto podes ser herói por matar milhões de inocentes como terrorista por matares apenas um. Tudo depende do lado em que estás.

Retrato de Miguel Duarte

Chamo a atenção para a leitura deste artigo na Wired.

Penso que ilustra muito bem os perigos para o estado de direito quando um órgão de poder tenta em nome do combate terrorismo ter poder absoluto ou escapar ao controlo de outros órgãos.

Se queremos manter a nossa liberdade não nos podemos render ao facilitismo de em nome do combate ao terrorismo prescindir de muitas das garantias que sustentam precisamente a manutenção desse mesma liberdade.

Retrato de Luís Lavoura

No PÚBLICO de hoje vem uma notícia segundo a qual o ministério iraquiano do petróleo divulgou que as exportações iraquianas de petróleo foram em 2005 as mais baixas de sempre: 1,1 milhões de barris por dia, que se devem comparar com os 2,2 milhões por dia - o dobro - que o Iraque exportava antes de ser invadido pelos EUA.

Ou seja, os EUA conseguiram este feito notável: em 3 anos, diminuir para metade as exportações iraquianas do precioso combustível. É obra!

Mas há mais: sempre segundo a mesma notícia, os preços dos combustíveis no Iraque vão aumentar, em alguns casos para mais do triplo. Esse aumento dificultará ainda mais o acesso aos iraquianos de bens como a eletricidade e a água potável, que continuam a escassear cruelmente.

Ainda segundo a mesma notícia (aquilo deve ter sido escrito por algum anti-americano primário), os EUA não desejam continuar a ajudar a reconstrução do Iraque: quando acabar o dinheiro da última dotação que W pediu ao Congresso para o efeito, não haverá mais apoio. O Iraque será entregue à sua sorte, para desenvolver sem a ajuda americana, e com as suas parcas exportações petrolíferas, os tais sistemas de fornecimento de eletricidade e de água potável que a sua população cruelmente requer.

Balanço: um país, que já estava em péssimo estado, foi destruído pela invasão. A sua produção de petróleo, que já era pouca em face das enormes reservas existentes, foi diminuída para metade. O invasor, vendo que já não consegue corrigir a merda que fez, pira-se.

Que dia maravilhoso!

Bush admite que se baseou em informacoes erradas para invadir o Iraque; o presidente do Irao diz que o holocausto foi um mito; no Brasil, um prefeito proibiu os locais de morrer enquanto nao houver cemiterio novo.

Bush:

"(...) e é verdade que essa informação acabou
por revelar-se errada” (...)" (nao te martirizes com isso, pa!)

"Tendo em conta o passado de Saddam, e as lições do 11
de Setembro, considero que a minha decisão [de invadir o
Iraque] foi a melhor.” (Ja' agora, Irao pa quando?)

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Pres. do Irao:

"Israel tem de ser apagado do mapa.” (bunito!)

"Alguns países europeus insistem em
dizer que Hitler matou milhões de
judeus inocentes […]." (e' que nao se calam com isso!)

"Criaram um mito hoje a que chamam “o massacre
dos judeus” e consideram-no um princípio acima de
Deus, religiões e profetas. (Elvis e' o rei!)

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Prefeito da cidade brasileira de Biritiba-Mirim (Publico 14dez05), a proposito da sobrelotacao do cemiterio local.

"Fica proibido morrer em Biritiba-Mirim.
Os munícipes deverão cuidar
da saúde para não falecer” (suicidio tb nao vale)

“os infractores serão responsabilizados
pelos seus actos” (na base da coima)

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O problema e' que, enquanto a terceira parte (prefeito) e' uma manobra mediatica e justificada para chamar 'a atencao que o cemiterio local nao pode ser ampliado por varias razoes.... as duas primeiras sao mesmo a serio.

Mas e' um dia maravilhoso na mesma. Em Amsterdao nem sequer chove.
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Retrato de Luís Lavoura

A situação no Iraque degenera, pouco a pouco, para uma guerra civil entre milícias dos três grupos étnicos.

Na Bósnia, os próprios habitantes afirmam que, se não fossem as tropas da NATO presentes, as três comunidades voltariam imediatamente à guerra.

Convem então pensar nas vantagens que as ditaduras anteriores - a de Saddam Hussein no Iraque, a de Tito na Jugoslávia - ofereciam.

Essas ditaduras, por horrendas que fossem, sustinham uma situação que, mal elas acabaram, degenerou em guerra civil.

Uma guerra civil é uma coisa horrível, na qual se cometem barbaridades e atropelos muito superiores, em geral, aos de qualquer ditadura.

Num país vivendo em ditadura, os cidadãos podem não obstante viver e prosperar, desde que não ultrapassem as fronteiras impostas de falta de liberdade. Num país em guerra civil, pelo contrário, os cidadãos arriscam-se a ser violentados e assassinados mesmo quando não cometem nada de mal - apenas em função da etnia a que formalmente pertencem, ou do sítio em que têm o azar de se encontrar num determinado momento.

A ditadura de Saddam Hussein, embora horrível e opressora para curdos e xiitas, mantinha a possibilidade de as diversas comunidades viverem no Iraque em paz, misturarem-se e comerciarem entre si.

A ditadura de Tito fomentou uma Jugoslávia multi-étnica, na qual se podia ter esperança de que os ressentimentos do passado fossem, pouco a pouco, sendo esquecidos.

Apercebemo-nos agora de que as ditaduras, em países multi-étnicos, podem ter vantagens substanciais. Uma vez elas derrubadas, os países podem degenerar em guerras civis quase intermináveis.

Isto sugere que devemos pensar bem antes de pretendermos derrubar uma ditadura.

É que há coisas piores.

Retrato de Luís Lavoura

É normal que um país, qualquer país, procure ter independência energética. Que procure que o seu fornecimento de energia não possa ser cortado por um qualquer eventual inimigo externo. Isto é sobretudo válido, naturalmente, para países que têm bastantes inimigos.

Vem isto a propósito do contencioso entre o Irão e a comunidade internacional, liderada pelos EUA, sobre o acesso do Irão à energia nuclear. Os EUA pretendem - e, segundo creio, com razão, de acordo com o Acordo para a Não-Proliferação de Armas Nucleares - que o Irão não possa efetuar o enriquecimento do urânio necessário como "combustível" para as suas centrais nucleares. O Irão, pelo contrário, deseja enriquecer o urânio no seu território. Segundo a comunidade internacional, o Irão poderá dispôr de centrais nucleares, mas deverá obrigatoriamente importar o urânio enriquecido de um dos países que está autorizado a produzi-lo.

Ora, é evidente que, independentemente do Acordo de Não-Proliferação, o Irão tem toda a razão. O Irão considera, justamente, que é um país com muitos inimigos, e que não pode, por isso, permitir-se ficar exposto a um boicote energético. Num qualquer futuro, o Irão poderia ficar exposto a que os países que enriquecem urânio se recusassem a fornecer-lho, conduzindo a cortes de energia no país.

Penso que a Europa se deve consciencializar de que o Irão, como qualquer outro país, como a própria Europa, pode e deve almejar à sua independência energética. Por isso pode e deve almejar a aplicar tecnologias que já são aplicadas noutros países, incluindo na própria Europa, como sejam o enriquecimento do urânio.

A não-proliferação de armas nucleares não deve passar pelo bloquemento do desenvolvimento e da independência de um qualquer país.

Retrato de Luís Lavoura

Finalmente, dois anos e meio após a invasão, foram encontradas armas de destruição maciça no Iraque.

Mais concretamente, descobriu-se que as forças armadas norte-americanas utilizaram fósforo branco, uma arma química, aquando do seu ataque à cidade de Faludja, há uns meses atrás.

Foram encontrados em Faludja diversos corpos, entre os quais de mulheres, crianças e idosos - não-combatentes - cujas partes expostas se encontravam completamente queimadas por um agente que se supõe ser fósforo branco, hipótese que é confirmada por pelo menos um soldado norte-americano que participou no ataque a Faludja.

Sabemos agora que, tal como o exército iraquiano bombardeou nos anos 80 a cidade de Halabja com químicos, para matar, de forma bárbara, a sua população civil, o exército norte-americano fez o mesmo, em 2004, na cidade de Faludja.

Muito instrutivo.

Nao sou frances, ate' compreendo a medida mas assusta-me.

Acho que e' bater no fundo pq falamos da Franca, plena Europa, o velho continente. Estou muito preocupado pq claramente nao vai ser um fenomeno local nem a Paris nem a Franca.E' a Europa que bateu no fundo.

Preocupa-me que, antes de tudo, seja um sinal dos tempos, uma especie de inevitabilidade. As politicas sociais europeias das ultimas decadas falharam.

Em parte tem de acontecer, e aqui coloco-me na pele do profeta da desgraca. E' preciso uma certa renovacao. Mais medidas concretas e menos ideologias que nao levam a lado nenhum. A unica licao positiva que se pode tirar e' de que os sistemas politicos tem de ser repensados.

De um ponto de vista liberal, apetece-me dizer que a Franca, com uma certa tradicao socialista, e' o caso de que nao pode ser por aqui que estes problemas se resolvem. Tudo sao instrumentos mas no final e' as pessoas que queremos beneficiar. E' que as pessoas somos nos. E se foi exactamente nas pessoas que as politicas fracassaram, a politica falhou redondamente.

O que esta' por detras, como foi dito noutro blog do MLS, e' a frustracao. Nao ha' empregos, nao ha' fugas para a auto-realizacao e auto-determinacao. Cada pessoa sente-se incrivelmente frustrada. E' uma especie de cativeiro.

E por isso e' uma questao de liberdade. No sec XXI, liberdade ja' nao e' andar na rua ou dizer o que se pensa. Liberdade e' realizacao pessoal, e' ter poder para definir a sua vida. Um Estado que mede tudo pela mesma bitola, que tenta controlar as vontades individuais, que tenta centralizar o incentralizavel (!), nao pode continuar a existir.

Estamos numa especie de ditadura da personalidade. Em Franca, queimar carros e' dizer que faco o que me apetece pq nao ganho nada em fazer o que me dizem enquanto me dao uns trocos para o bolso.

fica o desabafo.

Retrato de Miguel Duarte

Os distúrbios em França nos últimos 11 dias têm-me dado muito que pensar, mas, tenho que admitir que até hoje não tinha uma opinião formada sobre os mesmos.

São actos criminosos, sem dúvida, e ao contrário de muita opinião pública francesa não considero que este tipo de violência seja justificável, como forma de protesto, numa sociedade democrática.

Agora, obviamente, existe questões muito mais profundas a debater. Principalmente o que leva as coisas a chegarem a este ponto e quais as soluções para evitar que isto aconteça no futuro, em França ou em outros países.

Num ponto concordo com a esquerda francesa, aquilo que está a acontecer é devido aos 30 anos de exclusão e esquecimento a que foram votados os emigrantes em França, originários de países onde a integração numa sociedade ocidental é mais complicada.

Aquilo que se vê agora não é a revolta da 1ª geração, que vive hoje em França, apesar de tudo, muito melhor que nos seus países de origem, mas de umas 2ª e 3ª gerações que devido a vários factores não são capazes de satisfazer as ambições que têm.

E não é preciso ir muito longe para ver o que está a acontecer em França. Basta olhar para os nossos próprios guetos. As novas gerações não conseguem ter o aproveitamente escolar que lhes daria acesso a uma vida melhor, ou muitas vezes não o valorizam, mas, desejam obter os bens de consumo que a sociedade de consumo lhes apresenta.

A própria sociedade, em França e em Portugal, não permitiu a construção de modelos positivos, que pudessem guiar as novas gerações.

Li algures na net, por um americano de esquerda, que a Europa deveria como lá, adoptar a discriminação positiva. No entanto, qualquer tipo de discriminação é algo que me repugna. Seja ela positiva ou negativa, pela sua injustiça inerente.

No entanto, há algo que não me repugna que é dar ferramentas às pessoas para serem bem sucedidas. E se necessário usar mesmo algumas cenouras.

Considero que a chave está na educação. E em criar condições para que essa educação aconteça. Infelizmente, como é possível observar em Portugal, não basta que a escolaridade seja obrigatória e o ensino gratuito para que a educação floresça. É preciso muito mais. É necessário um ambiente familiar minimamente estável, é necessário apoio escolar (que o meio familiar não consegue nestes tipo de imigração dar), são necessários modelos que cativem a ambição dos jovens num bom sentido, são necessários espaços para estudar, é necessário um rendimento mínimo para os estudantes e muito mais.

No fundo, é necessário garantir a todos um verdadeiro acesso à educação, como ferramenta essencial para um sucesso futuro na vida adulta.

Mas numa sociedade onde existe discriminação, ter-se uma educação muitas vezes não chega. Por mais educação que se tenha, por vezes, o simples facto de termos uma determinada cor de pele pode ser uma barreira a encontrar-se emprego.

Por isso, é também fundamental criarem-se formas de promover e apoiar o empreendedorismo entre estas primeiras gerações de emigrantes. Mostrar-lhes que podem pelos seus próprios meios subir na vida e alcançar aquilo que sonham. Alguns serão bem sucedidos, outros não, é certo. Mas criando-se uma comunidade forte, esta irá ajudar os seus e toda a comunidade acabará por se integrar na sociedade onde está inserida.

Estes apoios podem consistir em coisas tão simples como o micro-crédito, a construção de pequenas oficinas e escritórios, nós próprios bairros, alugados nos primeiros anos a preços acessíveis e a criação de gabinetes de apoio, também nos próprios bairros, à actividade empresarial. No fundo, criar em cada bairro social pequenas incubadoras de empresas, que possam dar às pessoas algo a que se agarrar e criar casos de sucesso que possam ser seguidos por quem procura um rumo para a sua vida.